Capítulo 19 _ Allysson
Tento correr de forma silenciosa, e ágil. O que não dá muito certo já que passo boa parte do caminho trupicando e quase caindo no chão, isso quando eu não pulo o "quase" e vou literalmente ao chão. Resultado? Demoro o dobro do tempo para chegar ao alçapão.
Mas eu chego e isso é tudo o que importa.
Me ajoelho na grama ali mesmo, e procuro o cadeado com as mãos. Na hora em que vou fincar a bendita chave, sinto meus dedos suados a deixarem escorregar. Procuro com os olhos, mas graças a escuridão não consigo enxergar nada. Sinto minha garganta secar quando o desespero bate por completo.
Vocês vão ser pegos. Vocês serão pegos. Vocês serão pegos.
Como um mantra do mal, as palavras se repetem uma e outra vez na minha cabeça. Deixando minha ansiedade a mil. Segurando a vontade de me bater por minha estupidez continuo apalpando a grama tentando encontrar com os dedos a chave.
— Não, não, não... — murmuro já completamente, completamente... fodas, apenas completamente.
A mera ideia de ser atrapado nisso me dá arrepios.
— Allysson tô escutando sua voz. O que aconteceu? — Renan sussurra baixinho pela frestinha formada entre o alçapão e a grama.
— A chave caiu aqui agora a pouco, e eu não estou conseguindo ver.
— Usa a lanterna do seu telefone. — Ele fala após dar um muito longo suspiro.
Isso deu o click que minha mente precisava. Já quase surtando, eu pego o celular e ligo a lanterna. Prontamente, enxergo o pequeno pedaço de metal azulado.
Em menos de dez segundos o cadeado é destrancado.
— Finalmente. — Renan fala aliviado quando sai, mas logo sua expressão muda a uma raivosa. — Droga de Petrov, porque sempre aparece nas horas erradas?
— Que nem aquela vez do cara e da merda? — Apesar de ser uma pergunta retórica, minha grande boca resolve responder.
Infelizmente, desde que vi Maksin conversar com a professora esse "evento", tais como as lembranças que vivi por causa dele, simplesmente não saem da minha cabeça.
— Sim! — Ele fala passando a mão no rosto com tamanha fúria que o local fica avermelhado. — Eu deveria ter imaginado isso... ou não, eu não teria como saber, não convivo com ele todos os dias.
Ele lança a frase ao ar, como quem não quer nada. E apesar de eu literalmente morar com ele sei que não é uma indireta para mim. Quer dizer, NÃO pode ser uma indireta para mim, certo?
Só que, no momento em que Marcus se vira lentamente na minha direção e me encara com os olhos arregalados, percebo que sim, foi uma indireta.
— Está dizendo que eu deveria saber?
— Você é o colega de quarto dele, é só uma possibilidade.
— Ah tá! Compreendi, quer o que mais, gracinha? Quantas vezes ele vai no banheiro, quanto tempo demora para mastigar? Quanto papel ele usa depois que caga?
— Larga de ser cínico, Allysson, se vocês são tão amigos...
— Você nem sabe se somos amigos! E mesmo se fossemos isso não é a promessa para que ele me conte da vida toda dele!
— Promessa? Cê quis dizer premissa? — Marcus questiona ao lado, me irritando ainda mais.
— Você sabe que sim!
— Não precisa ficar irritado, Allysson. — Renan fala revirando os olhos, o que me dá vontade de enfia-los lá dentro.
— Não precisa ficar irritado? Não. Precisa. Ficar. Irritado? — Meus punhos se fecham a cada palavra que solto. — Não, não preciso. Porque eu estou é puto, CARALHO!
E dito isso lanço o celular na cabeça de Renan que, graças a surpresa, não teve reflexo o bastante para desviar, fazendo com que o aparelho fosse em cheio na cara dele.
— Você está sendo um merda comigo há um tempão! E eu estou por aqui com você. — Falo juntando o dedo indicativo com o anelar. — E agora você mete essa de não precisa ficar irritado?! Vá para o inferno! Eu fico irritado o quanto eu quiser, falou? E não tenho culpa se você não pensou que o Maks poderia aparecer! EU não sou adivinho para saber tudo o que ele faz ou deixa de fazer na vida, ok? Não jogue essa merda para cima de mim.
