Conto de Ano Novo - Parte 04
O Rei Supremo respirou fundo, entendendo que só lhe restava aceitar tudo aquilo e tentar compreender tal situação inusitada da melhor forma que podia. Ele até pediu outro martini de expresso para que pudesse continuar aquela conversa.
- Então posso supor que... você vem a muitas festas assim?
- Ah, sim, em várias, sempre que possível. Inclusive fui a do seu casamento, e em todas as demais que fez para comemorarem os anos dele.
Kin arregalou os olhos, incrédulo. E já supondo que ele questionaria o fato de que se lembraria se o próprio deus da Luz estivesse presente nessas comemorações, Ghaceus logo explicou o motivo dele não ser capaz disso.
- Mas infelizmente, vocês não conseguem se lembrar de minha presença em tais eventos, mesmo que tenham me notado no dia em questão e sabido que eu estava lá. É uma cláusula que minha filha Ghestiny impôs para não arriscar que minha "intromissão" afetasse nem que minimamente qualquer evento terreno que se seguisse. Ela é a deusa do Destino, como deve saber, e mesmo sendo minha bebezinha que mal completou 3 milênios de existência, ela é muito séria e intransigível com sua regência divina... Com certeza puxou isso da minha bela Ínfiny, heh! Mas enfim, ela fez isso porque deuses não devem interferir diretamente na vida dos mortais, e se for indiretamente, de forma bem limitada. Pessoalmente, não gosto muito dessa regra, mas eu mesmo a estabeleci para tentar limitar os estragos que Ghanog faz.
Depois dessa explicação, o fato de Ghaceus estar ali se divertindo tão levianamente agora parecia um pouco menos surreal para Kin.
- Então quer dizer que ninguém que te viu ou interagiu com você nessa festa hoje vai se lembrar que você esteve aqui. Bom, isso explica muita coisa...
O rei semideus concluiu, tomando elegantemente um gole de seu martini de expresso que acabara de ser servido.
- Eles não vão, mas dessa vez, algo me diz que poderemos abrir uma exceção pra você e deixá-lo se lembrar, meu querido K3.
O deus felin disse com um sorrisinho misterioso.
-Tudo bem, se está dizendo... Só espero não causar nenhuma variável que de alguma forma acabe afetando o destino e fazendo Ghestiny se irritar com nós dois.
Kin disse com um leve tom brincalhão, mas que não escondia um fundo de preocupação genuína.
- Ora, não se preocupe com isso. Acho justo dizer que o destino, está sempre ao seu lado, meu caro escolhido.
Ghaceus respondeu com uma piscadela, enquanto outra bebida tropical belamente servida num copo ornamentado chegava para ele. Cortesia do mesmo cavalheiro da mesa três, segundo o que o bot garçom disse.
Já era a segunda ou terceira vez que isso acontecia desde que Kin chegou ali, e como das anteriores, Ghaceus sorriu animadamente agradecendo ao tal felin e logo após mais um pedaço de bolo, sorveu um longo gole de seu drink, quase o bebendo todo de uma vez. Afinal, era de se imaginar que um deus não sofreria em nada com os efeitos do álcool. Para Ghaceus, era como se ele simplesmente estivesse bebendo água.
Em vista daquela cena, Kinmyuu se viu obrigado a perguntar:
- Quem é que fica te pagando bebidas?! - Questionou intrigado, erguendo o pescoço para ver se dentre a multidão agitada no salão, conseguia enxergar onde estava a tal mesa três.
- Ah, é aquele mortal simpático ali! - Ghaceus apontou com o rosto para o felin esguio de biotipo aquático a algumas mesas de onde ele e Kin estavam.
Ele tinha uma aparência belamente exótica, e certamente deveria ser algum dos vários supermodelos convidados pela equipe da The Regal.
O deus disfarçado ergueu um dos braços e acenou sorrindo para ele. E assim que Kinmyuu notou a expressão no rosto do tal felin e o modo sugestivo que ele acenou de volta, imediatamente supôs o que estava acontecendo. E ao que parece, Ghaceus não tinha entendido.
- Ele é mesmo muito gentil! Nós conversamos bastante desde que a festa começou, até que depois o chamaram e nos desencontramos. Então nos vimos aqui de novo, e além de me fornecer essas bebidas refrescantes que combinam perfeitamente com este bolo maravilhoso, ele me deu esse pingente ornamental adorável. Muito generoso da parte dele, não acha?
