Capítulo 50
Aponto para um dos degraus perto de onde estou. Dona Abigail se aproxima e senta em silêncio. Seus movimentos são feitos com cautela. Antes de iniciar nossa conversa, minha mãe sonda qualquer tipo de expressão ou reação vindas de mim.
— Alice... — une as mãos sobre a perna. Assim como eu, quando está nervosa, mamãe costuma cutucar os dedos das mãos. Uma tentativa de controlar os ânimos. — Me perdoe por ter escondido a verdade de você! Nesse tempo todo eu me questionava se estava fazendo o certo, mas eu só estava enganando minha consciência, que na verdade era o próprio Espírito Santo me alertando.
Não emito nenhum som. Nem ouso me mexer.
— Eu errei! Errei feio e não tenho como voltar atrás. Foram 24 anos escondendo de você, sua verdadeira origem. Escondendo algo que poderia ter mudado completamente o rumo da sua história, caso viesse à tona. Me desculpa, filha! Por favor! — seus olhos marejam. — Eu sei que não há justificativas que te farão compreender, mas eu não pude te contar isso por causa de uma promessa que fiz há anos.
Olho para ela com incredulidade.
— O que foi? Prometeu a ele que jamais contaria à própria filha sobre o caso de verão que tiveram? — pergunto cética. — Ele te fez ficar de boca fechada para manter as aparências, não foi?
— O quê? Não! — nega rapidamente. — Não, Alice! Não seja injusta com o Charles, por favor. — abro a boca, mas ela continua. — Assim como você, ele não fazia ideia, até poucas horas, de que tem outra filha.
Aquilo me pega desprevenida. Imediatamente me lembro de todo julgamento precoce que fiz ao encontra-lo na porta da mansão. O arrependimento vem com tudo.
Ele não sabia...
— O que irei te contar agora, provavelmente, fará você me odiar pelo resto da sua vida. — engulo em seco. — Mas é necessário. — ela se ajeita no degrau, antes de continuar. — Tudo aconteceu no verão de 1994, quando minha irmã e eu viemos passar as férias com nossa mãe na residência dos Walker. Lembro-me como se fosse hoje. — abre um sorriso nostálgico. — Estávamos radiantes ao chegar na propriedade. Tudo aqui era completamente diferente das coisas que estávamos acostumadas a ver e ter na Irlanda, onde morávamos com nossa tia.
— Você é irlandesa? — sinto a raiva brotando. — O que você não escondeu de mim?
— Por favor, deixe eu terminar. — pede com paciência. — Nossa família era de lá. E apesar de ser bem pequena, éramos felizes. — solta um suspiro, antes de continuar. — Mas quando viemos para cá, ficamos encantadas com tudo o que vimos, principalmente a minha irmã. Na época, a sua avó era a cozinheira da família, assim como sou hoje. Ela vivia ocupada demais, então não tinha tanto tempo para nos controlar. E foi por esse motivo que conseguíamos andar pela propriedade livremente.
Ela fica em silencio por um tempo.
— Foi em uma dessas andanças que conhecemos o Robert, filho do antigo motorista da família. — seus olhos brilham de emoção. — Ele foi tão gentil e solícito conosco. Logo nos tornamos amigos inseparáveis. No entanto, essa amizade nos levou à outra, um pouco mais perigosa.
— O senhor Charles. — minha voz sai em um sussurro.
— Sim. — ela olha em volta, analisando o local onde estamos. — Nós o conhecemos bem aqui, na casa das canoas. — minha boca vai ao chão. — Estávamos admirando as canoas da família Walker, quando o herdeiro resolveu fazer um passeio de canoa e nos pegou no flagra. — solta uma risada baixa. — No entanto, o que nos deixou surpresos, foi o fato de ele ter sido tão simples e simpático. Por ser o herdeiro de uma das famílias mais ricas da Inglaterra, pensávamos que ele seria uma pessoa arrogante, mas estávamos enganos.
