Capítulo 17 - Maksin


Tenho medo de seguir em frente e esquecer de você.

Aquele seu sorriso, que sempre arrancava um meu de volta. Seu jeito e seu magnetismo que me atraíram desde o início.

A sua personalidade, e quanta personalidade! As pessoas comentavam que era forte demais, mas sempre achei que era apenas você.

Tenho medo de seguir em frente e esquecer tudo ao redor de você.

Aquela sua falta de inocência, e aquela sagacidade tentadora. Toda aquela falta de bom senso e a coragem desproporcional além da conta.

Cada um daqueles pequenos detalhes que te tornava você.

Cada gesto, cada jeito, cada defeito que para mim não poderiam ter esse nome, pois seus defeitos te tornavam você, e eu te amava por isso.

Amor, uma palavra tão curta, mas com tanto significado.

Foi difícil perceber tão cedo que eu amava alguém. Mas não foi difícil perceber que era você. O que desgarra foi ter que te perder.

E mesmo que eu viva com as lembranças, nada seria melhor do que ter aqui.

Tenho medo de um dia me apaixonar e deixar você.

Prometi a mim mesmo que nunca permitiria chegar tão a fundo em uma paixão novamente. Que promessa estúpida, não é?

Você teria rido da minha cara, falado em como eu fui inocente ao pensar assim. Que isso era algo idiota. Que não dá para controlar o coração. Que eu era crianaça demai, que eu sou jovem demais.

E eu diria que eu poderia, porque sou capaz de tudo.

Mas convenhamos, que idiota, certo?

Mas eu era assim, um idiota amoroso e estúpido. Um idiota por você. E quando você se foi, levou mais de mim do que eu poderia imaginar, me marcou mais do que queria ter feito.

Fiquei com sequelas que ainda doem. Física e mentalmente falando.

Você partiu meu coração, e roubou um pedaço da minha alma. E eu nunca poderei deixar de amar você.

Talvez seja isso, não é que eu não queria amar de novo. Apenas tenho medo. Medo de me apaixonar e ser destruído de novo.

Não posso terminar dizendo um "para sempre seu" como faria em outrora, porque hoje em dia nem me garanto ser meu.

Eu me perdi em você, por você, e ainda estou me encontrando.

Você sempre disse que eu parecia um adulto no corpo de uma criança, sério, responsável. Mas não era assim, nós dois, apenas crescemos rápidos demais. Tudo foi rápido demais.

Às vezes eu fico pensando, como seria se tudo tivesse sido normal, e meu coração chega a arder pela tristeza que isso acarreta, com o vazio que fica pela perda.

É quase impossível, certo?

Como sentir falta de algo que eu nunca tive?

Como eu queria que não tivéssemos passado por aquilo. Talvez acabaríamos tendo uma infância normal, ainda inocentes. Depois teríamos uma adolescência normal, com direito a toda rebeldia e todo drama.

Mas não foi assim? Tudo caminhou ao contrário, e é tão complexado.

Cada dia eu compreendo ainda mais o porquê de você ter escapado. Se é que podemos chamar isso de escape. Entretanto, mesmo que compreenda, eu nunca faria o mesmo.

Somos pessoas diferentes demais.

Contudo, espero que saiba que quando você se foi deixou uma parte sua comigo. Não a busque de volta, eu imploro, porque é algo que me estimula a seguir em frente. A superar você. A superar sua morte.

Te encontro nos meus pesadelos. Ou talvez, quem sabe, um dia no mais alá.

Um dia, talvez.

Maksin.

A reunião do grêmio foi mais longa e chata do que eu queria ter que suportar.

Podia sentir o cansaço se unir a gravidade para tentar me deixar mais caído. Até dei um pulo no ginásio de boxe depois, em busca de me livrar um pouco da exaustão, mas me perdi na hora e acabei exagerando na dose.

Com meus músculos implorando por misericórdia, fui me arrastando até o dormitório. E quando finalmente chego ao quarto, me deparo com tudo no escuro, o que significava que hoje era mais um daqueles dias em que Allysson dá uma escapada com seus amiguinhos. E isso me deixa certo alívio, porque estou mais do que necessitado em arejar minha cabeça.