— Tá, tá quer parar de drama? Parece menininha na TPM. — Ele fala virando a cara.
Dessa vez, o acerto com o binoculo.
— Mas que merda, Allysson!!!
— Allysson é o seu cu! Não me vem com essas merdas não, Renan, que eu te mostro rapidinho quem é a menininha.
— Não paga de macho para cima de mim não, Ally, não é minha culpa se você está tão gamado na merda do Maks, que só sabe pensar com a cabeça de baixo.
— Não era minha obrigação pensar em nada nesse plano!
— Realmente, até por que você nunca pensa, né, Allysson!
— Renan... — Marcus começou com aquele tom de repreensão, só que para mim já deu.
Podia sentir meu sangue borbulhar pela raiva dos comentários ácidos que Renan andava distribuindo. E esse foi a gota d'água.
Quando Marcus percebeu o que ia fazer já era tarde demais. Nada de celular. Nada de binoculo. Dessa vez o que Renan recebeu foi uns bons socos quando eu voei na cara dele.
Ele levou apenas alguns segundos para reagir e, de repente, estávamos trocando tapas, socos e chutes a céu aberto. Acompanhados apenas dos gritos de Marcus que xingava pedindo para que parássemos.
— Parem! — Dessa vez ele deu aquele famoso "grito baixo" — Tem alguém ali!
Isso foi incentivo o suficiente para que deixássemos as desavenças para depois, e corrêssemos, como pobre corre da chuva, para a proteção das sombras das árvores.
— Quem será? — Questiono num sussurro evitando fazer muito barulho.
— Não sei, apareceu só a sombra, olhe lá.
Despacito, vou me aproximando da luz e olho de esguelha na direção em que ele apontou. E, desgraciadamente, era isso. Uma sombra que aumentava, mais e mais, a cada segundo surgiu da janela que se encontrava na parte lateral do prédio.
O prédio dos professores basicamente tem janelas na frente e atrás, aquelas que ficam nos quartos. As duas laterais do prédio são "limpas" disso, exceto pelo terceiro andar do lado esquerdo e o primeiro do lado direito, cada um contendo uma janelinha. São onde guardam os equipamentos de limpeza.
A sombra logo toma a forma de uma pessoa, de carne e osso, mas não dá para ver quem é por causa da luz e da distância.
— Porque será que veio para cá? — Pergunto, ainda tentando fazer malabarismo com meu próprio corpo para tentar identificar a aparição.
— Uma dica? Que tal a briga?
— Ou seus gritinhos... — Renan rebate, com tom de voz debochado. Marcus o estapeia.
— Não é hora de discutir Renan! Vou subir na árvore para ver quem é.
E dito isso, rápido e silencioso ele escala o tronco e senta em um dos galhos. Ajusta a posição do binóculo nos olhos, que escorrega lentamente por suas mãos, antes de me atingir na cabeça.
Irritado comigo mesmo, por ser um bocó que não desvia das coisas, solto um resmungo mal-humorado, que é abafado quando Renan tapa minha boca com a mão. Considero fortemente morde-la, porque ainda estou puto com ele e também... porque não?
Abro a boca preparando o bote e...
— É o Maksin. — Ele sussurra baixinho no meu ouvido.
Alguns poderiam dizer que não, mas agora a mordida que dei em sua mão foi completamente involuntária.
Em troca, ganhei um sanafão na cabeça.
— Como você sabe? — Pergunto, esfregando o ponto dolorido pelo tapa, e invocando todos os meu chacras pra não acabar caindo no soco com ele, de novo.
— Pela reação do Marcus, horas. — Seu tom de voz indica como isso era óbvio. — Temos que dar um jeito de escapar rápido, se ele me pegar vou ser expulso da escola.
Com um pulo, Marcus desce rapidamente da árvore, já se unindo a conversa.
— Comigo não vai ser diferente, minha mãe já está cansada de receber ligações da diretoria, vai usar isso como desculpa para me fazer largar o colégio e iniciar minha carreira artística.
— Ótimo! Estamos todos fudidos.
Falo mais por falar, porque meu irmão tá cagando e andado pro que eu faço de errado. Na verdade, se eu morrer no processo pra ele seria lucro.
