SUL: CONTOS DO SÁBIO

Esse conto pertence ao livro de minha autoria, Rosa dos Ventos, publicado no Wattpad em 2020

São Thomé das Letras
Sul de Minas Gerais, 2019

Tava brabo o rapaz. Num queria saber de falar com ninguém no caminho. Lucas era um carrapato da cidade na visão do avô. O garoto não ia pra roça havia anos. Tava sempre atarracado naquele trem de mandar mensagem pros outros. Via e fazia mil e uma coisas nesse trem. Seu Antônio, ou Tonim folclore, que era como os vizinhos o chamavam, nunca gostou disso. Dizia que o trem das mensagens era um novo tipo de pombo correio, e cagava a cabeça do menino por dentro. Era a visão de Seu Antônio.

Seus netos e seus filhos iam fazer uma visitinha pra ele, lá na sua cidade, no sul de Minas. Os dois netos, Lucas e Paulo, tavam há 5 horas dentro do carro. O mal humor já se encontrava presente no ambiente. Ficaram sentados, olhando pro nada, desde quando saíram de Contagem em rumo a São Thomé das Letras, onde Seu Tonim morava. Olhar pra janela já estava tão sem graça, que Paulo havia pegado no sono. 

"Acorda seu irmão. Vamos quebrar o gelo... conversar um cadim" Pedia o Pai dos garotos. João já dirigia por tempo demais e não suportava mais o silêncio. Desde que Paulo dormiu, o clima estava esquisito.

João não deixou os meninos trazerem o celular. Disse que "um tempinho longe da tecnologia fazia bem de vez em quando". O que desagradou Lucas na hora.

"Conversar do quê?"

"Eu trouxe ocêis pra essa viagem pra gente poder passar mais tempo em família. Uma viagem só de homens, pra podermos ter mais liberdade pra conversar. E acorda o seu irmão, vamo conversar!"

"Acorda aê, Paulo." Sacudiu o irmão gêmeo e ele acordou.

"O quê?" Perguntou o gêmeo recém acordado e desnorteado.

"Vamo conversar um pouco. Quero aproveitar esse momento e ter uma conversa com os dois. Ambos já tem 17 anos, tá mais do que na hora de falar sobre sexo."

"Ah, Pai! Não! Que constrangimento!" Disse o gêmeo ranzinza, vulgo Lucas.

"Pai, num acho que precisa." Falou o gêmeo caótico, vulgo Paulo.

"Como não? Eu já transei, e tenho experiência no assunto. Tanto que fiz dois filhos." E deu uma risada viva! Sabia do constrangimento dos meninos. Achava muito engraçado, mas sabia da importância daquela conversa.

"Dois filhos que cê fez d'uma vez só. Até onde sabemos, cê pode ter transado menos que um de nós" Ironizou o gêmeo recém acordado.

"Temos que falar sobre isso. Ocêis dois tem que ter consciência sobre o que fazem. Num quero ser avô antes dos 45 anos. " Ele nem deu ouvidos aos gêmeos.

"Pai..." Paulo começou a falar antes de ser interrompido pelo Pai.

"Antes que diga que porque você é gay, e não pode ter filhos, lembre das DSTs. Não tenta fugir da conversa. E espero que ocê e o Kauê usem camisinha. Quero meu filho e meu genro protegidos. Já imaginou ocêis saírem de um encontro direto pra UPA?"

"Ele é só meu amigo." 

"Tenho medo do que cê faz com esse amigo dentro do seu quarto. Até onde sei, ele pode estar desafiando as leis da biologia e tentando te engravidar." A cara de Paulo parecia tão vermelha quanto o chapolin colorado.

Restou para os dois rapazes terem uma conversa um tanto constrangedora durante o resto do caminho. Tanto que Lucas nunca ficou tão feliz ao chegar em São Thomé. O tio Roberto e o primo Kléber, que era mais velho, já tinham chegado.

