Capítulo 5

Sentada na cama, de pernas cruzadas, encontro-me em um dilema interno: ler a bíblia ou não.

A verdade é que, em meu íntimo, estou bem desacreditada com as coisas que dizem respeito a Deus. Não que eu não creia na existência de um ser supremo que criou o mundo inteiro; ou de que Ele entregou o seu filho unigênito para morrer em nosso lugar, por nos amar. Eu tenho convicção disso tudo.

Porém, muitas coisas têm acontecido. Muitas situações que me fazem questionar se esse mesmo Deus, realmente, se importa comigo, ou com a minha mãe. Eu sei que a resposta desse questionamento está na morte de cruz. Mas é inevitável pensar que Ele não está nem aí. Pelo menos não conosco.

Minha mãe sempre foi uma mulher de fé. Me criou no caminho do Senhor, e eu sou extremamente grata por isso. Dona Abigail me ensinou a ser uma pessoa direita, honesta, justa, temente a Deus e fiel. Por isso tenho tentado, de todo o coração, não me entregar à descrença e à falta de fé. Mas tem sido difícil...

Pego a bíblia. Entretanto, não faço ideia de em que livro devo abrir.

— Será que pelo menos eu poderia ouvir a sua voz? — abro o conjunto de livros, e de lá cai um pedaço de papel em cima do edredom. Pego-o e leio. Is 55.6 — Obrigada?

Uno as sobrancelhas e abro no livro de Isaías. Começo a meditar no capítulo inteiro para entender o contexto, como nosso pastor nos ensinou, certa vez. Atento-me, porém, no versículo 6 que diz: "Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto."

Fecho o livro, ainda com aquelas palavras em minha mente, e o coloco na mesa de cabeceira. Estava me ajeitando para deitar quando batidas na janela me fazem pular.

Com certo receio, mas juntando coragem, levanto da cama e sigo até lá. Abro a cortina e me deparo com Oliver. Ao me ver, ele dá um sorriso sem graça. Abro uma das folhas de vidro, com os olhos crispados.

— O que faz aqui? — pergunto em baixo tom.

— Você não foi nos encontrar hoje. Fiquei preocupado. — abraço meu corpo, por causa da brisa fria da noite. Apesar do pijama de moletom, ainda sinto o frio. — Espero que não tenha ficado chateada pelo que aconteceu mais cedo. — apoio-me no peitoril, desviando o olhar para a roseira que tem ao lado da minha janela.

— Não estou! — nego com a cabeça. — Apenas estou cansada e... — mordo os lábios — Com muita coisa na cabeça.

Sua mão gelada toca o meu braço. Nossos olhares se encontram.

— Se quiser conversar, estou aqui!

— Eu quero! — não sei de onde a resposta saiu. Só sei que no instante seguinte estava pulando a janela, com a ajuda de Oliver, e caminhando pelas sombras das árvores.

Trilhamos o percurso até a casa das canoas em silêncio. Segundo ele, Bruce e Jully já tinham voltado para a mansão.

— Que diferença! — esfrego as mãos ao entrar na construção de madeira.

— Não está tão quente, por não ter uma lareira ou aquecedor, mas a madeira ajuda a manter o calor aqui dentro por mais tempo.

— Obrigada pela informação, senhor nerd. — digo e ele ri.

Subimos para o mezanino. Não perdi tempo e me joguei debaixo de um dos edredons.

— Então, — Oliver pergunta após se unir a mim. Com o seu próprio edredom, é claro. — o que está acontecendo?

— São os meus pais. — encaro minhas mãos. — Mais precisamente o meu pai. Ele tem sido um homem terrível. Não só como pai, mas principalmente como marido.

— Não consigo imaginar o senhor Green sendo um homem terrível. Ele tem traído a sua mãe? — olho para ele. — Digo, eu tenho visto ele saindo de carro a maioria das noites.

— Se ele está a traindo ou não, eu não sei. Mas ele sempre volta bêbado. Não sei como consegue se recuperar tão rápido, mas no dia seguinte está de pé, e se duvidar, melhor do que nós.

