Lembranças

Eu estava dentro do único quarto da pequena casa que eu e minha família vivíamos em algum lugar muito pobre no RJ. Era de madrugada e estava muito quente, meus pais tinham saído, mas não juntos. Meu irmão mais novo já tinha dormido, então eu estava sozinha com as luzes que entravam pela janela.

De repente o portão do quintal é aberto com toda a força e eu ouço pisadas fortes no chão, barulho de salto batendo.

- Você quer brigar, não é? - É a voz da minha mãe. - Então nós vamos brigar. Se você quer confusão, vai ter confusão.

Ela estava em pé na sala se livrando dos sapatos e do vestido. Ela ficou só com a calcinha e um top.

Outra vez o portão é aberto, desta vez mais forte, desta vez pior. Ouço passos mais fortes pelo chão.

- Serena, sua filha da puta, eu vou te matar. - Meu pai entrou em casa.

Eu me sentei no colchão que estava no chão, colchão que eu e meu irmão dormíamos todas as noites. O cobertor que estava pregado na porta do quarto para manter alguma privacidade e evitar a claridade estava preso apenas por um prego, então eu conseguia ver tudo na sala e na cozinha, os outros dois pequenos cômodos da casa.

Minha mãe pegava os jarros que eu fiz na escola com areia colorida e jogava contra o meu pai.

- Você quer confusão? - Ela esbravejava.

Ele colocava as mãos na frente do rosto tentando alcançar ela no meio de tantos cacos de vidro e tanta areia colorida quando a atenção dela se voltou para a estante de madeira onde uma televisão antiga ocupava boa parte da maior prateleira. Ela agarrou a televisão e a puxou com tudo, todos os fios de outros aparelhos que se conectavam nela, tudo foi puxado para fora, mas a televisão ainda ficou pendurada.

- Serena, pare já com isso. - Meu pai dizia em meio ao caos que estava se instalando.

- Você não queria briga? - Ela avançava com o rosto para frente em provocação. - Agora você vai ter briga.

Ela pegou o computador que estava sobre uma mesa de vidro na sala e o jogou para o chão.

Meu irmão acordou brevemente com o barulho do vidro sendo quebrado.

- O que é isso? - Ele resmungou.

- É chuva de granizo. - Eu menti. - Pode voltar a dormir.

Depois disso minha mãe começou a puxar as partes da mesa e ao arrancá-las ela as lançava para o chão também. Quando meu pai conseguiu a pegar. Eles se arrastaram até a cozinha onde a tampa de vidro do forno do fogão foi quebrada. Na parte de baixo da pia tinha um pequeno extintor que era no fusca amarelo que meu pai tinha. Minha mãe pegou esse extintor e bateu nele. Meu pai a largou, ela correu para o quintal, mas ele foi atrás conseguindo a alcançar em frente à janela do quarto. Mas a minha mãe pegou uma ferramenta de aço dele e bateu na janela com a ferramenta e no rosto dele também. Os dois foram para o chão quando perceberam que a cachorrinha que tínhamos estava toda pintada de branco e o extintor estava rodando no meio do quintal expelindo aquele pó branco. Novamente minha mãe se soltou e correu de volta para a cozinha. Usou a ferramenta para quebrar tudo o que encontrou pela frente. Meu pai a alcançou mas não a segurou. Ele abriu uma gaveta e pegou uma faca, entregou a faca para a minha mãe.

- Se você quer me matar, então me mata. Acaba logo com isso. - Ele disse.

- Eu não quero matar você. - Ela disse em troca. - Quero que você vá embora. Vá para a casa da sua mãe hoje.

Ele concordou e saiu da cozinha. Na sala ele começou a procurar no meio da bagunça o boné e a carteira que ele deixou cair durante a confusão.

- Eu quero levar meus filhos, Serena, você hoje não está bem e eu fico preocupado ... - Ele começou mas foi interrompido.

- Você acha que eu vou fazer mal aos meus filhos por sua causa? - Ela jogou a faca que tinha nas mãos na direção dele, mas a faca pegou da porta. - Se eu tiver que matar alguém por ter raiva de você, eu vou matar você.

Ele concordou, pegou o boné e a carteira e foi embora.

- Acabou. Você já pode ir dormir. Eu vou tomar um banho e vou dormir também. - Ela me disse.

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