Capítulo 27 _ Maksin
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— Você vai ver como ele é legal, Maks.
Mais uma vez e digo isso por que faz uma semana, Yuki repete a frase, empolgadíssimo, como na primeira vez em que a falou e como nunca o tinha visto neste curto período de tempo em que nos conhecemos.
O estado de euforia, como assim nomeei, teve início quando ele recebeu a notícia de que seu (nas palavras de outros) inescrupuloso amigo estava retornando a escola. Os sintomas de tal estado se enquadram em voz ficando cada vez mais afinada pelo entusiasmo, mãos agitadas, dancinhas aleatórias e... os pés.
Ah, os pés.
Desde que recebeu a "fabulosa" notícia, Daniel, em momentos (vários), fica na ponta dos pés, num movimento inconsciente e inconsistente, ele se balança para frente e para trás, a forma levemente desengonçada com que faz deixa-o de certa forma adorável.
Adorável, é uma das características que associei a ele. Usualmente não fico perfilando as pessoas, mas faço recorrentemente com ele. Assim que é de se constatar, mesmo que para mim mesmo, que Yuki de certa forma me atrai.
Notei isso desde que conversei com ele pela primeira vez, há algo nele intrigante, interessante, arrebatador.
Algo que me faz lembrar de Maria Antonieta.
Talvez sejam os gestos marcantes, o sorriso fácil ou quem sabe seja o cabelo. Bem, o cabelo decerto me recorda um pouco ela. Com suas diferenças, obviamente, ao invés de azul e verde, as madeixas de Daniel brilham com tons fortes de vermelho carmesim e rosa magenta. De acordo com ele, num futuro próximo, vai ficar apenas o rosa já que combina melhor com sua cutis.
— Viu? Chegou. — O timbre de sua voz chega a tremer pela animação, ele acena, até que meio brusco pelo empolgamento, para o seu tal melhor amigo que ele estava maluco (e me enlouquecendo) para me apresentar.
Com tanta exaltação, já me sinto meio exausto.
Daniel é um cara interessante, tem bom papo e ótimo caráter, mas também possui um certo dedo podre para amizades. Não que eu não tenha, afinal as pessoas não vêm com uma tela na testa para que possamos ler seus pensamentos, intenções ou passado. Não. Entretando não é só esta a questão.
Há um tempo Daniel quis porque quis, insistiu muitissímo, para que eu conhecesse sua roda de amigos, mesmo eu sendo bastante contundente com minha negação. Então, ele resolveu fazer isso escondido.
Eu achei que iriamos sair juntos, mas na verdade era um encontro com seu círculo social. E bem, ok, eu fui forçado a socializar, o que já é meio ruim, mas o pior mesmo foi ter de fazer isto no mesmo ambiente que Dominik.
O que dá para reiteirar sobre suas má índole para amizade.
E mais: eu repugno interagir com Dominik.
Ok, não é como se eu não estivesse preparado para isso futuramente (um muito distante, de preferência), afinal vim para o mesmo instituto que ele.
Mas não é só porque existe a possibilidade de acontecer que eu não vou fazer questão de evitar.
Entretanto, graças a intervenção inconsciente de Daniel, tive que evitar por bem menos tempo que eu queria.
Só de pensar nisso já começo a me irritar.
Afinal, o fato desta criatura estudar aqui foi um dos motivos para eu não querer vir para este estapafúrdio instituto, contudo como Arthur bateu o pé eu não tive opção.
Eu até tentei não vir, todavia o ignóbil do meu primo se meteu em várias confusões por conta de um cara do primeiro ano e minha preocupação, somada ao argumento do meu pai de: "Alguém tem que ficar de olho nele", finalmente me trouxeram até aqui.
Nisso, acabei por me mudar para a escola no segundo bimestre do ano letivo, já que todo este assunto foi uma coisa de um rompante. E desde que cheguei aqui, e isso faz um mês, nunca antes havia me encontrado com este garoto. Isto porque ele aprontou alguma coisa (que realmente não fiquei muito interessado em saber e nem Dani em comentar) e ganhou uma suspensão de um mês.
