Capítulo 9 _ Maksin
Na virada da noite decido por fim questionar Dani, a tarde passou ligeira e divertida, porém ele estava, e está, meio absorto, aéreo. Ele não percebe minha aproximação, quando após o banho vou o encontrar na sala, vejo como suspira desolado, uma expressão de fadiga no rosto.
— Dessa vez vai me falar o que aconteceu? — Pergunto me fazendo notar e Daniel larga o celular que, até então, eu não tinha visto em suas mãos, essas se torcem uma contra a outra em gesto titubeante, segundos se passam antes que ele abra a boca novamente.
— É o Allysson. — Confessa como se fosse o pior de seus segredos sujos, de forma culpada e repleta de tristeza.
— Como não seria? — Solto sem querer, recebendo um olhar de "Não comece" e recuo me rendendo. — O que aconteceu com ele?
— Renan aconteceu. — Murmura indignado e raivoso. — Allysson sempre se junta a ele e acaba fazendo merda.
Allysson é responsável pelas próprias merdas. As palavras fluem por minha mente, mas não comento, já que Daniel me estende o celular aberto em seu instagram, a tela projetando o storie de Dominick que, por sua vez, reposta os curtos vídeos da visível noite de bebedeira e drogas que Gonzales e seus amigos compartilham, este último parecendo especialmente "altinho", chapado.
Cigarros e álcool, usando o uniforme da escola e com a maior parte dali sendo menor de idade, para piorar tudo o ambiente em que se encontram é notoriamente perto do instituto, como se propositalmente tentassem denegrir a imagem austera da escola.
Inclino as sobrancelhas a reprovação manifestando em meu rosto, minha língua estala na boca, mas antes que eu possa falar qualquer coisa Dani afasta o aparelho de mim, desligando-o.
— Tá, tá, eu sei, foi por isso que eu não te mostrei antes. Você disse que não quer falar sobre ele e não vamos, ok? Não quero estragar o dia. — Solta os dizeres com os olhos fugindo dos meus, as mãos inquietas remexendo a pipoca e os ombros caídos como se sentisse culpa.
Abafo meu resmungar, os dentes trincados de tão apertados pela frustração, enquanto tento procurar as palavras corretas e menos rudes para falar abertamente que Daniel deve se tocar e parar de se responsabilizar por cada imbecil decisão do (ex) amigo, como não encontro, opto pelo consolo:
— O único que estragou algo aqui foi Gonzales, essa fumaça toda vai destruir os restos dos neurônios que ele tem, se é que ainda sobre algum.
— Hey! — Repreende, mas não consegue ocultar a ponta de divertimento da própria voz, embora esteja bem funda entre as camadas de advertência.
— Parei, mas Dani, se você está mal com isso, pode falar comigo, consigo ver que te atingiu bastante. — Coloco minha mão sobre a sua e ele a aperta por alguns segundos, cabisbaixo, com a franja rosa caindo por sobre os olhos e semblante pensativo.
— Foi por isso que vim pra cá, sabe? Vi ele saindo com os amigos e sabia no que ia dar, quando eu e ele ainda tínhamos um laço pelo menos dava para impedir, mas agora só consigo ver de longe ele se destruindo, colocando essas porcarias no corpo.
Calo-me, sem saber como acalenta-lo em vista da situação. É ostensivo que Daniel segue se importando com Allysson mesmo após a troca de socos, então não posso dizer simplesmente para deixar a situação de lado, deixar seus sentimentos de lado, quando uma das pessoas que ele ama está enchendo a bunda de fumaça e se entupindo de drogas.
— Eu sei o que você vai dizer, mas não posso evitar me preocupar, ok? Principalmente quando se trata dele, parece até que, além de jogar nossa amizade fora, ele resolveu jogar também qualquer consciência que tinha.
— Que já não era muita. — Completo.
— Maks, isso é sério. — Seus olhos reviram por trás das lentes, mostrando-se injuriado.
— Eu sei, mas não é sua culpa. — Não é sua responsabilidade.
— Eu sei disso e sei que você vai dizer eu não deveria me preocupar com ele.
— Não é bem assim. — Corto-o gentilmente, colocando mais uma vez minha mão sobre a sua, até o sentir se acalmar. — Não gosto dele, mas compreendo que você sim, e é natural que queira cuidar dele, protege-lo, mesmo que ele não se importe com você.
— Obrigado, eu acho. — Ele sorri, mas sabe que fui condescendente. — Eu só queria poder ajuda-lo a parar, sei que não posso impedir, que ele não vai me escutar, mas eu só queria...
