Capítulo 12 - Allysson




— Nós dois teremos uma conversa bem séria, Gonzales.

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Me vi sendo arrastado em direção aos prédios onde ficavam os dormitórios, Maksin parecendo estar irritado e um tanto quanto pensativo ignorou todos e cada um dos meus protestos, ele parecia estar no mundo da lua e apenas seguindo em seu modo robô piloto automático. O problema era que esse modo é um tanto quanto brusco, e a única coisa que pude fazer foi choramingar todo o caminho enquanto o hijo de puta apertava cada vez mais meu pulso. Aposto como ele já está vermelho e inchado.

Tentei novamente falar alguma coisa, mas fui completamente ignorado. 

Maldito Makssin e suas fodidas mudanças de humor.

En serio. Depois EU sou o problemático.

Não demorou muito para chegarmos na frente da porta de nosso dormitório, queria protestar contra entrar lá dentro, todos os meus esporos gritavam " CORRA! ", mas nem tive tempo antes de ele praticamente me lançar quarto adentro.

Tropecei em meus próprios pés, em uma dança desengonçada até quase beijar o chão, o que só não aconteceu pois no último segundo consegui pegar o divino equilíbrio, e estabilizei meu corpo. Aproveitei a chance e também me afastei o mais longe possível do meu colega de quarto.

Nem tive coragem de olhar para ele, sua aura estava fria e assustadora novamente, exatamente como a dele. O breve pensamento, mesmo que curto e simples, me levou a uma onda de lembranças. E novamente estava eu, ali, naquele porão. 

Impotente, sujo, apavorado. Apenas esperando pelo próximo castigo, o que seria? Uma surra? Alguns dias sem comer? Algumas horas de trabalho cansativo e pesado? Ou apenas uma bronca reafirmando que sou um malnacido, bom pra nada, inútil, peso morto, e apenas uma carga para sua vida.

Eu não podia ter certeza, só podia esperar ali com o frio castigando meus ossos, e a fome fazendo meu estômago rugir. Eu só queria sair dali, mas ainda faltava tempo para ele chegar, faltava tanto tempo...

Em um reflexo por causa das lembranças, me encolhi no canto mais oposto da cama, tentando meu esconder dentro do meu próprio corpo. Algo ínutil,  já  que ele não era mais seguro, conseguia sentir a mim mesmo estremecer, o pavor levando gelo ao mais profundo do meu sangue, meu estômago contraindo e  isso me faz sentir ânsias por vomitar. Fecho os olhos, tentando fazer minha respiração regularizar, mas tudo que vejo é seu sorriso antes de decidir minha sentença.

"Chicote ou madeira, hermanito? ".

Abro os olhos de supetão, tento focar em outros sons para que o retumbar suma da minha cabeça. Meu olhar acaba se encontrando com o rosto de Maksin, ele permanecia escorado contra a porta, rosto contraído, punhos cerrados e olhos fechados, como se ele mesmo tentasse se controlar.

Quando finalmente abre os olhos, já não aparentava ser tão assustador. Nada daquela aura de ódio, raiva e frieza. Apenas meu velho colega de quarto indiferente e super genial.

— Gonzales... — ele começa e tenho certeza de que vem bronca por aí. Mas do nada sua expressão se suaviza um pouco. — Você tá bem?

— N-não. — Minha voz saí em um gaguejo e quero muito me bater por isso. — Não vamos por esse caminho.

Algo em minha expressão devia estar gritando: "Por favor, prefiro me lançar do prédio a falar desse assunto", porque ele apenas assente com a cabeça e quando volta a me encarar seus olhos tinham o mesmo brilho severo de sempre.

— Gonzales, eu pensei ter sido bem claro anteriormente.

— Affs, de novo o papo da expulsão? Viro o disco, gato, se não arranha. — Falo irritado, embora aliviado, nada de sentimentos ruins, apenas uma discussão natural.

Ele apenas levanta uma sobrancelha, me encarando com aqueles olhos cinzentos e levando arrepios a minha alma. Eu, é claro, tento ganhar a batalha de olhares, mas duvido que exista algo capaz de não ceder diante desse maldito olhar tempestuoso.

— Era autodefesa! — Tento me justificar.

— Sério? — Ele ergue as sobrancelhas numa mistura de dúvida e sarcasmo. — Porque será que não vi o ataque dele?

— Porque ele me ofendeu com palavras e não ações.

— Que eu saiba isso é algo que você faz com ele recorrentemente.

— Sim, mas dessa vez é diferente, doeu na alma sabia?

