Capítulo 21

— Você não precisa ir! — digo para Anthony, colocando minha bagagem e a da Bonnie no porta malas.

— Acha mesmo que irei te deixar dirigir assim, Alice. — segura minhas mãos, levantando-as até a altura do meu rosto. — Está tremendo. — puxo-as de volta.

— Estou bem, prometo. Apenas... — apoio o corpo na lateral do carro. — E se for tarde demais? Ele pensa que eu o odeio. Eu disse que eu o odeio, mas não é verdade! Ele é o meu pai e está morrendo.

— Eu sei que está sendo um momento difícil, Ali. Mas não adianta ficar se lamentando agora. Você ainda tem tempo de concertar as coisas com o seu pai. Então entre no carro, tranquilize sua filha e explique tudo para ela, pois ela não para de olhar para cá com os olhos arregalados.

Viro o rosto para o interior do carro. Bonnie está me olhando exatamente da forma como Anthony descreveu. Coloco um sorriso forçado no rosto e entro, enquanto Thony termina de arrumar as bagagens.

— Oi, amor!

— O que está acontecendo, mamãe?

— Contarei assim que sentar direito na cadeirinha e colocar o cinto. — ela faz o que digo e espera em silêncio. Anthony entra no corro e começa a dirigir. — Er... O vovô está doente, e nós estamos indo visita-lo.

— O vovô Charles? O pai do meu papai? — pergunta alarmada, os olhos cheios de água.

Apesar dos inúmeros erros que cometi, prometi que jamais mentiria para minha filha. E quando Bonnie começou a questionar sobre o pai, não menti. Mesmo tendo apenas quatro anos, sua mente possui uma velocidade anormal para pensar e associar as coisas que acontecem ao seu redor. Sem contar na maturidade que deveria ser inexistente com sua pouca idade.

Dessa forma, ela associou sozinha que Anthony era apenas o tio Thony, e não o seu verdadeiro papai. Quando fui questionada sobre a ausência do pai, contei a verdade. Não toda a verdade, mas apenas as partes que ela precisava saber. Ela sabe, por exemplo, que o pai é irmão da tia Jully, filho do vovô Charles. Sabe que ele mora em um país bem distante e não costuma vir para Londres por causa do trabalho.

Achei que seria o suficiente. Mas, ao saber de tudo isso, Bonnie chorou. Chorou, pois pensava que o pai não gostava dela e que não fazia questão de vir conhece-la. Isso partiu o meu coração. Então precisei contar que Oliver não sabia de sua existência, e que a verdadeira culpada disso tudo era apenas eu, não ele.

Entretanto, a pessoa que realmente conseguiu controlar a situação foi a Jully. Minha amiga contou para a sobrinha várias histórias sobre o pai. Como ele era, o que fazia, com o que trabalhava... Mas o que mais encantou Bonnie foi uma foto que a tia deu para ela. Na imagem, estávamos Jully, Oliver, Bruce e eu. Nem eu sabia sobre a existência daquela foto. A única coisa que eu lembrava, é que ela foi tirada no nosso primeiro dia de viagem, em Londres. Minha filha ficou tão maravilhada, que levou a foto para casa e a colocou em sua mesa de cabeceira, onde está até hoje.

Tudo aconteceu há pouco tempo, menos de seis meses para ser exata. E esse é um dos principais motivos que tenho pensado em viajar para os Estados Unidos e encontra-lo. Contar sobre tudo o que aconteceu e me preparar para as consequências. Já estava de passagem comprada, mas a notícia da doença do meu pai veio à toda, e os planos mudaram.

— Não, querida! — asseguro com rapidez, tentando acalmá-la. — O vovô Charles está bem, e provavelmente você poderá vê-lo.

— Então é o seu papai, mamãe? — franze as sobrancelhas.

— Sim! — sinto o nó na garganta e resolvo mudar de assunto. — Está com saudade da vovó? — acaricio seu cabelo.

— Estou! Mas não plecisa mudar de assunto, mãe. Eu sei que está pe-pleocupada. — toca o meu rosto com a pequena mão. — Jesus vai cuidar dele.

— Ele vai sim, amor! — minha voz sai baixa e falha.

Apoio minha cabeça na sua e troco um rápido olhar com Anthony, que continua dirigindo em silêncio.

***

Chegamos em Cambridge uma hora e meia depois. O tempo estava relativamente frio, como de costume. Bonnie dormia tranquilamente em sua cadeirinha, segurando uma de suas bonecas favoritas. Meus olhos percorrem cada canto da minha antiga cidade. É impossível não recordar as lembranças de, praticamente, uma vida inteira.

Estava tão perdida em pensamentos, que não percebo o momento exato em que Thony para o carro em frente ao Royal Papworth Hospital. Só desperto quando ele chama o meu nome.

— Se não estiver pronta, fique mais um pouco aqui dentro.

— Não, eu já vou. — olho para minha filha.

— Não se preocupe. Só sairei do carro quando ela acordar. — ele vira o corpo para trás. — Resolva tudo com calma. Estaremos te esperando na recepção.

— Obrigada, Thony! — pego minha bolsa, dou um beijo no topo da cabeça de Bon e saio do carro.