"E aí, zé?!" Kléber cumprimentou um dos primos. "E aí... outro zé?" Falou com o tom de dúvida.

"Eu sou o Paulo. Ele é o Lucas. Cê é nosso primo, devia saber nos distinguir" Sempre foi uma chateação pros gêmeos que as pessoas os confundissem. E nem era tão difícil assim, qualquer um que passasse um dia com eles percebia rápido como a personalidade fazia que parecessem diferentes também na aparência física, mesmo que usassem o mesmo corte de cabelo e roupas parecidas. 

"Tô brincando, eu sei quem é quem. Cês são gêmeos, mas são diferentes feito gelo e fogo." A observação de Kléber era válida.

Paulo era mais amigável, porém mais agressivo, bem briguento, e por isso, geralmente tava  com uma cicatriz no rosto ou um machucado estampado no rosto. Também tinha o cabelo negro todo bagunçado, pois nunca estava parado, exceto quando tirava suas famosas sonecas. Famosa não é exagero, pois ele dormia por até mais de 24 horas se estivesse cansado. Um vez dormiu no sábado e acordou na segunda por causa do despertador para o colégio. 

Lucas era mais fechado, tem cara de poucos amigos, o cabelo tava sempre arrumadinho num topete bonito, mas ele é bem calmo, embora também seja levemente ignorante. 

"E o que ocêis tão arrumando aí que ainda num vieram dá bença pro vô d'ocêis?" Seu Tonim apareceu, dando um susto nos gêmeos. 

"Bença, vô. " Os gêmeos disseram juntos, cada um do ladinho do outro e estendo suas mãos direita e esquerda para serem apertadas pela mãos esquerda e direita de Antônio.

"Deus te abençoe, meus netos. Entrem pra dentro que o café tá pronto."

A casa de Seu Tonim era simples, mas bem bonitinha. Ele tinha uma horta na frente da casa, onde cultivava suas plantinhas. E um canteiro cheio de ervas pra fazer chá. A casa era pintadinha de azul claro. O telhado era só de telha, sem laje. Atrás da casa tinha um curral com dois cavalos (Sebastião e Major), um burrinho (Pé chato) e duas vacas (Margarida e Dona Flor).

Seu Tonim não sabia ler e nem escrever direito, mas isso não o tornava pior que ninguém ali. Pelo contrário, a inteligência do homem era admirada por todos. O homem era um sábio da vida. Em todos os seus 64 anos de vida, viu e escutou muitas coisas. Viveu em muitos lugares. Rodou toda Minas Gerais, parte da Bahia e um pedaço de Goiás. Sua vivência e sabedoria a respeito de questões místicas era inigualável. 

O restinho da tarde foi proveitosa, tomaram café com bolo de fubá e depois dormiram um pouco para descansar da viagem. As camas no quarto até estavam prontas pra receber os visitantes. Quem passasse ao lado da casa, mas não visse os cinco homens deitados ali, pensaria que havia uma broca escavando dentro da casa. Êta povo danado pra roncar alto!

À noite, estavam o avô, seus dois filhos e os três netos em volta de uma fogueira. São Thomé das Letras é muito fria à noite. Principalmente naquele mês de junho. Devia fazer menos de dez graus celsius, com certeza. O vento vindo da serra batia em seus rostos. Mas o ar gelado vinha junto de uma pureza tão grande, que era possível ignorar a frieza do vento. Faltava alguma coisa naquele ar. Alguma coisa que os gêmeos não sabiam dizer o que era. Mas poderiam tranquilamente poder viver sem. Eu te conto o que faltava naquele ar. Faltava poeira industrial e fumaça. A fogueira era quente e aconchegante. Kléber amava o ar de alto de serra. Era muito bom para quem estava acostumado com pó de siderurgia em Ipatinga, e depois com a fumaça de carros de Betim. O lugar tinha cheiro de plantas. Uma folha cheirosa como balas de hortelã. Talvez fosse a própria hortelã ali presente. A brisa acalmava a alma.

