Capítulo 37
— Mamãezinha! — Bon aparece na porta do meu quarto com cara de sono.
— Oi, amorzinho! — amo quando ela me chama de mamãezinha. — Venha cá! — convido-a para a cama.
— Não estou conseguindo dormi. — coloco o creme de corpo na mesa de cabeceira e puxo Bonnie para o meu colo.
— E por que não está conseguindo dormir?
— Por causa do papai. — solta um suspiro cansado.
— Do papai? — franzo o cenho com um sorriso no rosto e olho para ela. — E o que o Oliver fez?
— Sabe o que é? Toda vez que durmo com o papai, ele lê a bíblia para mim. E agora eu não estou conseguindo dormir sem ouvir uma história da bíblia. — sou pega de surpresa.
— Uau! Isso é novidade!
— O papai disse que você poderia ler para mim.
— Ah, ele disse, é? — ergo uma sobrancelha.
— Você tem uma bíblia, mamãe? — seus olhos verdes me olham com curiosidade.
— Er... Eu... — olho dela para a porta do quarto de Anthony, mas desisto da ideia. — Quer saber, eu tenho uma bíblia sim. — ponho Bonnie no colchão e saio da cama. — Deve estar por aqui, em algum lugar... — pego uma caixa de dentro do guarda-roupa e apoio na cama. Ela se aproxima, curiosa para saber o conteúdo.
— O que são essas coisas?
— Lembranças, filhas. — retiro alguns objetos da caixa até encontrar minha bíblia antiga no fundo. — Achei! — pego o conjunto de livros e o contemplo por alguns segundos.
— A sua bíblia é grandona, deve ter mais histórias do que a que o papai me deu. Oba! — comemora, voltando para perto da cabeceira. — Qual você vai contar, mãe?
— Quais histórias o papai já te contou? — uno-me a ela.
— A criação, a arca de Noé, o nascimento de Jesus. E teve uma de um menino que não morreu. Mas era para ele morrer. Aí os papais dele colocaram ele em um cestinho e depois colocaram no rio. — abro um sorriso ou ouvir sua descrição.
— Moisés!
— Isso! Moisés! — acaricio seu cabelo.
— E Davi? Já ouviu falar sobre ele? — deixo que ela pense o tempo que for preciso.
— Não me lembro. Acho que não. — diz por fim.
— Então será essa história!
Abro a bíblia, folheando-a nostalgicamente. Há anos não tocava neste livro. As preciosas palavras que conduzem o homem ao caminho certo e o ensina a permanecer.
— O que é isso mamãe? — Bon pergunta, retirando um dos vários papeis que eu guardava, como minhas anotações de estudos e devocionais.
— Deve ser algum estudo que fiz, querida. — ela pega e tenta ler.
— Is 55 ponto 6. — lê, fazendo uma careta em seguida. — O que significa isso?
— É uma passagem bíblica, amor. — pego o papel de sua mão e, ao vê-lo, lembro-me imediatamente qual é o versículo, pois o li da última vez que fiz minha oração sincera, pedindo que Deus falasse comigo diante de todo o coas que estávamos enfrentando com o meu pai. — Isaías, capítulo 55 e versículo 6: "Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto." — sussurro a última parte para mim mesma.
— O que quer dizer? — olho para ela, surpresa por sua verdadeira curiosidade acerca das escrituras.
— Bem, — fito o papel em minhas mãos antes de continuar. — esse foi um convite feito pelo profeta Isaías, um homem usado por Deus para falar com o Seu povo. Principalmente sobre o plano de Deus para restauração e salvação do seu povo, por meio de Jesus. — Bonnie presta atenção em cada palavra dita por mim, mesmo não entendendo nada. — O versículo que eu citei, é um convite feito pelo profeta, e ele significa que o tempo da salvação é hoje. Agora! A graça de Deus está disponível e o chamado do Evangelho se estende a todos, mas isso não será para sempre. Chegará um tempo em que os homens irão busca-lo, mas não irão encontra-lo, pois a porta estará fechada. — digo a última parte recordando-me da parábola das dez virgens.
— Nossa, mamãe! Eu quero buscar a Deus então, antes que a porta se feche!
— E você irá, meu amor!
Com os olhos marejados, aliso sua bochecha. Bonnie deita em minha perna, fazendo leves carícias no local. Resolvo abrir no livro de 1 Samuel e começar a contar a história de Davi. Diferente do que eu imaginava, minha filha não pegou no sono. Pelo contrário. Ficou alerta em todo o tempo, e em cada parte da história uma dúvida surgia. Tentei explica-la de forma simples e objetiva, mas Bonnie queria mais, nunca estava satisfeita. Isso me assustou no primeiro momento, mas logo percebi que poderia ser o início do trabalhar do próprio Deus na vida da minha menina.
Mas eu tive a confirmação ao finalizar a história, quando Bon, ignorando por ora a história de Davi, questionou-me sobre Isaías.
