Capítulo 14 - Maksin


Atrás da porta se encontrava uma das piores cenas que já vi.



Dani dopado, nu e prestes a ser penetrado por aquele filho da puta que veio conosco. Seu corpo estava meio mole, fraco. Ele parecia lutar para abrir os próprios olhos, tentava empurrar o cara, mas o esforço para levantar os braços era demais e estes caiam pesados de volta ao corpo.

O pior é que com a voz fraca, ele conseguia apenas soltar murmúrios de protesto: "Não", "Por favor, não" e "Para". Mas o cara apenas sorriu mais ao escutá-lo, com um sadismo perverso, e abriu ainda mais as pernas dele, estava prestes... prestes.

Não me orgulho de dizer que por alguns segundos eu congelei.

De repente minha garganta amargou e com uma fincada de dor minha mente voltou a outrora, e quem estava ali já não era só Dani.

A pele branca cor leite estava duas tonalidades mais escura, os cabelos lisos purpúra estavam maiores, cortados em um estilo Chanel, negros como a noite e com um contraste feito por duas mechas coloridas, uma azul e a outra verde. E  o rosto, antes imaculado, agora estava salpicado por sardinhas em diferentes tons de marrons.

Já também não havia os pequenos murmúrios de desespero, e sim gritos de socorro e dor. O choro, misturado com as lágrimas e o leve odor a sangue... novamente me senti com medo, fraco e impotente. Um espectador, num filme de terror da vida real. E por um instante, por um microssegundo, encolhi.

E isso me fez voltar a realidade.

Eu já não sou um fraco e Dani... Dani definitivamente não é ela, o que passou não poderia ser mudado, eu estava no presente e... ninguém, absolutamente ninguém, poderia me dobrar de novo.

Jamais.

E com força total, a raiva bateu de novo, albergada pelo nojo da situação e do meu novo ódio por aquele individuo. Nunca antes na minha vida eu tinha ficado tão profundamente irritado, não dessa forma pelo menos. Do fundo do meu âmago, eu queria destruir aquele cara, acabar com a raça dele.

E eu consegui sentir, meu coração acelerando mais rápido, minha respiração aumentando e minha visão se tornando vermelha. Mas dessa vez eu não explodi.

Isso me surpreendeu, e surpreende até hoje.

Com a fúria destilada no coração pelo presente e pelo passado unidos e almiscarados, por um momento eu senti a raiva queimar nas minhas veias, mas não dá forma quente costumeira. Foi frio e tão frio que eu mesmo me surpreendi, sempre que explodia antes era uma confusão de golpes, escarlate e meu sangue quente, mas agora não. Nunca antes estive tão puto e tão... calmo.

Foi a primeira vez que me senti assim.

Terminei de abrir a porta, silenciosamente, e caminhei em passos leves e rápidos na direção da cama. Não sei se foi instinto, ou se a hostilidade em minha aura se tornou quase física, mas o fodido ruivo se deu conta de que eu me aproximava. Surpresa, desagrado e pavor tomaram conta de seu rosto simultaneamente.

Ele levantou os braços, como quem se rende, e diz: "Eu desisto!". Numa clara submissão.

Mas que se foda.

O primeiro soco foi no rosto, fazendo-o perder o equilíbrio por alguns instantes, em sincronia levantei minha perna e acertei um chute circular perfeito, que o mandou praticamente voando para chão, e o faz bater de cabeça contra o armário.  Esperei que ele se erguesse, e ele o fez demoradamente, com o nariz já uma bola roxa, quebrado, e meio tropeçando correu em minha direção.

Desviei facilmente do seu golpe, e simultanemante lhe acertei um gancho de direita bem na boca do estômago. 

Ele se dobrou sobre si mesmo, abrindo a boca em um arquejo mudo, inutilmente tentando puxar o ar. Mas isso não era o bastante, não pra alguém da sua laia. Então peguei aquela nojenta parte dele, que permanecia ereta — ele só podia ter tomado um remedinho também —e "quebrei".

De um segundo ao outro ele já tinha ar nos pulmões, de novo.

Pena que foi dispersado num grito pavoroso.

Dessa vez quando ele encolheu, não se levantou mais.

Arthur foi o primeiro a chegar no quarto, eu já tinha interrompido sua foda afinal, quando viu a cena reagiu mais rápido do que eu esperava, fechou a porta atrás de si e ligou para seu pai. Me encarreguei de cuidar para que todos saíssem, e Arthur de que sua família cuidasse do filho da puta, se só a mera notícia do que aconteceu a Dani vazasse na imprensa era capaz de sua avó o deserdar.