Mas ainda, é claro, tem a opção do Maksin estar fora de seus caballes, por sei lá quem ferimos... E eu acabar tomando uma surra. E, por mais que eu goste de ficar longe da escola, a ideia de ir daqui direto pro hospital não é a mais atrativa.
Renan respira fundo, lançando a cabeça para trás. Do jeito que faz quando está raciocinando, dois segundos depois seu rosto brilha, o que indica que ele chegou a uma solução.
— Vamos esperar aqui até ele sair de lá.
Marcus assente e, sem outras opções, concordo também.
E ali ficamos.
Um, dois, três, quatro.... vinte, vinte e um... trinta e sete, trinta e oito... cinquenta e cinco, cinquenta e seis... sessenta.
Um minuto.
O mais sufocante minuto se passa, de maneira tão, tão, tão, tão, tãoooo devagar que cansa! Já consigo sentir meu corpo inteiro suar graças ao repentino calor que parece abater unicamente a mim. Percebo meu coração tão acelerado pelo medo que tenho certeza de que vou morrer num ataque cardíaco.
Outro minuto, que mais se assemelha a horas, passa. E depois vai outro, e mais outro.
E mais um.
E mais alguns.
Conseguia me sentir arrasado pelas mudanças térmicas. O frio, o calor, e a espera. Maksin não poderia nos flagrar. Era mais do que medo por mim, era o pavor pelo que poderia acontecer com meus amigos que tava me deixando ao borde de desmaiar ali mesmo.
Maksin ficou parado ali por exatos sete minutos, antes de que pudéssemos ver sua sombra se afastar.
Nem percebi que estava segurando o ar no meu peito até que pude solta-ló e, ao fim, respirar melhor.
— Temos que sair daqui, agora!
— Não precisa falar duas vezes. — Murmuro em resposta, já seguindo bem atrás deles, em fila indiana.
Andamos vários metros, seguindo o caminho que deveríamos seguir a princípio. De maneira involuntária, vou contando meus passos. Tentando acalmar minha mente.
— Vinte e Sete, vinte e oito, vinte nove, trinta, trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e...
— HEY!!!!
— Trinta e... — repito num choramingo.
Aí como eu tô fudido.
O grito, mesmo ao longe, paralisa a nós três. Tipo em cena de filme, viramos a cabeça lentamente para trás, como se um demônio estivesse por lá.
Bom, não tem. Mas há Maksin. Alguém que , particularmente, tô achando bem mais temível hoje.
Por causa da distância, que ficou maior ainda, não conseguimos ver seus traços. Mas agora podemos ver claramente a silhueta de um cara com cabelos claros e o porte, assim a voz, é exatamente dele.
— Mostrem-se! Eu sei que estão aí. — Ele vocifera em alto e bom som. — Tiveram coragem de fazer uma merda dessas? Assumam a responsabilidade, caralho!!
— Ele parece estar puto. — Marcus murmura atrás de mim.
— Puto? Eu reconheço esse tom... ele está mais do que puto. — As palavras saem da minha boca tão finas que mal dá para ouvir. — Ele tá a cólera pura.
— Me empresta esse binóculo. — Renan fala já tomando da mão de Marcus. — É, ele não está especialmente feliz.
— Eu diria mais que ele não está nem um pouco feliz... — Marcus murmura quando é a sua vez no binóculo.
E logo o objeto é passado a mim. O ergo já esperando o pior, e ganho mais do que o pior. Maksin está com os cabelos revoltos, o rosto vermelho de cólera, os lábios cerrados duramente e o maxilar trincado. E o pior são os olhos que refletiam apenas pura e cruel fúria.
O binóculo escorrega das minhas mãos trêmulas.
— Allysson! — Renan repreende pegando o binóculo que por pouco não cai numa parte com luz.
— É a mesma expressão daquele dia.
— E sei que estão aí!!! Não tem coragem nem para aparecer e assumir o que fizeram? — Maksin ruge.
— Ele vai descer a qualquer momento...
— Ele corre rápido, mas ainda teria que chegar até o primeiro andar, se corrermos agora teremos bastante vantagem.
— Esse plano é aceitável.
— Até ele nos alcançar... — falo, recebendo olhares atravessados por parte de ambos.
Comam meu cu. É a realidade, caramba.
— Não tem como ele nos alcançar, a menos que pule do terceiro andar.
