Capítulo 29 _ Allysson
Já dizia o velho ditado:
Um animal sem chifres é um animal indefeso!
Ser corno ou não ser.
Um animal sem chifres é um animal indefeso... um animal sem chifres é um animal indefeso... um animal...
Que se dane o animal!
Ser corno ou não ser. Eis a minha indagação.
Eu não quero ser um boi.
Eu quero ser uma águia, já viu alguma águia com chifres?
Elas têm garras afiadas, bicos poderosos, uma visão maravilhosa
Também têm inteligência... Foca nisso. Inteligência. Tu não é inteligente.
Estraga prazeres!
Mas de qualquer forma isso não é desculpa para ser corno.
Mas ainda assim tu não é uma águia. Se fosse, um pardal conseguiria te predar.
Soy un hombre conformado. Escuto a voz do coração
Ok. Eu não posso ser uma águia, mas não quero ser uma vaca. Posso ser outro predador, predadores não precisam de chifre para se defender...
Caçadores, no geral, devem ser inteligentes.
Que se dane então, sou um ser humano, um ser humano burro que não vai aceitar ser chifrado! Posso até não ter um cérebro funcional, mas isso não quer dizer que eu seja um trouxa que odeia a si mesmo.
Jura?
Ok. Eu me odeio, mas não ao ponto de aceitar isso.
Que bom que temos limites então.
Temos uma ova, é "tem" somos um só.
As vezes acho que você é louco.
Somos! Sou! Merda! Que música irritante!
O meu nome é Dejair. Facinho de confundir...
— Allysson. — A voz preocupada quebra minha linha de raciocínio (ou de falta de dele). Com o baque da realidade, sem querer solto um:
— Eu não sou João do caminhão!
— O quê? — Agora confuso, Ricardo me olha. — Você está bem, Ally?
Pisco duas vezes, ainda entrando em sintonia com o mundo real e tentando de sobremaneira ignorar a irritante música que batuca na minha cabeça. Amo mamonas assassinas, mas este não era o momento mais apropriado para isso.
Não depois de ter meu coração dilacerado. O cheiro salgado de sexo ainda tá forte no ambiente, mesmo que o ato (sabe, o sexo) não esteja ocorrendo mais. Assim que me viu Ricardo saiu de cima do garoto, aí tudo meio que ficou em branco porque eu saí de órbita e só agora voltei ao momento presente.
Ele me encara parecendo preocupado. O rosto vermelho graças ao "exercício", misturado aos cabelos e as sardas ruivas, faz ele parecer um pimentão.
Com mansidão Ricardo se aproxima de mim, os ombros para trás e expressão cautelosa no rosto.
— Tá tudo bem?
Mas que cara de pau! Seu filho de uma...
— Você tá fodendo com outra pessoa. O que você acha? — Grito, esbravejando toda minha raiva. — E eu que pensava ser minha pessoa a fazer as perguntas idiotas.
— Eu posso explicar.
— Explicar o que Ricardo? Tenho cara de ser tão tapado assim?!
— Não.
A resposta que veio meio demorada faz meu olho tremer. Como em um tique-taque.
— Não?! Então eu tenho cara de tapado?
— Não é isso que eu quis dizer, Bebê, olha eu posso explicar, isso não precisa ser o final entre nós dois.
— Como não precisa Ricardo? Vai me dizer o que? Tropeçou na academia, saiu rolando até aqui e encontrou com o Fernando de quatro peladão na cama e "sem querer" esse seu pau imundo resolveu foder com a bunda dele?
— Claro que não, Ally.
— Então o que? O Fernando apontou uma arma pra tua cabeça e te forçou a comer ele? É isso? Fala aí Fernando mostra sua glock. — Grito em direção a cama, onde o dito cujo infeliz se escondeu debaixo das sábanas.
— Allysson, por favor, não enlouquece.
— Ah vai se foder. — Pera aí isso ele já estava fazendo... então... — Ou melhor, não vai foder mais ninguém por um tempo que cê acha?
E antes que o Ricardo entendesse o que eu falei, coloquei um pé para frente deixando o corpo firme antes de girar o quadril e com a outra perna, rotacionando, pego o impulso exato para acertar em cheio seu pau e suas bolas.
— Filho da puta. — Acho que era isso que ele queria dizer, mas de sua boca só saiu ofegares de dor enquanto ele cai no chão, encolhido sobre si mesmo seu rosto atingindo uma estranha coloração arroxeada.
— Ricardo! — A voz de preocupação veio de Fernando, ainda escondido entre os lençóis.