Apesar de ter duas tarefas pendentes, resolvo apenas relaxar e dessa vez relaxar mesmo. Então pego meu último recém adquirido livro, um de fantasia que continha alguns casais lgbts, cuja crítica e resenha achei muito boas. Resolvi dar uma chance.

Não reparo no tempo que passa, apenas me permitindo emergir na loucura do livro, mais e mais. E quando o clímax inicia, meu coração começa a bombear mais rápido pela ansiedade do que estava por vir. A porta se abre de repente, num estrondo, o barulho levando meu coração a boca pelo susto .

Olho para porta, onde um Allysson entra a passos lentos, com uma estranha trouxinha feita com panos de prato estampados com joaninhas na mão.

— Pensei que fosse sair com seus amigos hoje. — Quebro o silêncio após ele ficar mais tempo que o necessário me encarando abobado.

Renan acabara de postar um story no meio de uma algazarra.

— Como você sabe que os meninos saíram? — Ele pergunta curioso, mas leva dois segundos para que se perca disso e sorria me presenteando com aquelas covinhas. — Não tava afim, hoje foi um dia esquisito, meio estranho, acabei decidindo ficar. Não ir as vezes não mata, né? Mas fiz amor em pedaços, quer?

— O quê? — As vezes não compreendo como o cérebro desse garoto funciona.

— Amor em pedaços, não conhece? É um doce feito com abacaxi e é muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muitíssimo gostoso.

— Isso foram muitos muito.

Ela dá de ombros, relaxado. E me encara como se esperasse algo.

— O quê?

— O doce, não vai querer?

— Ah, sim, o doce. Doce. Feito por você? — Pergunto com implicância, e seu rosto adquire um rubor de indignação...

— Para sua informação eu sou um cozinheiro de mão cheia, e um confeiteiro melhor ainda.

— Claro. — Murmuro com um quê de desdenho, totalmente proprosital, curioso para ver qual seria a próxima reação dele.

Ele infla as bochechas irritado, e ergue o olhar desafiante.

— Prova!!! — Ele fala tão bravo que percebo ser uma questão de orgulho próprio.

— Oi?!

— Prova. — Volta a ordenar mais exigente. Parecendo que, a qualquer momento, vai voar sobre mim e me forçar a engolir o doce.

— E se eu disser não?

Ele parece realmente refletir na pergunta, seus olhos vagueiam sem foco enquanto ele tenta pensar numa resolução para o próprio problema. A gradativa frustação no seu rosto se torna tão tangível que chega a me apenar por ter implicado tanto com ele.

— Gonzales...

— Por favor. — Ele abaixa a cabeça um pouco, mas logo a ergue novamente. Os olhos brilhantes como os de um cachorrinho, a voz fina e dócil, o lábio levemente projetado para frente ao mesmo tempo em que preso por seus dentes.

как я хочу трахнуть тебя

Quando foi que eu me tornei tão depravado?

Finjo demasiada concentração enquanto levo um dos quadradinhos a boca, e o sabor explode quando entra em contato com minha língua. Doce e azedo ao mesmo tempo, e delicioso. Não me contenho em terminar, numa só mordida, o restante.

Pela visão panorâmica, é impossível não perceber que Allysson me encara com expectativa no olhar. Minha língua coça com a simples possibilidade de implicar um pouco mais com ele.

— É... — Seu rosto brilha com expectativa. — Razoável.

Sinto meu coração se aquecer só de imaginar qual seria sua reação a minha resposta. Observo como seu rosto muda tanto em questão de segundos, primeiro ele parece levemente chocado, depois suas sobrancelhas franzem em decepção e por fim, seu rosto contraí em uma irritação contida. E um bufar escapa dos lábios que formam um biquinho.

Lindo.