Os olhos dela fitam os meus com uma felicidade genuína.
— Apesar de não ser filho biológico do Charles, o Oliver é exatamente como ele. Possuidor de um coração enorme, puro. E mesmo tendo uma condição financeira muito boa, é humilde e acolhedor. Ele odeia injustiças e não suporta as diferenças sociais. Eles dois possuem muito em comum. — respiro fundo, controlando a emoção. — Enfim... Nós acabamos nos tornando um quarteto. E sempre nos encontrávamos aqui. — ergo as sobrancelhas. — Sim. Antes deste lugar ser o point de vocês, Alice, ele já foi o nosso também.
— Uau... — é tudo o que consigo falar.
— Com o fim das férias, tivemos que voltar para a Irlanda. Mas nós passamos a vir para Cambridge em todos os verões e invernos. E a cada ano que passava, mas forte nossa amizade ficava. — seus olhos perdem um pouco o brilho, e ela desvia o olhar. — Até que descobrimos que Charles era apaixonado pela minha irmã. E ela, quando soube, viu ali uma grande oportunidade de crescer na vida. De sair de vez da pobreza. Robert e eu tentamos convencê-la a não fazer isso, pois sabíamos que os sentimentos do Herdeiro dos Walker eram verdadeiros, diferente dos dela. Porém, ela não nos escutou, e acabou se envolvendo com ele.
Sinto imediatamente um sentimento de desprezo, mas permaneço em silêncio.
— Eles começaram a namorar, mesmo à distância. E por incrível que pareça, ela acabou se apaixonando por ele. Porém, o relacionamento dos dois era muito complicado, principalmente por causa dos pais do Charles. Eles não aceitavam de jeito nenhum o envolvimento dele com a filha de uma empregada. — ela fita o chão de madeira. — Em 1998 as coisas ficaram insuportáveis, e minha irmã terminou o namoro. Foi um momento terrível para ambos, mas principalmente para ela...
Minha mente começa a criar teorias de como minha mãe acabou se envolvendo com o ex-namorado da irmã. Nunca ouvira falar dela antes. As coisas devem ter ficado tão feias, que as duas nunca mais se falaram. O que era triste.
Desperto dos meus pensamentos quanto ela volta a falar.
— Apesar de estar arrasada, minha irmã voltou para a Irlanda decidida a nunca mais vê-lo. — mamãe ergue o rosto olhando bem no fundo dos meus olhos. — O que não esperava, é que ela levava dentro de si o fruto de um amor proibido. — sinto o momento exato em que o chão debaixo de mim começa a rachar, ao me dar conta do que ela está falando. — Assim que chegou em casa, ela descobriu que teria um filho de Charles Walker. Que estava grávida de você, Alice.
Um som de surpresa sai dos meus lábios, ao mesmo tempo em que as lágrimas embaçam minha visão. Seus soluços não me comovem, devido meu estado entorpecido. Tudo o que faço é mirar o teto e deixar as lágrimas rolarem.
Abigail Green não é a minha mãe biológica.
— Sinto muito, Alice! — sinto seu toque em minhas mãos. Isso me faz abaixar o olhar.
— Você não é a minha mãe? — a voz sai chorosa. Uma dor gigantesca esmaga o meu coração.
Ela segura meu rosto enquanto tenta controlar as próprias emoções.
— Alice, você é a coisa mais importante desse mundo para mim. Eu a amei desde o momento que descobrimos sua existência. Dei o meu melhor para cuidar de você, amá-la e educa-la como se fosse minha. Sabe bem disso! — ela nega com a cabeça. — Mas não, não sou sua mãe biológica. — um novo soluço doloroso escapa dos meus lábios, e eu sinto o corpo desfalecer. Ela me abraça com força. — Você pode não me perdoar por ter escondido isso de você, mas sempre será a minha filhinha! Sempre serei sua mãe, Alice! Sempre!