Estavam todos assando o queijo do leite de Dona Flor no fogo, enquanto Kléber tocava violão. Lucas estava até que se divertindo. Mas não via a hora de voltar para o conforto de sua cama no seu apartamento em Contagem. O que o menino mais sentia falta era de entrar na internet para ver os blogueiros contando histórias e coisas engraçadas que aconteciam com eles. O brasileiro adora contar causo, ainda mais o Mineiro. Sempre gostou de fazer isso, e com Lucas não era diferente. Ele só num tinha o que contar, mas tinha o que ouvir. Ele imaginava seu influenciador favorito contando sobre quando foi a algum lugar e fez alguma merda qualquer ou algo do tipo.

Mas a voz de Seu Tonim falando com seu gêmeo logo o trouxe de volta pra realidade.

"Onde cê arruma tanto machucado, moleque?"

"Esse daí não tem jeito, pai. Vive metido em encrenca. Essa semana brigou de novo." Ralhou João. "Meu filho é um marginal". Pegou a garrafa térmica que estava no chão e serviu mais café para si como após repetir a frase pela centésima vez. 

"O que aconteceu? Que confusão meu neto anda arrumando?"

"Um cara lá do condomínio, tinha ficado bravo porque perdeu no futebol pro meu time, e de propósito chutou a bola pra longe, me chamou de viado raivoso, e eu parti pra cima dele. Simples assim." Paulo fala com naturalidade. Já eram normais tais conversas. O gêmeo embora fosse super amigável, tinha dificuldades de controlar a raiva. 

"Como eu disse, meu filho é um marginal" João bebeu mais café. 

"Amanhã vô te benzer. Pra vê se cê para de caçá'sas briga. Nada que uma boa benzida num resolva." 

"Desiste, vô. Cê sabe que num resolve. Cê já me benzeu umas sete vezes e num adianta. Eu tô sempre caçando briga... ou melhor... a briga vem atrás de mim. Eu tô sempre quieto no meu canto. Mas se preocupa não. Eu nunca apanho. Fiz taekwondo pra isso."

"Claro. Já te disse, se um dia ocê voltar lá em casa arrebentado por causa de briga, vai apanhar mais ainda." 

"Pô, pai! Eu não perco briga nenhuma. No máximo perco um tiquinho de sangue." 

"Deixa de orgulho. Seu pai também era assim." Disse o tio Roberto. "E um dia ele chegou lá casa com o nariz quebrado. Sua avó quebrou o dedo dele de raiva."

"Quê isso?! A vovó era braba assim?" Lucas ficou interessado na conversa. Era a hora de dar o troco por subir a serra de São Thomé aprisionado num corsa sedan com seu pai ao volante falando como deveriam escolher camisinha, e criticando as que achou na gaveta de Lucas. Mas também sua hora de aprontar. Paulo não era o único que gostava de uma encrenca de vez em quando. 

"Menino, quem botava ordem lá em casa era a sua avó. E seu pai apanhava direto por caçar tumulto." Tio Roberto contava e ria ao lembrar da infância com o irmão. "Teve uma vez que ele foi subir no pé de goiaba pra pegar umas pra nóis fazer goiabada. Mamãe disse que era pra pegar na goiabeira do curral, porque a do quintal tinha uma casa de marimbondo. Ele num quis saber e foi naquela." 

"Em minha defesa, as goiabas tavam mais bonitas lá, e não tinham bicho."

"Deixa de frescura, Jão! Bicho de goiaba é parte da goiaba! Ele tomou um pregão do marimbondo e caiu. Mamãe pegou um alfinete e espetou ele na ferida pra deixar de sê besta."

"Mas era uma muié linda e formosa a vó do cêis" Seu Tonim falava com alegria nos olhos lembrando de sua tchutchuca já falecida. 