A frase não é completada, ele grunhe de frustração e suas mãos apertam e puxam seus fios com força, como se, alguma forma, transformar seus sentimentos dolorosos em algo físico fosse fazer com que o cenário magicamente melhorasse.
— Eu só queira que ele parasse de andar tanto com esses caras, além de péssimas influências, eles só tomam atitudes de merda, o Renan é o pior, ele arrasta com todos eles na lama e os idiotas, e pode botar fé que Ally é um deles, ainda voltam e lambem suas botas para tirar a sujeira.
Sua frustração me toca tão forte que um repentino, embora passageiro, desejo de preservar Allysson longe destas péssimas companhias me acomete. Calculando, uma das formas mais diretas seria uma repreensão de seus responsáveis.
— Talvez se você mostrasse esse stories para a diretoria ou para os pais dele... — Levanto a possibilidade, mas Daniel se empertiga como se levasse um choque e me interrompe com brusquidão:
— Não.
O tom e definitivo, soa quase que desesperado, conhecendo-o bem sua fisionomia chega a transparecer pavor, antes que eu possa pedir mais explicações, com a voz firme ele continua:
— Você não entenderia, mas acredite em mim quando digo que essa seria a pior solução.
Não só seu tom, como a forma em que ele se curva sobre si mesmo protegendo o bolso da calça onde guarda o celular que intensifica a anormalidade da situação, ele age como se a qualquer segundo eu fosse avançar e tomar a força aparelho dele.
— A pior solução. — Repete em uma lamentação tão baixa que mal consigo escutar.
Em seguida se recompõe pega o controle da televisão e começa a zapear pelo canal de streaming, como se estivesse procurando um filme, mas é impossível não observar seus membros rígidos demais, o maxilar trincado e o leve tremular de seus dedos.
Aguardo seu acalmar, mas minha mente vagueia tentando construir o quebra cabeça do porquê seria pior contatar responsáveis a deixar Gonzales se afogar em destruição, apesar que não sei muito da família do Allysson, sequer sei quem são seus pais, por palavras de Dani sei que ele não se sustenta e depende sim de alguém, mas não tenho a menor ideia de quem é.
Pode ser que não tenha pais? Ou talvez tenha, mas são negligentes e por isso ele é assim, ou talvez não, quem sabe seja algo pior?
Refuto a última parte com um tabefe, a teoria soa insensata, pura fanfic, decerto que não seja, vislumbro suas reações ao ataque de pânico pela sexagésima vez, a resposta psicológica que seu corpo teve quando pensou que eu o agrediria, algo bem incomum vindo de alguém que vive a se meter em brigas, a bater e a apanhar.
Quiçá isso tenha vindo de ser eu quem o ameacei, dado a surra que lhe dei anos antes, entretanto não é a primeira vez que faço algo assim, se bem recordo em dezembro do ano passado o ameacei por motivos similares, mas foi esse ano que ele entrou em pânico.
Uma dorzinha acomete o centro de minha cabeça e é meu limite para ficar tentando desvendar a conduta dele ou a de Daniel. Este último ainda abatido e, vendo isso, uma ideia um pouco cruel cruza meus pensamentos, uma que pode ajudá-lo.
— Você quer que eu resolva isso? — Inquiro quebrando o silêncio e Daniel devagar volta o olhar para mim, a boca está seca e os olhos desconfiados.
— Agradeço, Maksin, mas realmente não quero dedurar para o diretor.
— Não disse que vou. — Respondo e suas sobrancelhas se franzem, os olhos ainda sombrios, mas curiosos.
— Como você pretende fazer isso? Ir até lá e assustá-los com sua cara de grande presidente do grêmio lutador? Porque acho que funcionaria. — Ele parece animado com a ideia e rio com o quão adorável fica com a esperança brilhando em seu rosto.
— Não, eu estava pensando em algo um pouco mais eficaz e assustador. — Sorrio e Daniel estremece. — O que foi?
— Você consegue ficar bem malvado quando ri assim. — E depois de hesitar por alguns segundos, ele questiona: — E o que você pretende fazer?
— Tenho contato com a polícia.
Dani não precisa falar nada, seu olhar arregalado grita: "Se eu não queria falar com o diretor, imagina a polícia? ". E antes que negue, eu explico:
— Relaxa, eles não vão prender ninguém, só vão assustar.
— Como pode ter certeza disso?! — E logo se cala, seus olhos brilhando com reconhecimento antes dele anuir. — É claro, esqueci que você é um Petrov.
