O MASSACRE DE SERRA DO ÉTER


Originalmente publicado na coletânea de Halloween do Projeto Convenções Bruxas e Deuses, atual Projeto Caixa de Pandora e adaptado como parte do Livro ainda em processo de escrita "Espectro"

SERRA DO ÉTER, MINAS GERAIS
31 DE OUTUBRO DE 2022

Júnia já não aguentava mais pedir doces com seu irmãozinho Henrique. Se lembrava muito bem de como a mãe dissera que só poderia sair para a casa de Duda, se antes levasse Henrique para pedir doces. De todos os bairros da cidade, moravam justamente naquele em que mais haviam "gostosuras ou travessuras". O Colorado era um bairro de classe média que ficava próximo à Serra de Nossa Senhora do Sagrado Éter, ou simplesmente Serra do Sagrado, como os moradores da cidade de Serra do Éter haviam se habituado a chamá-la. De outro lado do bairro tinha um cemitério enorme e bem antigo, da época do Império segundo alguns. De outro lado, haviam alguns bairros também de classe média, mas a última margem do Colorado era delimitada pela avenida Liga das Nações, e que de seu outro lado estava o pasto vereda. O pasto vereda é uma área de Cerrado urbano, um respiro verde dentro do cinza de uma cidade industrial, que embora possuísse uma linda serra, lagoas, palmeiras e um pequeno centro histórico, tinha um ar pesado da indústria siderúrgica.

Muitas pessoas iam para o pasto vereda para transar, fumar um baseado, mijar no mato, usar droga, talvez esconder um corpo após um assassinato. Mas uma coisa era certa, ninguém entrava ali para simplesmente passear. Além de muitas pessoas terem medo de pegar carrapato estrela das capivaras que habitam a vasta área verde, o mato ali na parte próxima da Avenida Liga das Nações ou da Via Expressa que seguia por todo o redor da cidade era muito denso. Entrar era difícil, talvez sair também fosse. Júnia e Henrique se habituaram desde sempre a verem a imensidão verde e nunca estranharam o local. Só sabiam que deveriam ficar longe de noite, pois poderia ser perigoso. O pasto vereda também era um esconderijo para ladrões prontos para roubar doces de garotinhos. Essa foi a desculpa que os pais de Henrique deram para que eles não fossem até lá no gostosuras ou travessuras. Embora Júnia fosse acostumada a ir até a Avenida Liga das Nações pois uma amiga morava por ali, não era bom ficar andando pela rua em si à noite.

O menino de 7 anos estava vestido de bombeiro e carregava uma sacola cheia de pirulitos, chicletes, paçocas, pé de moleque, bolinhas de chocolate e balas de fruta. O sorriso em seu rosto era tão grande que lembrava o gato de Cheshire. E com tanta criança vestida esquisita, Júnia realmente se sentia presa dentro do "País das Maravilhas", que de maravilhoso ela não via nada. Já tinha passado da época das gostosuras, e não queria se juntar aos garotos delinquentes de sua escola que ficavam tacando ovo na casa dos outros. Geralmente o chefe da gangue marginal, como Júnia carinhosamente chamava era seu amigo Lucas. Mas o namorado ultimamente vinha implicando com essa atitude do rapaz, e até agora Júnia não tinha dado de cara com a gangue marginal. A busca por doces ia muito bem.

O tempo estava gelado para uma noite de Outubro. Havia tido uma tempestade horrível na noite anterior e chuviscara durante a manhã inteira. Mas de tarde, o sol apareceu, embora fraco. O ambiente úmido e o vento constante vinda da Serra do Sagrado faziam um aspecto digno de um Halloween. E o seu bairro ficar quase ao pé da Serra colaborava com a baixa temperatura.

Após a sacola estar a beira de estourar, ela volta com o menino para casa. Mas a mãe e o pai estavam de saída. Sua mãe lhe deu o aviso:

- Júnia, leve o seu irmão para a missa de hoje; depois o busque e deixe na casa da sua avó. Sua tia Gardênia está internada na UPA, teve um AVC. Ela já está fora de perigo, mas vamos passar a noite com ela. Nós ligamos para a mãe da Duda e você pode dormir na casa dela dessa vez. A sua avó vai na missa também e pega o Henrique.