O que só aumenta mais minha irritação, avanço até ele e lhe dou um belo de um soco que deve ter feito com que visse estrelas.
Ah, mas quem devia compromisso a você era o Ricardo...
Caguei!
Fernando e Ricardo estão no terceirão e são colegas de classe na escola, ele sabia desde o início do nosso relacionamento que estávamos namorando e ainda assim trepou com ele.
Ricardo era o que deveria me respeitar nessa merda, mas Fernando é um talarico filho da puta.
Antes de sair do hotel fiz questão de chutar o desgraciado do meu (agora) ex no mesmo lugar.
Que ele sentisse no corpo a dor que eu sinto no coração.
Com lágrimas no rosto, só pude pensar nesta maneira grandiosa de terminar o nono ano.
— Precisamos conversar.
Duas palavras. Duas palavrinhas, bem simples aliás. Mas eu as senti feito uma explosão, tipo aquelas cenas em filmes que rufam os tambores e terminam com aquele prato fazendo: Plum! Ou seria Blum?!
Que se dane, essa tal de centopeia¹ realmente importa?
¹onopatopeia
A questão é que o momento chegou.
E o clima está bem pior do que eu tinha imaginado.
As primeiras palavras de Daniel soaram bruscas e impulsivas, da mesma maneira que se arranca o curativo de uma ferida ainda dolorida. Ele falou como quem está se livrando de um peso no peito, ironicamente, para mim ficou o completo oposto.
É como se, de repente, a gravidade estivesse sei lá, mais pesada... é assim que se refere? Mas como será que pesa a gravidade, não é com uma balança, faz nem sentindo chamar de peso...
A questão é que o clima tá tenso... ou denso... penso... penso... não penso... definitivamente não penso.
Apesar que estou pensando agora.
Que mentira!
Mas eu tô pensando!
Tá mais para estar fugindo de pensar no que importa, que é "A CONVERSA".
Não fale nesse tom! Apesar que quem tá falando sou eu... Ok. Admito, mesmo que para mim mesmo, eu tô fugindo. Mas é que tá tudo tão estranho!
E eu não quero fazer isso. Conversar com o Daniel não é algo que eu esteja biologicamente² preparado para lidar, porém ao mesmo tempo não tenho opção. Não quero levar isso mais longe do que já chegou.
²psicologicamente
Eu preciso de uma explicação.
E ok, eu tava bem puto mesmo no início de toda esta treta, mas ao longo do tempo esse vazio, esse buraco no peito, só aumentou e piorou quando o treco com meu pai aconteceu.
Daí eu me senti tão mal. Quando eu mais precisava, Daniel foi uma das primeiras pessoas que eu lembrei, mas eu o deixei totalmente de lado. Mesmo que ele merecesse, eu precisava ir tão longe assim?
Nossa amizade valia tão pouco assim?
Ele te abandonou antes, no momento em que você mais precisava.
Minha voz interior relembra e sinto uma coceira irritante no meu pulso, já não quebrado. Mas o fantasma da dor ainda permanece ali, tal como a lembrança de me rastejar no escuro e ligar para Daniel várias vezes, desesperado para que alguém me tirasse daquele lugar.
Eu queria fugir e eu estava com medo porque daquela vez Alejandro levou as coisas longe demais, ele estava bêbado e eu senti...
Não gosto de lembrar.
Porque quando me lembro meu corpo entra em piripaque, como está entrando agora. Meu coração parece rasgar dentro do peito e esse frio tremendo... eu fico apavorado só de lembrar e quero fugir, eu preciso fugir.
Ou vou morrer.
O toque de Daniel me traz de volta a realidade e em um reflexo me afasto. Não tenho coragem de falar nada ainda, a mágoa invade minha mente. Porque no momento em que eu mais precisei dele ele não atendeu o celular.
Ele não atendeu.
E no outro dia recebi o motivo do porquê.
Ele estava numa festa ocupado beijando o cara que eu gostava e o ex que eu não consegui superar, o ex que mais tinha me marcado. Daniel sabia das duas coisas e ainda assim ficou com eles.
— Allysson. — A voz de Daniel soa indiferente, mas em seus olhos vejo o brilho de tristeza e quando olho para onde ele olha vejo que inconscientemente cerrei minha mão em um punho, pela raiva das memórias.
— Talvez não seja o momento. — Ele soa triste, cansado e pela primeira vez em muito tempo eu o olho, olho de verdade.
