Capítulo 31
Acabara de encerra minha terceira ligação, dentro de duas horas, com Jully. Não era a primeira vez que Bonnie dormia na casa da tia. Na verdade, pelo menos uma vez ao mês ela passava o fim de semana lá. Especialmente quando o avô estava em Londres. O problema é que dessa vez foi diferente, pelo menos era o que minha mente alertava. Bonnie estava com o pai.
Deveria ser uma coisa boa, certo? Bom, para mim estava sendo estranho. Talvez seja pelo fato de que Anthony não estava totalmente errado ao afirmar que eu estava com ciúmes de Oliver. É ridículo e, mais uma vez, egoísta da minha parte, mas eu estava acostumada a tê-la apenas para mim. E agora, vendo a alegria, entusiasmo e o amor da minha pequena pelo pai, feria um pouco o meu orgulho de mãe solteira.
Entretanto, eu preciso lidar com isso o quanto antes, pois, definitivamente, Oliver fará parte de nossas vidas ativamente. Ou melhor, fará parte da vida da Bonnie.
No momento em que encaixo o telefone no gancho, Harper entra esbaforida em meu ambiente de trabalho.
- Oi! - cumprimento-a com um sorriso rápido.
- Pensei que não viria hoje. - comenta enquanto retira o sobretudo preto e pendura no braço, em seguida me dá um abraço apertado.
- E por que não viria? - ela se afasta e começa a caminhar para sua sala. Contorno a mesa e faço o mesmo.
- Eu soube sobre o fim de semana agitado que teve. - ela me lança um olhar triste. - Sinto muito, amiga. Até pensei em passar lá no domingo para ver como vocês duas estava, mas o Anthony disse que o bonitão estaria lá. Então abortei a missão.
- Pois é. Foi um fim de semana bem intenso. - ela senta em sua mesa e liga o notebook.
- Só isso? Eu quero saber dos detalhes, minha cara. Aliás, como a Bonnie está? Espero que totalmente recuperada.
- Ela é uma guerreira. - meus olhos ardem ao lembrar da minha menininha. - Nem parece que teve uma parada cardíaca e quase perdeu a vida.
- Ei, está tudo bem agora! - Harper levanta da mesa e vem me abraçar mais uma vez.
- Eu não consigo imaginar como seria a minha vida se ela tivesse partido, Harper! Ela é tudo o que eu tenho de melhor nessa vida.
- Eu sei, amiga! Eu sei!
Enxugo as lágrimas e me afasto.
- A minha vida está uma loucura. Tem momentos que parece que irei surtar. Às vezes eu chego a ficara com falta de ar. Isso tudo está me sufocando em um nível que eu não consigo explicar.
- Imagino! Primeiro o seu pai, em menos de duas semanas esse lance todo com o Oliver e logo em seguida a Bon... Eu nem sei o que falar.
- Não há nada a ser dito. - dou um sorriso triste. - Mas não estou aqui para ficar me lamentando. Precisamos trabalhar. - tento me recompor. - Na sexta-feira você tinha falado sobre levar alguns documentos à presidência hoje. Já estão prontos?
- Ah, sim! Estão aqui em minha mesa. - ela abre uma das gavetas e me entrega um envelope pardo.
Pego a papelada e saio de sua sala. A empresa estava tranquila, como em qualquer segunda-feira. Os funcionários ainda se recuperavam de seus fins de semanas badalados. Isla, a recepcionista do presidente está em seu posto, digitando algo no computador. Por estar totalmente concentrada, não percebe minha presença.
- Bom dia, Isla! - sorrio ao ver usa reação assustada.
- Quer me matar do coração, Alice? Nossa! - resmunga com a mão no peito.
- Me desculpe, não queria te assustar! - ela meneia a cabeça e se ajeita na cadeira. - o senhor Roger está?
- Sim, ele acabou de chegar.
- Que bom! Tenho alguns documentos importantes para entregar. - ergo o envelope.
- Um minuto, irei te anunciar.
Isla pega o telefone e liga para a sala do chefe. Eles trocam poucas palavras e ela me diz para prosseguir. Bato duas vezes antes de abrir a porta, mas me arrependo em seguida, pois o senhor Roger não está sozinho.
- Oh! Perdão! - dou um passo para traz, fechando a porta, mas a voz do presidente me faz parar.
- Pode entrar, senhorita Green. - entro na sala e cumprimento os dois, evitando ao máximo olhar para Oliver.
- Bom dia!