— Isso foi um sim?
— Claro, mas me sinto mal em tirar a polícia dos deveres para isso, parece até um capricho. — Em certo ponto é sim, afinal eles não vão prender as pessoas que, pasmem, estão cometendo um crime, mas não falo isso para Dani, o objetivo é fazê-lo melhorar de humor.
— Essa é uma cidade pequena, Dani, eles devem estar jogando truco ou sinuca na sala de recreação agora. — Não é mentira, os índices de criminalidade são tão baixos que mal fazem cinco registros no mês.
— Obrigado, Maksin.
— De nada, vem. — Ergo-me indicando a saída, teclo uma mensagem para o delegado que prontamente responde. — Já falei com eles, mas como você faz questão vamos garantir que ninguém seja preso.
— Muito obrigado.
— Não agradeça ainda, o delegado diz que vai rondar a região da escola e não haverá próximas exceções.
— Maks! — Dani grita injuriado, mas existem limites que não posso ultrapassar em questão éticas, nem por ele.
Como previsto, assim que viram as sirenes os garotos se dispersaram fugindo feito ratos, Allysson já não estava entre eles. Um ligeiro pesar me acometeu quando notei isso, mas desvanece no instante em que adentro no dormitório e constato sua presença ali, dentro do banheiro escuto seu cantarolar enquanto toma banho.
Certamente só fiquei preocupado porque ele não estar aqui seria uma preocupação para Dani.
Com isso em mente organizo minhas coisas, o barulho do chuveiro me acompanha, tudo leva em torno de três minutos, então passo para minha leitura que tinha sido interrompida, os minutos passam e meus pés começam a bater involuntariamente no chão, ignoro o tique nervoso, mas o livro acaba e a água ainda está correndo.
A probabilidade ir dormir sem ter que o ver é grande, a constatação não me aquece como de costume e quando deito em minha cama, algo me impede de conciliar o sono. Não é nada advindo de preocupação ou algo do tipo, isso é só por conta de Dani e também por não ser nada agradável ter um drogado como colega de quarto.
Um com zero zelo pelo meio ambiente.
Considerando somente o tempo em que entrei no quarto, Allysson está a mais de meia hora debaixo do chuveiro.
Impaciente me levanto, bato na porta de madeira tentando fazê-lo ouvir por entre sua cantoria, a cada aumento a força para causar mais ressonância.
— Gonzales!!! — Chamo e escuto o chuveiro ser desligado, a voz dele assoma relutante:
— Petrov?!
— Quem mais poderia ser? Sai logo daí.
Não consigo ver através da porta, mas tenho certeza de que ele revira os olhos e escuto seu resmungar sobre eu ser um pé no saco. Ignorando sua amolação, espero ao lado da porta, não que eu consiga imaginar um motivo que venha a justificar essa atitude, mas aguardo Gonzales.
Os segundos se passam e estou prestes a chama-lo de novo, quando escuto-o proferir um xingamento, seguido a isso a madeira da porta balança fortemente e um barulho oco faz eco por dentro do banheiro, um gemido engasgado e depois silêncio total. Minha preocupação dessa vez nada tem a ver com Dani.
— Gonzales? Você está bem, escorregou, está machucado? — Questiono ao mesmo questiono que forço a porta, esta que se encontra muito mais pesada, indicando que ele caiu contra ela.
A possibilidade de ele ter batido a cabeça me vem, na melhor possibilidade está apenas atordoado, nos piores pode haver sangue, concussão, até mesmo desmaio. A apreensão toma meu corpo, retorcendo meu estômago de maneira inquietante.
— Gonzales? – Subo a entonação, mas só recebo silêncio. — Merda, Allysson.
O banheiro só tranca por dentro, embora seja uma porta de correr, tomando em conta que ele tenha tido um acidente, precisa de socorro imediato, eu poderia derrubar a porta com alguns chutes, mas com ele atrás dela seria correr muitos riscos. Procuro uma solução, a lembrança caótica de uma de minhas tias ficar cega numa ocorrência similar, vem a minha mente, ela bateu demasiado forte o crânio e por falta de auxílio imediato perdeu a visão, embora o médico tenha dito que poderiam ter ocorrido coisas piores.