"Aaaaaaaaaaah" Paulo deu um grito altíssimo enquanto pulou no colo de seu pai ao seu lado. "COBRA!"

"Medroso! Sou eu!" E de fato, Lucas segurou em sua mão a pequena cobra de borracha que havia sorrateiramente tirado do bolso quando a atenção estava no Tio Roberto e jogado aos pés do irmão. Todos começaram a cair na gargalhada. 

"Seu filho da puta! Você sabe que tenho pavor de cobras." Deu um murro no irmão, sem sair do colo do pai. 

"Idiota, cês tem a mesma mãe." Kléber debochou mais ainda do primo.

"Não era minha ideia e nem da minha coluna carregar meu filho adolescente no colo depois dos 40. Desce!" Assim o gêmeo desceu. 

Seu Tonim, muito sábio e esperto, viu que era a oportunidade de entrar em ação.

"Cês sabem por que me chamam de Tonim folclore?" Seu Tonim perguntou pros netos.

"Porque ocê conheceu muitas lendas e contos durante suas viagens em Minas, Goiás e na Bahia." O neto mais velho disse de prontidão.

"É, a vó dizia que ocê às vezes reunia com as crianças e contava as histórias que você já tinha ouvido." O gêmeo briguento completou.

"Por que o sinhô nunca conta elas pra gente?" Questiona Lucas. Na visão dele, o avô era como um blogueiro da zona rural. E nunca tinha contado antes as tão faladas estórias.

"Porque com as crianças dos vizinhos elas são lendas, pra minha família elas são de verdade. Muita gente pensa que minhas história é de mentirinha, que é pra espalhar as lenda por aí. Mas eu vivi tudim, e ouvi tudim. Tudo o que eu conto é verdade. E eu quero contar pr'ocêis três também. Já tá na hora de saberem de tudo o que quiserem. Mas eu quero que ocêis escuta tudo e nunca mais esquece os trem que eu falar. Cês três já são tudo homi crescido, já tão cum seriedade pra saber que o que eu conto é sério."

E os três netos sabiam disso. Sempre cresceram ouvindo dos pais pra terem respeito com o sobrenatural, pois era tudo real. E eles também acreditavam. Mas independente de real ou não, isso é a crença de alguém, e a fé dos outros é a última coisa com a qual se deve debochar. Sabiam das Histórias folclóricas, mas nunca ouviram elas vindas de Tonim. Nunca chegava a dita 'hora certa', mas que havia chegado. 

"Essa história d'ocê assustar seu irmão me lembrou de um trem que ouvi quando eu era capataz de fazenda lá em Santana de Pirapama. Eu rodava muito pr'aqueles lado da Serra do Cipó pra buscar uns bicho que o meu chefe, o Seu Jerso Betão, pedia pra mim. Um dia tava ouvindo que um menino de nove ano de idade tinha matado o irmão. Mas por acidente."

"O quê aconteceu vovô?" Só Paulo chama Seu Tonim de vovô às vezes. O irmão e o primo geralmente falavam só vô. Era o neto marginal era também o mais carinhoso dentre os três.

"O irmão do menino ficou assustando ele. Dizendo que tinha lobisome por ali. E o meninim tinha muito medo. Até que numa noite de lua cheia, o rapaz resolveu que ia dá um susto no menino. Foi pra fora da casa, vestiu uma capa pra tampar o rosto e começou a uivar na janela. O menino cum medo pegou o papo amarelo do pai, botou o cano da espingarda pra fora da janela por um buraco no vidro, e deu um tiro. Botaram ele em cima do cavalo e levaram correndo pra Pirapama atrás de ajuda, depois mandaram ele pra Sete Lagoas num carro, mais chegando lá, o médico disse que tinha morrido no caminho." 

"Poxa, que horrível." Lucas comentou.