A palavra vem a minha cabeça em um retumbar, em meus mais puros instintos quero me irritar comigo mesmo por sequer pensar nisso. Mas já era... desisto de não ver Allysson como lindo, ou como fofo. Ele é lindo e é fofo, e é fodidamente fodivel. Ponto.

Vejo como se fosse em câmera lenta ele pegar o pote onde trouxe as iguarias e comer com uma expressão irritada. E depois, vejo como seu rosto novamente se contrai numa mistura de decepção e irritação.

— Foram os melhores que eu já fiz. — Ele murmura chateado. — É claro que não estariam a sua altura.

E dito isso, ele ruma para seu lado do quarto. Abandona os doces em cima da mesinha e, com uma expressão pensativa, se joga em cima da cama.

Não consigo mais manter a pose.

— Eu menti, são deliciosos.

— Não precisa dizer isso agora só porque tá com pena de mim.

— Não é mentira.

Ele bufa.

— Claro que é, você disse que não estava bom.

— Só falei aquilo para ver como você reagiria. — Falo já arrependido de ter inciado isso. — Mas foram de longe os melhores doces que eu já provei.

— Você? — Espero ver irritação em sua reação, mas vem justamente o contrário. — Jura? Os melhores doces que você já provou?

Ele quase dá um pulo de alegria .

— Porque tão animado?

— Quem disse que eu estou animado? — Ele levanta a sobrancelha e me encara com cinismo, mas logo seu rosto se desfaz de novo em um de seus sorrisos abertos e brilhantes. — Quer dizer é claro que eu estou, se o grande Maksin Petrov falou que o que eu cozinhei está bom quer dizer que está... a não ser que você realmente disse por pena, mas aí seria uma coisa horrível de se fazer, porque agora eu realmente fiquei feliz agora e....

— Já disse que não é pena Gonzales. — Enfatizo com irritação. — Você me superestima demais.

— Superestima?

Ele inclina a cabeça levemente para o lado, semicerrando o olhar. Uma reação que acontece quando ele não entende o significado de uma palavra e parece parar para pensar sobre ela. Foi uma das coisas que aprendi convivendo com ele.

— É o contrário de subestima.

Ele ergue o olhar para mim contendo ainda mais confusão.

— Ás vezes eu realmente acho que isso e uma grande brincadeira sua. — Solto a confissão impulsivamente.

— O que seria brincadeira minha?

— Essa confusão com as palavras, não é algo normal.

De cara já noto que, mais uma vez, escolhi as palavras erradas. Pois no momento em que as ouves, ele fecha o rosto e os punhos. Ergue o rosto e me encara duramente. Para o Gonzales o ataque é a melhor defesa, foi outra coisa que aprendi convivendo com ele nesse curto período de tempo.

— Eu sei que não sou normal, não preciso de você para dizer. — Suas palavras soam ao mesmo tempo que agressivas, debochadas.

Algo que não me irritou como de costume.

— O que eu quis dizer é que essa confusão não é normal, desde quando isso acontece?

Por um momento ele retrai de novo, e prevejo uma chuva de sarcasmo. Porém ele estanca no lugar e parece debater consigo mesmo, e por fim me encara com leve hesitação antes de dizer com certa dúvida na voz:

— Desde sempre eu acho, foi muito difícil eu aprender a ler e quando eu finalmente consegui a gente veio pra cá, pro Brasil, e mesmo que as línguas se pareçam foi muito complicado aprender tudo do zero, sabe?

Apesar de hesitar no começo, ele ganhou confiança no meio da frase e tudo saiu como um desabafo. Quando abro a boca para repondê-lo, ele prossegue:

— E todo mundo falava português e eu não entendia quase nada... foi difícil pegar as palavras, e mesmo depois de "aprender". — Sua voz sai frustrada quando ele fala a última palavra. — Ainda é tão complicado.

— Complicado como?

Novamente ele parece debater consigo mesmo antes de me responder.

— Quando eu vou ler parece que eu não consigo conectar as letras, e quando eu vou falar as vezes tudo se embaralha na minha mente e eu troco as bolas todas.

— Que nem acetato por acéfalo?