Coisas piores como... A imagem de Allysson tendo uma convulsão no chão me atormenta. Sei que com a tontura ele não vai conseguir destrancar a chave, isso se ele acordar, eu poderia chamar por auxílio do diretor, mas qual a garantia de que chegue aqui a tempo? Meu corpo toma a decisão antes mesmo que eu, a prioridade é socorrer Gonzales, quando vejo estou com panos devidamente enrolados em meu punho, o protegendo, com os ouvidos zunindo e impulsionado pela adrenalina acerto a madeira da porta, em cinco socos minha mão atravessa a madeira fina, o objetivo é destrancar por dentro e amparar meu colega.
— Merda! — O grito que esfria meu coração vem de dentro do banheiro.
Puxo meu punho, uma névoa branca e quente escapa do buraco que acabo de fazer e atinge com força meu rosto e em um reflexo abano-a para longe do meu rosto com a mão direita, e assim vejo as farpas recém adquiridas nas partes que o tecido não cobriu devidamente.
— Porra, cara, sua mão! — Allysson esbraveja preocupado, assim que abre a porta do banheiro, sem indicio nenhum de acidente ou qualquer outro machucado.
O quarto de repente se torna uma sauna, mas não chega perto de estar tão quente quanto meu sangue nesse momento.
— Sua mão. — Repete com voz arrastada e, aproveitando do meu atordoamento, a segura. — Tá machucada, mas não quebrou, graças a Deus.
— Seu maldito!! Pensei que estivesse ferido, porra! — Vocifero, puxando minha mão para longe de seu toque, deixando-o com o braço estendido no ar. Ele fica parado por uns cinco segundos antes de sorrir amarelo e passar a mão por trás dos cachos molhados num gesto de quem está sem graça.
— Bom, eu pensei que seria legal fazer uma brincadeira, mas acho que o tiro saiu pela culatra. — Sua fala sai arrastada.
— Sério mesmo? Você acha?!
— Bom, sim, eu só queria ver você ter uma reação que não fosse parecida com a de um robô.
— E sua brilhante ideia foi simular um acidente? — Minha voz engrossa a cada palavra e seguro meus impulsos, com bastante força de vontade, para não acabar pulando no pescoço do meu maldito colega.
— Simular? — Suas sobrancelhas franzem indiciando sua confusão, a boca forma um leve biquinho enquanto ele repete, em silêncio, uma e outra vez a palavra.
— É só nisso que prestou atenção?
— Anh, não... Quer dizer sim... mas só um pouco. — Suas bochechas ruborizam e ele balbucia nervoso. — Não pode me culpar, você fala como se estivesse no século passado.
E desanda a rir. Cruzo os braços com uma sobrancelha erguida, esperando que se toque e pare de gargalhar, o que ele faz por alguns instantes, antes de praticamente se dobrar sobre si mesmo e rir de novo.
— Simular. Parece coisa que se vê no jornal, cê é muito esquisito.
— E você é a criatura mais irritante que já tive o desprazer de conhecer. — Praticamente rosno as palavras, mas ao invés de retroceder ou rebater com sarcasmo, o babaca me olha de cima abaixo com algo muito parecido com ternura, antes de sorrir tão aberto que chego a ver as benditas covinhas.
— Do que caralhos você está rindo? — Inquiro mais colérico, meus olhos se recusando a desviar da visão de seu rosto risonho.
— Tô rindo porque você não me odeia. — Fala parecendo tão feliz que lágrimas se acumulam no cato de seus olhos.
— Eu não diria isso nesse momento. — Entrecerro os dentes em irritação.
— Mas há alguns minutos atrás sim.
A redundância da frase só não me altera mais do que o conteúdo em si. Não preciso perguntar, Allysson vê em meu olhar que aguardo que desenvolva sua absurda afirmação.
— Tipo, você não me odeia, até deve se preocupar comigo. — Dita confiante, e lhe entrego o mais frio olhar em rebate, vejo como se estremece, mas em seguida se recompõe e ergue a mão juntando mindinho e dedo indicador. — Só um pouquinho?
A última frase soa mais como uma pergunta do que uma afirmação, mas a cara que ele faz de tonto é tão, tão... Não há como explicar, mas sinto como se dispersa parte de minha irritação fazendo com que desapareça minha postura de "frio distante", barra, "irritado e com ódio". O que só dá mais ódio, reviro os olhos com exaspero.
— Não força, imbecil. — Infelizmente minha voz sai com muito menos raiva que antes.
— Ah, mas que você deve se preocupar mesmo por mim, mesmo sendo só um tequinho, é verdade, ou não teria atravessado a porta. — Defende, sem tentar ocultar como está feliz por isso. Estremeço só de pensar nos motivos que poderiam deixa-lo feliz por isso.