E levando em consideração o tempo de punição, boa coisa é que não foi.
— E aí, Danete.
Ele cumprimenta antes mesmo de chegar muito perto de nós, assim que ainda não o observo diretamente, contudo um arrepio atravessa meu corpo só de ouvir essa voz. Ela é atraente, eu diria até que é encantadora, mas de uma forma diferente.
Não tem aquele timbre fofo e também não é especialmente melodiosa, há um subtom áspero e soa levemente arrastada, todavia ao mesmo tempo é ligeira e macia.
Singular.
Fascinante.
Paradoxa.
Com uma curiosidade que não pretendia sentir, volto meu olhar para ele e me deparo com algo deslumbrante. Sim, talvez eu possa estar exagerando, talvez eu realmente esteja, mas é que é tão incomum.
Há algo em sua energia que grita cores. Cores extravagantes, explosivas, belas.
Não, ele não anda todo colorido, mas é quase como se andasse.
Sim. Não, não há explicação lógica.
É assim, como a poesia.
Ou talvez como uma pintura.
Ele me dá a mesma impressão que os quadros de Beatriz Milhazes.
Tem alguma coisa ali entre as rebeldes ondas e cachos que formam seus cabelos, brilhando com o sol, as laterais castanhas são raspadas enquanto a parte de cima se converte em um topete sedoso que cai levemente pela testa. Vejo algumas luzes aloiradas que fazem perfeito conjunto com a pele caramelo e ressaltam ainda mais os lábios bem desenhados e formosamente rosados.
— Olá, senhor estranho. — Fala piscando um dos olhos cor de borra de café para mim, um sorriso incompleto transparecendo em seu rosto.
Seus passos o fazem se aproximar de mim, mas ele acaba tropeçando em algo, vejo como seu corpo cai indo direto para o chão. Teria se espatifado se eu não o tivesse segurado, infelizmente ou não (com toda certeza não), a posição em que ele fica é constrangedora.
Com as duas mãos eu o seguro pelos antebraços, o garoto, acaba ficando numa postura meio deitada, meio agachada, o peito de encontro com minha pélvis e seu rosto e boca bem encostados em minha barriga.
Solto um suspiro forte quando ele ri contra minha camisa, sinto seu sorriso por debaixo dela, em minha pele, como se não houvesse uma camada de tecido entre nós dois.
Ele ergue levemente o rosto, sua sobrancelha acompanha o movimento e fala num tom divertido, embora levemente debochado:
— Que merda, né?
É, que merda, mesmo.
— Vamos gente, mais movimento! — O grito, seguido por palmas apressadas, quebram toda a minha concentração.
Então, por fim, abro os olhos e deixo que as lembranças da primeira vez em que vi o Allysson e as sensações que vieram junto, se desvaneçam de minha mente.
O foco é o agora. Que é, na mesma medida, extremamente importante e deveras enervante. Não sei exatamente o que é pior: lidar com a azucrinante voz de Renan, enquanto ele lidera o ensaio do seu clube, ou o conteúdo de treino do clube em si.
Talvez o pior mesmo é tentar manter minha concentração quando ela é constantemente desviada por causa dessa maldita "dança".
Habitualmente eu estaria pouco me lixando para o que Renan ou o restante deles fazem, mas é inútil não sentir como se estivesse engolindo ácido quando Allysson está no meio deles.
Fazendo o aquecimento do clube.
Se é que isso possa a vir ser nomeado aquecimento.
Está mais para putaria desenfreada.
Porque professor, Alain Reginald, porque teve essa porcaria de ideia de fazer os ensaios dos dois clubes juntos?
Eu seria bem mais feliz, ou pelo menos bem menos infeliz, se nunca visse isso.
Qual é a desta grande necessidade de esfregar tanto a bunda contra a pélvis de outros alunos?