De qualquer forma, Dani foi enviado para ver um médico, novamente cortesia do pai de Arthur, e não foi difícil descobrir que o maldito havia drogado Dani. Era uma nova droga que, aparentemente, tinha saído há pouco tempo no mercado. Uma dose era o bastante para a pessoa ficar mais felizinha, duas para levar a um estado de euforia total, três começava a sobrecarregar o organismo e o que antes era animação, se tornava um leve entorpecimento e com quatro a pessoa desabava, podendo a chegar a ficar em coma.

O filho da puta tinha planejado tudo, colocou as drogas na bebida do meu amigo. Ia parecer apenas que ele estava bêbado demais, e então ele levaria Dani para cima com a desculpa de coloca-lo para descansar.

Desgraçado.

Por sorte, coma não foi o caso de Dani que acordou algumas horas depois, infelizmente os borrões de memória ainda foram o bastante para que meu amigo somasse dois mais dois e calculasse o que ocorreu no dia.

Em um primeiro momento foi um baita choque, ele passou os dias deitado trancado em seu quarto, sem sair para comer ou beber, quando a situação se tornou crítica, a avó dele decidiu deixar de ser cabeça dura e me permitiu visita-lo. O convenci a sair de casa, foi pouco, mas o bastante. A felicidade de ver o neto saindo do quarto depois de tanto tempo foi o suficiente para que me permitisse leva-lo para ficar na minha casa por um tempo.

E foi o que eu fiz.

Mas antes o levei para o consultório, Daniel estava relutante de entrar, mas o convenci e ele foi conversar com a psicóloga. Ele saiu de lá com os olhos vermelhos e inchados, e não falou nada, apenas seguimos para minha casa.

No meio do caminho seu estômago roncou, eu sabia que isso ia acontecer por isso tinha trazido um sanduíche. Eu ofereci para ele, mas ele olhou com repulsa e medo. E depois pareceu entrar em choque com si mesmo por fazer isso, e desabou de novo.

 Me desculpa, Maks. — ele choramingou com irritação e amargura.  Eu não consigo, eu sei que é você, mas eu não consigo...

— Porque sua mente te diz que isso é para te drogar.

— Me desculpa. ele balança a cabeça em negação.  Eu confio em você, é só que...

Ao invés de respondê-lo desembrulho o sanduíche e dou uma grande mordida.

 O quê?  ele questiona confuso.

 Para provar que não tem nada.

 Maks... eu não quero ... eu não quis dizer...

— Dani o que você passou foi traumático demais, é natural que haja sequelas, e eu não me importo de provar a comida para que você crie confiança para comer..

Dessa vez, mesmo que relutante ele aceitou o sanduíche, e deu pequenas mordidinhas na beira. Já era um avanço, e foi... aos poucos ele foi melhorando. Comendo mais.

Até hoje, mesmo com as sessões clandestinas de idas ao psicólogo, porque por algum motivo tosco a avó dele não acredita em terapia e se recusa deixa-lo ver uma terapeuta, Dani tem um forte trauma acerca de consumir qualquer coisa que ele não saiba a origem cem por cento, as bebidas devem ser devidamente lacradas, embalagens perfeitas, e etc.

Na sua casa ele mesmo fazia comida, quando viajava apenas consumia os embalados, e ele conseguiu estabelecer confiança com comer comida de fast-food, dizendo a si mesmo que as redes eram grandes demais para ter algum veneno.

Com isso ele foi enganando sua mente. E, aos poucos, ele foi estabelecendo uma maior confiança com as coisas.

Mas, é claro, não é tão forte assim. Com esforço consegue comer em restaurantes pequenos, e olhe lá, porque muitas das vezes acaba vomitando tudo.

Aqui eu consegui convencer uma das professoras que fez psicologia a ajuda-lo, mas as coisas não ocorrem da noite para o dia. E provar a comida de Dani, para dar segurança psicológica para se alimentar é o que eu faço desde então.

E se não fosse por isso provavelmente ele estaria vivendo a base de doces, sucos de caixinha, e qualquer porcaria industrial que ele consegue comprar para abastecer seu armário.

Ou até mesmo se forçando a comer e adoecendo física e mentalmente.

— Maks, tá me machucando. — Dani sussurra em meu ouvido, levando um estremecimento a minha espinha.

Nem percebi que ainda segurava sua mão, a solto de imediato. Puxando a minha para longe, mas ele a captura e segura firme acariciando, como se estivesse tentando me consolar. Como se eu fosse o que precisasse de qualquer consolo.