Ghaceus completou, apontando para a gargantilha com um pingente de concha que estava em seu pescoço.
Não restando mais dúvida nenhuma sobre o significado de tudo aquilo, Kin primeiro arregalou os olhos levemente, e depois desviou o olhar com uma mão esfregando seu rosto, pensando em por onde começaria a explicar.
- Mierr... olha, senh... Quer dizer, G... Lord G, eu vou te chamar assim, tá? Então, como posso explicar... Essa concha que ele te deu, não é exatamente um pingente e nem é só ornamental... Na realidade é um microchip que serve como cópia do cartão-chave dos quartos do resort. Olha, eu também tenho uma - Kin tirou a pequena concha do bolso de sua calça e mostrou a Ghaceus. Ele estava com a cópia visto que Anmy tinha ficado o cartão-chave original - Tem esse formato pra ficar bonitinho e também porque aqui é o reino aquático, e você pode pendurar no pescoço se quiser, pra não perder. Mas, por mais que pareça, não é realmente um colar. Entendeu o que estou querendo dizer?
Ghaceus segurou o microchip pingente, olhou intrigado para Kin, e depois novamente para o dito "mortal simpático e gentil" pagador de suas bebidas.
- Ohh... Acho que compreendo sim. Seria um problema se ele perdesse isso... Acho que é por essa razão que deixou comigo, então! Isso explica as inúmeras bebidas de cortesia, foi uma gentil forma de agradecimento por eu estar cuidando desse item importante! Aww! Não precisava disso, vocês mortais são tão recíprocos, é adorável! Sou eu que deveria oferecer de volta um drink requintado para ele!
Ghaceus já estava prestes a chamar alguns dos bots garçons quando Kin rapidamente o impediu, segurando em seu braço, vendo que não, ele não tinha entendido o que realmente tudo aquilo significava.
- Não! Lord G, não é por mera gratidão, ele está te paquerando!
- O que? - Ghaceus se virou pra Kin, intrigado. - O que isso quer dizer? Acho que desconheço o significado dessa palavra, vocês as reinventam o tempo todo e às vezes fico desatualizado quanto a alguns jargões dos mortais.
- Significa que ele está interessado em você...
- Ah, mas isso é ótimo! Eu também o achei muito interessante quando conversamos! Sabia que ele é remunerado apenas por permitir que retratem sua imagem? Como foi que ele disse que se chama mesmo...? Ah sim! Que ele é um "modelo" e até perguntou se eu também era ou se gostaria de ser. Achei o conceito muito curioso, porque o consideram modelo por sua bela aparência, mas a beleza de vocês mortais está justamente em serem diferentes, se não, eu os teria feito todos iguais, haha! Mas ainda assim, achei um fato interessantíssimo!
E Ghaceus acenou de novo, antes que Kin pudesse segurar seu braço. Só restou ao rei semideus esboçar um facepalm.
- Não, não! Escuta, não é esse tipo de interesse, é algo mais... íntimo... atração física, entendeu? Ele não deu a cópia da chave pra você guardar, deu porque quer que você vá ao quarto dele no resort depois da festa. Também é por isso que está te pagando bebidas. Tudo isso faz parte do... da... uhh... da "coisa" toda pra te levar a... caham... "aquilo"!
Ghaceus ainda o encarava e ficou uns instantes pensando, enquanto Kin torcia para que não precisasse ser mais direto. E felizmente, Ghaceus finalmente entendeu.
- Me levar a...? Oh! Oohhh! Agora sim eu realmente entendi! Seus inúmeros rituais de acasalamento nunca deixam de me intrigar! Vocês realmente adoram isso, não é? Principalmente você, incansável com sua bela rainha. Meu Kamyel era igualzinho, hahaha!
Ghaceus cutucou seu descendente semideus com o cotovelo, demonstrando um sorriso ladino. Kin cobriu o rosto num facepalm, quase desejando poder se esconder embaixo da mesa. Ele ia dizer algo como "pelo amor de deus, pare..." Mas se lembrou que era o próprio deus quem estava o embaraçando.
Quanto à informação sobre Kamyel, - ou Kinmyuu I - aquilo não surpreendeu Kin, já que era sabido que seu primeiro antepassado e sua rainha tiveram 6 filhos. Refletindo momentaneamente sobre isso, nosso Kinmyuu atual até chegou a erguer levemente sua taça ao dar um gole, num brinde secreto e silencioso a era moderna onde existiam os abençoados contraceptivos.