— Gonzales. — O advirto para que não prossiga, mas novamente ele cai em uma gargalhada estranhamente lenta e engasgada.
— Você está chapado pra caralho, né? — Sinto meu cenho franzir, denunciado meu desgosto.
— O que?
— Seus olhos estão vermelhos, sua boca ressecada e você age como se estivesse levado uma pancada na cabeça.
— Ajo?
— Sim, como se estivesse sem mais neurônios que o normal. — Bufo com zanga e olho-o direto nos olhos. — Sabe como essas merdas fazem mal?
— O que que tem isso cara, cê não é meu pai não.
E este é o Allysson Gonzales que eu conheço, a volta da normalidade dele passa por mim como um sopro de alívio, nada de fofo ou intrigante, apenas o velho e irritante sarcasmo unido ao cinismo de sempre.
— Nós dividimos o quarto e eu não vou dormir no mesmo ambiente de alguém que consome esse tipo de drogas.
— Qual tipo? — A curiosidade em seu olhar indica não ser uma pergunta retórica.
— Ilícitas.
E ele dá de ombros com total descaso.
— Um tipo ou outro o que é que tem?
— Uma é legalizada a outra não.
— Mas não é tudo farinha do mesmo saco? — Indaga parecendo verdadeiramente curioso.
— Não é não, caramba! — Afirmo contundente e, em meio a sua tontura, seus olhos se semicerram como se ele estivesse com muito sono ou fazendo muita força para pensar.
— Isso não vale. — Ele cruza os braços e faz um beicinho. — Não estava as regras do quarto, cê não pode reclamar disso, e não é a primeira vez que eu apareço assim.
Odeio o fato dele estar certo, mas preciso que ele fique longe dessas rodas agora que a polícia vai começar a monitorar a região, realmente não quero ser chamado caso ele vá preso e quase me arrependo por ter dito para o delegado fazer isso ao invés de ligar para quem quer que seja o responsável de Allysson Gonzales.
— Apenas descobri hoje que você fuma maconha.
— Que mentira! Sempre que chego assim eu estou cheirando a erva.
— Então é melhor parar, a partir de agora está proibido chegar chapado aqui no quarto.
— O proibido é chegar chapado?
— Sim. — Me arrependo depois de dizer, por que sei que virá um contra-ataque.
— Então eu tô com sorte porque não tô chapadão, apenas um pouco bêbado.
— Você não fumou?
— Não, eles dizem que não vicia, mas depois o povo não consegue parar, prefiro evitar, quem fuma são meus brothers, eu só os acompanho.
— Já ouviu falar de tabagismo passivo? Fumante passivo? — Ele me olha confuso. — É claro que não, aposto que nem sabe o que é tabaco, ainda assim, está proibido chegar aqui com cheiro de erva, ou bêbado.
Nos encaramos por alguns longos instantes, uma batalha de olhares raivosos em busca de quem cederia primeiro. Se isso fosse algum estranho livro de ficção, provavelmente poderia dizer que raios saltaram dos nossos olhos enquanto medimos nossas forças. Allysson estreita o olhar e faço mesmo, cada vez mais e mais, a um ponto em que pensei que ele não cederia tão fácil, pelo menos até que ele revira os dele e fala em tom rabugento:
— Eu sei sim o que é tabaco.
— De novo. — Aperto a ponte do nariz com força, pedindo a Deus que me dê a santa paciência. — É só nisso que prestou atenção!?
Praticamente cada palavra sai num maldito grunhido.
— Humm... Não?
Um grunhido de frustação escapa da minha boca e aperto com ainda mais força a ponte do nariz. Como alguém pode ser tão lento? Se estando sóbrio Allysson é lerdo, quando bebe vira uma lesma.
Não é possível que ele não tenha algum tipo de transtorno de atenção. Faço uma anotação mental para falar disso com a diretoria.
— Mas se você quiser saber, eu também sei o que é passivo.
— Não me diga. — Solto com deboche.
— Digo sim. — Sua resposta está repleta de tanta seriedade que é notório que ele não notou o sarcasmo na minha voz.
— Era sarcasmo, Gonzales.
— Sarcasmo? Por que?
— Porque você saber o que é passivo já era algo a se supor, Gonzales.
— Era? — Ele realmente parece curioso e eu realmente quero me lançar pela janela.
— Esquece esse assunto, ok? Só foca nas regras. — Aguardo seu olhar foca mais no meu, antes de começar a falar. — Está proibido chegar aqui com cheiro de erva, bêbado, ou depois de ter usado outra droga qualquer.
