Os Cinco Sentinelas Parte 1
Nívea ouve uma batida à porta do seu quarto. – Entra. – ela diz, e Omar abre a porta, tem uns vinte anos, bem afeiçoado, rosto magro e barba bem feita, uma túnica tão azul quanto o céu mais límpido. Ele passa os olhos pelo quarto, a cama de solteiro bem arrumada como sempre, o tom pastel das paredes desgastadas pelo tempo. A luz poente do dia entra num suave tom arroseado penetrando as grossas cortinas de tom salmão que falham em bloqueá-la. Até pousar os olhos em Nívea, ali sentada num macio tapete de algodão no canto mais penumbroso do quarto, à direita da janela.
Ela usa uma toga rubra como o vinho da garrafa sobre a cômoda no canto esquerdo, ao lado do guarda roupa. Os lisos cabelos, castanhos como as folhas de oliveira no outono, contrastam com a pele alva e jovem, aparentando quinze anos a menos que seus trinta e cinco, já que envelhece mais devagar que os humanos. A simplicidade dos seus adornos, um par de brincos e um bracelete no antebraço, pouco somam à sua beleza simples e natural, exceto o sorriso, as maçãs do rosto bem definidas, ajudam a destacar seu sorriso contagiante. Um sorriso ausente nos últimos dias, não por tristeza ou preocupação, mas por terem sido dias de compenetrado estudo.
– Imaginei que já estivesse acordada. O capitão da guarda está aqui. – fala Omar. Nívea fecha o grosso livro e se levanta, imaginando ser algo importante. Deixa o livro sobre a cômoda, calça sandálias de couro e pega sua abaia¹ castanho no mancebo ao lado do bom e querido bandolim, ela o veste meio apressada, por cima da toga, enquanto segue com Omar.
Ambos descem as escadas, chegando na grande e arejada sala. A riqueza modesta e antiga se vê nos móveis. Os olhos amendoados e impacientes de Nívea vêem o homem de meia idade em pé ao lado do sofá, as luzes do candelabro tremeluzem na sua loriga, pouco iluminando seu rosto.
– Boa tarde Josué.
– Não sei se é uma boa tarde srta. Nívea. – ele responde com uma preocupação tangível na voz. – O cavalo de Neemias voltou sozinho e cheio de ferimentos. As bolsas dele estão no cavalo ainda. Não temos notícias dele.
– O que você acha que pode ser?
– Eu temo que minhas desconfianças estejam certas. É a sexta pessoa que some nas últimas duas semanas. Eu teria procurado a Haifa, mas ela foi para Qeópis e não retornou.
– Ah, claro. – fala Nívea revirando os olhos. – Parece que o destino espera os magos saírem para trazer as coisas estranhas até nós. Onde o cavalo está? Não levaram pro estábulo, levaram?
– Não, não. Está perto dos muros.
– E o Kalil?
– Continua desaparecido, nem sinal dele.
Ela desvia o olhar escondendo sua preocupação. – Eu vou até lá dar uma olhada, mas preciso dos outros pra ir comigo. Com licença. – diz ela enquanto se dirige em direção ao corredor na direção oposta à escada. Mas antes que saia, uma voz grave invade a sala.
– Não precisa, já estamos aqui! – fala aquele mais a frente dos quatro que chegam. É Thorud, um anão corpulento, cuja força se nota no contorno da túnica justa sobre o corpo. Sua baixa estatura parece irrelevante frente ao andar altivo como se a própria fama lhe anunciasse. Até sua barba trançada cor de cobre parece pronta pro combate, como se as argolas douradas as contivessem. Seus olhos tão escuros quanto os cabelos de seu irmão Tar-Rúl, à sua direita.
Este não tão forte quanto o irmão, a barba é escura e bem feita, não passando muito do queixo. O cabelo liso penteado pra trás deixa ainda maior sua testa marcada pela pequena calvice. Veste um robe desgastado, tão cinza como das ferramentas que manuseava com precisão faz poucas horas, e os olhos anis. As manchas de fuligem no rosto, pardo como o irmão, e também no nariz, suavemente curvado, respondem por si só que ainda não terminou o trabalho que estava fazendo.