"Horrível ia ser se seu irmão tivesse cum porrete na mão. Será que ele ia ter coragem pra dá uma porretada na cobra? E por consequência, na mão sua?"

Lucas olhou pra Paulo com uma cara de questionamento e Paulo respondeu com um olhar de quem estava sem graça. Ele teria dado uma porretada na suposta cobra, e acertado o braço de Lucas. Kléber viu a tensão e continuou com a noite. 

"E cê já viu algum lobisomem, vô?"

"Já sim. Duas vezes. Uma em Curvelo e outra em Santana do Riacho. Na segunda. Eu ainda era capataz na fazenda daquele homi. Fui em Santana do Riacho pra buscar três bois. Eu tava em cima d'uma mula. Já era onze da noite. Tava eu e Manoel, meu colega de serviço. No meio do caminho, eu ouvi um som horrível. Tenebroso! Eu já tinha ouvido antes. Sabia que era o bicho. Ou homi. Num sei se dá pra ser gente sendo uma coisa daquelas." 

"Só pelo uivo dá pra saber?" O neto mais velho pergunta curioso.

"O grito da besta é único, mas tem uma coisa que ajuda. O cheiro de carniça. Aquele trem fede muito. Eu senti e disse pro Manoel. Ele num creditou ni mim. Eu saí e subi em cima dum pé de manga. O coisa ruim passou em baixo da árvore. Por pouco não me viu. Ficou cheirando o ar, e procurando uma vítima. Passei o resto da noite lá em riba. Manoel sumiu depois disso. Acho que o bicho sentiu o cheiro dele. Ninguém nunca mais viu. No dia seguinte, achei os bois na estrada. O lobo matou tudo. Tava só a carcaça. Fui mandado embora." 

"Por quê?" Os gêmeos perguntam juntos.

"O homi não quis saber, ele queria os boi dele."

"Vovô, como o senhor sabia do cheiro de carniça?" O gêmeo briguento quis saber.

"Com 19 anos, eu tive que mudar de casa. Briguei com meu pai e o velho me botou pra fora. Mas lá em Paraopeba, onde eu nasci, não tinha parente ou casa pra eu morar, então fui pra Curvelo, morar com uma tia. Ela e meu primo trabalhavam pra um fazendeiro rico. Ela era lavadeira, e ele era peão. Eu ajudava a tratar dos bichos. E um dia teve um rodeio."

"O senhor participou?" Lucas perguntou ao avô.

"Eu não, mais meu primo José Afonso sim. Ele competiu com um filho do homi. E esse rapaz era estranho. Saia de noite, sem falar nada e ia só de short pro meio do Mato. Eu pensava que ele ia pegar umas meninas no mato. Mas minha tia disse que na região tinham visto um cão enorme saindo por aí de noite. Como a nossa casa era nos fundos da fazenda, pertim do mato, ela via da janela. Dizia que o filho do homi era lobisome." 

"E era?" O neto mais velho perguntou.

"Pois devia de ser. O José Afonso ganhou o rodeio. E de prêmio ganhou um porco enorme. Daqueles grandão, de exposição. O filho do homi ficou bravo, brigou com os jurado até, porque num queria perder. Mais num teve jeito, teve que aceitar a derrota. Depois disso, na primeira lua cheia, minha tia mando passar chave nas porta. Num era pra ninguém sair de casa. Botou o sofá atrás da porta. Trancou janela e apagou as luz tudo. E mandou nóis dois ficar caladim. Ela não viu o rapaz ir pro mato por onde ia antes. E lá pelas três. A gente tava na cozinha, que ficava pra trás da casa. E atrás da cozinha, tava o porco amarrado num chiqueirinho improvisado de madeira. A gente começou a sentir um cheiro de carniça. Fedia que nem lixo. E o porco tava berrando, como se soubesse que fosse morrer. Fui olhar pela janela, e vi o trem mais horroroso desse mundo. Um cachorro enorme, de duas pata, com unhas gigantescas, uma cara de ódio e os zoio vermeio. Ele tava destruindo o porco. Estraçalhamento total."