Sua reação, obviamente não é a melhor, ele afasta as pernas e cruza os braços numa pose defensiva e sei que mais uma discussão se aproxima. Seria muito mais simples deixa-lo se ferrar com os policiais.
— Pera aí, papai, tu não manda na minha vida não, quem disse que só você é o dono do pedaço aqui?
— Não disse que eu mando, apenas não vou arriscar sujar meu nome na diretoria caso eles descubram que meu colega de quarto bebe, anda com maconheiros, e eu acoberto a situação.
— Mas foi você que disse que quando é líquido pode.
Não é possível.
— Lícito, Gonzales, lícito, não líquido.
— Tanto faz, é isso aí mesmo caralho.
— Você é maior de idade? Ou então já saiu da escola, porque nesses dois casos você está contra a lei. — Rebato e ele aponta o dedo para mim por alguns instantes, mas não consegue pensar em nada, já que chuta a beirada da cama e solta:
— Foda-se, seja como você quiser então, se for pra parar de me encher o saco.
E dito isso ele senta na cama, procurando algo na cabeceira.
— Outra coisa. — Pelo som de desagrado tenho certeza de que revira os olhos. — Não demore tanto assim no chuveiro, não quero controlar você ou algo do tipo, mas é uma questão de consciência ambiental.
Ele fica calado por um tempo, pensativo e olhando para o nada, sua reação acaba me lembrando a de Dani.
— Eu sei que é errado, é que às vezes eu me distraio.
Que raios de distração é essa que deixa a pessoa trinta minutos debaixo de água quente?
Mas não questiono isso, apenas assinto com cabeça, já voltando meu corpo em direção a minha preciosa e convidativa cama.
— Espera — ele murmura voz arrastada e um pouca rouca.
Hesitante pega minha mão e por algum motivo permito que o faça, Gonzales a toca gentilmente como se eu fosse sentir dor caso ele a apertasse, algo quase possível e não pelas farpas que a cortam e sim pelo choque que atravessa meu corpo graças a seu toque.
Tenho vontade de afastar minha mão na hora, mas ele sussurra tristonho:
— Tem tanto nojo assim de mim?
Penso em mil repostas diferentes, nenhuma sai da minha boca, por fim me resigno e deixo que ele cuide da minha mão. Coisa que seria bem mais prática se eu fizesse sozinho.
Odeio coisas que não são práticas, odeio coisas irritantes, odeio pessoas lentas, odeio Allysson. Então porque raios tento ser cuidadoso com ele? Minha mente responde por si só, apesar de tudo Dani gosta dele... e depois daquele dia algo em sua fragilidade me tocou, posso até não morrer de amores por Allysson Gonzales, mas definitivamente não o odeio tanto quanto antes.
Aproveito o fato de ele estar demorando para mexer no celular, abro meu Instagram e passo o dedo pelos stories, os caras até me marcaram em uma foto que tiramos perto da lagoa. Vejo que minha mãe mandou mensagem e cogito por um instante ignorar, mas sei como ela está chateada com toda essa merda com meu pai. Então respondo, mas a mensagem aparece como não enviada, tenho a ligeira impressão de que ela viajou com meu pai ainda brigado com ela.
Apenas não ligo para meu pai imediatamente, porque Allysson ainda segura minha mão entre seus dedos, com a testa ligeiramente franzida, ele encara com olhos semicerrados a pinça que utiliza para arrancar a última farpa, essa entrou mais a fundo, ele parece concentrado em querer tirá-la sem causar muita dor. Mas, sinceramente, eu atravessei a porta com a mão, uma farpa não é nada demais.
Contenho minha impaciência e apenas observo como ele, superconcentrado retira a farpa e praticamente dança antes de continuar o processo de limpeza da ferida. Ele passa o antisséptico, sopra suavemente, fazendo com que os carnudos lábios se convertam em um biquinho fofo demais para um idiota sem tamanho e depois suavemente passa a faixa e o esparadrapo.
— Prontinho. — Dito isso, levanta e guarda as coisas de qualquer jeito, acompanho com o olhar como ele segue até seu armário, pega algumas peças de roupa e depois marcha para a porta.
— Espera. — O impeço, surpreendendo a ele e a mim. — Onde você está indo?
— Sair daqui ora, você quem disse que eu não podia ficar se estivesse bêbado. — Faz muito sentido, mas minha mente se recusa a ver a lógica da coisa.