— E não tem como um ser humano conseguir pular do terceiro andar? — prossigo, mesmo com a fúria crepitando dos olhos do meu amigo.
— Não são andares altos, então sim..., mas ele teria que saber como cair. Estamos trabalhando com a possibilidade de ele não saber...
— Mas, e a queratina no corpo dele, não vai ajudar se ele quiser pular?
—A adrenalina... e sim, vai ajudar. Tem essa possibilidade, Renan. — dessa vez quem responde é Marcus.
— Ainda assim seria uma vantagem.
— Mas...
— Gente... — falo com o coração querendo ser cuspido pela boca, seguindo minha própria onda de adrenalina eu disparo correndo. — Ele pulou caralho!
Numa sinfonia de desespero, logo escuto a carrera dos meus amigos atrás de mim.
Corremos. Corremos. Corremos.
Pela floresta mesmo, para tentar despistar. Absolutamente inútil. Toda vez que tomei a coragem de espiar atrás, conseguia ver Maksin cada vez mais perto. Isso incentiva meu corpo a botar mais força nas pernas, mas minha mente pura e simplesmente queria desistir e tacar logo o foda-se.
Porque seremos pegos de qualquer jeito.
Escuto aquela vozinha irritante falar. Minhas pernas, porém, não fazem caso e continuam a correr.
Porém, porém. A mente é uma armadilha, como eu li em um texto que um filósofo escreveu. Só não sei se foi Sócrates, Heráclito, o tal Malvadão lá, ou se sequer foi um filósofo.
Bom, provavelmente não foi um filósofo.
Mas, o principal é: A mente é uma armadilha. E pela décima quinta nona vez no dia, só conseguia repassar um filme mental com as imagens daquela "briga". Que tava mais para massacre, mas tá valendo.
E a expressão dele, a expressão dele...
— Lembra quando eu fiz o Willian comer merda e Maksin ficou puto? Era essa expressão. — Solto, de repente, querendo fazer meus amigos entenderem meu ponto nessa situação.
Meu ponto se resumia a: A gente vai MORRER!!!
— Allysson se acalma e corre mais rápido! — Marcus quase grita comigo, enquanto me puxa, em algum momento na corrida ele e Renan me ultrapassaram.
— Ele nem é isso tudo.
—Todo mundo foi para o hospital. — Murmuro quase em transe. — Eu fiquei lá por cinco dias!
— A gente lembra! — Os dois falam juntos, parecendo estar muito putos comigo seguindo o assunto quando deveríamos estar completamente concentrados em correr.
— Internado. Cinco dias. Foi a porra da surra da minha vida. Cinco dias. Cinco dias.
— A gente lembra.
— Ele quebrou o braço do Caio em três partes, e isso nem foi proposital! Vocês podem imaginar isso?
— Porque não continua atrasando a gente? Aí logo, logo todos iremos descobrir.
— Ele odeia todo mundo aqui, mais ainda agora. — Falo, de novo, o óbvio. E o desnecessário.
Tenho certeza de que se não estivéssemos numa corrida por nossas vidas, eles fariam questão de chutar minha bunda por estar sendo um chato.
Dessa vez, eles nem me respondem, apenas seguram com mais firmeza meu braço, e aceleram mais, me forçando a correr mais rápido. Contudo, mesmo com nossa vantagem de sair metros a frente, quando novamente olho de relance para trás lá está ele, se aproximando mais e mais rápido.
Num impulso de coragem cega, me solto da mão de ambos. E sem parar de correr falo:
— Vamos nos separar.
— O quê? Não! — Renan fala já vindo para cima de mim, na intenção de voltar a pegar meu antebraço.
— Ele odeia você Renan, mais do que a mim. Por causa do que você faz com o Arthur.
— Ele também te odeia.
— Não como antes, eu acho. — E se não odiava, vai voltar a odiar.
— Não vou deixar você para apanhar.
— Então vamos apanhar todos em conjunto? Pensei que o idiota aqui fosse eu. — Defendo meu ponto, mas vejo que nenhum dos dois pretende largar o osso, então lanço outra jogada. — Vão na frente, acreditem em mim ele vá tentar conversar comigo.
Ele, ou os punhos dele?
— Porque ele faria isso?
