Capítulo 27

Com muito receio e nervosismo, aperto a campainha da casa dos Walker. Não demora nem um minuto para que Jully abrisse a porta.

- Sabia que viria! - diz, cumprimentando-me com um abraço em seguida. - Entre.

Passo por ela, que me dá espaço, e sigo adiante. Olho para o alto da escada e solto um suspiro.

- Ele não está em casa. - viro-me para ela com as sobrancelhas arqueadas. - Saiu cedo para correr, mas já deve estar voltando.

- Que maravilha. - falo, ironicamente, comigo mesma. - Como ele estava ao voltar para casa, ontem à noite?

- Calado. - aponta para a cozinha com a cabeça e eu a acompanho. - Mas ainda estava revoltado. Batia com as portas, pisava duro e dormiu sem jantar.

- E quanto a você? - cruzo os braços na altura do peito e me encosto na bancada, observando minha amiga preparar o café da manhã.

- O que tem eu? - pergunta sem me encarar.

- Como você está? Como ele tem agido com você? - ela para de fazer o que está fazendo e dá de ombros.

- Da forma como eu imaginava que agiria. Como se eu não existisse.

- Ju... - abraço minha amiga por trás e apoio a testa em seu ombro. - Eu sinto muito por você estar passando por isso. Você, dentre todos que me alertaram, foi a que mais me incentivou a falar a verdade para o Oliver. Eu não quis ouvir e te proibi de fazê-lo.

Ela vira com certa brutalidade e me fita seriamente.

- Você não manda em mim, Alice. Eu não contei porque não quis. Foi uma escolha minha.

- Mesmo assim, prometo que irei conversar com o seu irmão. Tudo se resolverá. Pelo menos entre vocês. - digo a última parte mais baixo.

- E a Bonnie, como está? - volta a atenção para a cafeteira.

- Ela ficou muito assustada e com medo. - cravo as unhas nas palmas das mãos ao lembrar da reação da minha pequena.

- Medo? De que exatamente?

- Medo de o pai não gostar dela. Na verdade, essa foi o primeiro pensamento ao nos ver discutindo, pois o seu irmão estava fora de si.

- E com razão. - apenas dou de ombros.

- Ela dormiu bem, mas no meio da madrugada percebi que seu coração estava acelerado... - Jully para novamente e me olha com preocupação. - O Thony disse que, de certa forma, isso é normal, visto que acabou sentindo muitas emoções ao mesmo tempo.

- Mas você acha que ela pode...

- Não! - corto minha amiga. - Isso não, Ju! - sacudo a cabeça, tentando retirar alguns pensamentos sombrios de um período sombrio. - Além do mais, o Anthony está com ela. Disse que ficará de olho e tentará distrai-la.

- Deus foi tão bondoso conosco, colocando um médico em nossas vidas. - diz pensativa, com o olhar perdido. - Ela sabe que você veio conversar com o pai.

- Ela estava dormindo quando saí, mas, ontem à noite, eu contei que o faria. - neste momento, escutamos a porta da frente ser fechada.

- Pelo menos não está mais batendo as portas. - Jully sussurra, pegando sua xícara de café e um prato com torradas. Quando estava prestes a passar pelo vão da porta, Oliver entra no cômodo com suas vestes de corrida encharcadas. - Desculpa. - diz em baixo tom. Então passa pelo irmão e segue seu caminho.

Oliver me fita por alguns segundos, mas nada diz. Sua expressão é indecifrável, como na noite em que nos reencontramos. Abro a boca para tentar falar algo, mas ele se vira para o armário. Pega um copo e o enche com água, ignorando-me. Coloca o objeto na cuba, após esvazia-lo, e caminha para a saída do cômodo.

- Vou tomar um banho. Me espere na sala de estar. - diz sem olhar para mim.