"E o que cês fizeram?" Falou o neto briguento. 

"Nada. Era o filho do patrão. Diziam que se o lobo morria, voltava pra forma de homi. Se vissem o rapaz lá, iam pensa que a gente matou. Ele comeu o porco, e depois tento entrar na casa. Mas como a tia reforçou tudo, ele tava demorando muito. Ficou rodiando a casa, pra caçar um jeito de entrar. Até que o sol começou a nascer depois de um tempo. Ele foi correndo pro mato. Mais tarde, ouvi dizerem que ele tinha aparecido pelado na fazenda, que foi ficar com uma menina no mato e ela roubou as roupa dele. Ele num entrou na mesma mata onde ele se transformou na pressa de ir antes do sol nascer. As roupas tavam ni outro lugar. Eu achei depois."

"Ele tentou entrar de novo? Na próxima lua cheia?" Lucas fez a pergunta curioso.

"Não. Nunca mais. Acho que foi só pra dar um susto. Uma vingancinha contra o José Afonso."

"E o sengor viu outros lobisomens?" Lucas quis saber.

"Não. Mais fiquei conhecendo casos de muita gente que viu. Fiquei sabendo de mais nove. Três lá em Curvelo mesmo, dois em Ipatinga, dois em Pirapora, um em Sete Lagoas e mais um em Espinosa." O avô disse, e os netos ouviam suas 'falavras' com atenção. Hora nenhuma deixavam de ouvir. Ouviam Tudim. Cada causo que Seu Tonim falava. 

"Vô, e tem monstro pior que o lobisomem?" A pergunta de Paulo foi interessante.

"Claro que tem. Lá na Bahia, em Vitória da conquista, conheci a Dona Valdira. Ela era do Pará. Lá de Altamira. E dizia que numa viagem pra Parintins, lá no Amazonas, o filho dela morreu. Pulou na água e se afogou. De proposito."

"Por quê? Foi suicídio?" Kléber perguntou confuso.

"Pior tadim. Tava ele, a namorada e o melhor amigo dele. Tava os três passeando num barquim a motor no Rio Amazonas. Quando eles ouviram uma voz. Linda! Cantando bonito demais. E eles foram atrás. Até que no meio do rio. Viram uma muié. Tinha a pele queimada de sol. E o cabelo grande e preto como carvão, que nem o dos cêis dois. A moça mais linda que já viram." Apontou para o cabelo dos gêmeos.

"Era a Iara, né?" Perguntou Paulo.

"Era sim. Os dois rapazes quando viram a moça, pularam no rio de roupa e tudo. A danada mergulhou, e os dois foram atrás. A namorada do filho da Dona Valdira, disse que viu um rabo de peixe quando a moça afundou no rio. Os dois seguiram ela, e iam só mais pro fundo. E sumiram. Dois dias depois, acharam os corpos num barranco, do outro lado do rio. Os zoio tava aberto, pareciam fixo num trem qualquer. Eles boiaram até lá, antes que os peixe comesse."

"Que triste pra moça e pra Dona Valdira." Observou Lucas.

"Foi mesmo. Ela disse que foi difícil acreditar, mas tinha acontecido antes, com outros homens. Ela nunca acreditou nessas coisa até aquele dia."

"Vô, quais outras lendas são de verdade?" Paulo perguntou.

"Quase todas, eu vivi ni onze cidades diferentes ni oito anos. Ni cada uma, eu vi um trem diferente. Espírito, fantasma, lobo, mula..." 

"A mula sem cabeça?" Lucas demonstrou muito interesse. 