— Por causa de Dani, quer dizer, por causa do Yuki. Olha quanta merda eu já aprontei, uma vez foi até na frente dele e ele não fez nada. Nem denunciar para a diretoria. É por causa do Yuki, pra ter mais chance de eu perdoar ele.
— Allysson...
— Renan, ele está chegando perto. Se você estiver aqui quando ele chegar vai ser expulso, e Marcus... se isso envolver você a mídia vai cair matando na escola, sua mãe... você sabe como ela vai reagir. Vocês mesmo disseram!
— E quanto a você, e o seu irmão? — Marcus fala, temendo por mim. Eles sabem bem como meu irmão pode ser... cruel, as vezes.
— Todos sabemos que enquanto eu for quem ataca não vai ter problema.
E vejo em seus rostos quando eles, por fim, se convencem disso.
— Ok, mas faz o possível para não ser pego Ally.
E dito isso ambos correm mais rápido, espero alguns segundos para entregar vantagem a eles, antes de desatar a correr novamente na outra direção, entrando em campo aberto.
Dessa vez, não tenho um pingo de coragem e olhar para trás, mas de alguma forma podia sentir que estava sendo seguido de perto, e que logo Maksin me alcançaria.
Como a porra do lobo caçando a presa.
Com o pavor impulsionando meus músculos, acelero ainda mais minha corrida. Faço o possível para que ele me perca de vista e, quando já não sinto o arrepio na nuca, entro no primeiro edifício que encontro mais perto. Nesse caso, o ginásio de natação.
Apenas quando estou completamente no escuro sozinho, e o único barulho me acompanhando é o som rasgado da minha própria respiração, permito a mim mesmo sentir o alívio entrar no meu peito.
E como doí!
Na verdade, tudo doí. Respirar doí. Meu peito doí. Minhas pernas queimam. E consigo sentir minha cabeça pender de tão pesada.
Sem conseguir resistir, e impulsionado pelo cansaço, deixo meu corpo despencar.
Mas, antes mesmo que eu encontre com o chão frio, sinto meu corpo ser lançado para trás. Fecho os olhos por instinto, esperando pelo impacto que não vem mesmo após segundos transcorridos.
Ofegante, agora mais pelo susto do que pela corrida, abro meus olhos o mais devagar possível tremendo apenas de encarar a tempestade que encontro na minha frente.
Oficialmente, sou um cara morto.
Há mais raiva e ódio ali do que eu jamais poderia imaginar.
Dessa vez começo a ofegar pela lembrança conjunta de outro par de olhos, iguais de implacavéis, me encarando em outro momento. Não cinzas, nem tão belos, mas com a mesma fúria destruidora.
A dor. O sangue. O desespero. Posso sentir como se fosse agora mesmo. A antecipação do que está por vir.
— S-se for m-me bate-er. — Falo em meio a gaguejos causados pelo tremor do meu queixo. — F-faça agora.
Mas ele não faz. Permanece me encarando. Não tão de perto, mas sem ser de longe. E tão intimidante.
Ele bufa revirando os olhos, antes de desviar o olhar para o outro lado. Tirando assim um pouco de peso do meu peito, me permitindo um pouco de razão. Ele não vai me machucar, percebo depois de um tempo.
A mão que segura a gola da minha cmaisa está frouxa, e apesar de estar encurralado contra a parede em nenhum momento senti a batida. Só aí noto que sua outra mão, espalmada contra a o cimento, impediu que eu me chocasse contra o áspero.
— Maksin. — Chamo num sussurro arranhado, já preparado para a bronca que está por vir.
— Qual a merda do seu problema Gonzales?
Por incrível que pareça sua voz soa baixa e... calma. O que deixa tudo ainda mais assutador.
— Era uma pegadinha... uma vingança contra a professora de matemática. — minha voz sai quase imploro, tentando me justificar.
— E, ao invés disso, vocês enviaram uma mulher grávida para o hospital.
— Grávida? Mas quem?
— A professora de artes, grávida de setes meses, o susto fez a bolsa romper. Ela pode perder o filho!!
— Eu... eu...eu...
— Você? Só você? E as merdas dos seus amigos? Vocês por acaso tem consciência?
— Não queríamos fazer mal. — praticamente choramingo. — Era uma pegadinha boba.
— De boas intenções o inferno está cheio, Gonzales. — ele fala em tom definitivo.