- Bom dia! - os dois respondem em uníssono, mas quem continua é o CEO da empresa. - Obrigada por trazer os documentos. - agradece ao pegar o envelope de minhas mãos. Em seguida coloca os óculos de grau. - senhor Walker, você se incomodaria se eu lesse esses documentos rapidamente? São realmente importantes, mas não levará muito tempo.
- Fique à vontade! - Oliver responde simplesmente.
- Por favor, sente-se, senhorita.
Atendendo ao seu pedido, sento-me na cadeira ao lado de Oliver, de frente para a mesa do presidente. O silêncio que se segue é desconfortável. Mas permaneço fitando o tampo da mesa de madeira. Como ele tinha dido, não demorou, realmente, mas para mim pareceu uma eternidade.
Com documentos assinados em mãos, despeço-me dos dois e volto para minha sala.
Era perto da hora do almoço quando Oliver aparece em frente à minha mesa. Sua expressão era neutra. Creio que isso se tornou padrão em nossos encontros.
- Posso falar com você por um segundo?
- Claro! - salvo o documento que estava mexendo e coloco o notebook de lado. - Pensei que estaria viajando.
- Estou indo agora. Mas antes, queria vir te assegurar que tudo ocorre bem na noite passada. Eu disse que não tinha com o que se preocupar.
- Que eu me lembre, quem estava preocupado era você, em ser um bom pai ou não. - cruzo os braços sobre a mesa.
Percebo o esforço que ele faz para não revirar os olhos.
- Como estava dizendo, irei viajar agora. Ficarei fora por duas semanas. Já conversei com a Bonnie sobre isso, mas assim que voltar, pretendo passar um tempo com ela, aproveitando o feriado. Pensei em irmos para Cambridge no fim de semana.
- Cambridge? - coloco-me de pé. - Para a casa dos seus pais?
- Sim! - ele franze o cenho. - Qual é o problema?
- Sua mãe é o problema, Oliver. - ele trava o maxilar e respira fundo.
- E qual é a sua preocupação acerca da minha mãe, Alice?
- Não é óbvio? Ela jamais aceitará a minha filha como neta. Diferente do seu pai, ela sempre me odiou! Quando descobri que você engravidou uma qualquer, irá pirar. E eu não quero que a Bonnie sofra as consequências da nossa irresponsabilidade.
- A Bonnie é a minha filha, minha mãe aceitando ou não. Eu não me importo com isso! E eu jamais deixarei que algo de ruim aconteça com a Bonnie.
- Não, Oliver! Ela não vai, e isso é indiscutível! - ele resmunga algo e se aproxima.
- Olha, eu entendo os seus temores, eles têm fundamento. Não sou ingênuo e conheço a mãe que tenho. Mas eu só peço que você confie em mim.
- Oliver...
- Se isso te fará se sentir melhor, venha conosco! - seu pedido me deixa sem palavras. - Ainda faltam duas semanas. Pense no assunto com carinho. Eu jamais faria qualquer coisa que fosse machucar a nossa filha.
Nossa filha...
- Ok! - Respondo após um tempo. - Prometo que irei analisar com calma.
- Obrigado! - responde, voltando com a neutralidade de antes. - Agora preciso ir. Nos vemos em breve, Alice.
Apenas assinto, e o vejo se afastar.
***
- Ainda não acredito que você aceitou vir conosco! - Harper comenta segurando um copo de alguma bebida alcoólica nas mãos. - Vai chover! Ah não, já cai água do céu quase todos dias nesta cidade.
- Nossa, você se supera a cada dia, Per... - Anthony murmura tomando um gole do seu chá gelado.
- Ah, qual é! Você ficou bem mais chato depois que voltou a frequentar a igreja. Deixa de ser sem graça.
- Ei! Eu não sou chato e muito menos sem graça. - meu amigo se defende, mas no fundo se sentiu ofendido. Quando o assunto é "Harper", ele não sabe lidar muito bem.
- Para falar a verdade, - interrompo a conversa dos dois, para alívio dele, que me oferece um olhar agradecido. - Só aceitei vir por causa da Jully.
- Santa Jully! - minha amiga comenta com sarcasmo.
- Agora quem está sendo a chata? - Anthony rebate com um tom vitorioso.
- Parece que voltamos aos tempos da faculdade. - abro um sorriso nostálgico.
- Bons tempos! - Thony comenta. - Uma pena que não trouxe minha máquina.
- Tempos maravilhosos... Como a vida de um adulto responsável é chata!