A raiz dos cabelos está alta, há mais preto que rosa ali, mas este não é o único descuido. Seus fios não parecem ter o mesmo brilho de sempre, assim como seus olhos ou seu semblante. Sua pele sempre foi muito branca, mas agora está transferida³ , tipo soro de leite. E ele está mais magro, bem mais magro, decaído.
³translúcida.
Confusão é o que me define. Eu fico preocupado? Eu fico com raiva? Eu fico com mais preocupação do que raiva?
Ok.
Vamos estabelecer que eu estou mais preocupado que com raiva.
— Sim, precisamos conversar.
No fundo de minha mente escuto um martelo bater, como aqueles dos juízes, dando início oficial a esta conversa.
Finalmente colocaremos os pingos nos "is".
Começar a conversar...
Não começamos a conversar.
Na verdade, sentamos um ao lado do outro olhando para o horizonte — além do horizonte existe um lugar, bonito e tranquilo pra gente se amar — para o sol — doloroso, não recomendo — para as árvores... para o horizonte, para o sol de novo — eu não disse que não ia olhar? Dói! — para tudo menos para um ao outro.
Assim, talvez, eu não olhei para Daniel, mas eu sei que ele está arrancando a pelinha da unha, uma coisa que ele faz quando tá ansioso. Então isso conta como olhar, como olhadela ou como visão periferia⁴ ?
⁴periférica
— Como você soube?
Entendo a pergunta na hora e não sei se essa é exatamente a melhor forma de começar.
Como soube que meu melhor amigo/irmão me apunhalou pelas costas?
— Um amigo estava na festa. — Daniel franze a testa assim que ouve minha resposta.
— Um amigo ou o Renan?
— Isso realmente importa? É a mesma coisa. Amigo e Renan, Renan e amigo. — Ok. Era o Renan, mas quem contou para ele foi outra pessoa que ele não quis me dizer.
— Tem razão, imagino que não importe mesmo.
Mais uma vez, o silêncio estranho se apodera.
— Olha... — Começo a falar ao mesmo que tempo em que Dani fala:
— Não foi...
Outra pausa estranha. Isso, essa esquisitice é muito mais desgarradora do que não falar com ele. É como se algo não se encaixasse, como aquela coceirinha irritante naquela parte das costas onde sua mão não consegue alcançar.
Nós dois ficamos em silêncio.
— Ok. Eu falo primeiro.
Concordo com a cabeça.
— Sinto muito. Sinto muito por ter ido a festa com o Ricardo. Sinto muito por ter beijado Maksin. Você não tem ideia de quanto eu me senti mal, Allysson.
— Então porque fez aquilo? Você sabia que eu era apaixonado pelo Maksin, você sabia o quão importante Ricardo era para mim, você...
— Ricardo era um monstro. — Um sorriso de desprezo toma conta de seu rosto.
Bom, isso é meio exagerado.
— Ele me traiu e tudo mais, mas monstro?
Defendo, pois tudo bem que trair é errado e tudo mais, mas chamar de monstro é exagero ou será que não? Mais uma vez observo Daniel, lembro de seu estado anterior, de seu sorriso de desprezo e sua expressão agora nojo, misturado a mágoa e... medo.
Não é fácil falar dos nossos medos.
É difícil falar de algo que te deixou tão exposto, tão humilhado, tão machucado.
Ricardo nunca foi exatamente flores para Daniel e quando me traiu se tornou menos que isso para ele, mas nesse meio tempo ele nunca se referiu a ele assim.
E tinha coisas que eu acabei não contando para Dani, como ele usava drogas por exemplo. E também como sempre oferecia para mim, brigava quando eu não queria usar e as vezes até forçava isso.
Não foram poucas as vezes em que ele tentou colocar algo na minha comida ou na minha bebida... será que?
Meu estômago retorce só de imaginar.
Daniel é a pessoa mais forte que eu conheço, Ricardo ultrapassou tanto os limites assim? Ele tentou drogar Dani? E se tiver feito algo pior? Eu namorava com ele e lembro bem dos seus fetiches nada saudáveis.
Um tremor passa meu corpo e um azedume toma minha boca ao apenas considerar. Será que eu realmente faço essa pergunta? Será que eu quero ouvir a resposta? Bom eu quero ouvir a resposta, mas se for uma resposta ruim não. Apesar que sendo ruim ou não já está feito, mas isso é tão confuso!
Quer saber vou perguntar!
Agora!
Mas e se a resposta for ruim? E... qual era a pergunta?
Ah sim... bem... lá vai.