E eu sei que já era, eu tô ferrado. Vou direto para a direção e com sorte não vão me suspender. Passar uma semana com meu irmão? Seria mais agradável os cinco dias no hospital... Será que Maksin me deixaria com uma hemorragia interna, de novo?
Não, isso seria pedir demais. Fico com a suspensão.
— Ok, me leva para o diretor, você me pegou. Eu sou o culpado.
— Não, não é, não sozinho pelos menos. Eu sei que seus amigos estavam ali.
Enfia um abacaxi no meu cu, mas não me pede pra entregar meus amigos.
— Impressão sua, foi só eu. Hoje não vai ter surra adicional — rebato usando aquele tom que sei que o irrita.
Sempre há a opção do hospital.
Ele inspira fundo, depois expira. E eu já consigo ver as estrelinhas, e não aquelas boas de se ver. Quando abre de novo os olhos, vejo ali sede de sangue.
— Seus. Amigos. Gonzales. Fale os benditos nomes! — ele praticamente rosna, aproximando o rosto cada vez mais perto de mim.
O ar não consegue entrar no meu peito. Já nem sei mais o que sentir. Se é intimidação por ele estar tão, tão perto. Se é medo pela raiva que ele emana. Ou se é pura e simplesmente agonia, por não poder tocar nele, mesmo querendo muito.
— Já falei. — respondo assim que me lembro que tenho voz, e que sei como usá-la. — Foi só eu!
— Vai mesmo se afundar nessa merda sozinho por conta deles?
O hálito dele cheira a menta, e o perfurme? Meu Deuuusss...
Eu queria me afogar nele.
— Eu já estou na merda, não estou? Você me pegou, agora decide logo o que vai fazer. — falo quando consigo concentrar de novo meus pensamentos bagunçados.
— E o que você acha que eu devo fazer?
— E eu vou saber? Você tá puto, eu sei que tá puto, então vai... se vinga de mim e dê isso por acabado. — solto as palavras tão rápidas que sai tudo embolado. — Já sei. É nobre demais para bater em alguém que não vai se defender, né?
E dito isso, eu me balanço para sair da prisão de seus braços. Sem sucesso nenhum. Então, sem escolha, lanço um soco na direção de seu estômago, mas ele agarra meu pulso fortemente, interrompendo o ataque. Para logo, girar meu braço no ângulo contrário e, ao mesmo tempo, meu corpo também.
E em questão de segundos, me encontro de costas para Maksin, com meu braço preso atrás das costas.
— Eu não vou bater em você, Allysson. — ele resmunga em meu ouvido, antes de soltar de uma vez meu braço.
Eu fico parado no mesmo lugar, impossibilitado de me mexer graças a última ação dele. As palavras que sussurrou em minha orelha, mal pude interpretá-las, tudo que minha mente se concentrou foi no choque de prazer que elas trouxeram.
Sussurros no ouvido? Golpe baixo para mim.
Muito, muito baixo.
— N-não, n-não vai bater em mim? P-porque, eu mereço...
Dessa vez, a gagueira é por motivos muito, muito maiores que simples nervosismo. Nem posso me virar para olhá-lo, o receio dele ver o que provocou deixa minhas bochechas queimando pela vergonha. Não evito, amaldiçoar meu eu de três horas atrás que decidiu vestir moletom e não jeans.
— Merece? — ela solta uma risada baixa e terrorífica. — Aquele bebê é meu primo, sabia? Quando eu pulei aquela janela, estava mais do que disposto a ensinar uma lição aos imbecis que se atreveram a não só mexer com uma mulher grávida, mas também a machucar dois seres que eu amo. E adivinha com quem me deparo? Com você.
— Então vá em frente, Maksin, eu mereço. — Praticamente grito, ao ver como ele está transtornado.
Porém minha fina coragem se quebra, quando ele realmente volta a se aproximar de mim. Meu coração erra mais do que uma batida.
— Pare de se encolher, Gonzales, eu não vou bater em você. — ele fala. Mas já está muito perto de novo.
— Por quê? — questiono mais tonto do que curioso. O cheiro dele... intoxicante.
— Porque eu não consigo!
Isso?? Como? Do que a gente tava falando? Pera.... Por quê???
— Por quê?
— Por motivos idiotas, é claro. — ele riu uma risada sem humor.
— Maksin...