- Está reclamando de quê? Você não tem marido ou filhos. Tem uma carreira e emprego de sucesso. Sai quando quer, vai para onde quer sem ter que dar satisfação a ninguém... - a expressão da minha amiga me faz calar. Seu semblante abatido aparece por poucos segundos, mas logo uma mascara de falsa felicidade toma o lugar.
- Você tem razão! Não tenho do que reclamar! Mi ha vida é perfeita! Só por isso mereço outro brinde! - ergue a mão chamando um garçom.
Prefiro não comentar mais nada, todos percebemos o clima chato que ficou. Mas graças a Deus, Jully chega, e para minha surpresa e espanto, não está sozinha.
- Pessoal, que bom que vieram! - diz alegremente. - Quero que conheçam uma pessoa muito especial: o meu noivo, Bruce!
Nossos olhos se encontram, e posso ver o brilho de felicidade quando ele me reconhece. Tanto que a primeira pessoa a ser cumprimentada por ele, sou eu.
- Alice! - coloco-me de pé e sou puxada para um abraço.
- Bruce! Quanto tempo! - abro um sorriso sincero. Não nos víamos há cinco anos. - É muito bom te rever!
- Eu digo o mesmo! Que alegria! A Ju sempre fala de você e da sua filha, mas todas as vezes que vim para cá, não conseguíamos nos ver.
- Então, sobre isso... - olho para Jully rapidamente. - A culpa foi toda minha, mas depois eu te explico com calma.
Ele sorri e concorda. Em seguida cumprimenta os demais.
- Então, - após uma hora de conversar animada, Harper começa a falar, já um pouco alterada devido o álcool. - é Bruce mesmo? Tipo Bruce Wayne?
- Sim? - ele responde meio sem jeito, olhando para minha amiga como se ela fosse um ET.
- Então onde está o seu Batmóvel? É tão incrível como nos filmes? - ri da própria pergunta.
- Apenas ignore! - Anthony comenta com falso humor, mas quem o conhece sabe que ele não está nem um pouco alegre com a situação.
- Não acha melhor leva-la para casa, Thony? - sussurro próximo ao seu ouvido. - Acho que a culpa foi minha.
- Alice, não queira carregar a culpa toda em seus ombros. Você sabe como a Harper é. Então não, a culpa não é sua. - responde sério. Em seguida volta sua atenção para o casal - Pessoal, a noite está bem agradável, mas acho que alguém precisa descansar. - aponta com a cabeça para Per.
- Ei, eu estou muito bem, ursinho! E hoje é sexta-feira!
- Não, você não está! - ele levanta da mesa jogando algumas notas no tampo. - Assim que deixa-la em casa eu passo aqui para te buscar. - diz a última parte para mim.
- Não se preocupe comigo, eu pego um táxi ou uber. - tranquilizo-o.
- Claro que não! Nós te levaremos. - Jully diz. - Além do mais, Bonnie está com o papai, aí você pode pegá-la. - seus olhos brilham. - Na verdade, tenho uma ótima ideia, que tal você ficar por lá? Assim podemos ir embora desse lugar barulhento e ficarmos conversando até mais tarde em casa mesmo.
- Não sei, Ju. Seu irmão volta de viagem amanhã. - ela faz uma cara feia. Mas eu sei que ela não aceitaria não como resposta. - Ok! Mas você terá que me emprestar alguma roupa bem confortável para dormir.
- Então está decidido! - Jully bate palmas e se levanta.
Pagamos as contas e nos despedimos de Anthony e Harper. Chegamos à casa dos Walker rapidamente. Para minha surpresa Bonnie estava acordada, brincando com o avô na sala de estar.
- Mamãe! - sou recebida com um sorriso enorme e um abraço apertado.
- Oi, meu amor! - pego-a no colo.
- Como foi a noite, meninos? - senhor Charles pergunta. - Pensei que voltariam mais tarde.
- Mudanças de plano, papai. Resolvemos trazer a reunião para cá. - ela dá um beijo na bochecha do pai. - A Lice irá dormir aqui esta noite.
- É vedade, mãe?
- Sim, querida! - Bon ia comentar algo, mas pela primeira vez repara na figura masculina desconhecida. Um pouco acanhada, aproxima-se do meu ouvido e questiona quem é ele. - Bonnie, este é o tio Bruce, noivo da titia Jully.
- É um prazer te conhecer, Bonnie! A sua tia fala muito bem de você, estava ansioso por este dia! - coloco minha filha no chão, que observa atentamente o tio.
- Você é baixinho. - diz inocentemente, arrancando risada de todos.
