PRÓLOGO

— Bem.

Dou um sorriso para a Senhora Withlock, e pego o troco que sobrou do sonho de doce de leite que comprei na cafeteria Withlock. Ela sempre faz essa pergunta: como vai Spencer? Eu sempre respondo da forma mais educada possível. Sei que ele só pergunta por educação, ninguém quer saber se de fato você está bem. É uma pergunta vazia de verdades, que eu prefiro nunca ter que responder.

Mas essa pergunta é universal, em todo lugar que eu chegar, não importa a língua que falem, irão me perguntar: como vai? Essa frase virou até cumprimento, as pessoas se encontram nas ruas e se cumprimentam com: Olá, como vai? E seguem suas vidas como se nada tivesse acontecido. Mas essa pergunta exige uma reposta, não é retórica. Talvez a pessoa só esteja esperando alguém perguntar pra ele desabafar, mas ninguém de fato se importa.

— Como vai seu irmão? — ela pergunta com um sorriso.

Essa pergunta foi um soco no meu estômago, engulo em seco e repondo o mesmo que respondi para a mesma pergunta. Nada além disso. Porque também, eu não sei nada sobre meu irmão, não sei se ele está bem ou se está mal, e na verdade não me interessa.

Saio do estabelecimento sentindo o gosto amargo das lembranças.

Olho para a porta da cafeteira, Senhora Withlock sorri ao servir mais um cliente. Ela é uma senhora de pele cor de canela, seus cabelos cacheados estão sempre trançados e seu rosto já é perceptível as marcas da idade, ela deve ter por volta dos 60 anos, mas sua beleza é algo inegável.

Ela venho do Brasil quando tinha 20 anos, venho tentar a vida nos Estados Unidos. Acabou conhecendo o senhor Withlock em uma pequena cafeteira onde ela trabalhava, eles se apaixonaram e tiveram apenas 1 filho, que eu nunca tive o prazer de conhecer. Ela faz uma propaganda tão grande do se filho que ele parece ser o homem perfeito.

Como já havia trabalhado em uma cafeteria, quando ela e o senhor Withlock se casaram os dois resolveram abrir uma cafeteria, só que trabalhariam com produtos do país de origem dela. Que aliás, tem os melhores doces que pude provar. Sonho é o meu preferido, o nome combina com o sabor do doce, parece um sonho.

Ela e o senhor Withlock são sempre muito atenciosos comigo. Talvez preocupados, eles regulamente me perguntam sobre meu estado de espírito, as vezes acho que é apenas curiosidade, já que eles viram meu irmão crescer e em parte conhecem minha família, ou acham que conhecem.

Morar com os avós é deveras difícil. As pessoas idealizam avós da maneira errado; nem sempre a vó é aquela senhora doce e que cozinha maravilhosamente bem. A minha é doce mas na maioria faz vezes é inoportuna. Ela pode ser a pessoa que me abraça e me beija, e também pode ser a pessoa que me leva ao ápice da tristeza.

— Essa garota não faz nada, acha que limpar toda a casa e lavar o banheiro é muita coisa. Eu que ponho a roupa pra lavar — quando chego na sala da casa dos meu avós a avalanche de reclamações desnecessárias são jogadas em cima de mim.

Na verdade eu sei qual é a dela. Ela fala mal de mim sem motivos para que meu avô — que eu chamo de pai, escute e fique com raiva de mim.
Nunca sei se de fato ele percebe o que está acontecendo bem na frente dele, porque ele é o tipo de pessoa que não esboça reação, não diz nada, sempre em silêncio. Puxei isso dele.

— Não vejo a hora de você se formar e ir embora dessa casa.

Meus olhos se enchem de lágrimas, eu sinto sempre na mesma intensidade, mesmo que ela diga isso diversas vezes, mas sempre dói do mesmo jeito.

Vou para meu quarto e me tranco lá, e aonde passo a maior parte do meu tempo. Na maioria das vezes chorando e escutando música.

      SEJA BEM VINDO A DROGA DA MINHA CABEÇA. RECOMENDO QUE TENHA UM PSICÓLOGICO ESTÁVEL PARA QUE POSSA PARTICIPAR DA MINHA MENTE NADA ESTÁVEL.

Copyright © 2019 de Yasmim Matias

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