Falo, sem nem saber como continuar, o que não é preciso já que ele o faz para mim.
— Você seu malandro, realmente me enganou. — ele olha para mim com ferocidade. — Prometo não te decepcionar, Maksin? Rá, mas que piada de mal gosto.
— Maksin... — parece que meu vocabulário, já limitado, se resume a essa única palavra.
Mas é uma bonita palavra.
— Eu deveria saber, pessoas como você não mudam. Acreditar em você foi uma das maiores besteiras que eu já fiz.
— Não, não foi, eu realmente me esforcei, eu só quis ajudar um amigo. Era para a outra professora, não ela, ok? Maksin me perdoa... — minha voz soa tão desesperada que mal me reconheço.
— Te perdoar? Não há o que perdoar, Allysson.
— Você disse que estava decepcionado...
— Eu apenas repeti suas mesmíssimas vãs palavras, e nem sequer foi completado um mês desde que você as citou.
— Foi um erro, apenas um erro.
— Um erro?! Um erro é você chutar a bola e acertar a canela de alguém, um erro é você confundir os ingredientes de uma receita e tudo dar errado, um erro é você não estudar direito para as provas e ir mal. Isso são erros! Agora o resto? Você perseguir seus colegas não é um erro, é bullying. Você ser desrespeitoso com os docentes não é erro, é falta de educação. E você invadir o dormitório de alguém e colocar uma granada não é erro. É a PORRA DE UM CRIME!
Dessa vez, não consigo encontrar minha voz. Apenas posso encará-lo e perceber como essa amizade que criamos escorria entre meus dedos.
— Sabe o que é pior? Eu nem consigo ficar surpreso, ou chocado, sequer decepcionado. Porque acho que no fundo eu sabia exatamente o que esperar de você. — ele fala me encarando com os olhos profundamente sérios. — Essa burrice, eu não cometerei de novo. Passar bem, Allysson.
E dito isso ele marcha em direção a porta. Balbucio incoerências sem sentido algum, tentando juntar letras e silábas que possam fazê-lo ficar. Qualquer coisa que me dê tempo de arrumar isso, de arrumar qualquer coisa...
— Vamos nos ver no quarto?
As palavras saem engasgadas e, apesar de escutar, ele não responde. O vejo se aproximar cada vez mais da porta e sei que no momento em que ele a atravessar tudo isso já era. Sem mais nem menos. Em um impulso tão desesperado que nem sei de onde possa ter surgido, corro até ele e agarro sua mão. Naturalmente, ele se vira já em posição de defesa, mas fica paralisado quando ao invés de atacá-lo, eu o beijo.
Eu apenas o beijo.
Beijo ele como há muito tempo tenho desejado. Pressiono meus lábios contra o frio dos seus, da maneira como sempre sonhei, da maneira como sempre imaginei. Mas a realidade, por mil, supera a imaginação. A textura, a temperatura, tudo. Sinto-me derreter por ele, apenas por poder provar um pouco desse novo sabor.
Como se eu estivesse tocando o paraíso.
Algo que não sou nem um pouco digno.
Contrariando todas as minhas vontades, jogo meu corpo para trás e saio tropeçando nos meus próprios pés, antes de me estabilizar. Ainda com o corpo tremendo por minha nova ação, ponho os antebraços na frente do meu rosto, o receio da reação e Maksin me deixando completamente tenso.
Não escuto o sons de seus passos, mas o sinto se aproximando cada vez mais. O prazer ainda percorrendo minhas veias inibe minha autopreservação de cair fora. Quando Maksin, segura meus antebraços e os afasta do meu rosto, um arrepio de prazer instantaneamente se aloja em minha barriga.
O famoso frio na barriga, que nunca antes pensei poder sentir. É tão bom e tão estranho ao mesmo tempo...
— Maksin, perdão... — sussurro quase implorando. — Eu não sei o que...
Meu raciocínio não pode ser concluído. Não quando a boca dele se agarra a minha e rouba todo o meu fôlego, rouba todos os meus pensamentos, todas as palavras que sequer lembro que ia dizer. É como se o mundo inteiro balançasse, e eu não poderia me importar menos.
Sinto meu corpo amolecer completamente, minhas pernas tão trêmulas que mal posso permanecer em pé. E, de um momento ao outro, tudo passa a se resumir unicamente a isso aqui, a esse agora.
