5º Capítulo

   Festas, bebidas e ressacas.
 
    Essa foi a base dessas últimas semanas, na verdade foi a deles. Eu acompanhava as festas, mas não o resto. Só os segui para mostrar que estava me divertindo tanto quanto eles. Porém, não estava. Não estou.

  E essa noite parece não ser nem um pouco diferente das anteriores. Hoje estou com Connor, Juan, Trevor e Alexia. Meu irmão se negou a ir aos mesmos lugares que o meu amigo, algo irônico, logo estamos dormindo sob o mesmo teto. Então, para evitar desaforos, alterno as "saídas"  entre Isaac e Connor.

   —Eu vou dançar!—Exclama Alexia com a voz abafada pela música pop enquanto se remexe no seu vestido branco e justo em direção a pista de dança.

   Sorrio ao ver seus cabelos cacheados sumirem na multidão. Desejaria ter a mesma devoção e animação da garota para festas. Por mais que me esforce, sinto-me um peixe fora da água nesses locais e qualquer coisa que faço parece forçado.

Olho ao meu redor e percebo o quanto a balada lotou nos últimos quinze minutos que estamos aqui. A nossa mesa está sendo esmagada pelas pessoas que passam. Puxo meu joelho ao lado para uma garota de tranças passar sem me derrubar da cadeira.

Me viro para o lado contrário e vejo Juan observando Alexia com tanta admiração que consigo ver seus olhos brilharem entre as luzes da boate.

   —Vou atrás dela.—Murmura ele ao andar de uma forma desengonçada.

Como eles podem ter a mesma idade que eu e ter experiências que nunca tive? Será que tem algo errado comigo? Com a forma que eu vivo?

Sinto a mão de Connor apertar meu ombro tirando do meu devaneio.

—Sisi, está vendo aquela loira ali?

    Sigo o seu olhar e vejo uma menina com cabelos cacheados loiros volumosos vestindo uma saia de couro e uma regata branca dançando com outras meninas. A garota encara meu amigo como se pudesse despi-lo com os olhos.

  —O que tem ela?

Connor sorri maliciosamente e beberica sua cerveja.

—Vou ficar com ela essa noite.—Ergo uma sobrancelha e ele ri.—É, sério! Portanto, não fique aqui toda triste quando eu for sair com ela.

Reviro os olhos e empurro seu ombro.

  —Por que ficaria?— Connor abre a boca para retrucar, mas então volta a encarar a loira como se estivesse vendo um arco-íris pela primeira vez. —Quer saber? Vai logo atrás dela, seu bobo!

   Não precisei pedir mais uma vez e Connor já estava aos pés da garota. Sorrio e bebo um gole da minha Coca-Cola. O pessoal não brincou quando disseram que sabiam festejar, Trevor só nos acompanhou até a entrada e sumiu na multidão, sobrando eu, sozinha, sentada enquanto todos se divertem.

  Isso não é justo! Essa viagem era para ter sido sua. —Ouço uma voz ressoar em meus pensamentos e ela tem total razão.

   Aproveito que todos estão se divertindo a sua maneira e pego minha bolsa para sair desse lugar que parecia me engolir se ficasse mais um segundo ali dentro.

  Olho ao redor pelas ruas vazias, apesar da fila enorme para entrar na boate. Penso em ir para casa, mas então ocorre-me que talvez Isaac e seus amigos estejam em casa, não seria uma forma de me divertir. Suspiro e atravesso a rua. Talvez encontre algo nessas lojas de convivência.

   Antes que eu entre na 7-Eleven à minha frente, vejo uma loja com luzes azuis e com letreiro gigante em sua fachada "Insomnia", está escrito. Pela vitrine consigo ver quatro mesas quadradas com uma dupla de cadeiras azuis cada vazias, há varias estantes com diversos livros e revistas, o que mais me chama atenção é a tranquilidade que o ambiente parece trazer.

  Dou de ombros e empurro a porta de vidro fazendo com que um sino toque. A loja que na verdade é uma cafeteria, possui um cheiro de café recém-coado e pretzels. Não há nenhuma música tocando, mas o barulho da máquina de café parece ter uma sintonia perfeita.

   —Não, não vendemos álcool.—Ouço uma voz grave e rouca que tira minha atenção do ambiente para a sua origem.