— Dani, ele machucou você?
Ele não responde, não de imediato. Ao invés disso fecha os olhos com força, vejo-o engolir em seco e quando finalmente fala, sua voz sai firme, mas seus olhos estão mareados.
— Desculpa Ally! Desculpa! Eu nunca faria nada que machucasse você conscientemente, Allysson.
Ele dá uma pausa respirando fundo e um sorriso jocoso, meio mórbido aliás, toma conta de seu rosto.
— Ou talvez eu faria. Já que eu fui aquela festa com seu ex e eu nem gostava da companhia dele... e eu também chamei o Maksin. Enfim eu fui um babaca por fazer isso, mas eu juro para você que eu não iria fazer mais do que aquilo, ok? Beijar o Maksin não foi coisa minha, eu, eu..
E ele procurava palavras para explicar, mas elas não saiam, como se estivessem presas em sua garganta. Não era como se ele precisasse porque eu entendi.
— Entendi.
— Não, não entendeu Allysson.
— Sim, eu entendi.
E quando finalmente Daniel associou que eu havia compreendido, vi o momento em que sua mente encaixou um quebra cabeça único, um em que ele entendeu meus motivos para entender. E subitamente sua expressão frágil se tornou feroz.
— Ele fez alguma coisa com você.
— Não, ele fazia com ele mesmo.
Consigo lembrar perfeitamente das noitadas regradas a droga que ele dava, uma e outra vez ele insistia para que eu as usasse, mesmo eu recusando. Inclusive uma vez o peguei tentando me drogar escondido, ameacei com terminar o namoro e nunca mais ocorreu.
Daniel, mesmo bebendo nunca foi de querer usar algo mais forte então eu imagino bem o que pode ter ocorrido.
— Ok. — Ele fala, ainda desconfiado.
E é minha vez, minha vez de implorar perdão.
—Lo siento. Eu estava tão furioso por conta da festa, por você ter beijado Maksin e por ter ignorado minhas ligações.
— Não foi proposital.
— Agora eu sei que não, mas eu me senti traído e não quis falar mais com você, devia ter percebido que você precisava de ajuda.
— Não. — Ele fala sério e um arrepio de medo atravessa meu corpo.
— O que?
— Não vamos fazer isso. Não vamos ficar nos culpando, não vamos nos fazer sentir mal. Foram mais de sete meses disso, Allysson, e do que que adianta? Remoer não vai fazer o tempo voltar, então não adianta.
— Então voltamos ao de sempre? — Uma tristeza intensa corrói meu coração.
— Eu acho que não. Querendo ou não foram meses, meses de mágoas. Não dá para voltar simplesmente, ou talvez dê, eu não sei. Mas não dá para ter certeza.
— Eu realmente sinto muito.
— E eu também. Mas para isso dar certo, nós precisamos deixar tudo para trás, ok?
Ele falou naquele tom descendente que sempre me irritou e que, pelo visto, continuará irritando por muito tempo. Constatar isso deixa meu peito mais leve. Bufando eu brinco com Dani.
Condescendente
— Você continua o mesmo de sempre: — Dou uma pausa dramática. —Mandão e meio manipulador.
— Manipulador? — Ele repete a palavra com ultraje. Antes de cerrar os olhos para mim que ficam parecendo duas fendas escuras. — E você que é sempre tão submisso e mimado?! Bom, talvez por isso Maksin goste de você.
— Como é que é? — Solto as palavras engasgadas, o choque me fazendo repeti-las uma e outra vez na minha cabeça.
— Foi mal, foi mal, acho que pegou mal ter falado isso. — "Mesmo que seja verdade." Ele murmura a última parte baixinho, mas escuto ainda assim.
E não ligo.
De verdade não ligo.
Porque o que importa de verdade é:
— Maksin gosta de mim?
— Não vou responder isso.
— Mas você acabou de falar. Tipo... há cinco segundos atrás.
— Mas não vou afirmar ou confirmar nada, são suposições minhas. — Suas bochechas rosadas como sempre denunciam sua mentira deslavada.
— Eu sei que você está mentindo. Maksin falou alguma coisa com você? Qualquer coisa?
— Tanto faz se ele me falou alguma coisa ou não, e a resposta é não, porque você pergunta essas coisas para mim e não para ele?!
— Bom, bom, bom... — Taí mais uma coisa para a lista de coisas que Allyson Gonzales não sabe responder.