— Maksin...
Tento sussurrar quando ele libera meus lábios, mas não adianta nada. Ele volta a toma-los de novo, numa dose balanceada entre gentileza e força, entre o paraíso e o inferno. E ele se pega a mim, uma mão se fixa em minha nuca guiando o beijo, a outra descende por minhas costas e para na base da coluna onde aperta e me puxa para mais perto dele.
Seu agarre é tão forte que sinto como se não fosse me soltar nunca. E essa mera ideia, faz com que outra onda de choques percorra meu estômago, me deixando ainda mais entregue a ele, e a seu beijo dominador.
Completamente entregue... a tudo.
E, de repente, ele se afasta. De forma tão repentina que caio no chão. Sem ter maneira de recuperar o equilíbrio que ele me levou.
— Esse... esse... — ele fala ofegante, apertando com os dedos em forma de pinça a ponte do nariz. — Esse foi outro grande erro. Que não vai se repetir.
— Como assim? Você retribuiu! — Grito, mesmo que minha garganta aperte pela repentina vontade de chorar.
Foi como ser levado até o céu, e alguém simplesmente te derrubar nos mares frios da desilusão.
E sabem como sediz: quando se está em uma grande altura e cai na água, é a mesma sensação de ter caído no concreto duro.
— Por isso disse que foi um erro. Não sei porque me beijou, Gonzales, mas essa retribuição foi algo que nunca deveria ter acontecido.
— Mas aconteceu...
— E nunca mais irá se repetir! Principalmente depois de hoje....
E dito isso ele marcha para fora, me deixando para trás, e a meu coração também. Pode soar meio clichê, mas o sinto se partindo. E doí bastante. O pior é que quem causou isso fui eu.
Escondi essa paixão que nutria por Maksin por mais de dois anos, e agora tudo simplesmente tudo se estilhaçou por um ato impulsivo e idiota.
Meu corpo que estava no chã, lá ficou. Ainda conseguia sentir meu mundo virado demais, desestruturado demais. Maksin com seu beijo levou mais do que meu fôlego. Levou meu orgulho e meu equilíbrio.
Eu queria poder me encolher e desaparecer. Queria uma máquina do tempo para voltar atrás e não fazer nada com a professora, ou quem sabe voltar mais atrás e não fazer nada com ninguém. Quem sabe assim, Maksin e eu poderíamos ter uma chance?
Os "quem sabe", e os "e se" eu permiti rodear por minha mente até esgotá-la por completo. Pois não há um "se", não sobre decisões que já tinahm sido tomadas. Minhas estúpidas decisões tomadas.
Sinto meu rosto molhado e quente, por uns segundos considero ser sangue, até tocar e sentir que na verdade são lágrimas. Lágrimas densas e silenciosas, que sequer percebo deixar escapar.
Chorando em silêncio.
Patético.
E para piorar a situação, não consigo manter o controle e permito que os soluços que apertam minha garganta saiam por fim. São tão desgarradores que doí. Mas tudo doí. Doí estragar tudo de tantas formas diferentes que apenas quero me afogar em minhas lágrimas.
Seria uma maneira poética de morrer.
Quando menos percebo, estou encolhido abraçado as minhas pernas e chorando de maneira compulsiva e dolorosa.
— Idiota! — falo comigo mesmo.
— Eu sei. Eu sei. — sussurro ainda entre as lágrimas. — Eu lancei a merda final no ventilador. Maksin nunca vai me deixar aproximar de novo.
Não, não vai.
E eu me permito chorar mais.
Dizem que quando tudo começa a dar errado na sua vida, a coisa mais boba é o que te leva a desabar... Mas comigo foi justamente o contrário, eu tive algo que desejei há tanto tempo e consegui perder após duas semanas.
E agora não consigo parar de pensar em como tudo apenas dá errado na minha vida.
Mas o pior de tudo é ter que chorar sozinho, num escuro qualquer, por que não há ninguém aqui pra me ajudar a catar os caquinhos da minha própria existência.
Arrastando meu próprio corpo, de forma dificultosa por conta da corrrida, me lanço na piscina ali mesmo e me deixo afundar na escuridão das águas.
Pelo menos aqui no fundo, não tenho que escutar a mim mesmo chorar.
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