Ao ouvir aquilo, seu coração quase saiu do peito. Finalmente poderia aproveitar o Halloween da forma que todo ano fazia. Ver algum filme de terror com Duda e Mari embaixo de cobertas, com um balde cheio de pipoca e outro cheio de pururuca. E dessa vez até mesmo dormir na casa da amiga.

O menininho tirou a roupa de bombeiro e se arrumou para a igreja. Júnia botou um shortinho, uma blusa da Cinderela e uma rasteirinha. Era muito bonita e tinha muito corpo para uma menina de 15 anos. Seus cabelos cacheados naturais e volumosos davam inveja. A pele negra sem espinhas e os lábios finos estavam cobertos por um pouco de maquiagem.

De suas amigas, era a mais bela. Mari tinha a pele chocolate, os cabelos black power como de discoteca. Era mais gordinha, e usava um óculos estilo Harry Potter. Duda era bem magra, branca, loira, usava aparelhos, óculos quadradinhos, bem o visual nerd estadunidense.

Os pais se despediram, e saíram. Logo foi a vez dos outros dois tomarem seu caminho. Com pouco tempo de caminhada viram a Igreja de São Pedro. Chegando na paróquia e deixando o irmão entrar para procurar a vovó dentro da igreja, o padre veio conversar com a menina.

- Júnia, minha filha. Não vai ficar para a missa hoje?

- Vim só para deixar o Henrique. Ele já vai crismar. Minha mãe disse que quer ele na igreja o máximo possível. Eu marquei um compromisso com uma amiga, mas eu vou vir aqui amanhã na missa da noite, e estive ontem na missa de domingo.

- Tá certo. Pode ficar tranquila. Não faz mal, você é uma ótima frequentadora. E se cuide. Hoje não é dia para ficar por aí sozinha. Tenho um mal pressentimento. Hoje é noite dos espíritos virem para a terra por um breve momento. Alguns gostam de fazer ruindades. - O rosto do padre se fechou um pouco e algumas rugas apareceram do nada. Era um semblante bem sério e preocupado.

- Cruz credo, Padre. - A menina embora não acreditasse naquilo, ainda sentiu um breve arrepio. Ouvir da boca de um padre no Halloween sobre espíritos não era muito animador.

- Mas não se engane. É sempre bom prevenir. Eu tive a chance de conhecer um padre exorcista. Ele uma vez teve que tirar um demônio de uma garota que brincou com o jogo do copo. - O semblante sério do Padre permanecia. A garota quis desconversar para ir logo para a casa da amiga, e não rendeu muito assunto.

- Isso é mentira, Padre. - Ela fala ignorando completamente a sentença proferida pelo sacerdote do deus cristão.

- Há pessoas que são como uma ponte entre nossos mundos. Pessoas que têm uma predisposição a atrair o sobrenatural. Se elas participam do jogo, aquilo deixa de ser jogo. Deus sempre nos protege. Mas não é tão difícil atrair o mal quanto se imagina, basta um convite e ele entra nas nossas vidas. - O rosto estava sério até demais, deu um arrepio na coluna que fez a menina se despedir para ir logo embora e sair daquela conversa. O Padre não insistiu, pois afinal, tinha uma missa para celebrar.

Júnia achou aquilo absurdo. Depois de deixar Henrique para a missa, Júnia chegou até a casa de Duda. Ela tocou a campainha e para sua surpresa quem apareceu foi um homem de 17 anos de estatura média, forte, o cabelo ruivo de farmácia, pele queimada de sol, todo vestido de preto. Lucas. É por isso que a gangue marginal não estava aterrorizando a fachada da casas das senhoras e contribuindo para a venda de desinfetantes com cheiro de lavanda no mercado nesse Halloween. Afinal, nada de ovos dessa vez.

- O que você tá fazendo aqui? Os pais da Duda não gostam que ela traga meninos pra casa. - Júnia disse meio emburrada de ver o rapaz ali. Deveria ser a noite das garotas, e não a noite das garotas e dos gays. Pelo menos não dessa vez.