— "Bom" uma ova, me escute muito bem Allysson. — Ele aponta o dedo para minha testa. — Não importa se ele gosta ou não de você, se ele não assumir isso não é para você ficar correndo atrás dele feito um cachorro.
Ele fala num tom tão grosseiro que me surpreende, é como se ele estivesse com raiva do Maksin só por ter tocado neste assunto comigo.
— Pensei que vocês fossem amigos...
— E daí?! Você também é meu amigo! E aliás se fosse ele o trouxa, eu falaria a mesma coisa. Existe uma linha tênue entre lutar pelo amor e ser capacho.
— Ei! Não tô sendo tapete de ninguém não.
— Ótimo então não fique catando migalhas, se Maksin um dia gostar de você que seja homem e assuma, você e essa sua mania de dar uma de pombo, catando migalhas e se contentando com pouco.
— Bem, eu nem tenho certeza se ele gosta de mim. — Quer dizer ok que nós meio que transamos e ok que ele cuida de mim e parece se importar comigo, mas e se for só ilusão da minha cabeça?
Digo, ser ilusão da minha cabeça a parte em que ele se importa comigo, não a parte do sexo. Apesar que.... E se tudo aquilo for um sonho vivido, tipo aquelas coisas que se criam na cabeça, mas de fato não ocorreram.
Mas se for isso, quer dizer que eu sonhei com aquilo? Pareceu tão real. Foi real! Mas e se não tiver sido? Sido real, digo. Merda, será que eu tô enlouquecendo?
Mas enlouquecendo por pensar que algo não foi real quando foi real? Ou surtando pelo fato de não ter sido real e que ter sentido que foi real.... tô ficando esquizofrênico?
— Ally, foi para o mundo da lua de novo? — Daniel me pergunta passando a mão em frente aos meus olhos.
— Não, bem sim, mas não é só que do que a gente tava falando?
— Do Maks gostar ou não de você e dele ser um bundão caso goste e não assuma.
— Ah sim, bem eu não posso ter certeza dos sentimentos do Maksin, mas não acho que ele seja um bundão. Eu não sou exatamente uma pessoa fácil de lidar e errei muito com ele. — Desabafo. — Ok não foi exatamente muito, mas o erro foi tão grande que poderia contar como muito elevado a sei lá quantos. Se bem que acho que resolvemos isso por enquanto.
— Compreendo. Você continua muito apaixonado por ele. — A última parte ele murmura tão baixo que mal dá para escutar.
— É difícil não ficar, apesar de ser mal humorado Maksin é uma das pessoas mais gentis e compreensivas que eu conheço, além de...
— Se não se importar. — Dani me corta. — Não quero detalhes.
E o outro elefante na sala, imagino que vendo onde a gente tá esteja mais para elefante no jardim. Enfim, a questão é que o puto do rinoceronte pesa entre a gente.
— Ah sim, sinto muito. — Respondo muito menos entusiasmado e muito mais nervoso.
Não nervoso de estar com raiva, mas nervoso de estar nervoso. Tipo com nervosismo. Tipo com aquela coceirinha irritante, apesar que esta coceirinha deixa as pessoas com nervoso de raiva e não somente com nervoso de nervoso.
Daniel continua me olhando enquanto eu continuo ruminando e eu não sei o que dizer!
Não pergunto o porquê dele não querer ouvir sobre o que eu tenho a falar de Maks. E o silêncio mais uma vez paira entre nós.
E tudo isso graças a nosso outro assunto mal resolvido, um que vem de antes de paramos de nos falar.
O correto seria lidar com tudo agora? Evitar mais desentendimentos, quer dizer tipo eu sou uma pessoa muito lesada e o que eu penso estar ocorrendo pode ser completamente diferente.
Mas e se não for?
Eu tô com medo. Acabamos de reconciliar e isso pode ser mais um peso entre nós. E se a gente não conseguir lidar com isso? E se minha suspeita se tornar realidade.
Como o bom covarde que sou, sorrio amarelo.
— Fico feliz de você ter me desculpado, Dani. — Puxo ele para um abraço. — Você sempre será como um irmão para mim.
Ele treme em meu abraço e meu coração treme também. Daniel sempre foi e sempre será como um irmão mais velho para mim.
Ok. Que foi um que por um tempo eu deserdei, mas o princípio é o mesmo.
E no meu coração jamais mudará.
Por mais que, talvez, o dele me veja de outra forma.
Mas espero estar errado.
Normalmente estou errado.
— Você também, Ally. — Daniel fala retribuindo o abraço e isso aquieta meu coração.
Talvez eu só tenha tido a impressão errada mesmo.
