Capítulo 20

Quando era mais nova, eu vivia planejando como seria o meu futuro: Sairia da casa dos meus pais, faria minha faculdade, conseguiria um bom emprego e construiria minha família ao lado de alguém que me amasse. Tinha esperança no "felizes para sempre". Mas nem tudo sai como planejamos.

Nos iludimos quando achamos que, ao fazermos planos, estamos no controle das nossas vidas. Os planos nos dão um norte, é fato, mas não definem nossa trajetória. Eles não definem o nosso futuro. Principalmente quando insistimos em fazer escolhas erradas. E quando você percebe, sua vida se torna uma grande bagunça.

— Boa noite, dona Alice!

— Boa noite, Paul! — cumprimento o porteiro do prédio, sem dar muita corda para uma possível conversa.

Subo as escadas em silêncio. Cada degrau faz minha panturrilha arder. No segundo lance de escadas, duas senhoras saem de seus respectivos apartamentos. Cumprimento minhas vizinhas com um aceno de cabeça e continuo meu percurso rumo à cobertura.

Retiro as chaves da bolsa e destranco a porta. O apartamento está completamente silencioso. Nada de TV ligada ou bagunça na cozinha. Ergo a sobrancelha e olho para o alto da escada.

— Boa noite, dona Alice! — Lia aparece no corredor do primeiro pavimento, segurando a bolsa de mão.

— Oi!

— Já deixei a janta pronta, como tinha dito. Organizei toda a brinquedoteca, mas agora deve estar sendo bagunçada novamente. — diz ao se aproximar. Apenas sorrio. — Bom, preciso correr para buscar o meu filho. Até amanhã.

— Obrigada, Lia! Até amanhã. — fecho a porta e penduro as chaves no porta chaves.

Desligo a luz da sala, deixando apenas o abajur perto da poltrona, ligado. Subo mais um lance de escada, sentindo a exaustão chegar. Mas ao me aproximar da brinquedoteca, um sorriso escapa dos meus lábios.

— ... e cada uma tem suas coisinhas, mas a mamãe disse que devemos emplestar para os nossos amiguinhos.

Encosto-me no alisar da porta, ainda com o sorriso bobo. Permaneço em silêncio, apenas observando sua interação com as bonecas. Fui agraciada com uma doce e amável menina. O motivo da minha perseverança diária.

Não importava o quão ruim o meu dia tinha sido, ao chegar em casa e encontra-la, todo estresse, preocupação, frustração e desanimo se dissipavam. Bonnie é a criança mais encantadora e esperta que já vi. Todos que a conhecem são atraídos por seu carisma, por sua alegria e bondade. Uma grande dádiva que recebi através do Seu favor imerecido.

— Mas eu não quelo emplestar a minha fita de bolinhas colo... — franze o cenho ao tentar pronunciar a palavra da forma certa. — cololida. — imita uma voz ainda mais infantil que a sua, enquanto balança os braços de uma das bonecas. — Você é muito má! — responde pela outra boneca.

Nessa hora não consigo me conter e começo a rir. Ela vira para mim. Seus olhos verde acinzentados, como os dele, brilham de felicidade.

— Mamãe! Você chegou! — deixa as bonecas de lado e corre até mim.

— Eu cheguei, meu amor! — recebo-a de braços abertos, como de costume. — Sentiu minha falta?

— Sim! Muito! — estica os braços. — Assim, do tamanho do infinito.

— Eu também! — pego minha pequena no colo e dou um beijo bem demorado em sua bochecha. — Eu te amo tanto, meu amor!

— Eu te amo mais, mamãe! — acaricia minha bochecha. Seu olhar me analisa atentamente. — O que aconteceu? Você não está feliz.

— Claro que estou! — saio da brinquedoteca e vou para o meu quarto, com Bonnie no colo.

— Não, não está! Seus olhos estão... Não sei qual palavla usar, mas você não está feliz. — Sou surpreendida por seus braços em volta do meu pescoço. Sua cabeça apoia em meu ombro e as pequenas mãos fazem caricias na parte de traz do pescoço.

— Vai ficar tudo bem, querida. Não se preocupe, está bem?

— Uhum! — murmura entre meu cabelo, que hoje em dia está na altura dos ombros.

Sento na cama, colocando minha filha ao meu lado.

— E como foi o seu dia? Brincou muito na escolinha? — penteio sua franjinha para traz.

A única coisa que Bonnie puxara de mim: o cabelo. De resto, ela é idêntica ao pai. A versão feminina de Oliver, quando era criança. E foi por causa da semelhança extrema entre os dois, que o senhor Chales, em uma das visitas de Bonnie à casa da tia Jully, há um ano e meio, descobriu que ela não era somente a filha da Alice, mas também era sua neta.

Ele não me perguntou absolutamente nada, apenas olhou para mim, sorriu e disse que ela é a cara do pai. Eu fiquei desesperada, assim como Jully, mas com o passar do tempo, percebemos que ele não tinha intenção alguma de contar para o filho.

Minha amiga deu um chilique e tentou me convencer, pela milésima vez, a contar ao irmão sobre nossa filha. Não o fiz. Mas nos últimos meses andei pensando muito a respeito, e acho que realmente passou da hora de falar para o Oliver que ele é pai.