- Eles saíram para uma festa de casamento em Bernardes Bonifácio. Vão voltar de madrugada. E outra, eles só não querem a filha grávida. Eu gosto de rola, querida. E a que eu gosto de pegar tá me acompanhando hoje. - O sorriso malcriado no moleque travesso era digno do líder de um grupo de baderneiros.

- O João veio? - João era o namorado de Lucas. Era bem alto, magrinho, loiro, os cabelos longos sempre guardados em uma touca. Bem estilo skatista. Os dois formavam um belo casal. Era engraçado ver o menino tímido e alto com os braços ao redor do estressadinho do Lucas.

- Sim. Agora entra. Estamos contando histórias de terror. A Duda achou um livro antigo guardado nas coisas da mãe dela. Já íamos começar a ler.

Júnia segue o rapaz até a sala onde estavam Duda, João e Mariana. Eles estavam em círculo no tapete da sala. Duda estava com o que parecia ser um pequeno livrinho velho nas mãos.

- Que coisa é essa? Onde você arranjou isso? - A menina fala olhando para aquele livro. Ia ser legal dar um toque de terror a mais na noite das bruxas.

- Num baú no porão da casa da minha avó, na minha última visita a ela em Bernardes Bonifácio. Tem várias histórias de terror. Vamos lá. Quem começa a ler? - A jovem de cabelos louros pergunta.

- Eu começo. - Júnia se prontificou para ser a primeira:

Chupa-cabra. Do latim; aquele que bebe o sangue de cabras. É um animal com o aspecto deformado. A cabeça achatada e o corpo esquelético. Com seus longos braços, pela noite sai a matar. As crianças se aterrorizam com um simples grito estridente emanado pelo monstro. Aquele que o ver, deve correr. Não adianta se esconder. O teu sangue ele pode farejar. Tente não ter medo, pois ele é atraído por isso. Fuja para o mais longe e torça para ele não querer te sugar. Ou teu sangue vai chupar. E a próxima de suas cabras, tu irás se tornar.

- Ai, que horrível. Gente, vamos ver o filme de uma vez. Eu não tô gostando disso. - João falou, nitidamente ele estava assustado.

- Deixa de ser medroso, João. Eu ainda nem mostrei o Tabuleiro Ouija que eu achei... – Duda se mostrou imediatamente animada, mas logo foi cortada pelo skatista.

- Tá doida, Duda? Não se mexe com espíritos. Os mortos devem permanecer mortos.

- Calma, meu bem. Se o espírito vier pra cima de você, eu te protejo. - Lucas falou e acolheu João em seus braços. Ou pelo tentou, era fofo ver ele tentar passar os braços em volta do namorado incrivelmente alto. - Agora vamos continuar as histórias. Esse livro não tá bom. São só uma lendas contadas em um parágrafo. Alguém sabe uma história?

- Eu sei uma que a minha avó me contava. Ela disse que já viu a Florzina com os próprios olhos. - Mari falou. - Ela é uma bola de luz que aparece para encurralar as pessoas que andam sozinhas à noite. Ninguém sabe direito o que a Florzina quer. Ela aparece muito lá em Goiabeiras, onde minha avó mora. Dizem que é uma pessoa que morreu e deixou ouro enterrado, mas para se libertar, alguém tem que desenterrar. Por maldade e par não deixar a Florzina se libertar, o diabo transfigura a forma da alma nessa coisa tenebrosa. Minha vó diz que uma vez, ela tava voltando a cavalo de Pedrês. Era uma noite fria de inverno. O cavalo já tava cansado. Minha avó resolveu parar com ele na beira da estrada pro bicho tomar um fôlego. E então, ela ouviu gritos finos de longe, como se alguém tivesse visto algo realmente pavoroso. Minha avó, temendo que fosse uma onça que andava por ali, subiu no cavalo de novo e deu no pé. Ela olhou pra trás e viu uma bola de luz gigante perseguindo ela. O cavalo também deve ter ficado com medo, pois ele correu muito rápido. Ela chegou na fazenda, largou o cavalo solto no terreiro e entrou em casa. Nem olhou pra trás pra saber se a florzina ainda tava lá.

- Credo! Que horror! - Disse João. Na visão de Júnia, o menino realmente era um medroso.