Dou um sorriso amarelo e desvio meu olhar, procurando pensar em outra coisa.

Mas dou de cara com Allysson entrando no refeitório, junto a seus amigos, e só consigo lembrar de que durante todo aquele tempo o que mais Daniel fez foi ligar para ele. Mais do que eu, mais até do que a própria avó, Daniel confiava em Allysson, ele estava passando pelo momento mais difícil da sua vida. E por algum motivo Allysson ignorou todas as suas tentativas de contato.

Talvez se ele tivesse atendido, ao menos saberíamos o verdadeiro motivo. Um dia, já putamente saturado do desespero e aflição do meu amigo me ofereci para procura-lo, falar o que aconteceu, mas Daniel negou veementemente. Apenas perguntou onde aquele cara se encontrava.

Eu respondi a verdade, que não precisava se preocupar, porque aquele cara não seria capaz de fazer mais nada a mais ninguém. Ainda abalado pelo ocorrido, ele ficou tão feliz ao ouvir isso que nem sequer perguntou o porquê.

E mesmo que tivesse perguntado eu não poderia responder.

De qualquer forma, Daniel já não parecia tão desesperado para que Allysson atendesse suas ligações. Talvez estivesse com medo que o cara procurasse o amigo e fizesse com ele por vingança?

Mas ainda assim, Dani ligava e deixava mensagem todos os dias, esperando que seu Ally o respondesse em algum momento. Ele estava fragilizado, um pouco neurótico e mais triste do que nunca. Precisava dele.

Que eu saiba, eles eram quase como irmãos.

Nunca vou entender o que passou na cabeça do Allysson.

E talvez, só talvez, ele tivesse algum motivo a mais — além do que ele já revelou, sobre as eleições — mas ainda assim não posso evitar pecar pelo lado de Dani.

E por isso, e por outros motivos, eu ainda o odeio.

Veementemente.

Ou ao menos deveria ser assim.

Observo como ele sobe na mesa e, ritmado, dança com um sorriso no rosto, alguma coisa que Marcus canta. Uma mistura de funk e rap suponho. E ao invés de considera-lo um arruaceiro sem respeito pelas regras, a única coisa que consigo me concentrar é em como ele tem um bom ritmo rebolando, como seu sorriso parece maior, e ele mais leve. Nem me importo que a calça larga demais para os padrões da escola quebra outra norma, mas sim como ele tem quadris largos que não permitem que a calça caia.

E quando Regbo e seus amigos adentram no refeitório, e vejo como o sorriso de Allysson treme por um instante, apenas lanço um olhar mortífero em direção aos caras, que nem se atrevem a olhar para Allysson duas vezes.

Acho que não fui tão imperceptível porque meu olhar e o de Gonzales se encontram. Ele falando claramente: "Não preciso de ajuda." E eu respondendo: "Supera.".

Ele no final revira os olhos completamente e volta a se embalar no ritmo musical. Mas não perco que seu sorriso volta e parece mais contente, pelo visto Renan também não o faz, pois semicerra o olhar na minha direção. Em um gesto protetor, talvez ciumento, sobe em cima da mesa e dança junto a Allysson fazendo questão de o tocar.

Trinco meus dentes, já irritado. Não sei se é pelo meu desgosto pelo sujeito, ou por ele pensar que Allysson e eu somos amigos, e ficar com ciúmes disso.

Volto a passear o olhar pelo lugar e dessa vez acabo me encontrando com o de Thales.

Em sussurro ele fala, obstinado.

— Precisamos conversar.

Por um instante penso em refutar a proposta, mas por fim raciocínio que isso seria o melhor.

Precisamos colocar alguns pingos nos is. 



O caminho todo foi dominado por um estranho silêncio, que deixou a situação mais tensa do que deveria.  Uma parte de mim queria quebrar a esquisitice da situação, a outra, por outro lado, só queria observar para ver até onde isso ia dar.

Decidi, pela razão, seguir a segunda parte. Então me escoro em uma das árvores assim que adentramos mais ao fundo dos jardins. Mantenho a posição fechada, braços cruzados e cenho franzido, mas isso é mais natural do que calculado.

— Fala. — sou forçado a dizer, quando mesmo após dois minutos Thales fica apenas me observando com cara de tacho.

— Porque você tá assim?

— Assim como? — me faço de desentendido, porque odeio perguntas idiotas.

— Me tratando como se não fossemos amigos.