O mais à esquerda é Makut, do tamanho duma criança, como se pertencesse a um povo não apenas baixo, mas pequeno mesmo. A camisa de linho e a calça, ambas verde musgo, lhe caem justas no corpo másculo e nas pernas musculosas, deixando de fora somente os pés descalços e peludos tão comuns do seu povo. O corte de cabelo, e o rosto quadrado lhe dão um ar militar facilmente quebrado por seu largo sorriso ao cumprimentar todos.
E logo atrás vem Penína, quatro dedos mais baixa que Makut, e com pés tão peludos quanto. A pele caucasiana e o rosto arredondado, de traços gentis e delicados, lhe conferem um ar de mocidade e uma beleza natural despercebida pelo ligeiro desapego com a vaidade. Os cabelos negros e ondulados, pouco tocam-lhe os ombros, formando cachos tímidos. O manto cor de jade que veste ofusca bem seu formoso corpo, combinando com a semi-jóia do seu colar, seu único adorno, uma agradável recordação de sua terra natal.
– Eu ouvi oces falando que o Neemias sumiu, é isso memo? – pergunta Makut. E Josué confirma com a cabeça.
– Já procurou Memphis ou outro Guardião? – indaga Thorud.
– Todos estão a cinco dias em Qeópis. – fala Nívea. – Somos os únicos à quem ele pode recorrer.
– Oia, este já é o sexto que some. Isso num tá me parecendo bão. É mió mesmo a gente dá uma oiada. – fala Makut.
Thorud diz algo inteligível aos ouvidos de Josué e Tar-Rúl começa a falar com todos numa língua estranha e cheia de consoantes. – Até hoje me pergunto porque os Guardiões não deixam ao menos um deles na cidade. Lá vamos nós de novo resolver o problema deles.
Omar, acostumado a vê-los falar nesta língua, pede aos berros que sua criada lhe traga chá, na intenção de distrair Josué enquanto Penína continua: – Nós quem escoltamos as caravanas do Omar. Hoje foi o carteiro que sumiu, amanhã podemos ter surpresas na estrada. Isso pode ser obra de alguma fera destas terras ou de algum mago proscrito.
– Não acredito que um mago rebelado esteja por trás disso. É uma ideia muito conspiratória. – fala Thorud.
– Pode ser. – diz Tar-Rúl. – Mas a Penína tem razão, vamos dar uma olhada antes que tenhamos problemas nas estradas.
– Oia Jousé. – fala Makut finalmente na língua que este entenda. – Ocê disse que o cavalo do mensageiro chegou? Leva a gente lá.
Makut e Josué vão na frente, enquanto os outros quatro providenciam roupas mais apresentáveis.
Eles seguem pelas ruas de Aqbah, menos agitadas do que o habitual, fazendo Makut imaginar quão rápido as noticias correm. Eles passam por ruas agradáveis, onde quitandeiros, macates e artesãos desmontam suas barracas e guardam suas mercadorias depois de mais um dia de trabalho. Outras nada agradáveis, onde o fedor de urina saúda-lhes, e precisam se atentar a dejetos de cachorro ou de cavalo pelo caminho. Embora more aí pouco mais de dez anos, Makut ainda estranha tantos rostos sérios, entre véus e túnicas, fechados em suas vidas, se importando apenas com elas mesmas enquanto mendigos passam os dias sentados à espera de moedas pro almoço e no fim do dia terem o jantar, dos restos jogados, em becos escuros.
As ruas se estreitando, os guardas acendendo as lamparinas dos poucos postes, antes um a cada duas quadras, agora cada vez menos, onde ruas são mais escuras e solitárias. Logo as rondas serão feitas sob a luz de tochas e de estrelas. Ao menos há postes nas praças.
O pequenino anda o mais depressa que suas pequenas pernas permitem, Josué diminui o passo quase sem perceber, alcançando o ritmo de Makut, enquanto conta-lhe, a quanto tempo Neemias sumira e das feridas no cavalo. Sem demora chegam aos muros da cidade, onde três soldados aguardavam seu retorno.