- Nem é, meu bem. - Lucas desabraçou João e disse: Querem saber? É minha vez. Eu vou mostrar como se faz. Porque essa história aconteceu aqui em Serra do Éter. Bem do outro lado da rua. No pasto vereda.

Isso deu um arrepio em João. A casa de Duda era na Avenida Liga das Nações, em frente ao Pasto. E essa avenida, de um lado tem o bairro Colorado, do outro tem uma área ambiental de cerrado urbano bem vasta, fechada e um tanto aterrorizante. Lá fica uma lagoa que secou e algumas capivaras que vivem perto da nascente de um córrego. Tinham até pessoas que invadiam às vezes para ver onde ficava a lagoa, mas era na maioria das vezes, um esconderijo de assaltantes, dependentes e tarados sexuais. Não era a regra ver pessoas sem nenhuma má intenção entrando no pasto.

- Há alguns anos atrás, em uma noite como essa, algumas crianças voltavam à noite da casa dos avós. O primo mais velho delas ia acompanhando, pois o caminho era perigoso. Quando o jovem ia passando, reparou em uma mulher na janela, e ela olhava fixamente para o mato do outro lado. Parecia aterrorizada. O rapaz virou-se bruscamente em rumo à mata, mas não via nada. Só havia o vento balançando as palmeiras. O menino então continuou e levou as crianças para casa, e na volta, fez o mesmo caminho da ida. Por alguma razão, ele se virou para a casa onde vira a mulher mais cedo. E ela não estava lá. A casa de portas escancaradas lhe pareceu estranha. Mas não dando a devida importância para aquilo, continuou seu caminho. No dia seguinte, o rapaz ouviu da avó, que uma moça fora achada morta no mato a machadadas, e os olhos foram arrancados. Algo pavoroso.

João parecia estar amedrontado. As meninas pareciam mais curiosas e vidradas na história de Lucas.

- Outro ano, um homem e uma mulher resolveram invadir o lugar para ver onde era a antiga lagoa. Eles contaram aos amigos onde iriam. Foi isso que permitiu que a polícia encontrasse os corpos mutilados com um machado no dia seguinte. A mulher estava sem o olho direito e o homem sem o olho esquerdo.

- E então, em outro ano. Uma menininha passeava com seu cachorro. Isso durante o dia. E o animal olhou firmemente para o mato e correu para lá. A menininha desesperada com medo de perder o cachorro foi correndo em direção ao matagal. Pequena e sozinha, se perdeu facilmente no meio do Mato. Ficou caminhando desesperada no mato alto sem achar a saída e nem o cachorro. Já de noite, um homem apareceu no mato para ajudá-la. Ele disse se chamar João Cortante, apelido que lhe deram pois ele já trabalhara de lenhador. Estava ali pois havia sido o único a ouvir os gritos da menininha. Ele era estranho. Se vestia com botinas, uma calça jeans, uma camisa xadrez parcialmente aberta, mostrando um peito peludo, uma barba rala e mal feita, com óculos escuros nos olhos. Já era de noite quando a menininha se deu conta. Como eles ainda não haviam saído dali e como o homem enxergava de óculos escuros à noite, sem nem mesmo ter uma lanterna?

"Moço, como você vê de noite com óculos escuros?" A pobre menininha perguntou.

"É verdade, que bobagem a minha" Ele tirou os óculos e revelou um dois buracos onde deveriam estar seus olhos. "Esqueci meus olhos. Me empresta os seus olhos?"

A garota gritou, mas antes que pudesse correr. João Cortante tirou um machado do meio de um arbusto e decapitou a cabeça da garota em um só golpe. Depois pegou o crânio em suas mãos e retirou os olhos. Mas eles não lhe serviam também. Só restava a João Cortante esperar outro desavisado invadir aquele lugar para então tentar arrumar olhos novos para si, e repor os olhos que lhe faltavam na face macabra.

Ao final da história. João parecia prestes a chorar. As meninas também estavam aterrorizadas. O clima macabro estava instalado.

- Lucas. Eu te odeio. Eu tô com medo. – A voz de João estava meio chorosa, e Lucas imediatamente foi para os braços do namorado pedindo desculpas por ter assustado seu amorzinho.