Pela décima vez nos últimos quinze mintos, observo de esguelha meu colega de quarto que, em todo este tempo, está treinando quadradinho com um moleque. O movimento dos quadris de Allysson é hipnotizante, mas a maneira como o faz, encostando seu corpo no do outro, o deixando tocá-lo, é exasperadora.
Mas o mais azucrinante é a risadinha do indivíduo, Gustavo, se não me engano, que parece se aproveitar bastante, rindo com malícia e passando a mão nele de forma cada vez mais despudorada.
Não que outros garotos na mesma situação não estejam se aproveitando disso com certa ardileza, mas por razões estúpidas obviamente me incomoda esta dupla em específico.
Como diriam alguns livros chineses: estou a beber vinagre.
E como desce amargo.
Com a troca da batida, indo de funk para forró, eles mudam de posição e passam a ficar frente a frente. Só de ver os quadris deles se tocando, esfregando, e os rostos se aproximando, viro o meu para longe.
Inspiro e expiro.
Sinto como se estivesse tentando inalar fogo.
Cacete!
É tão exasperante estar chateado, furioso e com mal-estar no estômago, tudo ao mesmo tempo. E nós não temos nada! Sequer uma amizade.
Mas também, puta que pariu!
Isso é uma escola ou um cabaré?
A resposta vem a mim quando Gustavo solta um gemidinho.
— Pra quê esse punho cerrado, Maks? Vai fazer o Gu engolir a força os próprios gemidos?
A pergunta totalmente descarada vem de Dominik, que se aproxima de mim por trás.
Mordo a ponta da minha língua para não soltar uma resposta ácida e forço a minha mão a abrir, ignorando como o nó dos dedos ficaram até brancos. Volto meu olhar para ele que está o mesmo de sempre: cabelos lisos escuros com mechas azuis, o topete caindo como uma franja em cima de um dos olhos verdes, a pele branca levemente rosada nas bochechas e o rosto coberto por piercings.
Tem dois na sobrancelha, tem um no bridge, no labret, no septo e no nostril.
É por estes e outros motivos que sempre achei Dominik meio masoquista.
Ele me encara com um brilho malicioso no olhar ao saber que me atingiu e eu retribuo com a mirada mais fria que posso alcançar, não que seja muito difícil, Dominik ao longo dos anos conseguiu conquistar meu mais singelo desprezo.
— O que quer? — Questiono com a voz seca, sem saco para lidar com ele, especialmente hoje.
— No momento? — Ele indaga com um sorriso travesso, que mostra mais um de seus piercings, desta vez no freio da boca. Ele poderia ter de verdade um freio na boca. — Te ver se mordendo de ciúmes.
— Vá pastar.
— Não, obrigado, prefiro ficar aqui e apreciar o rebolado do Ally. — Ele solta um assovio de prazer e mesmo não querendo, viro meu olhar naquela direção, só para ver Allysson se esfregando ainda mais no Gustavo.
Isso não é dança nem aqui, nem em Marte, nem em outro século.
Não sei o que é pior, assistir isso ou lidar com uma das pragas do Egito (vulgo Dominik). Talvez o pior mesmo é que comecei a detestar um cara que mal conheço. Maldito Gustavo.
— Caraca, esse seu olhar está pior do que fuzil. — Dominik quase gargalha, naquele mesmo som irritante, mas vejo como me observa com os olhos entrecerrados, analisando minhas reações.
— Cai fora, Dominik. — Praticamente rosno as palavras, mas ele já está indo embora, só veio mesmo para atazanar minha pouca paciência.
Quando está longe de mim, solto um suspiro profundo e raivoso. Já nem sei de com quem estou sentindo mais irritação, talvez seja de Renan que acaba de trocar o forró para Envolver. Nem faz sentindo esse treinamento, já que vamos dançar valsa, caramba!
As falas.
Tenho que me centrar nas falas e treinar a atuação para o ensaio.