— Considere isso em outra ocasião, ok? Agora mesmo já passou do horário de dormir.
— E daí? Não é como se eu não saísse as vezes e o dormitório do Renan é perto, realmente não quero desobedecer às regras. Assim a gente vive em sintonia, sabe?
— Não há nada mais sintonizador do que você não ser pego meio bêbado caminhando pelos corredores, por que aí ninguém vem me questionar depois.
—Tem certeza? Você é tão cheio de nhem-nhem-nhem, tenho certeza que deve estar te incomodando. — O incomodo seria maior com você e Renan bêbados e juntos.
— Não, eu decidi isso hoje, então apenas não apareça assim novamente.
Ele inclina um pouco a cabeça para o lado, tal qual um cachorrinho quando escuta atentamente o que o dono quer dizer, tenho que admitir que o Allysson bêbado é bem mais agradável, amigável e receptivo. Deve ser por isso que os amigos deles o fazem beber tanto, por falar nos amigos dele, o que Dani disse é verdadeiro, eles são péssimas influências, eu me pergunto se Allysson se afastasse deles, se fosse um pouco menos apegado. Será que seria uma pessoa melhor?
Tento não pensar na possibilidade de Allysson mais uma vez infligir as regras e sair com Renan, esse infeliz mesmo parecendo burro, com certeza vai dar um jeito de burlar a polícia. Mas esses são problemas para outro dia, não posso ficar dando um jeito em tudo para Dani ou para Gonzales.
Este que, por sinal, solta suspiros em meio ao sono o rosto tão sereno que chega a ser angelical.
Sim, tenho que admitir, ele até parece um anjo.
— Esse cara é o demônio.
Thales maldiz pela quarta vez no curto período de tempo em que nos encontramos aqui, escondendo o rosto com as mãos como se isso fosse nos impedir de ver a "arte"" desenhada nele, rabiscos grotescos imitando pênis, vaginas e bunda peludas, decoram sua seu pescoço e bochechas, tudo acrescido da palavra "LOSER", escrita errada em um tom vermelho vivo bem no centro de sua testa.
— Esses idiotas, até meu primo de cinco anos sabe que Loser se escreve com S e não com Z. — Arthur balança a cabeça num gesto de desgosto e Thales finalmente tira as mãos do rosto para lançar ao outro um olhar irritado.
— É sério Arthur?! Isso é o que importa? — Ele ruge bravo, antes de desferir um soco no ombro de Arthur que se encolhe pelo impacto.
— Para de frescura Arthur, que ele nem bateu tão forte. — Reprocho divertido.
— Como pode saber? Não foi você quem levou.
— Talvez por que não tenha sido eu quem fez um comentário tão estúpido numa situação tão séria.
— Esse argumento não é válido para o ponto inicial desse debate.
Arthur e seus malditos debates, estou pronto para rebater quando Thales solta um bufo de cansaço e irritação que me leva a focar em coisas mais importantes, como livra-lo da merda em que foi atolado.
— Não vamos discutir por isso, Arthur. — Indico com os olhos Thales e ele acata o pedido. — Vá contatar aquele cara e peça para que ele hackear e apagar essa merda da internet.
— Mas ele? Dani pode fazer... — O olhar que lhe entrego faz com que se cale antes de terminar, captando minha mensagem. Nesse exato momento Daniel está em seus clubes, por três horários seguidos, e ele nunca leva celular, assim que temos chances de que ele não veja o que Allysson fez. — Melhor deixar Dani fora disso, vou falar com o cara ele é mais rápido mesmo.
— Fale para colocar na minha conta.
— Ok. — Ele grita ao longe, já tendo se afastado correndo.
Volto-me para Thales que enfiou a cabeça em baixo da pia, esfregando o rosto com força, uma tentativa falha de fazer desaparecer a tinta permanente da pele ou talvez o objetivo seja perde-la mesmo.
— Basta, vai acabar é se machucando. Descansa aí, já volto. — Vou até o laboratório de química e retorno com álcool isopropílico, Thales obviamente não me escutou já que sua pele está ainda mais vermelha que antes, sem fazer nenhum comentário, com auxílio de uma blusa rasgada, limpo diversas vezes a pele até que a tinta do rosto suma.
— Temos que ir para a polícia, você tem que relatar o que aconteceu. — Ele já havia tentado a diretoria, mas não saiu muito bem.
— E acusar a quem? Com que provas? Quem postou essa merda nas redes sociais é anônimo! E ninguém viu quando os caras me pegaram.