Enquanto isso, sem se importar nem um pouco com seu constrangimento, da mesma forma descontraída de sempre, Ghaceus continuou rindo.
- Hah! Mas é realmente fascinante! Tenho que admitir que eu tinha minhas dúvidas quando criei esse método para que pudessem unir seus corpos com um pouquinho de fluído genético aqui e ali e, ba da bam! Pudessem criar outras cópias em miniatura de vocês mesmos, sozinhos. Foi o mais perto que consegui chegar do que é a fusão de dois deuses para gerar um novo deus, e pensei que no começo poderiam achar estranho, mas foi um grande sucesso! E o mais curioso é que a ideia inicial era que pudessem se multiplicar, mas na maioria das frequentes vezes que fazem isso, esse nem é seu objetivo, hah! Mas eu compreendo, porque certa vez, buscando entender seu fascínio, eu e Ínfiny usamos nossas formas mortais para experimentar e foi hmm... esplêndido! Simplesmente delicioso!
- Okay, "Ghamew"! Eu já entendi...!
Kin exclamou na esperança que ele parasse, pois aquela definitivamente não era uma conversa à qual ele se sentia super a vontade em estar tendo com uma das divindades mais poderosas do universo.
- Só estou querendo dizer que eu arrasei mesmo em inventar isso, sendo assim, de nada.
Ghaceus disse curvando a cabeça de forma irônica, em seguida dando um gole final despreocupado na bebida cortesia de seu admirador.
Diante disso, e também para desviar o assunto, Kin perguntou:
- E o que você pretende fazer com respeito a ele? Agora que sabe o que significa, imagino que não vai... ceder a proposta, não é?
Foi nesse único instante que Ghaceus pareceu mais sério.
- O quê? De forma alguma, K3! Copular com mortais seria totalmente inapropriado, e mesmo que não fosse, eu nunca seria desleal com minha eterna parceira amada, Ínfiny. Além disso, já não basta meu irmão ter cometido esse ato cruel, profanando suas próprias criações indefesas para que gerassem sua prole maligna. Eu jamais faria tal coisa.
- Imaginei, mas você aceitou todas as bebidas e está usando a chave do quarto dele no pescoço. Deu a entender que você está de acordo e ele tá só esperando voltar pro cais pra, sabe... vrau...
- "Vrau"?! Mas eu não quero... eu não posso... ! - Ghaceus olhou novamente para o felin supermodelo, que lhe deu uma piscadela com um olhar sedutor. Em seguida, encarou novamente Kin, dessa vez não tão despreocupado como antes. - É, eu acho que ele realmente acredita que vai ter um "vrau". O que sugere que eu faça?
- Explique que foi um mal entendido. Um grande mal entendido.
- Mas como farei isso sem revelar minha identidade divina?!
Kinmyuu simplesmente deu de ombros, tomando um longo gole de seu martini de expresso.
- Olha, eu sinto muito, Lord G, mas você se meteu nessa, então vai ter que dar um jeito de sair. Está fingindo que é um mortal, não é? E nós mortais nos viramos. Tudo que eu posso fazer e te desejar boa sorte.
Kin disfarçou desviando o rosto ainda com a taça próxima a boca, porque dessa vez, era em seus lábios que havia um sorrisinho irônico.
Ghaceus soltou um suspiro longo, passando a mão pelo cabelo dourado bagunçado, em um gesto que provavelmente deveria expressar exasperação, mas só o fazia parecer ainda mais atraente para seu admirador o fitando a distância - o que, claramente, não ajudava sua situação.
- Mas... e se ele ficar chateado? Sentimentos do coração não são para se brincar, e embora eu tenha agido equivocadamente, temo que efeito isso possa ter nele... Acha que existe essa possibilidade?
De maneira discreta, Kinmyuu olhou novamente na direção do felin admirador de Ghaceus. Não era preciso estar num evento socialite glamouroso para adivinhar qual era sua profissão. Mesmo que não tivesse erroneamente correspondido às investidas dele, definitivamente dispensá-lo já não seria uma tarefa fácil para o deus disfarçado.
- Bom... eu não imagino que supermodelos saibam lidar exatamente bem com a rejeição... Mas, fazer o quê? Pra tudo tem uma primeira vez.
Respondeu o rei dando de ombros. Ele estava curioso com a reação de Ghaceus diante da enrascada que ele mesmo havia se enfiado.
O deus da Luz demonstrou um olhar ainda mais desconcertado.