- Uau! Você é bem sincera, mocinha! - ele responde após recuperar o fôlego.
Bonnie brinca mais um pouco com o avô e o tio Bruce no chão, com o novo quebra-cabeça que ganhou do vovô. No entanto, é vencida pelo sono. Quando estou prestes a me levantar, o senhor Charles ergue a mão.
- Deixe comigo, Alice! Fiquem conversando, eu também irei me recolher. - ele nos deseja boa noite e sobe a escada, carregando a neta adormecida.
- O relacionamento dos dois é tão bonito. - Bruce comenta, observando a escada, agora vazia. - Até parece que são avô e neta realmente. - olha para nós com um sorriso sincero.
Jully e eu trocamos olhares antes de eu falar.
- É porque realmente são. - dou um sorriso sem graça.
Bruce olha para nós com um vinco na testa, sem entender, mas logo sua mente associa as informações.
- Pera aí! - ele ajeita a postura e arregala os olhos. - Está me dizendo que a Bonnie é filha do...
- Oliver? - pergunto, quando ele não conclui a frase. - Sim! Ele é o pai da Bon. - respondo e ele permanece chocado.
- Mas... Como... Ele... - suas palavra não se conectam, tamanha sua surpresa e espanto. - O Oliver nunca me contou sobre isso. - diz por fim.
- É por que ele não sabia. - que responde é Jully.
- Mas por quê? - a voz de Bruce sai quase que esganiçada.
- Porque eu cometi o terrível erro de esconder a Bonnie dele. - digo, sentindo o amargor na minha boca.
- Mas ele ainda não sabe? - novamente o pavor toma conta dele.
- Agora sim. Ele descobriu há pouco menos de três semanas. - desvio o olhar, envergonhada.
- Uau! - é tudo o que ele diz. - Uau! - a última palavra sai mais longa e pensativa.
Jully segura minha mão.
- Mas as coisas estão se resolvendo. O Olie conheceu a Bonnie e está muito feliz em ter uma filha. Os dois estão se dando super bem, e ela ama aquele pai. - seus olhos brilham. - Deus está colocando as coisas em seus devidos lugares, não é Lice?
- É. - respondo sem muita convicção.
O assunto muda, e começamos a conversar sobre o casamento dos dois, que acontecerá dentro de poucos meses. A animação de Jully era tanta que minhas energias foram sugadas só de ouvir sobre o grande planejamento.
- Vocês terão que me perdoar, mas estou exausta. Preciso dormir.
- Nós também iremos, Lice. - minha amiga se coloca de pé.
- Eu só preciso de um edredom, posso ficar por aqui mesmo. - aponto para o grande sofá.
- Não seja boba, amiga! Você fica com o meu quarto que eu durmo no do meu irmão. O Bruce ficará hospedado na casa de hóspedes, no porão.
- Ah, tudo bem então! - sorrio.
Bruce se despede de nós e vai para seus aposentos. Jully e eu subimos a escadaria rumo ao terceiro andar. Chegando no quarto dela, percebo que Bonnie não está lá.
- Ué...
- Ela está no quarto do pai. - comenta com um sorriso. - Pelo visto minha sobrinha só quer ficar lá agora. Abandonou a tia.
Chego no cômodo e vejo o corpo pequeno da minha filha esparramado na cama do pai.
- Se eu pegá-la agora ela irá acordar.
- Então fique aqui com ela. - Jully sugere naturalmente.
- O quê? Não! - desespero-me.
- Por que não? Fala sério. É só por uma noite, Alice. Não pira! - ela entra no quarto e pega um outro edredom. Em seguida entrega para mim, deposita um beijo na minha bochecha e se afasta. - Tem escova de dente nova no armário do banheiro. Boa noite, amiga! Durma com Deus!
- Boa noite! Obrigada! - solto um suspiro quando a porta se fecha. - Por que mesmo eu aceitei dormir aqui?
Caminho até a cama e me deito ao lado de Bonnie. Imediatamente ela se vira e contorna minha cintura. Puxo o edredom, cobrindo nós duas. Aconchego minha filha e expiro devagar. Assim que faço isso, o perfume de Oliver invade minhas narinas, fazendo minha mente desenterrar memórias do passado que eu não estava nem um pouco afim de recordar.
Lutando contra sentimentos e pensamentos antigos, caio em um sono profundo.
>>>><<<<
Três capítulos seguidos, pessoal! Por favor, não esqueçam de clicar na estrelinha, isso é importante! E aí, o que estão achando da história? 😬
Att.
NAP 😘
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