— Não estou fazendo isso...

— Hipocrisia não combina com você. — ele me interrompe irritado.  

— .... Propositalmente.

— Como assim?

— Você sabe o porquê. — Realmente odeio perguntas idiotas.

— É por causa dele, não é?

— Sabe muito bem que não é isso.

— Você brigou com os meninos por causa dele!

— Porque eles estavam assediando o Allysson. — ao contrário dele, não elevo a voz para demonstrar minha irritação.

— Mas isso é porque... 

— Ah, não. — interrompo sério, a raiva subindo a minha cabeça só de imaginar qual a conclusão de sua frase. — Não ouse permitir que sua raiva contra ele chegue ao absurdo de defender o assédio.

— Não estou defendendo o assédio, isso é só uma zoeira deles, porque Allysson é viado.

Ok, admito, isso me deixou chocado. Chocado o bastante, para que mesmo em poucos segundos eu tenha perdido a fala. 

Invocando a paciência de Buda, me forço a relaxar os musculos, e respirar profundamente antes de dizer:

— Primeiro, você consegue se ouvir? Sabe o quão nojenta e homofóbica soou a sua fala?

— Eu estou me atrapalhando nas palavras o que eu quis dizer, é que, é que...

— É que como Allysson é gay, ele merece ouvir os caras o reduzindo a um simples objeto.

— Não é isso que eles fazem, como eu disse é só zueira, e depois o normal não é ser as mulheres as objetificadas?

— O que eles fizeram é objetificação, e depois, de novo, ouça suas palavras! Como você normaliza a objetificação das mulheres?!

— Não foi isso que eu quis dizer! — ele fala já impaciente. 

— Então diga claramente. — respondo ainda mais impaciente.

— Esqueça as mulheres, Allysson é vi...gay, e adora falar a todo momento sobre os caras que dorme e por isso os meninos se aproveitram disso, e.... — ele faz uma pausa pensativo. — E eu só estou piorando, né?

— Não sei. — cruzo os braços, com um meio sorriso sarcastico. — Me diga você.

— Maks! — ele fala frustado e suplicante.

Em dias comuns eu teria dó e paciência, mas sinceramente...

— Não sei o que é pior, você tentar normalizar o assédio de um cara só por que ele é gay, ou falar isso para outro cara que também sente atração por homens.

— Mas você não é gay.

— Mas sinto atração por homens.

— Mas não fica alardeando sobre como é fodido por eles, aliás acho que nem fodido você é, ou é?

— Quer mesmo saber qual a puta posição sexual que eu fico Thales?

— Acho que não?

— Isso  foi uma pergunta?

— Não, é só que pensando bem, você faz mais estilo macho alfa e...

— Você está sendo um idiota, e também está fugindo do assunto.

— Eu sei! Ok! Eu sei! É só que ele me tira dos nervos.

— Ele me tira dos nervos também, e nem por isso eu tento justificar o injustificável, só por estar com raiva dele.

— Não estava tentando.... — ergo uma sobrancelha como quem diz: "Está fazendo isso agora." E ele cala. Respira fundo e se joga contra a árvore, escorregando devargarzinho pelo tronco até sentar no chão. Com muita frustação ele esfrega a cara irritado e diz.  — Ok, eu tava.

— Bom, isso me diz muito sobre o que aconteceu antes.

— O que aconteceu antes?

Sento ao lado dele no chão.

— Allysson me contou sobre o que você disse. — falo e ele entende de imediato, franzindo a testa com o desgosto.

— Você não tem nada a ver com isso.

— Talvez eu tenha passado a ter, depois que eu vi o meu amigo chegar ao fundo do poço por uma situação similar, e agora estar usando isso contra outra pessoa.

— Não compare a minha vida com a daquele filho da puta! — ele grita forte e rápido, o que faz com que precise de um tempo para poder normalizar a respiração. — Não somos iguais.

— Definitivamente.

— E o que ele passsou não chega nem perto de ser o que EU passei.

— Você acha?

— Tenho certeza.

— Está ao lado dele vinte e quatro horas por dia para saber o que ele passa ou não? 

Minhas palavras são estratégicas e ele parece perceber, pois ele pula de imediato do lugar, aponta o dedo para mim e abre a boca sem conseguir formular uma resposta. Seu rosto aos poucos vai assumindo um tom de vermelho, por causa da raiva.  

— Não use minhas palavras contra mim, Petrov.

— Então para de agir feito um babaca, Ribeiro.