Assim que:
— Cê não acha que é muito abuso me chamar de mimado, não? — Falo o apertando mais como uma "punição". — E submisso? Vou te mostrar quem é o submisso.
— Ally, para. — Dai meio que implora, sua voz sufocada, mas logo entra na brincadeira.
Tudo novo de novo.
Conversamos um pouco mais e depois Daniel vai para sua aula de coreografia com os líderes de torcida.
Eu fico por aqui, admirando o horizonte.
Como amo essa palavra.
Horizonte.
Lindo. Lindo. Entediante. Pego meu celular que eu tinha posto no silencioso para que não atrapalhasse minha conversa com Dani e no topo do Zap-Zap duas mensagens se destacam:
A primeira mensagem veio do contato salvo como Boludo, vulgo mi padre.
"Hijo mío, necesitamos de hablar. Te quiero."
Te quiero.
Essas duas palavras descem mal vindo dele. Descem quadrado para dizer a verdade.
O infeliz não quiere nem a si mesmo quanto mais a mim!
Descarado!
Ahhhhhhhhh!
Me pone del niervos solo com ler eso!
Joder! Maldito zorro.
Se eu pudesse eu falaria tudo e mais um pouco para ele, mas mi madre me ensinou a respeitá-lo e por respeito a isso, contenho minha vontade de reformar a cara do carcomido e ignoro sua mensagem.
A fervura do meu sangue desesquenta quando vejo a mensagem abaixo da dele. Uma muito mais interessante.
Hermoso: Que ódio que eu tenho desse filho de uma piranha malcomida.
Renan e seus fuzuê. E de pensar que eu quase peguei ele, por isso que o contato tá salvo como hermoso e eu bem que poderia mudar isso, mas não quero. Afinal tem todo uma história melodramática por trás desse apelido carinhoso.
Quando eu e Renan nos conhecemos tive uma quedinha sexual por ele e não era para menos. Renan é lindo e gostoso pra caralho.
Tipo desde o rosto que é bem, bem marcante e ele tem tipo uns olhos meio sexys em um tom de castanho madeira muitoooo bonito, mas mais bonito são os cabelos lisos e cor de chocolate. Aí é aquele esquema a pele bronzeada de sol, a aura quente... por isso salvei o contato dele como hermoso.
Aí como ele tinha, ainda tem, uma vibe bem hetero top, a princípio só admirei de longe e quando descobri que ele era gay logo dei em cima dele, uma coisa levou a outra, mas na cama éramos incompatíveis. Acabamos por continuar mantendo contato e nos tornamos melhores amigos.
O que começou como um ligue se tornou uma das melhores coisas da minha vida.
Falei que era uma bela história.
*Não é exatamente um gatilho, mas preparem-se para muitos erros de português e espanhol nesta conversa. E bastante palavras de baixo calão.*
Eu: "Larga d ser bundão q yo sé ki vc é doidim pra cai d bc nele."
Hermoso: "Claro que nn, aquele idiota é mt engreído."
Renan e essa mania de falar engereído.
Se bem que nesse moemnto não é falar, é digitar.
Eu: "Y a tu te gusta este engreído."
Hermoso: "Nem fudendo."
Eu: "Vc tá td poc qrndo q él te joda duro."
Hermoso: "Vai se fudê, bundudo."
Eu: "Kiria viu kkkkkkk."
Renan digita, digita, digita.
"Senta, senta, menina não se esqueça."
Digita.
Digita.
Porra cara tá escrevendo um TCD?
Digita.
Digito uma mensagem mandando ele chupar meu c* quando vem a resposta dele:
Hermoso: Então põe uma placa na testa e vê se alguém se voluntaria. Fui.
"Se envolver com esa chica te dará dolor de cabeza".
Que saco! Odeio quando eu tô nesses dias que as músicas não param de tocar na minha cabeça.
Tipo assim, ela já não presta, não funciona direito, aí fica tipo uma rave nela, é foda viu.
— Se nota que você tem um vício em dançar.
Sinto como se uma corda puxasse meu pé e me trouxesse de mergulho para a realidade. Não preciso nem me virar para ver quem é, pois essa voz... essa voz rouca, chamativa, super maculina... porra cara, quando foi que eu me tornei tão gado assim? Tudo que Maksin Petrov faz é motivo para eu ficar igual uma cadela no cio?!
Mas é que ele tem uma voz tão boa!
¡Espera?
Ele falou algo, não falou?