— Uau! Vou pegar umas dicas com o seu pai. — olho feio para ele. — Brincadeira! Você sabe que eu não bebo.

— Eu sei que você não bebia. — nos encaramos por um tempo.

— Ainda sou o mesmo, Alice. Só mudei de país. — solta um suspiro, antes de me incentivar a continuar. — Mas o que ele tem feito de tão terrível?

— Ele tem agredido, fisicamente, a minha mãe.

— O QUÊ? — Oliver senta mais ereto.

— Ele se tornou um homem violento. Sem sentimentos e paciência. Todas as noites se afoga na bebida e age como se não existíssemos para ele. Quando a gente abre a boca para falar qualquer coisa, ele sai de si. — apoio a cabeça na parede de madeira. — Sinto que não o conheço mais.

— Eu... Nem sei o que dizer, Alice. Eu realente estou chocado! — bagunça os cabelos crescidos. — E você? Ele já encostou em você?

Dou uma risada amarga.

— Ele é o meu pai. Se encostasse um dedo em mim não teria problema. — dou de ombros. — Mas não. Apesar de que, na noite em que você voltou, nós tivemos uma discussão por causa da faculdade. Eu não me controlei e o respondi. Se não tivesse corrido para o quarto, talvez estaria com umas boas marcas hoje. — sinto outro arrepio.

— Já pensaram em denuncia-lo? — observa meu rosto com atenção.

— Minha mãe se recusa. — sinto a revolta tomar conta de mim. — Só espero que não seja por religião.

— Sua mãe é uma mulher de fé, Alice, mas não creio que esse seja o motivo. — diz com cautela. — Ela deve ter os próprios motivos.

— Está defendendo uma crente? Logo você, que nunca curtiu esse lance de religião. — ergo uma sobrancelha.

— Posso não ser religioso, mas eu acredito em Deus. E conheço a sua mãe. — sorri de lado. Mas logo o sorriso é desfeito. — Infelizmente, se ela não quer fazer isso, não podemos obriga-la. Continue conversando com ela, talvez com o tempo, e com a insistência, ela mude de ideia.

— Farei isso.

— E se precisarem de mim, não tenha receio de me chamar. Se ele encostar novamente a mão em sua mãe, ou em você, fale comigo. — Oliver vira, ficando de frente para mim. — Entendeu, Alice? — assinto, admirando seus olhos. — Eu não sei o que faria se ele encostasse em você. — engole em seco. — Mesmo sendo o seu pai.

— Não vai acontecer! — nossos dedos se tocam.

Ele pigarreia e volta para o lugar.

— Falando em pai... — silêncio. — O meu finalmente resolveu me procurar, quando cheguei nos EUA.

— Sério? — agora sou eu quem me viro para ele, ansiosa por mais informações.

Este era um dos assuntos mais sensíveis para Oliver. Apesar de considerar Charles Walker como pai, ele sempre teve consciência de que o seu pai biológico os abandonara pouco tempo depois de ter nascido, e se mudou para o Canadá. Após isso, eles nunca mais se viram ou se falaram. A única forma de participar da vida do filho, era através da pensão.

Quando dona Gianna se casou com o senhor Walker, ele passou a cuidar do pequeno Oliver como se fosse dele mesmo. Nunca houve distinção entre a criação dos dois filhos. E o senhor Charles sempre foi um pai carinhoso e amoroso.

— E o que ele queria exatamente? — é nítido a minha curiosidade e animação. Já a do homem ao meu lado...

— Ver o filho. — revira os olhos — Saber como eu estava. Como iam as coisas na faculdade. Agiu como se ele nunca tivesse me abandonado. Eu nem o reconheci, Alice, pois nunca tínhamos nos visto antes.

— Sinto muito! — toco sua mão e ele suspira.

— Sabe, eu não contei sobre isso a ninguém. — fico surpresa com sua revelação.