Questiono, e vejo suas bochechas corarem pela vergonha.

— É, exatamente como acetato por acéfalo.

— E você já foi no médico?

Isso pareceu ofendê-lo ainda mais. Ele lança o corpo para trás com agressividade e me encara rubro de raiva.

— Eu não sou doente, porra! Nem um louco, muito menos demente. — O tom de sua voz deixa claro que eu o ofendi bastante.

— Hey, hey, hey, ninguém disse que você é nenhuma dessas coisas, ok?

Tento amenizar a situação, mas ele continua como se não tivesse escutado. Os olhos viajando de um lado ao outro como se tentasse desesperadamente se defender.

— Eu sou burro só isso. Só isso. Apenas isso. Burro.

— Você não é burro, Gonzales, isso pode ser outra coisa, sabia?

— Não. — Ele balança a cabeça com firmeza. — Burrice, é como meu irmão chama e é o que eu sou, um burro, um idiota completo.

E é assim que eu começo a odiar ainda mais o irmão do Allysson.

— Não é só porque seu irmão diz que você é burro que você é burro. — Falo deixando transparecer, no meu tom, meu desgosto pelo dito cujo.

— Não fale assim do meu irmão! — Allysson infla o peito para o defender. — Ele que me criou depois que minha mãe morreu e meu pai disse que eu já tava estragado.

— Estragado?

— É assim que meu pai diz pra quem é gay, sabe?

— Gay? Quantos anos você tinha?

— Acho que nove, foi nessa idade que aprendi a ler em espanhol, e quando me mandaram para cá, com meu irmão, e ele cuidou de mim mesmo eu sendo tão errado.

— Por ser gay?

— Não, por ser burro... meu irmão não liga de eu ser gay, ele só me odeia por ser burro, ele não gosta de gente burra.

— Gonzales...

— Ele é muito inteligente, sabe? Acho que é por isso que ele me despreza assim...

— Isso não é motivo para desprezar ninguém, Gonzales!

Ele me encara surpreso por minha exaltação, mas eu estou irritado o suficiente para pegar um avião e ir chutar a bunda do irmão babaca dele.

— Mas eu fazer bullying sim, certo?

— Você? Não... sim, quer dizer...

— Eu sei que não é desculpa, primeiro as pessoas me perseguiam por ser gay, sabia? Meu irmão foi chamado na escola por isso.... Roubavam minhas roupas, me batiam e me humilhavam. Sabe o que ele disse? Que o mais humilhante era ver um Gonzales ser rebaixado assim, nós atacamos antes mesmo de que possamos ser feridos, então fui eu que comecei a perseguir.

E nesse ponto ele já não parecia se importar de revelar algumas coisas íntimas dele. O claro esforço que ele fazia para que sua voz não soasse embargada, me impediu de sequer me mover. E eu só pude ouvir enquanto ele contava outra coisa importante para ele.

— Um dia meu irmão foi chamado na escola porque eu tinha quebrado o nariz de um cara, tinha anos que ele não havia me abraçado, mas daquela vez ele fez. Sempre houve próximas vezes, ele nunca voltou a me abraçar, mas pelo menos não me estapeou como naquela em que eu era o humilhado.

— Gonzales...

— Mas eu sei que nunca vou dar orgulho a meu irmão, nem ao meu pai. — Ele fala sem soltar nenhuma lágrima, mesmo estando com a voz embargada. — Sin embargo, estaremos juntos hasta el final del ano, y me gustária mucho no ser tan odiado por mí colega de piso.¹

Eu poderia consolá-lo, poderia estender o assunto, poderia tantas coisas. Mas algo dentro de mim ainda não poderia cruzar essa linha, e algo me diz que, apesar de tudo, ele também não.

Seria tentar dar um passo mais longo que a perna.

E suprimindo todas as vontades de abraça-lo e falar mais coisas do que eu poderia concretizar. Resolvo seguir por uma linha mais lógica.

No te odio tanto, Gonzales, te estas creyendo como mucho.²

— Você sabe espanhol! — A genuína surpresa, leva embora toda a tristeza que antes continha naqueles expressivos olhos.