— Não, mãe! — aperto seu corpo com força. — Não!
— Me desculpe por estar te fazendo sofrer, minha menina! Me desculpe, por favor! — nossos choros e gemidos se misturam por um longo tempo.
Afasto-me dela, enxugando as lágrimas, em meio às fungadas.
— Onde ela está? Por que me abandonou? Por que entregou a própria filha para a irmã cuidar? — a tristeza, aos poucos, estava sendo substituída pela raiva.
Ela segura minhas mãos e volta a ficar séria.
— Alice, após descobrir sobre a gravidez sua mãe ficou mal. Muito mal. Não por sua causa, querida. — ela acaricia meu rosto. — Ela te amava tanto... Você foi o melhor presente que ela poderia ter recebido, palavras dela. O que a minha irmã mais queria era ver o seu rostinho. Ouvir o seu chorinho e te carregar no colo... Mas era tanta tristeza e decepção pelo rompimento com o Charles, os sonhos destruídos e planos frustrados, que ela acabou desenvolvendo anemia durante a gravidez. Como não tínhamos recursos suficiente na época, não foi identificado da maneira correta. A gente sabia que ela não estava bem e que tinha emagrecido demais, mas não sabíamos o que acontecia realmente. Então...
Tapo a boca com uma das mãos, abafando os soluços. Ela fecha os olhos com força, e quando volta a me encarar, mais lágrimas rolam, mas a voz está um pouco mais controlada.
— Devido seu estado debilitado de saúde, ela não resistiu e morreu durante o parto. — fecho os olhos. — Parecia que ela sentia que ia partir, pois uma semana antes me pediu que cuidasse de você como sendo minha própria filha, caso algo acontecesse com ela. E me fez prometer que jamais, em hipótese alguma, eu contaria ao Charles sobre sua existência. Ela nunca me explicou exatamente os motivos, mas todas as vezes que tocava no assunto, dava para ver o pavor em seus olhos. Um dia, durante um sono agitado, ela falou algo sobre sua vida estar em perigo, então eu tive que prometer, Alice! Eu precisei!
— E... — volta a encará-la. — E como eu vim parar aqui? Logo no lugar onde, aparentemente, estaria em perigo.
— Robert. — solta um suspiro pela boca. — Após descobrir sobre a morte da filha, mamãe sofreu um ataque cardíaco e faleceu. Ele veio me dar a notícia pessoalmente e ver como eu estava. Foi aí que descobriu sobre você. Então tive que contar toda a história. Após escutar, ele me fez uma proposta que uniria o útil ao agradável. Seu pai... o Robert, me pediu em casamento, dizendo que assumiria a sua paternidade comigo. Para qualquer um que visse, Alice, pensaria que eu tinha engravidado dele, afinal de contas, nós também estávamos apaixonados.
Ela abre um sorriso fraco, dando de ombros.
— As únicas pessoas que sabiam a verdadeira história, uma estava morta, e a outra, nossa tia, estava muito velha. Então ninguém saberia de nada, se não contássemos. Além do mais, não tinha condições suficiente para sustentar uma bebê recém-nascida. Provavelmente teria acontecido o que dona Gianna falou na cozinha: se não fosse pelo Robert, estaríamos morando debaixo da ponte.
— E como essa mulher soube? Como logo ela foi descobrir? — isso me intrigava.
— Quando voltamos para cá, logo após nos casarmos, descobri que Charles estava noivo de uma mulher. Filha de algum amigo da alta sociedade. Essa mulher era a dona Gianna. Eles se casaram pouco depois, não por amor. Creio que da parte dele foi mais por pena, pelo que tinha acontecido com o pai do Oliver. Da parte dela, você já deve saber... — assinto.
Sempre foi nítido seu amor pelo status e poder.