- Mas se é assim, eu não quero ser o primeiro a fazê-lo passar por tal coisa. Sou um criador de mundos, não um quebrador de corações, K3! Se eu simplesmente o rejeitar, e ele ficar arrasado, já pensou na quantidade de mágoa, tristeza, e sentimentos negativos pertinentes que isso poderia causar a sua pobre alma mortal? Vocês são sensíveis quando a esses tópicos!
Kinmyuu ergueu uma sobrancelha, terminando de beber o martini com uma calma desconcertante.
- E quem é que nos fez assim, ahn? - Ele questionou em retórica, sem abandonar a ironia.
- Ora vamos, K3! Faça pela família... Não estaria disposto a ajudar o seu nonavô?
Ghaceus encarava Kin com um olhar pidão na esperança de comovê-lo, mas o Rei Supremo não estava disposto a ceder tão facilmente. Anmyuu tinha razão; ele deveria aproveitar a noite no iate para se divertir, e era exatamente o que estava fazendo naquela situação.
- Não é que eu não queira, Lord G. Mas você é o Deus de Tudo, não acho que precise da ajuda de um mero mortal como eu...
Kin achava que tinha se saído muito bem, mas foi a vez de Ghaceus cruzar os braços e erguer uma sobrancelha, o encarando de forma irônica.
- Ora, Terceiro, eu não diria de "tudo", eu sou apenas o Deus da Luz... E você não é um mero mortal... Você é um semideus! Ou seja, o felin mais apto aqui para me ajudar com isso, estou certo ou não estou? Heh!
Kin arregalou os olhos levemente, esboçando um facepalm ao ver que seu argumento foi por água abaixo.
- Oh, droga! - exclamou ao dar-se conta, até abaixando sutilmente as orelhas, perdendo toda a banca. Ghaceus realmente o pegou com aquela.
- Okay, mas, o que sugere que eu faça? Não espera que eu vá lá e fale por você, né? Porque eu sinto muito, mas isso eu não vou fazer de jeito nenhum!
- Não, mas, poderia me dizer qual o melhor jogo de palavras para usar. Eu até me recordo de certas frases que alguns mortais costumam dizer em situações como essa: "Não estou pronto pra algo sério", "preciso focar na minha carreira", "não é você, sou eu"... Confesso que essa última é a que menos faz sentido para mim... Se o problema não é o parceiro, porque o outro estaria o dispensando? A complexidade implícita me espanta, vocês são mesmo minha criação mais surpreendente...
- Agradeço a parte do elogio, mas, a realidade é que tudo isso não passa de desculpas esfarrapadas, Lode G. Mortais que as usam não são complexos, são só cretinos, ou covardes demais pra serem sinceros.
Ghaceus pareceu desapontado.
- Mas vocês não deveriam ser assim...
Exalando um suspiro conformado, Kin apoiou uma mão sobre o ombro de Ghaceus e lhe ofereceu um olhar de compreensão.
- Olha Lorde G, como o Deus da Luz, só existe bondade e verdade em você. Só que, Ghanog meio que ferrou com tudo e afetou o equilíbrio do Universo, o que quer dizer que mesmo sendo suas criações, nem todos os mortais serão tão bons e verdadeiros quanto você. Mas, eles são a minoria, então, não precisa ficar tão desapontado com isso. É apenas como as coisas são. Além do mais, você tem outros assuntos com que se preocupar no momento...
Kin direcionou o olhar ao admirador de Ghaceus, que acabava de solicitar outra bebida para um dos bots garçons - provavelmente pedindo que fosse entregue para o muso alto, de cabelos dourados, e devorador de bolos em quem estava de olho desde o início da noite.
Seguindo a direção para onde os olhos de seu descendente mortal apontavam, Ghaceus olhou de soslaio para o felin supermodelo, que agora parecia ainda mais atraído, jogando os cabelos esverdeados para trás e umedecendo os lábios, enquanto sorria de um jeito que fez até o Deus Supremo sentir-se acuado, agora que finalmente entendia o significado de tudo aquilo.
- Acho melhor fazer alguma coisa logo, antes que ele decida te arrastar pra algum canto mais privado...
Kinmyuu disse terminando sua bebida, não conseguindo disfarçar o olhar divertido acompanhado do tom de voz irônico. Estava muito curioso para descobrir como o Deus Supremo se livraria daquela situação inusitada, dispensando seu paquera determinado sem partir o coração dele; e de preferência antes que o supermodel desistisse de esperar chegar até o cais e o agarrasse ali mesmo.
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