— A gente cololiu. Tinham muitos lápis de cor e nós mexemos com tintas. — alarga o sorriso. Esse era um dos momentos favoritos dela, contar como tinha sido o dia na escolinha. Cada dia era uma novidade. Uma descoberta que a encantava, e ela amava compartilhar tudo conosco.

Após o relatório completo de Bonnie, tomei um banho e descemos para jantar. Em seguida, ficamos sentadas no sofá assistindo "Where's Chicky?" Em pouco tempo, nós duas estávamos dormindo. Acordei por volta das nove e meia da noite, com um beijo no alto da minha cabeça.

Arregalei os olhos, sentindo o coração bater forte.

— Perdão! Não quis te assustar. — Thony está agachado diante de mim, com um sorriso brincalhão. — Deixa eu pegá-la. — ele tira Bonnie do meu colo e aponta para a escada com a cabeça.

Desligo a tv, apago as luzes e subo atrás dele. Anthony segue para o quarto infantil e a põe na cama. Coloca o edredom em volta dela e deposita um beijo em seu cabelo, antes de vir até mim.

— Por que está sorrindo? — sussurra?

— Você leva jeito com crianças. — dou de ombros, saindo do quarto. Ele fecha a porta e me segue.

— E você já disse isso várias vezes. — assinto, parando no corredor. — Como você está? — fito o piso laminado antes de responder.

— Totalmente exausta! Como se houvesse um grande peso em minhas costas. — ele solta um suspiro e me puxa para um abraço.

— Ele está na mesma? — questiona depois de um tempo em silêncio.

— Sim. — minha voz não sai tão alta.

— Ali...

— Por favor, — afasto-me dele. — não me venha com esse papo de que eu devo me reaproximar. Já conversamos sobre isso!

— Ele é o seu pai, e está morrendo. — recebo suas palavras como um tapa na cara. — Vocês não se veem desde que veio para Londres. E isso faz mais de quatro anos. Ele nem conhece a neta.

— Você sabe o porquê!

— E eu sinto muitíssimo por tudo isso! — toca os meus braços com pesar. — Você é como uma irmã para mim, e te ver definhando me deixa péssimo, pois eu não posso fazer nada.

— Não se preocupe comigo, Thony! — toco seu rosto. — Você já fez tanto!

— E continuarei fazendo tudo o que estiver ao meu alcance para ver as duas bem. — diz com seriedade. — Mas tem coisas que só você pode fazer.

— Eu sei... Mas obrigada! — envolvo sua cintura e encosto meu rosto em seu peito. — Não sei o que seria de nós duas sem você.

— Daria um jeito! Você é durona. E se eu não tivesse aparecido em sua vida, talvez o Oliver já saberia de toda a verdade. — nos afastamos.

— Não fale besteira! — começamos a caminhar. — Você é uma benção em nossas vidas.

— É, eu sei! Sabe, — diz, parando em frente à porta de seu quarto. — às vezes eu fico pensando...

— Lá vem... — cruzo os braços, ao perceber o tom de sua voz mudar.

— É sério! — diz, mas começa a rir. — Fico pensando no dia em que você se jogou para cima de mim.

— Anthony! — sinto o rosto pegar fogo.

— Se eu não tivesse sido racional, como sempre, talvez a Bonnie tivesse um irmãozinho, ou quem sabe uma irmãzinha.

Pego a pantufa do meu pé e jogo em sua direção, mas ele já tinha entrado no quarto e se trancado lá dentro.

— FORAM OS HORMÔNIOS DA GRAVIDEZ, SEU IDIOTA! — escuto sua gargalhada de dentro do quarto.

Entro em meu quarto e bato a porta. Repreendo-me em seguida, pois Bonnie tinha o sono leve.

***

— Bom dia! — desço a escada, já pronta para trabalhar. Minha filha e o tio estão sentados na mesa, tomando o café da manhã.

— Bom dia, mamãezinha linda! — recebo um beijo estalado na bochecha, ao sentar na cadeira ao seu lado. — Está linda!

— Obrigada! — aliso seu cabelo loiro escuro.

— Tenho que concordar com a Bon. Está linda! Já disse que você fica bem com o cabelo marrom? — por trás da xícara de café, percebo o sorriso zombeteiro.

Sibilo um "idiota" para ele.

— Complamos pão doce, mãe. O seu favolito. — coloca um pedaço do alimento em meu prato.

— Com certeza é o meu favorito, amor! Vocês são demais! — encho minha xícara com café. — O que irá fazer em sua folga, Anthony?

— Anthony? — franze o cenho, mas responde. — Ler.

— Não sei por que ainda pergunto. — dou uma mordida no pão doce que ele e Bonnie compraram na padaria perto da nossa casa.

— Também não...

Meu celular toca. Ao ver quem é, sinto um frio na barriga. Olho rapidamente para Thony e atendo.

— Oi, mãe! — tento parecer tranquila.

— Minha filha, é o seu pai! — sua voz está chorosa. — Preciso que venha para Cambridge, urgentemente. Por favor, Alice!

>>>><<<<

E o tempo passou... 🫢

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