— Não tem ideia de quem te pegou?
— Eles usavam capuzes já disse, tirando quando escutei a voz de Allysson, não reconheci mais ninguém.
— Tem certeza de que escutou mesmo a voz dele? — Inquiro com uma pitada de esperança de que tenha sido apenas impressão dele.
— Reconheceria a voz desse neandertal até mesmo num furacão, o desgraçado estava rindo para cacete.
— Merda, a vice-diretora não conseguiu nada contra eles, mesmo?
— Todos tinham um álibi e provas! Não sei como, mas tinham.
— A maneira como fizeram, foi bem planejada até.
— Sim. — Ele suspira alto, seu corpo todo "desaba" como se ele estivesse carregando toneladas em seus ombros. — Só de pensar que vai ser esse inferno o resto do ano, quero desistir do futebol.
— O treinador já passou a escala?
— Não, mas ele já dispensou os que não eram aptos e agora tá selecionando as posições de cada um.
— Ele não deve terminar isso tão cedo, certo?
— Sim... espera! Não pretende entrar no futebol para me proteger, não é?
— Eu não diria te proteger, mas ficar do seu lado.
—Não sou a porra de uma donzela, Petrov, não preciso que me proteja.
— Você tem amigos no futebol, mas a maioria são caras que apenas se exercitam, nunca entraram numa briga, Renan e os amigos do Allysson ou lutam boxe, ou pelo menos fazem exercícios.
— Eu faço exercícios. — Resmunga emburrado.
— Exercícios além do futebol, além disso eu não vou lá para te proteger, vou jogar futebol e me divertir.
— Mas ninguém vai pensar assim! Todos sabem que você é o fodão ali e que é uma espécie de mamãe urso protetora um pouco menos desenvolvida, vão pensar que eu te coloquei para que pudesse me salvar.
— Cara, que se dane então, que seja por isso ou não seja por isso, quem se importa? O único fato é que esses covardes te atacaram em um grupo de oito pessoas, oito! Para enfrentar um cara só. Seja para te proteger ou não, enquanto eles quererem brigar de forma injusta, você tem que buscar um equilíbrio. Não é ser frangote, é apenas autopreservação.
— Consegue dar conta de oito caras, sozinho? — Questiona na brincadeira.
— Oito? Você deveria me ajudar com dois, pelo menos, não é?
— Não é assim que funciona nos filmes, o herói tem que dar conta de todos os caras maus para defender a mocinha.
— Então vá assistir Shrek, porque a Fiona bate em geral lá.
— Aí que seja então. — Ele anui, sem argumentos e mal escondendo o novo contentamento.
— Foi um sim? — Pergunto para ter certeza e ele assente resignado, antes de falar:
— Minha frágil e preciosa masculinidade está indo pro ralo.
— E ela ainda existe depois disso? — Aponto para a imagem dele na internet, recebendo um tapa na barriga em troca e um indignado:
— Hei!
E isso arranca uma risada de mim e mais uma vez o consolo:
— Não sofre Thales, sou seu amigo e vou cuidar de você.
— Uii, para com isso, imagina alguém escutando, o que iriam pensar?
— Alguém quem? — Questiono com picardia.
— Sei lá, alguém de quem eu esteja a fim. — Dá de ombros como se não fosse nada demais.
— Você é hétero e essa escola não tem garotas, se prepare para demonstrar sua "masculinidade" em outro momento.
— Tem razão. — Acata, conformado. — Além disso vai ser muito mais fácil elas me quererem se eu disser ter um guarda costas ao invés de um pinto desenhado entrando na minha boca.
— Não sou seu guarda costas, imbecil.
— Sério?! E eu aqui já imaginando aquele filme do cara com seu guarda costas, tem uma vibe meio romântica, né?
— Não sei de que filme você está falando.
— Aquele lá que... espera. Os testes já acabaram, como vai fazer para entrar no time? Merda com o treinador, sendo o treinador, você não entra lá nunca!
O treinador é conhecido por ser um homem extremamente rude e cabeça dura, mas eu sou um de seus alunos favoritos e já fui favorecido por isso algumas vezes, algo que particularmente não gosto, mas que nesse caso terá de convir. Minha outra opção seria Arthur, mas tenho até dó do treinador caso tenha que pedir pela ajuda dele.
— Relaxa cara, ele vai me testar e pode ter certeza de que estarei lá, seja na reserva ou no time principal.
A desvantagem é que mais horas do meu dia serão gastas na presença de Gonzales.
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