— E por que contou para mim? — uno as sobrancelhas.

— Porque sempre foi fácil conversar com você, Alice. Qualquer assunto sai naturalmente. Pode ser o mais doloroso, com você ele se torna mais... suportável. — nossos olhos parecem dois imãs. — Eu sei que já faz alguns anos, mas isso não muda. E sinceramente, sentia falta disso. Das nossas conversas.

— Por que se afastou tanto? — não resisto, preciso matar minha curiosidade. — Por que só voltou agora?

— Você sabe o porquê. — sua voz se torna baixa e sério. Seu olhar intenso me deixa completamente desconcertada. Sim, eu sei o motivo.

Desvio os olhos para o teto.

— Quanto tempo ficará por aqui? Sua namorada deve estar sentindo sua falta.

— O verão inteiro. — diz de forma mais suave. — E eu não tenho namorada, Alice. Não mais. Como soub... Ah! Jully.

— Ela me conta tudo. — olho sorrindo para ele. — A Ju sente muito orgulho de você, Oliver. E também sente muito a sua falta.

— Ela é tudo para mim. Ficar longe dela tem sido horrível, mas suportável. Principalmente depois que conheci o Bruce.

— O americano parece ser uma boa pessoa. — comento dando um bocejo longo, desfazendo o contato de nossas mãos, que ainda estavam unidas.

— Uma ótima pessoa! — Oliver se levanta e estende a mão em minha direção. — Venha, vou te levar para casa.

— Eu tenho pernas. — balanço os membros inferiores e ele ri.

— Eu sei, engraçadinha! — descemos a escada em silêncio.

— Essas canoas do senhor Charles são lindas. Em especial esta. — toco a madeira muito bem envernizada.

— É a favorita dele. — passa o dedo pela letra "C", entalhada na madeira. — E agora eu já sei o significado destas iniciais.

— O que significa M.C.? — sorrio, tocando a letra "M".

— As iniciais do grande amor do meu pai. — arregalo os olhos, espantada com a descoberta.

— Mas não são as inicias do nome da sua mãe. — ele nega e sorri. — Isso significa...

— Que ela não é essa pessoa.

— Uau! — pisco algumas vezes e volto a caminhar. — Isso é estranho. E como você descobriu?

— Ele me contou. — abre a porta da cabana e me dá espaço. — Apesar da distância, temos conversado bem mais do que na época em que ainda morava aqui.

— E você se importa com isso? — abraço o meu corpo, por causa do frio. Ele franze o cenho e nega com a cabeça.

— Claro que não! Jamais o condenaria por isso. Nós não mandamos no coração, Alice. Quando ele decide amar alguém, é difícil fazê-lo esquecer essa pessoa. — dá um sorriso fraco, mas seus olhos perdem o brilho, revelando a tristeza.

Concluímos o caminho em silêncio, cada um com seus pensamentos. Ao chegar na janela do meu quarto, abro-a, apoio as mãos sobre o peitoril e dou impulso para me erguer, porém, Oliver segura minha cintura e me ergue com facilidade, sentando-me no peitoril.

— Entregue, mocinha! — desta vez seu sorriso chega aos olhos. — Como nos velhos tempos! — fito minhas mãos, unindo os lábios. — Boa noite, Alice! Tenha bons sonhos! — assinto e ele se afasta.

Ergo a cabeça e o chamo baixo, mas o suficiente para ele me escutar.

— Oliver! — ele vira para mim, com expectativa. — Obrigada por me ouvir! — coloco uma mecha atrás da orelha e dou um sorriso sincero. — Boa noite! — viro o corpo para dentro do quarto e fecho a janela. O coração batendo acelerado no peito.

Com o mesmo sorriso no rosto, retiro o sapato e me deito, debaixo das cobertas. E é pensando nas conversas que tivemos essa noite, no sorriso e nos olhos de Oliver, que acabo caindo no sono.

>>>><<<<

Boa noite, pessoal! Mais um capítulo entregue 🥰

Att.
NAP 😘

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top