Capítulo 35

Saímos da casa por volta de oito horas da manhã. Bonnie estava super animada, cercada por pessoas que a paparicavam de todas as formas possíveis. No momento, ela está andando de mãos dadas com o avô, que conta algumas histórias sobre suas aventuras com a canoagem.

— Nunca imaginei que o meu pai seria um avô tão coruja. — Jully comenta ao meu lado.

— Ele é ótimo! — digo.

— Oh, por favor, não o deixe ouvir isso! — a caçula resmunga com um ar brincalhão.

— Tarde demais, querida! — senhor Charles diz, olhando para nós por sobre o ombro, com um sorriso largo no rosto.

Seu comentário nos faz rir. Chegando ao lago, Bon insiste em ir com o avô, para a minha infelicidade, pois sobraria apenas uma pessoa para me fazer companhia.

— Está pronta? — Oliver se materializa ao meu lado.

— Sim. — ele nos conduz à nossa canoa.

Jully e Bruce estavam em uma canoa na cor verde claro. Bonnie e o avô estavam na amadeirada, muito bem envernizada. A favorita do senhor Charles, a que contém as iniciais de seu grande amor cravadas na lateral. A nossa era em um tom de verde escuro, bem lustrada e elegante, mas não tanto quanto a do patriarca.

Entro na canoa com o auxílio de Oliver. Posiciono-me em uma das pontas, e ele na outra. Ele me entrega um remo e me instrui a fazer os movimentos da forma correta. Logo estamos nos afastando da margem. De início, permanecemos em silêncio. Cada um com seus próprios pensamentos.

Apesar de estar cedo, a temperatura ainda estava baixa, mas permanecia agradável. Às vezes o sol aparecia entre as nuvens, permitindo que alguns poucos raios solares chegassem até nós. O som dos remos em contato com a água era relaxante. E os pássaros cantavam sem parar ao nosso redor, algo que não escutava há anos.

Em determinado momento, eu apoio o remo na canoa e fecho os olhos, focando nos sons da natureza, no contato da brisa gelada com minha pele, e na paz. Esta, com toda certeza eu não sentia há muito tempo. Aos poucos fui sentindo uma leveza nos ombros, uma felicidade no peito.

Abro os olhos apenas quando ouço a risada da minha filha ao longe, só então noto que estamos parados. Olho para Oliver e percebo que seus olhos estão fixos em mim.

— O que foi? — questiono.

— Há quanto tempo você não fazia isso? — inclino a cabeça para o lado e franzo o cenho.

— Isso o quê?

— Tirar um tempo para descansar? Não me entenda mal, mas você tem estado com um semblante cansado desde o momento em que nos reencontramos. — isso me faz dar um sorriso triste.

— Não sei ao certo, — observo o movimento da água ao nosso redor. — mas acho que desde o momento em que tranquei a faculdade e comecei a trabalhar. Há quase quatro anos. — sussurro a última parte.

— Você trancou a faculdade? — volto a encará-lo. Oliver me olha com surpresa.

— Precisei fazer isso. Não queria ser um peso para o Anthony, ele já estava fazendo tanto por nós.

Oliver fica em silêncio por um tempo, digerindo as informações.

— Ele parece ser um cara legal!

— Ele é incrível! — digo com sinceridade.

Vejo-o avaliar as próximas palavras antes de voltar a falar.

— Vocês estão juntos desde a última vez que nos vimos, naquela balada? — fico surpresa por ele se recordar do meu amigo em nosso último encontro, há praticamente cinco anos.

— Acho que este é o momento perfeito para esclarecermos algumas coisas. — sorrio, mas dou uma olhada rápida nas outras canoas. Então continuo. — Parece que você entendeu as coisas erroneamente. Anthony e eu somos apenas amigos. — as sobrancelhas de Oliver se erguem. — Quando descobri que estava grávida e decidi... — uno os lábios com força. — não contar para você, ele se ofereceu para me ajudar em tudo. — sondo seu rosto, mas não vejo nada. Zero expressão. Esse novo Oliver era frustrante demais. — Como você sabe, o meu pai e eu estávamos brigados. Então não tinha como contar com ninguém, financeiramente falando.

— Não precisava ter sido assim.