Eu peguei o papel de Lucêncio e faço par romântico com Bianca que está sendo interpretada por Lúcio. Basicamente sou um dos personagens secundários principais.
— O que Dominik queria? — Arthur pergunta, se aproximando de mim.
Ele, como sempre, chega atrasado, mesmo que ele seja o protagonista da peça e que supostamente deva estar bem animado já que a Praga interpreta Catarina, seu par romântico.
Mas não é só isso, com Arthur nunca é. Certas sutilezas como a forma em que está andando, com as mãos enfiadas no bolso, ao invés de estaem livres e espalhafatosas como sempre, indicam mais introspecção. A escolha de roupas também, nada chamativo, uma camisa xadrez por cima de uma azul e calças jeans. Ele não quer chamar atenção e seu olhar está totalmente em mim, até agora não deu uma olhadela para Renan.
Alguma coisa aconteceu entre eles.
— Esquece cara, nem precisa responder. — Ele diz ao finalmente erguer os olhos e ver a cena à sua frente, por fim ele solta um assobio malicioso. Qual o problema das pessoas com assoviar? — Meu Deus, Allysson sabe como rebolar, hein?
Ele me dá uma cotovelada brincalhona, querendo me infernizar, mas se esquece que pau que bate em Chico bate em Francisco. E desta vez, não passarei raiva sozinho.
— Pois é, Renan também.
Automaticamente sua expressão se fecha, azeda.
— Cale a boca. — Arthur solta com amargura e, parecendo ser a contragosto, ele mira a Renan e o assiste ir passando de dupla em dupla, corrigindo movimentos de forma bem, por se dizer, bem prática.
— Se a carapuça serviu. — Desta vez quem sorri sou eu.
— Bom, pelo menos não sou eu quem parece ter uma veia prestes a estourar na testa. — Ele cutuca, ao qual rebato:
— Você diz isso porque não se olhou no espelho.
— Nãoo, eu digo isso porque eu me conheço e não sou um marrentinho ciumento.
— Bom, pelo menos eu não sou um psicótico obsessivo e meio sociopata, em ascensão.
Isso o pega de surpresa. Por um segundo Arthur fica sem fala me encarando friamente com seus olhos azuis, até que um sorriso de canto repuxa seus lábios e ele estala a língua, antes de falar, cruzando os braços:
— Esse argumento não é válido para o ponto inicial deste debate.
— Tem razão. — Concordo, estreitando os olhos e antes que ele possa falar qualquer coisa exultando a si mesmo, achando que ganhou, completo: — Você é pior que um marrentinho ciumento, seu Projeto de Espírito Obsessor.
— Pelo menos eu não demonstro meus ciúmes.
— Porque se vinga! — E quisera que a vingança fosse contra Renan, ao invés de ser contra as pessoas com quem o Renan o fez sentir ciúmes.
— Seu... — Arthur até ofega para falar, do mesmo jeito de sempre, de quando ele está perdendo uma discussão e quer fazer de tudo para vencer. — Aspirante a Dominatrix!
E quando ele não consegue ganhar decentemente, sempre apela para ofensa.
— Sadomasoquistinha insalubre. — Rebato e vejo seu rosto se tornar cada vez mais vermelho, ele aponta o dedo na minha direção, mas antes que possa falar qualquer coisa o barulho dos saltos do professor, chegam até nós, nos interrompendo.
Alain Reginald, como sempre está voraz, usando calça colada roxa, um paletó com estampas florais em azul, rosa e verde. Uma camisa por baixo em glitter dourado e saltos quinze combinando. Um lenço laranja queimado envolve os cabelos, agora pintados de grisalho que complementa o visual.
— Meninos, meninos, venham aqui. — Apenas quando todos os alunos fizeram um semi-círculo ao seu redor ele voltou a se pronunciar. — Estamos a pouco menos de dois meses e meio da apresentação semestral, desta vez, como todos sabem, nos uniremos ao clube de dança para encenar A Megera Domada.