"A própria. Foi quando morei em Pirapora. Eu trabalhava prum homi chamado Seu Tião. Ele era dono de boiada, e eu tive que levar a boiada pra bebê água, lá nas beira do São Francisco. E eu fui c'um grupo pequeno. De vinte boi, voltei com dezenove. Se some um, o homi endoida. Ele num percebeu, mais no outro dia, ele ia reparar. Então fui de noite caçar o bicho. Eu achei ele mais pra frente. E fui trazendo ele de volta. Então, eu ouvi. Um som de um homi correndo e gritando. Do outro lado do São Francisco. Ele veio e pulou no rio nadando pro meu lado da margem. E eu reparei que lá de longe vinha uma luz, bem forte. E foi chegando mais perto, e eu vi aquilo. Um cavalo sem cabeça, com fogo no pescoço. Graças a Deus, a mula tava do outro lado. E isso foi o que me salvou. Eu voltei tranquilo com o boi. Mais nunca mais fui pra'queles lado do rio de noite."

"Vovô, as suas histórias são muito legais, e a gente sabe da importância delas, mas de todas, qual é a mais importante dessas vivências que cê teve?" A pergunta do gêmeo briguento foi boa. Tinha uma história que era diferente das outras, e que Seu Tonim Folclore levava como uma história de vida. 

"Uai, tem uma, só uma, que me dá medo até de falar, pois é a mais aterrorizante de todas, que eu vivi, e foi um pesadelo. Mas me trouxe uma lição que eu levo pra vida. Nunca desrespeitar o que cê não conhece. E nem mexer com certas pessoas e certas coisas. O sobrenatural é algo difícil de entender, mas tem uns trem que a gente já sabe, e que nóis tem que respeitar e ficar longe. Com o Diabo num se brinca. Estão entendidos?" O tom de Antônio era gentil, mas também firme. 

"Estamos, vô." Disse o mais velho.

"Sim, vovô." Disse o gêmeo briguento

"Sim, vô." Disse o outro gêmeo.

João e Roberto perceberam do que se tratava. Roberto foi pra mais perto de Kléber, e o abraçou. João foi para entremeio os gêmeos e os trouxe pra mais perto de si e envolveu um rapaz em cada braço. Até eles tinham medo desse conto. Isso bastou para deixar também os netos apavorados por dentro. Estavam prestas a ouvir um feito do diabo. 

"Aconteceu em Ouro Preto, comigo e com um amigo, ele chamava Bruno. Ele era de Lavras novas, um pedaço rural de Ouro Preto. Eu fui passar um tempo lá. Tinha acabado de perder o emprego em Pirapama, e fui ser peão por lá. O Bruno era metido c'uma menina, bem novinha. Chamava Danila. E ela tinha uma mãe muito estranha. Tinha gente que falava que a muié era bruxa. Ela vinha direto na casa do Bruno pra ameaçar ele. Dizia que era pra ele dá um jeito de sumir, e nunca mais se engraçar com a filha dela. Mas o Bruno num quis saber. Continuou indo ver a Danila escondido, e tirou a virgindade dela. A muié ficou uma fera. E agora eu pergunto pr'ocêis. Existe bruxa?" 

"Sim." Os três netos responderam juntos. Não tinham dúvidas a respeito.

"O Bruno achava que não, que era coisa da nossa cabeça. Tem bruxas boas, conheço um tanto, a maioria, e elas são tão gentis quanto cê pode imaginar. Mas a mãe da Danila era ruim, mexia com coisa maligna. Uma bruxa que conheci disse que o que cê faz volta três vezes pro cê, acho que é verdade. A muié jurou ele de morte. Ele riu da cara dela. Então, só no primeiro dia de quaresma, os trem começaram. Eu e ele tava passeando e a gente passou debaixo d'uma gameleira. Tem gente que diz que o Diabo gosta de jogar baralho embaixo de Gameleira. E a gente começou a ouvir um cão latino alto. E a gente num sabia de onde vinha. Ele latia feito doido, como se fosse atacar a gente. E então, uma mulher começou a gritar, e pedir pra parar. Ela dizia: Para! Para! - E os gritos eram de puro desespero. Ela tava morrendo, e um homem tava rindo, como se fosse um maníaco. E o cachorro num parava. Nóis dois saímos de lá. Os gritos, eram tão cruéis. Parecia que a gente teve direito a ouvir um breve áudio do inferno. E o Bruno ficou muito doente depois disso. Nóis tava morando junto, e ele ficou assim a noite toda. E de madrugada, ele teve pesadelos terríveis. Ele via o cão estraçalhando uma moça e um homi doido ficava rindo. Ele não podia fazer nada, fora ver tudo"