— Ali! — olho para trás. Meu amigo está com o vidro abaixado. — Dará tudo certo!

Concordo com a cabeça e sigo meu caminho.

Ao entrar no hospital, identifico-me e procuro saber em que quarto ele está. A primeira pessoa que vejo é minha mãe, no momento em que sai do quarto. O rosto abatido entrega o seu cansaço, mas ao me ver, seus olhos brilham de felicidade.

— Minha filha, você veio! — envolvo-a em um abraço apertado, desejando que tal ato pudesse retirar um pouco de sua carga e passa-la para mim.

— Como ele está? — pergunto, afastando-me.

— Cada vez pior. — inclina a cabeça para o lado.

— É tudo culpa minha, mãe! Eu o deixei ainda pior. — travo o maxilar.

— Não diga besteira, Alice!

— Mas eu sei que cooperei para isso. Eu sei! — endireito a coluna e olho para a porta do quarto.

— Ele ficará muito feliz em te ver. — acaricia meu braço. — Aproveite que está no horário de visitas.

— Ok. — volto a olhar para mamãe, sentindo o nervosismo tomando conta de mim. — Thony e Bonnie estão aqui também, provavelmente ainda estão no estacionamento, mas quando ela acordar...

— Apenas entre, filha. — sorri amavelmente. Respiro fundo e faço o que ela diz.

Abro a porta do quarto e contemplo o ambiente mal iluminado. O único barulho que se ouve é dos aparelhos conectados ao meu pai. Ele está deitado na cama, bem no meio do cômodo, de olhos fechados. No momento em que fecho a porta, fazendo o mínimo de barulho possível, nossos olhos se encontram. Ao me reconhecer, algo surpreendente acontece: ele começa a chorar.

Fico sem reação. No primeiro momento, tenho vontade de desistir dessa ideia de reencontro e reconciliação. Meus pés coçam querendo sair correndo daqui. A covardia em pessoa. Mas meu coração começa a ficar apertado, pois esta pode ser a única oportunidade que teremos. Pensando nisso, solto a maçaneta e me aproximo, a passos lentos.

— Você veio! — a voz do meu pai, tão fraca e rouca, está carregada de emoção.

Paro a um metro de onde está. Analisando melhor o seu rosto, percebo que ele já não se parece em nada com o homem de cinco anos atrás. O rosto abatido e amarelado está bem mais magro e fino. As olheiras ao redor dos olhos, amarelados devido à doença, estão profundas e escuras. Os cabelos ralos e rarefeitos em algumas partes.

Ele está acabado. Perceber isso, tarde demais, me deixa pior.

— Oi... pai! — por um instante, penso ter visto seus olhos brilharem, mas a pouca luz e a coloração deles me deixam incerta.

— Minha filha! — ele estica as mãos trêmulas. Acabo com o espaço que havia entre nós, segurando suas frágeis mãos. — Não acredito que está aqui. Você tem inúmeros motivos para não ter vindo. Eu fiz tantas coisas. Para você e sua mãe... — fecha os olhos com pesar. — Eu fui um péssimo marido, um péssimo pai. Fui um canalha. Joguei tudo o que tinha de mais precioso no lixo. Eu sinto muitíssimo por isso, Alice! Eu sinto tanto por não ter sido o pai que você merecia. — mais uma crise de choro e tosse.

— Pai, se acalme! Por favor! — fico preocupada. Mas espero ele se aquietar para poder falar. — Durante esses últimos anos, não teve um dia que eu não me questionei sobre sua mudança. Você sempre foi um ótimo pai. Sempre esteve comigo, me ensinando, ajudando e cuidando de mim. — sinto os olhos arderem. — Mas quando as coisas começaram a mudar... Quando eu vi o homem que você tinha se transformado, pai, eu fiquei com muito raiva. Principalmente pela mamãe, porque ela não merecia!

— Eu sei!

— Eu não me importava em como você me tratava, mas não suportava vê-la sofrer daquele jeito. Não ela! Confesso que não entendia o porquê de ter continuado ao seu lado, após tanta dor e sofrimento, mas quando ela decidiu isso, eu não podia fazer mais nada. — uno os lábios trêmulos. — No entanto, quando eu me mudei, percebi que eu não estava sofrendo apenas pela mamãe. Eu sentia falta do meu pai. Eu sinto a falta do meu pai, todos os dias! Daquele que me ensinou a andar de bicicleta. Que me ensinou a mexer em motores, e despertou essa grande paixão em mim. Eu sinto falta do seu humor, da sua alegria, que era contagiante. Mas ao invés de lutar pelo meu pai, como a mamãe fez, eu desisti. Desisti porque achei que seria mais fácil. Mas não foi!

Solto um soluço, mas continuo meu desabafo.