- Porra, João. Eu inventei. Não existe João Cortante. Assim como não existem Florzina ou Chupa-Cabra. Eu criei na minha cabeça, meu bem. Fica tristinho não. - Lucas fala com o namorado com uma voz dengosa.

- E daí? Minha tia dizia que para algo existir, basta criar. Todas as coisas que existem, foi alguém que criou e o trem ruim surgiu de um espírito maligno que mora bem no coração da escuridão, e ganha vida pra se tornar assombração com as energias negativas do universo.

- Não existe nada disso. Coração da Escuridão, de onde você tirou isso? Um lugar nas trevas em que os monstros surgem. Até parece. - Duda disse incrédula. Ela se levantou e pegou um Tabuleiro Ouija em um canto da sala.

- Eu não acho bom a gente brincar com isso. Espírito é coisa séria. Uma vez, um deles falou comigo de noite...

- Deixa de mentiras e venha jogar, João. - Mari o xingou e já foi se posicionando junto aos outros para brincar. João se deu por vencido e se juntou aos demais ali.

- O Padre me disse que gente com predisposição a ter esses contatos são pontes entre os mundos. Quem sabe o João não pode ser uma espécie de telefone pra nós? - Júnia ri debochada. Lucas deu um tapinha de leve nela. - Seu bruto! João, como você tolera esse marginal? Vai acabar virando esposa de preso. Esteja avisado.

– Bruxa mal comida! - Lucas retrucou a ofensa com sua delicadeza de cavalo. Mas voltou para o assunto. – Sim, também já escutei isso. Com o João aqui a gente brinca de telefone sem fio com os fantasmas. - Lucas fez a piada e todos riram, menos João. - Poxa, amor. É brincadeira. Eu te amo.

Após terem explicado as regras, eles começaram a brincar.

Mas ninguém estava disposto a respondê-los se de fato havia uma alma por ali. Tentaram perguntar se tinha alguém, mas nada. Zangada, Duda se levantou e guardou o tabuleiro sem nem mesmo dizer adeus. O que é um erro terrível para aqueles que conhecem as regras do jogo.

Nunca jogue sozinho.
Nunca jogue próximo a uma tumba.
Não risque o tabuleiro.
Nunca deixe o ponteiro cair.
Não saia sem dizer adeus.

Júnia lembrou que deveria ir comprar a pururuca na mercearia antes que fechasse. Mas estava com medo de ir sozinha. Deveria ter feito isso antes! Sabia que não existia essa história de João Cortante. Mas ter aquele matagal do outro lado da rua era um tanto desconcertante no momento. Então os cinco amigos resolveram irem juntos. Pois ninguém queria ficar para trás.

Já na Avenida, os cinco saíram no rumo à esquina seguinte para então virarem na direção da mercearia. A Avenida parecia mais quieta do que o de costume, visto que até de noite era movimentada. Quando Lucas fala:

- Gente, vocês ouviram? - O rapaz diz e aponta para o matagal ao outro lado da rua. - Pareciam vozes.

- Tenho certeza que são um casal de tarados fazendo coisas no mato. Vamos logo pra mercearia... Lucas! - João ia falando, mas o namorado foi sozinho em direção àquele mato.

Chegando do outro lado da rua, e bem perto do mato. O rapaz colocou o rosto próximo aos arbustos, entre o mato alto. E então pareceu ter sido puxado para dentro.

Mari deu um grito agudo. Todos correram em direção ao mato e entraram nele sem pensar duas vezes atrás de Lucas, que não parecia emitir nenhum som em meio a aquela plantaiada toda.

Ao se adentrarem na mata são surpreendidos por Lucas gritando um "BUUUU" e saindo de trás de um matinho. O rapaz ria da cara dos outros. Fora tudo afinal uma brincadeira de muito mal gosto.

Duda não perdeu tempo e deu um grande tapa em Lucas. João estava tão puto com o namorado que lhe deu um murro.

- Não tinham que se preocupar, sempre ando com uma navalha no bolso para me defender em caso de assalto. - Lucas ria alto.

- Seu desgraçado. Queria nos matar de susto? - Júnia queria arrastar a cara do amigo no asfalto. - Vamos logo sair desse mato, já estou toda pinicando.