— Eu só.... — ele balança cabeça frustado, e praticamente arranca os cabelos da cabeça antes de chutar a árvore. — Merda

— É, que merda.

Ele joga a cabeça para trás e fecha os olhos, como sempre faz quabdo está na borda do limite.

— Por que fez isso? Eu odeio essas lembranças.

— Então porque as usa contra ele?

— O quê? Eu não fiz...

— De propósito? Algo me diz que você queria atingi-lo, tanto como isso atingiu você.

— Não é verdade.

— Não é verdade porque? Porque você não queria ou porque não teve o resultado que você esperava?

— Para com isso Maksin.

— Só me diga a verdade Thales.

Ele fica em completo silêncio.

— Ok, você tá certo eu tinha a esperança de poder afetar ele... com isso. — ele desaba sobre a outra árvore. — Era isso o que queria ouvir?

— Isso era justamente tudo o que eu não queria ouvir. — balanço a cabeça decepcionado.

— Maks..

— O que você queria? Que a ele tivesse ocorrido que nem a você? Que isso o levasse a depressão assim como você? E que ele...

— Não termine essa frase.

— Só porque você decidiu ignorar, não quer dizer que não tentou Thales! Você sabe muito bem até onde a depressão pode levar uma pessoa, como pode?

— Eu o odeio!

— Existem coisas que não deveríamos desejar nem a nossos piores inimigos. — E ser vendido como uma coisa, um objeto, é uma delas.

— Eu sei, ok! Eu não quero ser uma pessoa ruim, eu só quero descontar tudo o que ele me fez.

— Deveria voltar ao psicólogo. Já está mais do que na hora de perceber que quem você odeia é sua mãe, e simplesmente está refletindo isso em Allysson.

Isso pareceu dar um baque nele, que recua como se tivesse levado um golpe.

— Você as vezes é direto demais. — sua voz sai fina, em um murmúrio.

— E você está acabando com sua saúde mental, Thales! 

— Isso não é verdade.

— Olha eu pensei que com o tempo você ia parar de ficar em negação e procurar ajuda séria, mas isso não está acontecendo, então vou te mandar a real.

— Não quero escutar.

— Eu vou falar, você decide o que fazer depois. — encaro no fundo dos olhos dele. — Viver como se ignorasse a realidade não vai mudá-la, o que sua mãe fez foi terrível, e você tem que lidar com isso.

— Eu pareço estar muito bem, não acha?

— Tão bem que reflete em Allysson tudo o que passou.

— Ele implicou comigo.

— Ok, e seu ódio e perseguição também não vem do fato de ele ser parecido com o homem que sua mãe te vendeu? 

Bom, é uma história longa, mas para resumir a empresa da mãe dele tava quase indo a falência, e ela estava decidida a tudo para salvá-la. Sabe quanto custa a bunda de um garoto virgem, menor de idade e riquinho no submundo? Digamos que o bastante para salvar uma empresa.

— Cale a boca. 

— Em algum momento você vai ter que encarar isso.

— Maks. — meu nome sai num suspiro frustrado, ao mesmo tempo quase que choroso.

— Eu sempre fiz, e sempre vou fazer o possível para te ajudar, mas você também tem que se ajudar.

— Eu sei, desculpa

— Não é a mim com que você tem que se desculpar, cabeça de bagre. 

— É com Allysson?

— Também, mas também com você mesmo. — aponto para sua cabeça. — Essas lembranças vão te consumir, idiota, você tem que extravasar. 

— Eu entendo. 

— E se você quiser, no sábado tem uma consulta com uma psicologa a te esperar.

— É sério, Maksin? — ele soa divertido e indignado.

— Eu marquei a consulta, mas a decisão de ir é apenas sua.

— Ok, faço isso por você.

— Não cabeção, se for fazer isso, que seja somente por você mesmo. 

— Valeu Maks, Sério mesmo. — ele me abraça. — Você sempre me apoia... mesmo que as vezes pareça um livro de auto ajuda.

— Me erra Ribeiro.

— Eu só quero te acertar bebê.

E com isso, já parece que tudo volta ao normal, trocamos soquinhos e mais algumas risadas. E ficamos conversando até o sinal tocar, a próxima aula de Thales era música então ele praticamete sai correndo depois de se despedir.

Só espero que ele realmente procure ajuda... Eu entendo bem o quão díficil é conviver com essa categoria de lembranças.



— Sabe Maks, eu só vejo você tentando ajudar os outros, e se preocupando com os traumas dos outros, mas nunca se volta para si mesmo, não é?

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