Os tres se entreolham com sorrisos jocosos. – Ele deste tamanho, assim vestido de verde o cavalo pode pensar que é capim. – sussurra um dos guardas. Mas o olhar firme e repreensivo do capitão rapidamente cala suas gargalhadas.
Makut os ignora enquanto se aproxima do cavalo, notando seu olhar abatido. Vê as manchas de sangue, já seco, no pêlo do animal, e logo identifica pequenos furos, mas o que lhe aflige é o odor que exala dali. – Este cavalo foi mordido aqui e aqui. Tem uns arranhão também. Mas dá pra vê que as mordida tão pió. Eu acho que o Neemias num teve a mesma sorte não.
Logo Makut ouve o tilintar do metal e vira-se. Os quatro chegam montados em seus pôneis, armados e vestindo armaduras. As lorigas dos anões parecem cuidadosamente forjadas para eles. O escudo de Thorud, preso às costas, visível por cima do ombro. Já a armadura de Penína têm as caneleiras, braceletes, peitoral e ombreiras todas dum material rubro, nem ferro nem couro, mas sim escamas de algum predador, além de uma bolsa a tiracolo e duas armas presas à cintura. E Nívea com roupa de couro, própria pra viagem, traz nas costas arco e aljava, e na cintura espada e varinha, esta última numa bainha própria pro seu formato.
– Ei Makut, trouxemos a sua. – fala Thorud mostrando a armadura do pequeno num embrulho bem amarrado, sobre o lombo do pônei.
– Vamos até onde teve o ataque. – fala Nívea. – Assim vamos saber o que houve.
– Acredito que o ataque ocorreu na estrada. – fala Josué. – Mas se não houver nenhuma pista lá não temos como saber o que aconteceu.
Penína se aproxima do cavalo, pega o cetro que trazia preso à cintura, e com a ponta dele toca sua testa e em seguida a do animal. Os guardas mais próximos se entreolham incomodados enquanto os mais afastados observam curiosos. Penína e o animal meneam a cabeça, como se entendessem um ao outro. Até que ela fala: – Ele vai nos mostrar onde é.
Enquanto os anões ajudam Makut a vestir sua armadura o cavalo segue cabisbaixo pra fora dos portões. Nívea e Penína o seguem, a primeira em seu cavalo baio e a segunda em seu baixadeiro. Josué chama alguns homens com um simples gesto e lhe trazem seu mantalarga. – Eu e meus homens vamos com vocês.
Nívea e Penína se entreolham intrigadas. – Josué, seus homens serão mais úteis aqui na cidade. – fala Nívea. – A menos que eles enxerguem no escuro. – ao ouvir isso Josué se detem. E dos portões observa os cinco deixarem a cidade de Aqbah sob os últimos raios de sol.
O cavalo e os pôneis seguem no mesmo passo pela estrada de terra batida enquanto no céu, o roxo toma o lugar do escarlate como se escondesse seu vermelho sangue. As carnaúbas e juazeiros cujas sombras tão bem vindas durante o dia, agora parecem mais solitárias em meio à noite fria que avança, sob o brilho prateado da lua, imponente em forma de foice. O alazão pára de repente e Penína para ao seu lado tentando liderá-lo a prosseguir, mas ele continua relutante. Anda de um lado pro outro, guincha, balança a cabeça, resfôlega.
– Foi aqui. – fala Penína. – Pelo que o cavalo indicou, quem atacou Neemias tinha cheiro de morto. Mas ele não quer avançar mais. Está assustado. O cavalo teme este lugar.
– Pra onde foram? – pergunta Thorud.
– Ainda não sei, mas foi aqui que o cavalo fugiu. – ao ouvir Penína dizer isso Tar-Rúl desmonta do pônei e começa a examinar o chão, a terra seca, as marcas de casco, os pequenos tufos de mato, examinando cada detalhe como se a noite não fosse um obstáculo à sua visão, e de fato não é. Os outros se atentam aos arredores.
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¹ abaia: é uma grande capa de lã. Os beduínos a carregavam em volta do corpo durante o dia e a vestiam à noite para se esquentar.
créditos da capa: Ingred_O
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