— Porque chamou a gente para falar de algo que já sabemos? — O questionamento vem de Renan que cruza os braços, destacando os bíceps fortes, e encara o professor de cima.
Não entendo exatamente o que Arthur vê nele, ele não é o tipo de cara mais submisso que ele costuma gostar. Seu tipo corporal também não se enquadra, Renan tem músculos muito bem trabalhados para alguém da sua idade, o rosto bem masculino em formação e é alguém que naturalmente gosta de expor isso. Usando camisetas de alça e shorts que demarcam seu volume e bunda.
— Renan, certo? — O professor pergunta risonho antes de se virar para Alicia, a professora de dança. — Bem que você me disse que ele tem o temperamento.
A professora, que se encontra no batente da janela, jogando a fumaça de seu cigarro para o ar livre, balança a cabeça como se estivesse rindo, seus cabelos castanhos desgrenhados, acompanham o movimento e ela responde ao nosso professor.
— Você também tem uns assim, não?
— Tenho vários, ou não seriam artistas. Mas sempre têm aqueles que se destacam. — Complementa e todos nós fingimos que ele não deu um olhar de esguelha, nada discreto, para Dominik e para mim.
Já, Arthur, com o rosto neutro, como sempre se resguarda em sua imagem de bom moço, calmo, puro, inocente e centrado.
Docente algum desta instituição o consideraria como alguém com personalidade forte. Só imagino o dia em que descobrirem que este dito cujo é pior que todos nós juntos, o mundo deles desabará.
— Prosseguindo. Estou pensando em formar duplas para os ensaios de dança, como sabem, os dançarinos serão personagens de fundo, mas seria ótimo se treinassem com os atores para que eles façam bem na pista.
Murmúrios de concordância vieram de todos ali e o professor então, continuou:
— Você esquentadinho, porque não escolhe sua dupla?
— Claro, professor. — Renan fala dando um passo a frente, indo em direção a Arthur.
Ele o observa de cima a baixo e vejo por um instante, quase tão imperceptível que provavelmente mais ninguém notou, meu primo segurar a respiração, antes do imbecil passar reto por ele.
Renan, ainda olhando Arthur, estende a mão, como um convite, para Dominik que a aceita sem pestanejar. Isso é interessante. Às vezes Renan dá uma dessas, faz coisas que sabe que claramente incomodará Arthur, como pegar como par o suposto cara por quem meu primo de uma queda.
— Petrov? — O professor fala e tanto eu quanto Arthur o olhamos, mas é comigo, poucos sabem que Arthur é Petrov na escola e os que sabem costumam ignorar isso o chamando pelo nome do pai. — Porque não escolhe sua dupla?
— Claro. — Respondo, observando o garoto que até agora não saiu do lado do Allysson e que segue tentando tocá-lo, mesmo com Allysso negando. — Gustavo.
O moleque se aproxima, parecendo estar receoso, de mim.
— Que tal você agora, Gean? — Ele pergunta depois de Hugo, um dos da dança escolher seu par. Os olhos castanhos de Gean vão direto em Allysson, mas antes que ele possa falar o nome dele, por completo, a voz de Arthur se interpõe.
— Quero ficar com o Gonzales, professor.
— Espere sua vez, então. — O professor repreende, aborrecido. — Vamos Gean.
Mas quando Gean abre a boca, de novo. Não é o nome de Allysson que sai dela. No fim de tudo, Allysson acaba como dupla com Arthur e realmente não sei se isso me incomoda ou alivia.
Principalmente quando Arthur chega perto de mim e sussurra:
— Quando você se arrepender da sua escolha, peça para mim com jeitinho e quem sabe a gente troca.
Cansado.
Esgotado.
Exaurido.
São tantos os sinônimos que podem descrever minha exaustão neste momento.
A semana foi complicada, graças ao fim do semestre cada vez mais próximo, as coisas vêm ficando mais pesadas. Os treinos do futebol dobraram, os ensaios de teatro também aumentaram. E somado isso as reuniões do grêmio estudantil, os encontros do clube de literatura e, é claro, manter meu foco e disciplina nas artes marciais, além de obviamente seguir o fluxo das aulas normais, adjunto de seus trabalhos e provas.