Os outros quatro iam saindo do matagal junto do brincalhão Lucas, que ainda ria da travessura de mais cedo. Mas ao saírem dali, prestes a deixar o mato, um clarão se põe diante deles. Uma forma luminosa semelhante a uma silhueta de mulher, mas envolta em tanta luz que chegava a quase ser um mini sol. Os olhos dos cinco adolescentes estavam o mais arregalados que podiam. Mas uma leve memória de alguns instantes atrás veio à mente deles.

Florzina.

Os cinco correram de volta para o mato e tentaram contornar a tenebrosa imagem, mas ela parecia fazer movimentos espelhados e não adiantava tentar fugir, até que a imagem pareceu se aproximar, e desesperados, eles correram para mais ao fundo na mata fechada. Já a uma distância considerada segura, pararam para respirar. A luz parecia ter sumido.

- Aquela coisa existe mesmo! Pensei que era uma historieta da minha avó para me assustar. Não deveria ser real. Mas parece ser, e agora a gente correu tão pra dentro, que não sei mais onde estamos... - E antes que Júnia pudesse concluir seu pensamento, começou a ouvir um som nojento, como se alguém estivesse mexendo com algum tipo de líquido. - O que é isso?

Duda, Júnia, Lucas, João e Mari se viraram para uma árvore robusta. Mari tomada por alguma coragem resolve ir em direção ao grande abacateiro que se tinha ali bem do lado deles. Seus passos se aproximaram lentamente, só para o horror ser maior ao ver a besta que a esperava do outro lado.

Havia um bicho muito magro, de quatro patas, sem nenhum pelo ou pena. Postura semelhante a de um primata. O crânio alongado estava sobre o cadáver de uma capivara. O ser sobrenatural a sua frente dilacerava e chupava o sangue do pobre animal. A criatura se levantou e surpreendentemente ficou apoiada sob as patas traseiras. Agora era possível ver melhor sua face lúgubre. Havia ali olhos fundos e um focinho alongado aberto com uma língua fina e suja de sangue para fora. Mari só despertou do transe que se encontrava graças ao grito fino emitido pelo monstro.

NINHAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!

Desperta, Mari tentou correr e gritou para seus amigos fazerem o mesmo. Todos correram o mais rápido que podiam, e só pareciam adentrar nas partes ainda mais fechadas. Passavam o mais rápido que podiam por entre as árvores, se arranhavam nos galhos, tropeçavam em pés de espinho.

Até que Mari, que se encontrava mais atrás, foi pega de surpresa por um cipó e se enroscou nele. Isso deu tempo o suficiente para o Chupa-Cabra se aproximar e meter seu focinho no pescoço da menina, revelando dentes pontiagudos que lascavam a pele do pescoço para abrir espaço para a língua adentrar o corpo da menina. Ela sentiu suas cordas vocais se partirem enquanto a língua parecia viva dentro de si. Então, a língua achou a tão desejada artéria e começou a puxar o sangue. A menina ainda estava viva e sentiu sua vida drenada aos poucos. A sensação de angústia por não ser capaz de pedir ajuda a invadiu. Tentou se soltar, mas o monstro a laçou em um aperto terrível, no qual a permitiu sentir os ossos daquele ser raquítico.

Os outros olharam para trás por um momento e viram a amiga sendo morta pela criatura. Os quatro estavam aterrorizados. Mas então um outro corpo veio correndo rapidamente na direção deles. Um homem com um rifle em mãos passou por eles e deu um tiro na criatura. Ela pareceu não se abalar, mas largou a pobre Mari ainda em seu leito de morte, com o sangue jorrando pelo pescoço, e saiu daquele local. O Homem foi até a menina, e os quatro jovens se aproximaram. Júnia chorava alto, João não era capaz de emitir um som pelo terror em seu coração, Duda estava ofegante e quase desmaiando, e Lucas quase tinha um ataque de pânico; se sentia culpado, pois só adentraram o matagal devido a uma de suas brincadeiras idiotas.

- Calma, menina. Eu vou te ajudar. Eu alivio a sua dor. - Essas palavras soaram mal na mente dos outros ali presentes. O Homem atirou na cabeça da menina. E ela morreu.