Solto um suspiro pesado e fecho os olhos. Espero alguns segundos antes de ir para a sala. Ao chegar, recordo-me da noite em que ele se declarou pela segunda vez, a mesma noite que começamos a namorar. Tudo estava exatamente da mesma forma. O local, que antes fora testemunha das nossas juras de amor, mais uma vez estava sendo testemunha. Entretanto, de algo não mais agradável.

Não sei quanto tempo passou. Estava perdida em pensamentos quando ouço a voz de Oliver atrás de mim.

- Pronto. - olho para ele, que agora está banhado e perfumado. Suas roupas informais me lembraram ainda mais do antigo Oliver. Ele aponta para o sofá, antes de se sentar na poltrona. - Não vai sentar? - pisco algumas vezes e me sento.

O silêncio toma conta do ambiente, e isso começa a me deixar nervosa. Olho para os meus dedos, que brincam uns com os outros, em uma tentativa, inconsciente, de me acalmar.

- Então... veio aqui para ficar em silêncio ou tentará se justificar? - arregalo os olhos, erguendo o rosto e fitando seus orbes com incredulidade e assombro.

Ao perceber minha expressão, ou ao se dar conta do que falou, balança a cabeça em negação. Inclina-se para frente e apoia os antebraços nos joelhos.

- Olha, me desculpe, Alice! - arregalo ainda mais os olhos. Apesar de sua grosseria, quem deveria estar pedindo desculpas aqui era eu. - Eu prometi que te daria a chance de se retratar. Estou aqui para ouvir tudo o que tem a falar. - assinto com a cabeça. - Por favor, fique à vontade para começar. - a mudança em seu tom de voz e atitude me pegam totalmente desprevenida.

- Er... - engulo em seco, como de costume, e me ajeito no assento. Procuro as palavras ensaiadas por mim, mas todas somem, tamanho o meu nervosismo. - Oliver, - sinto os olhos arderem, mas me mantenho firme. - Eu passei a noite em claro, pensando no que diria para você, mesmo sabendo que nada justificaria as minhas decisões erradas. - solto uma risadinha sem humor. - Para falar a verdade, eu passei os últimos cinco anos pensando nisso. Todas as noites, ao colocar a cabeça no travesseiro.

Decido que o melhor a fazer, neste momento, é abrir o meu coração. Ser a mais sincera possível.

- Quando descobri que estava grávida, eu me senti totalmente perdida. Sem chão. Milhares de coisas passaram pela minha cabeça e eu não conseguia associar nada com clareza. - uno as mãos com força, lembrando-me daquela noite. - Você tinha acabado de descobrir que seria pai, eu estava magoada e machucada por tudo o que aconteceu conosco. Você, assim como a mãe do seu filho, morava nos Estados Unidos, e eu aqui. Acho que no fundo eu me sentia como se fosse a outra.

A última parte sai em um sussurro. Ele me lança um olhar duro, mas resolvo ignorar.

- Apesar dos meus amigos e minha mãe tentarem me convencer a contar a verdade para você, eu os ignorei completamente. Decidi deixar isso em segredo, pelo menos por um tempo, com a desculpa de que não seria justo fazer isso com você e com o seu filho. Fazer você escolher com quem ficaria. Porque na época eu sabia que, se fosse para escolher, escolheria ficar aqui. - ele desvia os olhos dos meus, em silêncio.

Franzo o cenho com força, não conseguindo mais conter as lágrimas.

- Eu tive medo de contar para você. Medo do que sua família pensaria, principalmente sua mãe. Medo de me magoar novamente, Oliver. - a voz embarga, mas não me impede de continuar. - Mas, sinceramente, eu estava sendo egoísta, pensando apenas em mim. Não pensei em você. Não pensei na Bonnie. Em como seria para a minha filha crescer sem a presença do pai biológico. Ou até mesmo como seria para você, principalmente quando descobriu que aquele filho não era seu. - ele me olha surpreso. - Jully me contou tudo. Ela me disse que você estava começando a gostar da ideia de ser pai e que ficou mal quando descobriu a verdade. - silêncio. - Quando estava prestes a dar à luz, sua irmã descobriu sobre minha gravidez e ficou abalada. Quase brigamos, pois ela queria que eu te contasse, mas eu neguei e pedi que ela não o fizesse. Ela não queria esconder isso de você...