Bem, foi tudo bem fadigoso.
Não ajuda, é claro, meu coração e mente estarem em curto circuito por causa de um certo rapaz de tez morena e olhar arrebatador.
Assim que agora, sábado, resolvi passar o dia bem tranquilo dentro de meu apartamento.
Um dia quase perfeito. Regado a leitura, bons filmes e conhecimento. E é claro, um gostinho das minhas empresas, já que minha avó finalmente está cedendo mais e agora estou fazendo reuniões online com alguns representantes, além de participar de outras com pautas importantes.
E não posso esquecer do shopping, já faz algum tempo depois que completei meus dezoito anos e recebi a minha parte da herança dos meus três avós falecidos, uma parte da herança eu comecei a dividir e doar para ONGs, o restante foi para investimento.
Agora que tenho mais do que suficiente, resolvi abrir um shopping. É um dinheiro fácil e rápido, isso é claro, se você tiver capital inicial, bons contatos, bons investidores e um bom local. Felizmente tenho todos.
A construção deve durar, no mínimo, uns cinco anos. Tempo o bastante para eu já estar formado em Administração e já ter dado início a mais três iguais.
Obviamente minha carreira não se limitará a shoppings, mas é um ótimo começo. Principalmente porque também terei que administrar, futuramente, os aeroportos da família, os dois estádios e outros bens adquiridos com o tempo, em geral.
Assim que, depois de ver todo meu futuro e estar mais do que empolgado para pôr meus planos em ação, me permiti relaxar após tomar um banho e deitei em meu pufê, abrindo meu livro favorito.
Mas antes de ler a primeira linha da primeira página, o barulho do meu celular tocando acaba por interromper o clima perfeito.
— Alô? Quem é? — Pergunto, já que o número é desconhecido.
— Maksin... — Um arrepio gelado sobe por meu estômago, já que a voz quebrada e sofrida do outro lado, é impossível de não ser reconhecida.
— Allysson!
— Eu... eu... — A palavra soa estranha em meio a um choro contido. — Não sabia para quem mais ligar, Renan está doente, Daniel está na Coreia e eu não quero que mais ninguém me veja assim.
Um choro fino é escutado do outro lado da linha e me vejo, em um gesto automático, me levantar e rapidamente pegar as chaves do carro.
— Onde você está?
Antes mesmo que Allysson responda, o apartamento já está trancado e desço a toda pressa as escadarias, impaciente para esperar o elevador.
— No centro, p-perto do restaurante Dona Inhá.
— Chego em cinco minutos, respira fundo, Allysson, e mantenha-se na linha.
— A bat-teria. — Ele começa a falar, mas nisso a chamada encerra.
Nisso já estou dentro do carro, mas o desespero não se torna menor, disco o número dele e chamo mais uma vez, porém não dá nada, o número está sem rede, desligado.
Tento não pensar demais em todos estes sentimentos ou em sua profundidame e me atenho a arrancar o automóvel dali, um Audi RS 7 que meu pai me enviou depois da minha impulsiva compra de um Corola (que deu muitos problemas, mas foi consertado e vendido), e ir atrás do Allysson.
Não posso deixar de repensar minha primeira negação em manter um carro aqui.
Está se mostrando bem útil.
A estrada está limpa, então rapidamente chego ao centro, infelizmente não encontro Allysson a primeira vista, assim que estaciono e saio para procura-lo, chamo por ele até que sua voz, miúda, responde. É inevitável não sentir um aperto no peito ante isso, seja com deboche, seja com infelicidade, seja com raiva ou alegria, Allysson sempre teve uma voz que se faz ouvir.
Vê-la tão quebrada é doloroso.
Allysson está sentando de cócoras encostado na parede atrás do restaurante, seus olhos inchados por conta das lágrimas e os lábios sangrando, por provavelmente estar os mordendo ao tentar se conter.