Viro para trás, para conversar com ele, olho no olho, se bem que podia ser dente no dente ou boca na boca, talvez ainda mais carne com carne.
Ah, esses olhos do Petrov...
Basta uma olhadela e quase perco o fôlego.
Como é que se respira mesmo?
É puxando o ar?
Porra.
Hoje eu tô numa mania de falar porra.
Porque Maksin é tão atraente?
Ele tá com uma camisa branca e uma calça daquelas tipo chique e só com essas duas coisas ele dá de dez a zero em qualquer cara dessa escola. E olha que eu só tô falando das roupas porque se for falar de como ele é atrativo... caramba, não conheço ninguém que ganha desse cenho franzido e dessa cara de sério ou do olhar que parece conter mil e uma tempestades.
— Maksin... — O sussurro sai entre meus lábios e sinto meu coração espancar meu tórax.
O coração fica no tórax, certo?
Certo.
Tá certo não, mas tá ok.
Também tô falando muito ok.
Pensando, não falando.
É a mesma coisa!
— Você dança bem. — Maksin fala após uns segundos... ou minutos? Em que fico o encarando.
Pera eu tava dançando?! ¡Quando?
E o mais importante. Porque quanto mais eu olho Maksin, mais eu não quero deixar de olhar para ele?
Queria poder tocar ele agora mesmo, ou que ele me tocasse como aquele dia. Só de pensar nisso sinto meu corpo pegar fogo, queria que Maks apagasse ele.
Pena que não pude provar tudo aquele dia, quase solto um choramingo só de lembrar do que não tive por completo e discretamente olho para as calças de Maksin.
O volume que tinha ali. De repente sinto meus lábios secos e os hidrato passando a língua.
Um pigarro desconcertado me tira do meu foco e demoro uns segundos para perceber que saiu de Maksin. Este mesmo que de um segundo a outro parece estar colorizado, meio vermelho e me olhando atravessado.
Cacete! Quanto tempo eu fiquei observando?
Pela reação de Petrov, pouco tempo não foi.
Merda!
E de repente uma explosão de vergonha toma conta de mim e sinto meu rosto esquentar.
Uma risada sonora quebra o clima e quando olho para o lado de Maks noto algo que não tinha percebido antes.
Um garoto, dois centímetros menor que Petrov. O reconheço pelo rosto com cara de esperto, sempre tem alguém com cara de esperto e não do tipo nerd, mas do tipo esperto. Esperto. Quem raios inventou essa palavra feia?
Além da cara de esperto ele é meio estiloso, mas não estiloso, estiloso. E sim, estiloso meio sei lá. Ele tem uma vibe de advogado, os cabelos castanhos sempre estão bem penteados e ele tem olhos azuis, muito azuis que não tem nada haver com ser estiloso, mas são muito bonitos.
Porém o que me paga nesse cara é o sorriso, ele tem um sorriso maroto ou seria matreiro? Um sorriso fácil. Não, não, prefiro maroto. O cara do sorriso maroto e a cara de esperto. Arthur, para alguns, "Filho de uma piranha mal comida", para Renan.
— Ah, você!
Solto empolgado até demais e ele ergue duas grossas sobrancelhas.
— Ah, sou eu?
— É você.... é porque você... ah, deixa para lá. — Não vou falar sobre Renan e ele, não é mesmo?
Então volto a olhar o que me interessa, no caso Maksin Petrov que parece me analisar com um olhar mais frio e meio irritado. O que é bem esquisito porque irritado para mim é algo quente não frio. E o que raios eu fiz para ele começar a se irritar?
— O que foi?! — Pergunto direto e reto, desta vez nem sei o que fiz para ganhar um olhar atravessado dele.
Ou talvez o olhar tenha sido coisa da minha cabeça, pois quando Maksin fala comigo tudo tá de volta ao normal.
— Não é nada, eu estou indo para a reunião do grêmio, você vai para a aula de confeitaria?
— Sim, quer que eu leve algo para você? — Ok. Talvez eu tenha soado animado demais ao falar.
Mas é que Maksin não é fã de doces, porém todas as últimas vezes que fui as aulas e levei algo para ele, ele comeu e gostou! E comeu mais de um! E pediu mais!
E fazemos isso todos os dias das aulas de confeitaria, logo após ele me ajudar a estudar e enquanto assistimos algum filme.
— Eu não ia pedir isso, mas já que ofereceu. — Uma parte minha ainda fica animada, a outra acha que talvez ele tenha falado só por educação.
— Vou fazer algo que não seja tão doce.