E isso alivia demais a pressão criada em meu peito, embora ainda fique resquícios dela. Porém, é extremamente bom ver que ele não está mais chorando.

Isso é risível e bem irritante.

— Sim sei.

— Desde quando? —  Outro de seus naturais sorrisos se abre em seu rosto, a empolgação tomando conta.

Contenho um suspiro. Apesar de saturado com minha própria presença, e sentimentos, agora parece biologicamente impossível apenas cortar ele, pela grande probabilidade de magoá-lo. Então, me encontro impulsionado de prosseguir com o assunto.

— Comecei a aprender ano passado, mas fiquei fluente esse ano.

— Queria ser inteligente assim, aprender uma língua assim de um ano para outro sem motivo nenhum.

Quando ele fala sem motivo nenhum, sinto meu rosto esquentar um pouco. A verdade é que houve sim um motivo: ele. 

Primeiro eu estava curioso para saber dos xingamentos que ele proferia no campo de futebol e a seus inimigos de plantão. E quando nos tornarmos colegas de quarto, tudo só aumentou. 

Queria  saber o que ele dizia quando começava a discutir consigo mesmo enquanto andava de um lado ao outro, no quarto. Quis descobrir o significado das coisas que murmurava aflito quando tinha pesadelos, ou ataques de pânico. E também queria poder interpretar direito, quando no meio de alguma aula ele começava a escrever em espanhol em vez de português. 

Nessa última descobri que, não importava o idioma, os erros de ortografia, grámatica e coerência permaneciam da mesma forma.

Todavia , o fato é que, para poder decifrar melhor ele, comecei a aprender essa língua que ele usa cada vez mais de maneira inconsciente.

— Pare de drama, Gonzales. — Falo já indo a meu lado do quarto. — Que tal começar com o trabalho de química?

— Nãaaaaooooo. — Ele alonga bastante a palavra como se estivesse sendo torturado. —Qual o seu problema? Eu te trago um docinho e você lição, chatooooo.

— Você é a rainha do drama, hein? Você disse que é burro, eu vou te provar que não é verdade.

— Mas é que eu não sei nada de química, porra, eu não sei nada de nada.

— Eu vou te ensinar.

— Não quero.

— Gonzales....

— Você! — Ele agita os braços com frustração. — Porque é tãooo irritante?

— Pare de alongar as palavras. — Falo sério e recebo um bufar como resposta. — Não vou te explicar a matéria do trabalho, e sim a do ano passado que vai te ajudar a entender melhor essa parte.

— Mas eu não vou entender...

— Pelo menos tenta. — Falo, mas seus ombros caídos me entregam a prévia de uma recusa. — Se conseguir depois eu posso...

Procuro na minha cabeça algo razoável para se oferecer a ele, mas nada me vem à cabeça. Não sei nada sobre o que ele gosta ou desgosta.

— Me levar para tomar sorvete?

— Sorvete? — A pergunta saí de forma involuntária, a palavra me levando automaticamente Dani.

Dani ama sorvete, ama doces em geral, mas sorvete é de longe seu favorito.

— É que faz muito tempo desde a última vez que saí para tomar sorvete

— Ok, sorvete então. Preparado.

Ele revira os olhos, mas vem sentar ao meu lado. E após isso o tempo transcorre de maneira rápida e... diferente.

Algumas partes Allysson escutava perfeitamente, as vezes dando opinião, outras dúvidas, mas sempre em algum ponto da matéria ele acabava perdendo o foco e indo longe. Aí eu tinha que chamar sua atenção, recobrar a ele do que se lembrava e voltar a esse ponto de novo, apesar de ser um processo repetitivo não me exauriu ou me irritou. 

Na verdade, conseguia sentir meu maldito coração acelerar cada vez que o rosto de Allysson brilhava quando ele conseguia entender alguma coisa, ou quando acertava uma questão.

"O sorriso dele é apaixonante"

"Às vezes é difícil dar um chega pra lá nele por isso."