— Mamãe, Deus usou o profeta Isaías. — seus olhos sonolentos encontram os meus. — Ele pode me usar também?
Abro a boca, sem saber ao certo o que falar diante de sua pergunta. Por fim, dou um sorriso e assinto.
— É claro, filha!
— Que bom! Porque eu quero. — Bonnie levanta da minha perna, beija a minha bochecha e sai da cama. — Boa noite, mãe! Obrigada por ler a bíblia para mim. Agora posso dormir.
— Boa noite, lindinha! Eu te amo!
Fico observando o local por onde ela saiu, analisando os últimos acontecimentos. Penso em mandar uma mensagem questionando Oliver o porquê de ele ter feito isso, mas era bem provável que ele se fizesse de desentendido. Resolvo, então, colocar a bíblia na mesa de cabeceira e ir dormir, afinal de contas, já passava das dez.
O sono que sentia parecia ter evaporado. Virava de um lado para o outro, mas sem consegui dormir. Tentei contar carneirinhos, pensei em coisas boas e até me permiti sonhar um pouco acordada, mas nada adiantou.
Cansada de continuar deitada, acendo a luminária ao lado da cama e me deparo com a bíblia. No mesmo instante, sinto um fogo arder no meu peito. Contrariando todas as minhas lógicas atuais, pego o objeto, sento-me na cama e começo a folheá-lo novamente.
A palavra do próprio Deus estava ao meu alcance em todos esses anos, mas nunca me sentia digna de ouvi-lo falar comigo novamente. As acusações dos meus erros estão estampadas diante de mim, constantemente, como um lembrete de como fui infiel e desobediente. E por um instante, esses sentimentos me fazem fechar a bíblia e coloca-la de volta à mesa de cabeceira, mas o fogo que arde em meu peito se intensifica. Então eu a pego novamente.
Em meio a guerra travada em meu coração e mente, sentimento e razão, abro no Salmo 51. Não faço ideia do porquê de ter aberto lá, mas ao começar a ler, tudo faz sentido. E logo as lágrimas começam a rolar.
"Por causa do teu amor, ó Deus, tem misericórdia de mim. Por causa da tua grande compaixão apaga os meus pecados. Purifica-me de todas as minhas maldades e lava-me do meu pecado. Pois eu conheço bem os meus erros, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti eu pequei —somente contra ti — e fiz o que detestas. Tu tens razão quando me julgas e estás certo quando me condenas. De fato, tenho sido mau desde que nasci; tenho sido pecador desde o dia em que fui concebido. O que tu queres é um coração sincero; enche o meu coração com a tua sabedoria. Tira de mim o meu pecado, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir outra vez os sons de alegria e de felicidade; e, ainda que tenhas me esmagado e quebrado, eu serei feliz de novo. Não olhes para os meus pecados e apaga todas as minhas maldades. Ó Deus, cria em mim um coração puro e dá-me uma vontade nova e firme! Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu santo Espírito. Dá-me novamente a alegria da tua salvação e conserva em mim o desejo de ser obediente."
As lágrimas se misturam aos soluços. Este salmo foi escrito depois que o profeta Natã falou com o rei Davi sobre o pecado que ele tinha cometido com Bate-Seba. Uma oração tão sincera, vinda de um coração quebrantado e, verdadeiramente, arrependido. Como eu queria erguer a voz e dizer todas as palavras de Davi. Fazer de sua oração, a minha. Mas a batalha em minha alma estava sendo travada, e tudo o que consegui dizer, em apenas um sussurro, foi:
— Espírito Santo, — as lágrimas não param, molhando as folhas finas da bíblia em minhas mãos. — receba a minha oração através deste salmo. — um nó se forma em minha garganta, mas eu continuo. — Por favor!
Fecho o livro e jogo o cobertor para o lado. Nem me preocupo em colocar as pantufas ou vestir o robe, simplesmente corro para o quarto de Anthony. Abro a porta, sem bater, e sigo até sua cama. Ele dorme tranquilamente de bruços.
— Thony! — chamo, tacando em seu ombro. — Thony, acorda!
— Hum? — ele ergue a cabeça assustado. — Ali? — meu amigo senta na cama e liga o abajur. Ao ver meu estado e as lágrimas que ainda caíam, ele levanta com rapidez. — O que aconteceu? Onde está a Bonnie?
Seguro seus braços quando ele tenta passar por mim.
— Está tudo bem! A Bonnie está dormindo! — tento acalmá-lo. — Me desculpe por ter te acordado assim, mas...
— Mas o que, Alice? Está me assustando.
— Eu aceito fazer a viagem! Precisamos ir à França visitar a sua mãe. — suas sobrancelhas se unem, mas logo Anthony compreende onde quero chegar. Ele abre um sorriso largo antes de me envolver em um abraço apertado.
— Vamos comprar as passagens agora mesmo!
>>>><<<<
E não é que teve capítulo extra para completar a maratona?! kkkkk Até segunda, pessoal!
Att.
NAP 😘
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