- Mas escondeu. - ele diz. Há certa mágoa em sua voz.

- A única culpada nessa história toda sou eu, Oliver. Unicamente eu! - toco no peito. - Ela nunca quis te magoar ou esconder isso de você, pelo contrário. A sua irmã foi a pessoa que mais me incentivou a contar tudo. Não estrague a relação de vocês por causa dos meus erros. - arrasto-me pelo sofá, aproximando-me um pouco dele. - Ela está mal.

- E como acha que estou? E ainda tem o meu padrasto...

Oliver nunca se referiu ao marido da mãe daquela forma, sempre o chamava de pai. Aquilo me entristeceu. E era tudo culpa minha. Tento falar, mas ele continua.

- Mas isso não importa agora. Não estamos aqui para falar da Jully ou do Charles.

Ele se põe de pé e caminha até a lareira, ficando de costas para mim. Levanto do sofá e ouso me aproximar.

- Eu sei que não tinha o direito de esconder algo tão importante. Tenho plena consciência de que roubei de você cinco anos de paternidade. Anos que jamais voltarão. - Oliver vira o corpo e me observa atentamente, enquanto continuo falando. - Eu nunca poderei voltar o tempo e fazer você presenciar o momento em que a Bonnie veio ao mundo e deu o primeiro chorinho. Ou os primeiros passos e as primeiras palavras... - sinto o peito doer ao ver os olhos do homem à minha frente marejarem e as narinas dilatarem . - Eu sinto muito por tudo isso, Oliver! Eu fui uma tola ao escolher esconder a nossa filha de você.

Enxugo as lágrimas do rosto e me aproximo mais.

- Eu não ouso te pedir perdão pelo que fiz, pois o que fiz não merece perdão. - balaço a cabeça em negação. - Deve estar sendo repugnante ter que olhar para mim após descobrir o que fiz. Você deve estar se corroendo de raiva e se controlando para não descontar toda a sua fúria em mim. Mas, por favor... - o choro intensifica só de imaginar o contrário. - Não deixe de fazer parte da vida da Bonnie. O que ela mais deseja é te conhecer.

Oliver não diz nada. Mesmo olhando para mim, sei que está perdido em pensamentos. A tristeza em seus olhos me deixa ainda mais culpada. Eu nunca deveria ter feito isso com esse homem. Ele não merecia. Minha filha não merecia. E como se não bastasse, acabei envolvendo outras pessoas para toda essa confusão. Tudo poderia ter sido diferente. Tanta dor poderia ter sido evitada.

Em um movimento rápido, Oliver olha para cima e solta um suspiro pesado.

- Você conhece a minha história, Alice. - se afasta de mim e volta a contemplar a lareira. - Sabe que eu cresci sem o meu pai biológico e sabe como isso me fez mal. - fecho os olhos com força, pois eu sabia. - Eu nunca, nunca, abandonaria a minha filha. - nossos olhos se encontram, e ali eu vejo a sinceridade e seriedade de suas palavras. - Eu quero e vou participar ativamente da vida da Bonnie. Não tenho experiência e não sei ao certo como exercer essa função, mas darei o meu melhor para ser um excelente pai, de acordo com a palav...

Oliver é interrompido pelo toque do meu celular. Peço perdão e pego o aparelho para desligar, mas ao ver o nome de Anthony na tela, sinto uma sensação ruim.

- Preciso atender. - sem esperar uma resposta, aceito a chamada. - Thony...

- Alice! Você precisa vir ao hospital!

- O que aconteceu com a Bonnie? - pergunto com desespero.

- A Bon teve uma parada cardíaca.

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