"Você não entenderia Maksin, mas o sorriso de Ally é tão lindo que faz você querer não deixar ele ficar triste nunca. "

— Essa é uma péssima desculpa para você não dar um toque quando ele faz merda. — Lembro de ter respondido de forma ápera, a Dani.

Mas agora entendia, até certo ponto, o porquê de Dani falar que o sorriso de Allysson é apaixonante. Eu não diria que chega a esse nível que ele contou, mas certamente é uma das coisas mais belas que já vi.

— Maksin? Maksin? — Allysson acena com a mão rapidamente em frente aos meus olhos. — Rá! Parece que dessa vez quem deu um perdido foi você.

— Pelo visto... — murmurei mais para mim do que para ele.

— Isso quer dizer o que eu acho que quer dizer?

Por um instante me assusto pensando que ele sabe o que havia passado por minha cabeça. Mas logo essa impressão some e só resta a dúvida: o que está passando nessa cabecinha enrolada?

— O que você acha que isso quer dizer?

— Que agora podemos ser amigos?

Ele estende a mão receoso e em seu rosto transparece todas as emoções que ele não se preocupa em ocultar. Ansiedade. Esperança. Alegria. Incerteza.

E eu penso, o que aconteceria se eu recusasse? Provavelmente o magoaria, o suficiente para que ele se mantivesse longe, talvez voltasse os ataques e todo o cinismo. E a ideia de não ter minha mente bombardeada pelos paradoxos que me rodeiam quando estou perto dele é tentadora demais.

Porém.

E sempre há um porém, nesse caso a parte de magoá-lo. Mais uma prova que estou envolvido demais nele e em suas emoções. A ideia de feri-lo me traz raiva.

Sinto como tivesse sido derrotado. E ainda pudesse ficar feliz por isso. Maldito Gonzales.

De maneira firme, aperto a mão dele contra a minha e falo as palavras que nunca pensei que poderia dirigir a ele.

— Amigos.

Sinto quando seu pulso acelera por isso, mas não me permito ir mais longe do que já fui hoje, todavia no momento em que me desvencilho de sua mão, ele a retoma e aperta mais forte.

Quando me encontro com seu olhar vejo ali determinação brilhar.

— Prometo não te decepcionar, Maksin.

E eu acredito nele. Apenas assim. Acredito nele.

— Pode me chamar de Maks. — Falo com um sorriso de lado, e vejo quando ele solta um gritinho e involuntariamente joga o corpo para trás, chocado.

— Sério, Maks? Eu posso mesmo te chamar de Maks, Maks? Posso, posso, posso, posso mesmo? Mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo....

— Como se você já não me chamasse assim antes, Allysson. — Rebato o interrompendo.

— Eu sei, mas agora tem toda a diferença porque você quem disse que eu...

Parecendo ter um derrame, ele para e me encara a boca balbuciando incoerências enquanto ele aponta seu dedo para mim

— Allysson, você tá bem?

Em um gesto rápido, ele cobre a boca com as duas mãos abismado. E sua cabeça vai de um lado a outro em movimentos rápidos como se estivesse negando para si mesmo.

— Tú! Tu, tú, tú...

— Eu?

— Você me chamou de Allysson! Duas vezes! Duas vezes.

— Chamei, Gonzales. A gente já passou por isso, quer parar de fazer drama?

— Não! Me deixa ser feliz, gillipollas.

— Você deveria é estudar, cabeça oca.

— Não me chama assim!

— Chamo sim, agora vem cá, as ligações covalentes podem ser representadas por....

Ele suspira como se estivesse cansado, mas senta ao meu lado e volta a focar a atenção no assunto.

Queria dizer que não sei o porquê, mas sinto conforto em tê-lo ao meu lado assim. Como amigos, talvez, poderemos ir longe.

Como amigos.

Apenas isso.

Amigos.

¹ No entanto, estaremos juntos até o final do ano, e eu gostaria muito de não ser tão odiado pelo meu colega de quarto. 

² Eu não te odeio tanto Gonzales, você tá se achando demais.

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