— Eu sei! Mas foi assim que aconteceu. Por escolha minha. — Inspiro e solto o ar pela boca. — Ele se ofereceu para me ajudar em todos os gastos que teria com médicos, parto e com a Bonnie ao nascer. — apoio os braços no remo e volto a fitar o movimento da água, lembrando-me do passado. — Eu não fazia ideia de como seria quando a Bonnie nascesse, pois eu morava no dormitório da faculdade, e lá não era permitido a presença de crianças, por motivos óbvios. Mas depois de alguns meses eu fiquei tão feliz com a ideia de ter um bebê que não me importei com esses detalhes, sabe?

Ele não responde, mas sua atenção está totalmente voltada para mim.

— Uma semana antes da Bonnie nascer, a sua irmã descobriu sobre a gravidez, e desde então se disponibilizou em me ajudar também. Ela enfiou na cabeça a ideia de que deveríamos morar juntas no próximo ano, quando ela começaria a faculdade. A ideia até me agradou, mas assim que dei à luz, ao sair do hospital, o Anthony me levou para o apartamento em que moramos hoje. Naquele momento eu não entendi, então ele me disse que aquele seria o nosso novo lar. O meu, da Bonnie e dele. — volto a olhar para o homem a minha frente. — Desde então estamos morando juntos.

— Ele mal te conhecia. — diz após um tempo. — Devia mesmo gostar de você. — uma gargalhada sai dos meus lábios. — O quê?

— A nossa relação é totalmente fraternal, Oliver. Para ser sincera, teve um período durante a gravidez, onde algo aconteceu. — meneio a cabeça, sorrindo. — O Thony descobriu que a Harper começou a namorar sério, isso despedaçou o seu coração. Eu estava com os hormônios completamente alterados e a gratidão que eu sentia contribuiu para eu pensar que estava sentindo algo por ele. Então naquela noite nós nos beijamos. E não passou muito disso, pois ele é como um irmão para mim, e eu como uma irmã para ele. Além do mais, Anthony é apaixonado pela nossa outra amiga, a Harper. E eu... — engulo em seco. Desvio meus olhos dos seus, fitando minhas mãos.

— O que tem você, Alice?

— Eu estou destruída por dentro. — minha voz sai baixa.

— Não diga isso! — ergo o rosto e ofereço um sorriso sem mostrar os dentes, mas decido mudar de assunto.

— Em relação ao trabalho, receio que também tenha entendido errado. Eu trabalho na EngiCorp, mas não como engenheira. Sou a assistente da Harper. Ela é a engenheira ambiental da empresa. — dou de ombros. — Resumindo: Eu me tornei mãe solteira aos dezenove; fiz a maior burrada de não ter contado sobre a gravidez ao pai da minha filha; tranquei a minha faculdade de engenharia mecânica; tenho um trabalho que odeio; fiquei sem falar com o meu pai até, literalmente, a sua última hora de vida; não possuo um dia de paz desde que me afastei do Senhor; e para fechar com chave de ouro, me recuso a receber o perdão pelo que fiz com o pai da Bonnie. — sinto os olhos marejarem, mas consigo me controlar. Abro um sorriso e concluo. — Esta é a minha nova vida!

Oliver me observa em silêncio. Seu olhar não desgruda do meu um segundo sequer, nem mesmo quando Bonnie chama por nós. Ele respira fundo antes de quebrar o silêncio.

— Esse ainda não é o fim! — apenas balanço a cabeça em concordância.

Bonnie nos chama novamente. Sou a primeira a quebrar o contato visual e olhar em direção ao barco do senhor Charles. Ergo os braços e aceno para ela, que começa a fazer o mesmo. Oliver se une a nós.

— Ela foi a única coisa boa que me aconteceu. Mesmo sem merecer, diante de tantos erros, o Senhor foi muito misericordioso comigo!

— Conosco! — olho para ele, mas Oliver continua acenando para a filha, com um sorriso genuíno nos lábios. Quando Bonnie se distrai com outra coisa, ele volta a me encarar. — Você não foi a única que cometeu erros. Eu fiz muitas coisas das quais me arrependo amargamente. Ainda não tive a chance de ter essa conversa com você, mas talvez este também seja o momento ideal para isso.

— Sou toda ouvidos. — volto a apoiar meus braços no remo.