— Eu me arrependo amargamente por não ter tido coragem de vir antes. Por não ter engolido meu orgulho. Talvez, se eu não tivesse desistido de você, não estaríamos aqui agora. Talvez você estivesse bem. Não teria se entregado de vez à bebida por causa de um maldito câncer e de todas as frustrações que se acumularam ao longo dos anos! Se não tivesse desistido de você, talvez a Bonnie tivesse sido um dos motivos para não se render a tantos problemas... — abro um sorriso triste. — Ela é a melhor coisa que aconteceu em minha vida, papai! E eu só queria poder compartilha-la com você! — apoio o rosto em sua mão e desabo. — Eu sinto muito, pai!

— Shhh! — sinto sua mão afagar meu cabelo. — Não se culpe, querida! Você foi apenas uma vítima. O culpado de tudo isso fui, exclusivamente, eu. Me perdoe pelos meus erros. Por todas as escolhas erradas e pelas consequências terríveis de tais escolhas. Eu te peço perdão, minha menina. — ergo o rosto, encharcado pelas lágrimas.

— É claro que eu te perdoo, pai! Eu te amo, tanto! — deposito vários beijos em seu rosto.

— Eu também te amo, Alice! Com todo o meu ser. — ele desvia o olhar rapidamente, depois volta a me encarar. — Eu só queria ter mais algum tempo para aproveitar a minha netinha.

— Você terá! — seguro suas mãos com força. — Sairá dessa!

— Por favor, Alice, não se iluda. Isso não irá acontecer. — sorri. Mas o sorriso que aparece é lindo. Verdadeiro. Há tempos não o via sorrindo assim. — Ele me chamou. — engulo em seco. O coração aperta ainda mais. — Eu preciso ir para casa, filha. Não, não! Não quero que chore, não por isso! — balança o rosto, em negação. — O Pai me aceitou de volta, estou bem! E tenho certeza que se continuasse aqui, se fosse curado, não permaneceria firme. E Deus também sabe disso.

— Pai...

— Alice, eu só quero te pedir um favor!

— Qualquer coisa! — digo com desespero na voz.

— Diga à Bonnie que a amo. — desfaço o contato entre nós e me afasto. — Para onde está indo? — olho para trás e abro um sorriso.

— Buscar sua neta.

Saio do quarto o mais rápido possível. Para o meu alívio, os três estavam na recepção. Sem questionar, mamãe me entrega a neta, com os olhos marejados. Esperta como é, Bonnie já sabia o que iria acontecer.

— Ele quer me ver? — aperta com força a boneca em suas mãos.

— Sim, meu amor!

Respiro fundo antes de abrir a porta do quarto e entrar. Papai alarga o sorriso ao ver a neta pela primeira vez. Ele tenta se sentar, mas solta um gemido de dor.

— Não se esforce tanto, pai! — ele me ignora por completo.

— Ela é linda, — dá uma risada baixa. — mas não parece nada com você.

Junto-me a ele na risada.

— Infelizmente. — olho para Bonnie, que observa o avô com a expressão indecifrável. — Meu amor, este é o vovô Rob.

Ela observa o avô um pouco mais, antes de perguntar.

— Vovô, o senhor está com medo? — arregalamos os olhos com sua pergunta. Mas meu pai se sai muito bem.

— Não estou com medo, querida! Jesus está comigo, ele me enche de coragem.

— A Tata também, pode ficar com ela. — erguer o braço e entregar a boneca que está em suas mãos. — Ela me ajuda quando sinto medo.

Emocionado, papai pega a boneca e agradece.

— Obrigada, Bonnie! Você é uma menina muito gentil! — ela sorri e começa a fazer várias perguntas ao avô.

Mamãe se uniu a nós tempos depois. Apesar de curto, foi um momento especial. Ver a interação entre avô e neta encheu meu coração de alegria. Estava em paz. Feliz. Não sei por quanto tempo ficamos ali, conversando e aproveitando o tempo que tínhamos. Mas em determinado momentoso, papai se vira para mim com seriedade no olhar, ainda que o sorriso continuasse em seus lábios.

— Nunca se esqueçam que eu amo vocês. — sinto o nó na garganta me sufocar.

— Também te amamos, papai! — sem perder tempo, me jogo em seus braços. Eu o abraço tão forte que ele solta um gemido baixo.

— Tire-a daqui.

— Não! — imploro. As lágrimas escorrem.

— Preciso ir. Tire ela daqui, minha filha! — aperto-o uma última vez e me afasto.

Enxugo o rosto e pego minha filha, que estava no colo da avó.

— Diga adeus ao vovô, filha. — digo, sem desviar meus olhos marejados de seu rosto pálido.

— Até mais, vovô! — se estica, tocando sua mão. — Te amo! — sopra um beijo em sua direção.

Papai sorri e olha para mim. Entendendo seu olhar, assinto. De soslaio vejo mamãe secando o rosto. Unindo a pouca força que me resta, seguro firme a minha filha e saio do quarto. Fecho a porta e apoio a cabeça na madeira. Tento, mas não consigo controlar as lágrimas que continuam caindo.

— Agola ele vai descansar com o Pai, mamãe.

Os braços de Bonnie envolvem meu pescoço e ela apoia a cabeça na minha. Abraço minha filha com toda força do mundo. E é neste exato momento que escuto o monitor cardíaco anunciando que ele nos deixou.

>>>><<<<

Que tristeza, meu povo! 🥺😭

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