— Pode fazer o que quiser, eu vou comer e como sempre estará ótimo.
— Mas ainda assim quero fazer algo que você vai gostar mais. — Dá um certo prazer, um quentinho, quando vejo seus olhos brilharem por ter comido algo que eu fiz e gostado bastante.
— E, de repente, sinto que cai num filme de romance ruim dos anos cinquenta.
Arthur é o que corta o assunto e neste instante sinto tanta aversão por ele quanto Renan sente, exceto que eu não quero transar com ele, diferente do meu amigo.
— Cale a boca. — Maksin praticamente rosna para ele e depois de uma breve despedida ambos seguem em frente discutindo.
É engraçado ver como esses dois se bicam, mas continuam um atrás do outro.
Eu sigo para a aula de confeitaria, mais animado que nunca....
"...como sempre estará ótimo".
Praticamente pulando sigo até a sala de confeitaria.
Vou fazer algo para combinar perfeitamente com a sobrecoxa marinada que vou fazer na aula de culinária, assim poderemos jantar e comer a sobremesa depois.
Em uma mão duas marmitas perfeitamente embaladas com comida para o jantar quentinho, na outra a mousse que fui buscar na sala de confeitaria que graças ao nitrogênio líquido e as horas extras na geladeira estava perfeita.
Perfeita e linda!
Uma mousse de limão siciliano intercalada com geleia de frutas vermelhas, creme suave de ninho e uma base de biscoito amanteigo.
— Opa!
Mas que????
O esbarrão leva a mim, as marmitas e a sobremesa ao chão. O único que sobrevive a isso é o indivíduo responsável por minha queda.
Agora minha mousse não está mais perfeita e a comida revirada!
Levanto furioso e já olho para o cara de pau!
— Foi mal eu não te vi. — Ele pede desculpas.
Acidentes acontecem.
Acidentes acontecem.
Acidentes...
— Sorte sua ser meu amigo ou te daria um soco. — Solto emburrado e Dominik ri.
Eita! Como testa minha paciência! Pensando bem, uma amizade não morre por uma pancada ou outra.
— Oxe, menino bruto! Pensei que as sessões com Maksin Petrov estivessem acalmando você. — O tom de voz sarcástico, ou é cínico? Me irrita. E dái dá para entender porque Maksin fica tão irritado quando eu sou desse jeito.
Mas pera...
— Sessões? — Tipo de filme? Que nem aquela sessão da tarde? Que raio de sessões é essa?
— Sessões de sexo caliente.
— Não estamos transando! — Não que eu não quisesse, mas somos só amigos. E Maksin não vai gostar se o boca de caçapa do Dominik sair falando essas coisas.
— Ah não?! É que como vocês estão tão mais próximos eu supus isso, foi mal.
— Como assim tão mais próximos?
— Uai, eu vi vocês dois mais cedo, por isso que eu vim até aqui, ia falar com você. Daí a gente se esbarrou.
— O que tem haver você ter visto eu e Maksin mais cedo com você vir falar comigo?
— Como eu disse, eu pensei que estava rolando algo entre vocês e sabe como é, nós somos amigos e não quero que você se iluda. Mas como não estão juntos não tem problema.
— Como assim me iludir?
— Ah, você não precisa saber já que não estão juntos.
— Mas você atiçou minha curiosidade, se a gente estivesse junto, qual seria o problema?
— Bem eu só iria te alertar para que não se apaixonasse tanto por ele.
— Porque?
— Porque faça o que você quiser você jamais será ela.
— Ela?
— A dona do coração do Maksin Petrov. Maria Antonieta.
Isso me emudece, como assim dona do coração dele?
Maksin tem mesmo um coração?
E quem raios é Maria Antonieta?
Tipo a Chiquinha?
Ou a rainha?
Mas que droga!
Sinto meu coração ser esmagado.
Maria Antonieta.
Nem sei quem é, mas não tenho chances com ele por conta dela.
🧡💛💚💙💜🧡💛💚💙💜
Olá!!!
Faz tempo, viu?!
Espero que tenham gostado do capítulo, apesar de ser meio longo...
Dominik finalmente vai faezr seu papel nesta história e a segunda parte logo mais vai acabar.
Ironicamente, já escrevi o final, só o meio tá sendo mais complicado. Contudo vou tentar escrever o próximo capítulo rapidinho 🥰.
Gracias por lerem e até a próxima.
Aliás encontrei uma das músicas perfeitas para esta história.
https://youtu.be/wjF1APsxz_g
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top