A aparência do Homem logo foi percebida por todos ali. Calça jeans justa, botina, camisa xadrez aberta até o peito, revelando o tórax peludo. Os cabelos negros estavam bagunçados como se tivesse tentado fazer um topete ali e uma barba rala era presente. E finalmente, o rosto com região dos olhos escura. O homem esticou as mãos em direção ao rosto da menina e os arrancou. Então tentou encaixar o primeiro em sua face, mas ele não entrou, e nem o segundo. O quarteto assistia abismado aquela cena. Até que tudo se esclareceu como um flash na mente deles, e todos começaram a correr. Não era preciso ninguém falar nada para todos entenderem o que se passava ali. Só correram pelas suas vidas após a paralisia por verem tal cena passar.

João Cortante.

Eles corriam sem parar. Se arranhavam nos galhos, se ralavam quando caiam, mas sempre levantavam para correr novamente. Não podiam ser capturados. Pois agora, a morte era certa. Ao passarem por uma nascente de um córrego. Os quatro tropeçaram e caíram na água. Enlameados e molhados, estavam quase se afogando na água, que não devia chegar a 50 centímetros de profundidade. Ao se levantarem, continuaram o seu caminho. Mas agora, o perseguidor já se encontrava bem mais próximo. O quarteto seguiu seu rumo e ouvia os gritos do homem.

- Calma, crianças. Eu sou divertido. Eu quero brincar com vocês. Mas pra isso eu preciso de olhos para enxergar. Me emprestem os seus!

O homem falava com uma voz alegre e pidona, como se pedisse um doce. Aquilo só lhe dava um ar mais psicopata. Era um maníaco, e estava segurando um machado, que não estava presente com ele antes. Sabe-se lá de onde ele havia tirado aquela coisa.

O assassino estava cada vez mais próximo, e com a distância certa, o homem jogou seu machado com força para frente, como um bumerangue. O objeto atingiu as costas de Duda com força, e a lâmina lhe penetrou, fazendo o sangue jorrar. O golpe acertou suas vértebras com tudo. Ela deixou de sentir os movimentos das pernas instantaneamente.

- Oi, parceira. Será que pode me emprestar seus olhos? Eu perdi os meus. Hahahaha. - A risada era divertida. João Cortante estava sentindo prazer no terror da menina.

- ME DEIXA EM PAZ. POR FAVOR. AAAAAAAAAAAAH. - O grito alto e desesperado se repetia. Os sons agudos de puro terror se intensificaram. Os amigos de Duda sabiam que não havia nada a se fazer pela amiga. E optaram por salvarem a própria vida. - AAAAAAAAAH - Um som alto saiu da boca da menina. O homem se abaixou diante dela. - SOCORRO. ALGUÉM ME SALVAAAAAAA!

Os gritos cada vez mais desesperados tinham um motivo. João Cortante estava arrancando os olhos da menina. A jovem estava sem os olhos, mas ainda não havia morrido. Ficou no chão gritando de dor.

- AAAAAAAAAAAAA. AAAAAAAAAAA. MEUS OLHOS! AAAAAAAAAAAAA. - Grito agudo e estridente era tenebroso, chegava a dar um arrepio em quem ouvisse.

- Calma, se sinta orgulhosa, você.....

- AAAAAAA. AAAAAAA. AAAAAA. – Os gritos não cessavam e interrompiam João Cortante. Os gritos não paravam, então João Cortante deu uma machadada na cabeça da garota, que foi decapitada.

- Agora está morta e não vai ouvir. Mas sinta-se honrada. Um de seus olhos serviu em mim. Agora só falta o olho esquerdo.

E João Cortante saiu em busca dos três adolescentes restantes. Corria em rumo a eles. Seus passos fortes pareciam tremer o chão.

Os três aproveitaram a distração que a triste morte de Duda os proporcionou, e tomaram a dianteira. Estavam já distantes de João Cortante, mas ainda ouviam o homem gritando por eles:

- Só falta um olho. Quem vai me ajudar?

Desespero. Angústia. Medo. Tristeza. Incerteza. Pânico. Melancolia. Terror. Esses eram os sentimentos que passavam pelas cabeças dos três.