   E logo o vejo. Um rapaz atrás do balcão de madeira lendo um livro, seus cabelos ondulados castanho-escuros parecem angelicais, seu rosto possui detalhes renascentistas, boca bem desenhada, sobrancelhas grossas e negras e seu maxilar quadrado.

Engulo em seco e coloco as mãos no bolso da minha jaqueta jeans. Caramba, quem é esse garoto?

—Eu só ia pedir um café.—Balbucio fazendo-o levantar o olhar do livro para mim.

   Seus olhos olhos negros me analisam dos pés à cabeça trazendo um desconforto de minha parte.

—Isso eu posso te oferecer.—Franzo o cenho em resposta de seu tom displicente.—Expresso ou americano?

   Tombo a cabeça para o lado e o analiso. O seu semblante cansado e tedioso faz-me sentir culpada por estar atrapalhando sua leitura.

   —Expresso.–Respondo ao me aproximar do balcão.

   Estando mais perto consigo ver seu corpo de inteiro enquanto o rapaz prepara o meu café. Ele está vestindo uma camiseta branca com mangas curtas verdes e calça jeans, sobre a roupa usa um avental marrom com um crachá escrito seu nome que não consegui ler.

  —Você não é da cidade.—Afirma o garoto me olhando de relance ao pegar uma xícara branca do armário ao seu lado.

  O que ele espera que eu responda? Dou de ombros e volto para a estante de livros ao lado do balcão.

  —E você é.—Digo pegando um livro azul de capa dura. A sua aparência é velha e desgastada.

    Ouço-o rir pelo nariz.

  —É, eu sou.—Abro o livro e vejo suas páginas amarelas. Mamãe possuía um livro nesse mesmo estado, ela lia para mim toda noite. Sorrio e o folheio.—O seu namorado te deu um fora?

   Viro-me para ele com os os olhos cerrados em uma expressão confusa. O moreno dá de ombros e aperta um botão da máquina de café.

  —O que te faz pensar isso?

  —Você está aqui.—Responde como se isso significasse algo. Guardo o livro na estante e balanço a cabeça esperando que ele explicasse.—As pessoas que aparecem aqui estão com o coração partido ou insônia, e você não me parece estar com problemas para dormir.

  Aproximo-me novamente do balcão e apoio minhas mãos na madeira.

  —Sinto muito em quebrar o padrão da sua clientela, Michael Scott?— Abro um sorriso ao ler seu crachá e o garoto se vira para mim com meu café.—O seu nome não pode ser Michael Scott!

—E não é.—Ele sorri de uma forma que faz meu coração aquecer, seus dentes são brancos e alinhados.—O dono daqui não deixa nós usarmos o nome verdadeiro por causa de um incidente, então escolhi esse.—Dou um gole no café e sorrio.—Eu gosto muito da série, você também?

Michael Scott mordisca o lábio inferior e me analisa com um olhar vacilante.

—Você 'brincando? Eu adoro "The Office", com certeza foi a melhor série inventada.

—Não poderia escolher palavras melhores.

Seu olhar se encontra com o meu e por segundos esqueci como se respirar, os olhos negros fazem-me focar somente neles e na forma que tentam me decifrar. Seguro a xícara com as duas mãos para aquecer meus dedos gelados.

—Qual seu nome se esse não é o de verdade?—Pigarreio quebrando o olhar e olhando para o líquido dentro da xícara.

—Logan.—Diz sem hesitar ao cruzar os braços sobre o balcão.— E você, se não está com insônia e nem com o coração partido, o que faz aqui?

Levanto o olhar e o vejo me encarando. Sinto meu rosto queimar. Suspiro e dou mais um gole no café.

—Não curto festa.

Logan batuca os dedos no seu braço torneado atraindo minha atenção para lá.

—Nunca gostei.—Murmura fazendo-me sorrir como se fôssemos cúmplices.

—O que está lendo?— Questiono deixando-o confuso por segundos até entender o que referira.

Logan balança a cabeça como se estivesse espantando uma ideia.

—Algo inútil.

  Rio e volto a beber o café.

  —Você é um homem de poucas palavras, Logan.

  Logan sorri e cerra os olhos analisando-me.

  —Posso dizer o mesmo que você, forasteira.—Sorrio com o apelido que me dera.

  —Sienna. Meu nome é Sienna.—Ele levanta uma sobrancelha e mordisca seu lábio inferior.

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