— Eu quero te pedir perdão pelo que fiz na casa das canoas. — o assunto me deixa um pouco desconcertada, mas tento permanecer tranquila. — Ao longo desses anos, eu não tive paz acerca desse assunto, até que me converti e fui perdoado. Levei um tempo para me perdoar, porém falta o seu perdão. — Oliver se inclina em minha direção. — Antes de aceitar a Cristo, eu me ressentia de ter feito o que fizemos devido todas as coisas que aconteceram em seguida. Por toda dor e sofrimento que trouxe a nós dois, Alice. Principalmente a você! Eu me odiei a cada dia! Me senti péssimo. Não suportava a ideia de ter feito tanto mal à mulher que eu amava e de tê-la perdido de vez.

O verbo no passado não passou despercebido por mim.

— Mas eu só me arrependi, verdadeiramente, quando entendi que o maior pecado que cometi não foi diretamente contra você, mas contra o próprio Deus. — seus olhos miram o céu. — Eu o entristeci de tantas maneiras... Você estava passando por uma situação delicada, estava frágil, desolada e precisava de um escape. Uma distração. Eu deveria ter me mantido firme e não ter cedido aos desejos da minha carne. — nossos olhos se conectam. — Você era a menina dos Seus olhos; imagem e semelhança do Deus vivo; templo do Espírito Santo, e eu te deflorei! Te fiz se afastar ainda mais do Pai.

Eu engulo em seco.

— Você estava se afastando aos poucos, eu sei. Estava chateada com Deus por não intervir naquela história, mas não tinha desistido totalmente, pois no fundo sabia que nada disso era verdade. Sabia que Ele continuava ali, cuidando de você e fazendo o que nenhum de nós poderia fazer: te fortalecendo a cada dia para que não desistisse. — meus olhos ardem. E ele se cala. — Mas ter se entregado a mim foi a gota d'água. Não foi, Alice?

Sinto os lábios tremerem e as narinas se dilatarem. Um sinal claro de que eu desabaria a qualquer momento.

— Quando disse que te perdoava, no hospital, e você reagiu daquela forma, imaginei que esse era o motivo. Mas hoje, consigo ver a culpa em seus olhos. E tudo o que me contou só confirmou minhas suspeitas. — ele retira sua seu remo de sua frente e se aproxima devagar. Segura minhas mãos e olha profundamente em meus olhos. — Por favor, me perdoe por tudo o que te fiz! Por ter te feito pecar e por ter contribuído com o seu afastamento. Querendo ou não, eu fui um motivo de tropeço para você , e só Deus sabe como isso me fere.

— Não é sua culpa! — minha voz sai embargada. — Foi uma escolha minha! Minha, Oliver! Eu tive consciência. Conhecia a palavra. Sabia o que iria entristece-lo. — tento puxar minhas mãos, mas ele as segura com mais firmeza.

— Então você também sabe que as coisas não precisam continuar assim, não é? — há um brilho intenso em seus olhos. Uma certeza absoluta em suas palavras. — Ele ainda te ama! Ele te quer de volta e te espera de braços abertos. — nego com a cabeça, sentindo as lágrimas rolarem.

— Você não entendeu! Eu estou totalmente quebrada! — ele sorri docemente.

— Então deixe ele te consertar.

— Oliver, Ele é Santo! E eu estou imunda!

— Jesus pagou um alto preço por nós. Ele foi o sacrifício vivo e definitivo. E o seu sangue derramado é o único capaz de nos purificar e limpar de todo e qualquer pecado. Não anule o sacrifício de Jesus se baseando em seu estado atual. Ele é o único que pode mudar a sua história, basta você permitir, Alice.

— Por que está fazendo isso? Por quê, Oliver? — aperto suas mãos com força, alterando-me um pouco.

— Porque eu não irei desistir de você! — responde sem pensar duas vezes.

Nego, veementemente, com a cabeça.

— É uma luta que não vale a pena.

Ele abre um sorriso tão sincero, tão verdadeiro. E suas palavras são ditas com convicção, o que faz meu estômago girar.

— Você sempre valerá a pena, Alice!

>>>><<<<

Nem sei o que dizer sobre esse diálogo, meu povo. São muitas emoções. É muita dor e culpa envolvidas 🥺😭 E esse Oliver?! Não tenho palavras ♥️

Mudando de assunto, eu acabei de perceber que todas as vezes que eu edito no celular, o travessão muda para um traço normal. Então me desculpem por isso, eu não tinha percebido. Pode até parecer besteira, mas isso me incomoda. Temos que dar o nosso melhor em tudo o que fazemos para Deus, e esse é um detalhe que, ao meu ver, faz a diferença em uma boa leitura. Mas vou tentar prestar mais atenção das próximas vezes 😬

Att.
NAP 😘

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