— Maksin. — Ele fala o meu nome como se fosse uma âncora e me permito ser, levantando-o dali.
Esse meu gesto faz com que seu rosto core pela vergonha e ele até puxa um dos braços num gesto irritado que, ao mesmo tempo que me preocupa, me alivia por ser uma atitude mais "normal", no normal dele.
— Allysson... Vamos até meu... — Interrompo minha frase bruscamente quando vejo uma de suas mãos se abrir levemente e lá estar um vislumbre da embalagem de um snickers. — Isso tem amendoim! Você é alérgico.
Meu tom sai na mesma medida que aflito, nervoso. O que esse garoto tem na cabeça? Vento?! Uma coisa dessas pode matar ele.
Estendo a mão e num gesto que parece inconsiente ele me entrega a pequena embalagem.
— Como você sabe que eu sou alérgico a amendoim? — Ele pergunta meio assombrado.
— Você me falou isso, no primeiro ano, no dia em que fomos naquele restaurante em Gramado, na excursão. — Os dos primeiro ano costumam ter uma excursão para esta cidade, por uns cinco dias. Os do segundo para Fernando de Noronha ou para a Grécia, vai do gosto de cada um.
— E você lembra?
Assim como eu me lembro que seu prato favorito é risoto de cogumelos com bife ao molho madeira.
Mas ao invés disso, respondo:
— Sim, me lembro.
Como já estamos em frente ao carro e eu abro a porta para ele entrar, Allysson mais uma vez segue o ritmo sem nem parecer perceber.
Não questiono. Vejo como está exausto mentalmente e deixo que descanse a cabeça contra a janela, dirijo em círculos por uns minutos e observo como ele pega no sono, a expressão se tornando mais suave, quase angelical, embora os cantos dos olhos avermelhados indiquem que seu pranto foi longo.
Só quando ele solta um resmungar, em meio ao sonho, que acordo para a vida, deixo de olhá-lo e vou estacionar no meu prédio.
Sem querer interromper a imaculada expressão, o pego em meus braços e o carrego até as portas do elevador, vou direto até meu quarto e o ponho de encontro a cama, antes de sair dali.
Do lado de fora encaro aquela pequena barrinha que poderia ter lhe tirado a vida e afundo contra o pufê antes de arremessa-la no lixo.
O que o deixou tão fora de órbita para que se esqueça do fato de ter uma alergia mortal?
Será que ele pode ser tão despistado assim?
E se ele tivesse comido esse chocolate?
Estes e outros pensamentos intrusivos metralham minha mente e prosseguem no mesmo ritmo que questiono o porquê de estar tão angustiado com tudo isso. E não falo apenas da barrinha, mas quem foi? Ou o que foi que fez Allysson chorar assim?
Eu não quero pensar nisso, não quero pensar em Allysson consumindo aquele chocolate. Não quero pensar em como está infeliz. Mas sei que ele vai acordar e sei que eu posso, pelo menos, tentar tirar aquele olhar dele.
Posso tentar fazê-lo feliz.
E que se dane estes questionamentos sobre meus sentimentos.
Por hoje vou ignorar minhas contradições.
Por hoje, não vou pensar em todas as coisas ruins que ele já fez.
Por hoje.
Por Allysson.
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Este capítulo ficou tão grande, mas tão grande, que tive que dividi-lo em dois. Eu e minhas manias. Mas indo ao mais importante:
Pelo visto, Allysson ligou para Dani, será que esta relação vai mudar?
E como ele conseguiu o número do Maksin?
Aliás quem vocês acham que fez o pobre do Ally chegar neste estado? Vou dar uma dica: Não foi o irmão.
Esta e muitas outras revelações serão feitas no capítulo seguinte que é praticamente a parte dois deste aqui.
Prometo cenas calientes a seguir e Maksin cada vez bebendo mais vinagre.
Hasta despúes!
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