"Que horror..." Falou Lucas, já com medo, mas intrigado.

"Foi horrível. Ele chorou muito. Mais, aí, no outro dia, de noite, alguma coisa começou a se jogar contra a porta, e soltava urros horríveis. Não era um lobisome. Era outra coisa. Um bicho saído de dentro do inferno. Que ficou dando urros lá fora. Altos e agudos. Fazia a gente arrepiar. Ficamos nesse pesadelo uma noite inteira. No dia seguinte, tinha um tanto de ranhado na porta que falava 'deixa a Danila e vá embora', um trem de doido. Ele ficou com raiva. E foi até a gameleira e desafiou. Disse que o Diabo era capacho de uma muié, e que ele num era nada, e que se ele num parasse, ele ia era dá uma nele. Depois ele colocou fogo na gameleira." 

"O diabo foi atrás dele, né?" Disse Paulo, nitidamente com medo. Sua voz tremia. O próprio som tremia no ar. Parece que só de contar, o ar ficou pesado e gelado. São Thomé ficou mais fria por alguns momentos. Um frio que dava dor nos ossos. Mas Seu Tonim fez o sinal da cruz, e tirou um crucifixo do bolso. E o ar gelado deu lugar a uma brisa fresca. 

"Na mesma noite, ele foi possuído. Esquentou a água pra fazer chá, ele parecia normal. Ele começou a beber a água fervente. E depois tirou a roupa e saiu correndo noite a fora. Eu segui ele, mais depois ele sumiu. Eu busquei um padre. A gente foi na casa da muié. Tava ela e a Danila mortas, e tava escrito na parede cum sangue - Não sou capacho- . O Bruno foi encontrado. Ele tava morto. E sabe onde acharam o corpo?"

"Onde?" Kléber teve a coragem de perguntar.

"Embaixo da Gameleira queimada. Que não estava mais queimada. Por isso eu digo, não brinquem com esses trem. Foi traumático. Não ignora os trem que os mais velho fala, pode não ser ciência, mas é conhecimento."

Eles foram dormir, e com muita dificuldade conseguiram. Lucas repensou tudo. Valia a pena sim ouvir um velho Tonim Folclore. Dizem que as experiências mudam as pessoas. E mudou a visão de mundo dos três jovens. Dentro da simples casinha sem laje, com uma coberta desfiada, ele teve um dos melhores sonos de sua vida. Não pela comodidade da cama. Mas sentia um conforto por ter finalmente descoberto aquilo que sempre lhe fora escondido. Mas não tinha porque ter medo. O mal existe, mas o bem também. Aprendeu que não se brinca com o desconhecido. Foi bom, porque uma vez fora chamado pra jogar a brincadeira do copo e só não foi por falta de tempo. Quem sabe era um jogo, quem sabe era uma coisa pra não fazer pra evitar um ataque no seu bom pai João. 

Voltaram pra Contagem, mas com uma lembrança inesquecível de São Thomé das Letras. Para Lucas agora, talvez houvessem coisas mais importantes que sua vida de luxo na cidade. Como viver uma vida junto de quem amava antes que não pudesse mais. Tem muita coisa por aí que pode findar uma vida. 

A cidade grande ainda tem muito o que aprender com o interior. 

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