Eles foram correndo até chegar a uma parte fechada pelas árvores. Também tinha uma cerquinha de arame farpado. Não havia como passar. E João Cortante chegava mais perto. Já podiam ver a figura sinistra, quando veio um pensamento na cabeça de Lucas.

- Meu amor. Eu te amo. Sinto muito. - João se virou em direção ao namorado. Não entendeu porque Lucas lhe disse aquilo agora.

João Cortante se aproximava mais. E quando ele já estava cinco metros à frente do trio, Lucas saca sua navalha e corta a garganta de João.

Por um momento o tempo parou. O João Cortante travou estático no lugar e evaporou como se fosse feito de gás.

- Lucas... o João Cortante... você... João... como? - Júnia falava entre soluços e lágrimas.

- Lembra do que você disse que o padre falou? Algumas pessoas são como pontes entre mundos. E tem a predisposição a contato com espíritos. João falou que um deles já tinha conversado com ele. João era a ponte entre os mundos. Nós quebramos a regra do Ouija. Não dissemos adeus. Quando eu o matei, rompi a ligação entre os mundos. - Lucas se abaixou e tomou o corpo sem vida de João em seus braços. - Me desculpa, meu bem. – Ele chorava sem parar agarrado ao corpo morto do ex namorado. Ele queria se salvar e salvar Júnia, pois sabia que João não teria salvação.

Lucas deixava as lágrimas caírem sobre o corpo do namorado. Júnia assistia a cena bestializada com tamanho pavor. As lágrimas da garota corriam por sua face até a camisa, ensopando a gola.

Mas então, Lucas se sentiu estranho. Se levantou rapidamente. Sentia algo voltando pela sua garganta. Vomitava sangue. Muito sangue. Em seu bolso, sentiu um caroço, ele levou sua mão até lá e tirou 2 pares de olhos humanos. O menino jogou-os no chão rapidamente.

Flashes de memória vieram como um raio na cabeça dos dois adolescentes sobreviventes.

Lucas se pondo na frente da saída como se fosse uma barreira. Lucas perseguindo a todos. Mordendo o pescoço de Mari até rasgar a pele e bebendo seu sangue. Lucas cortando a garganta da menina com a navalha. Lucas correndo atrás de Duda, a jogando no chão, arrancando seus olhos e depois enfiando um pedaço de madeira em seu abdômen. Lucas correndo atrás de Júnia e João até aquele lugar, se pondo ao lado deles como se nada tivesse ocorrido e cortando a garganta do namorado.

Lucas olhou para as próprias mãos cobertas de sangue, a navalha vermelha junto de si, e continuou a vomitar sangue. O sangue que bebeu do pescoço aberto de Mari.

João não era a conexão com os espíritos do tabuleiro, era Lucas. Lucas era a Florzina. Lucas era o Chupa-Cabra. Lucas era João Cortante.

Júnia ao se dar conta disso, sai correndo pelo mato até retornar à Avenida. A menina corre tão desesperada em rumo à rua que nem vê um carro vindo em alta velocidade. Só percebeu quando os faróis já estavam muito perto. A batida foi tão forte que a garota foi jogada longe, e morreu com o impacto.

Não muito longe dali, Lucas se retorcia no chão. Sentia seus cabelos ruivos mudarem para um preto profundo. Seu tronco se alargava e vários cabelos cresciam por seu peito e sua barba preenchida e bem feita dava espaço para uma barba rala. A face e o corpo inteiro mudaram e deram origem a um homem adulto com aparência de lenhador. Ele tirou as roupas apertadas de adolescente, andou nu por aquele mato até achar num canto uma botina, uma calça jeans e uma camisa xadrez faltando os botões superiores. Se vestiu, pegou um machado que surgiu ali no chão e deu uma risada maligna.

Agora, maquiavélico e monstruoso, arrancou os próprios olhos à medida que dava uma gargalhada. A metamorfose estava completa. E surgido do Coração da Escuridão, João Cortante estava à solta.

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Esse conto inaugural foi escrito originalmente para o "Halloween" do Projeto Convenções Bruxas e Deuses, atual Projeto Caixa de Pandora, e hoje é um capítulo do livro ainda não publicado "Espectro". 

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