— Mas ela só foi descobrir a verdade cerca de cinco anos depois, praticamente da mesma forma que você. Escutou uma conversa que estava tendo com o Robert. Na época, você e o Oliver já costumavam brincar juntos, e isso me incomodava bastante, principalmente por causa da proximidade com a família Walker. O Robert não via problema. E foi exatamente sobre o medo de descobrirem sua origem, que estávamos conversando quando ela escutou. Desde então ela vive nos ameaçando, mesmo eu garantindo que nunca iríamos contar nada. Por um tempo as coisas ficaram mais tranquilas, ela se deu conta de que não iríamos falar nada. Mas quando percebeu os sentimentos do filho em relação a você, ficou maluca.
— Gianna queria que você me convencesse a me afastar do Oliver e ameaçou te colocar para fora daqui, não foi? Era sobre isso que estavam conversando hoje.
— Sim.
Nego com a cabeça e miro o teto. São muitas informações que precisam ser digeridas e entendidas. Estava prestes a dizer isso em voz alta, quando meus olhos param na canoa do senhor Charles. Mais precisamente nas iniciais gravadas na madeira. De acordo com Oliver, segundo o próprio pai, eram as iniciais de seu grande amor.
— Qual era o nome dela? — pergunto sem desviar os olhos das iniciais M.C.
— Margaret Clarke. — ao mesmo tempo em que a dor aperta o meu peito, sinto uma emoção ao saber que minha mãe foi o grande amor da vida dele. Do meu pai.
— Eu... — volto a olhar para a mulher a minha frente. — Eu preciso de tempo para pensar em tudo isso. Espero que entenda.
— É claro que entendo! — ela segura minhas mãos mais uma vez. — Entendo e espero que você faça o mesmo, afinal de contas, já esteve em minha posição.
Suas palavras não foram ditas com a intenção de me ferir, mas elas foram como um grande e doloroso tapa em minha cara. Ela tinha razão. E isso só me fez imaginar como teria sido um futuro em que Oliver não soubesse da existência da filha. Fecho os olhos, tentando não pensar.
— Tem razão! Mas ainda assim, preciso de tempo. — recolho as mãos.
— Tudo bem. — ela se levanta, cogita me dar um beijo, mas logo desista da ideia.
Sem dizer palavra alguma, ela sai da cabana, deixando-me sozinha novamente.
Levanto da escada e sigo até a canoa mais bonita de todas e toco as inicias do nome da minha mãe, com as pontas dos dedos. Escuto passos se aproximando, mas não preciso olhar para saber que Oliver está aqui. Enxugo as lágrimas e me viro para ele, com um sorriso curto.
— Pelo menos descobrimos quem foi o grande amor dele.
Olie analisa o meu rosto por alguns segundos, antes de me puxar para os seus braços. O único lugar onde não há dúvidas e tristezas. Apesar de tudo o que vivemos, ele continua sendo uma das poucas certezas de Deus para minha vida.
>>>><<<<
Se eu costumasse nomear os capítulos, este, com certeza, seria chamado: REVELAÇÕES. E aí, o que acharam?? Alguém esperava por isso?? 😬 Bom, já sei que irão me pedir capítulos novos, mas hoje é a minha vez de fazer um pedido. Eu sei que quando a gente lê uma boa história, tudo o que queremos é passar para os próximos capítulos, e eu espero que esta esteja sendo uma boa história para vocês. Mas aqui, quanto mais você vota nos capítulo, ou seja, quanto mais você clica na estrelinha, mais o Wattpad vai identificar que a história é boa. Dessa forma, ele começa a compartilhar com mais pessoas. Então meu pedido é: não esqueçam de votar nos capítulos, por favor, gente! Eu sempre costumo me esforçar e dar o meu melhor para publicar constantemente. Vocês sabem disso. Tudo o que eu peço é algo extrema simples de se fazer ⭐️
Segunda estamos de volta, se Deus permitir!
Att.
NAP 😘
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