Ele apenas segura um bufar risonho e eu reviro os olhos, isso não ia dar em nada. Eu tive um dia de merda e se o que eu tenho de fazer é escutar mais algum discurso ofensivo de Maks pra depois eu ter um merecido descanso, que assim seja então! É melhor nem tentar justificar nada.

— Olha só, foi mal cara, não vai acontecer de novo, ok? Eu só tava irritado pra cacete, aqueles caras ficaram me importunando e depois veio ele falando merda e eu explodi, cê me entende, né?

— Isso não justifica a violência. — Ele fala sério, mas tão sério, que eu tenho vontade de rir.

Eu até tentaria evitar, devido ao contexto, mas é natural e eu caio na gargalhada. Dessa vez  ele nem pergunta o porquê, parece que compreende muito bem o motivo de toda a graça.

— É sério? — Falo entre as risadas. — Você? Falando que isso não justifica a violência? Logo você.

Rio mais um pouco.

— Tem uma palavra pra isso, não tem? Começa com I, ou é com H? Hipotermia? Imputável? Hipocondríaco? Hipo...

— Hipocrisia.

— Isso! Hipocrisia. — meu estômago chega a doer do tanto que eu rio.

— Não sei o que me surpreende mais, você saber que existe a palavra hipocrisia, ou saber o que é hipocondríaco.

— Eu sei o que é hipocondríaco?

— Deixa pra lá. — ele fala parecendo impaciente, mas vejo um leve sorriso de canto em seu rosto. — Tem razão, é hipócrita falar isso.

— Falar isso o quê? — questiono puxando a memória, odeio como me perco nas coisas, mas consigo lembrar rapidamente. — Ah sim, é mesmo, agora posso ir?

— Não. — ele fala de braços cruzados. — O que eles poderiam ter dito que tivesse te irritado tanto assim?

Eu acho que isso era pra ter soado como uma pergunta, mas não soou... porém vou responder mesmo assim.

— Não faça essa cara de " eu duvido ", tenho certeza de que cê também ficaria irritado se os caras vivessem tarando sua bunda, e depois veio o Thales e ficou enchendo o saco, e é óbvio que eu acabei perdendo a paciência e...

— Espera! — ele interrompe, com uma cara de confusão e irritação. — Quem fez o que?

— O Thales, ele resolveu me pegar pra Cristo e...

— Não, não o Thales, antes disso, sobre os caras.

— Os que ficam tarando minha bunda, deixa isso pra lá, já tô acostumado, mas cê sabe como é, né? Tem dia que já tá ruim e a gente acaba se deixando levar, enfim pode deixar tudo isso de lado só dessa vez, por favor?

Ele me encara os olhos completamente abertos como se tivesse nascido uma nova cabeça no meu corpo.

— Deixar isso de lado? — ele repete pausadamente como se não acreditasse no que eu disse.

— Olha, por favor, eu peço desculpas para o Thales, e tals, mas por favor.

— Não é essa a questão, Allysson.

O encaro chocado.

— Você me chamou de Allysson! — falo exultante, revelando, sem querer, minha felicidade.

— O quê? — ele me olha com tanta estranheza que tenho certeza que pensa que pirei de vez.

— É a primeira vez que você me chama pelo meu nome. — Solto em um gritinho, repassando-me minha cabeça, o momento em que ele falou. Uma e outra vez.

— Tenho certeza de que já falei seu nome antes.

— Falou? Não lembro... — Mas dessa vez certeza de que lembrarei.

— Esquece isso Gonzales. — Ele revira os olhos. — Estamos perdendo o foco, me diga quais foram os caras.

O encaro com indagação. De que merda ele tá falando agora?

— Os caras que te assediaram. — ele bate a mão contra a testa, como se eu fosse lento demais.

Bom talvez, um pouco, mas pera aí, assédio?

— Assediaram? Não, não, não. Não vamos exagerar, ok? Eles ficaram me enchendo o saco, mas não chega a ser assédio.

Ele balança a cabeça duvidoso, e eu não o julgo porque agora também estou com dúvida. Foi assédio?

— Fale exatamente o que eles fizeram.

— Sério mesmo? — E meu soninho da beleza?

Sua resposta é um franzir impaciente na testa. Aff, cara chato!

— Tá, o de sempre, eles ficaram falando da minha bunda só isso.

— Só? — Ele ergue as sobrancelhas numa expressão inquisidora.

— Olha cara, eu não sou conhecido exatamente por ter boa memória.

Ele suspira e passa a mão na testa com frustação, em passos largos ele atravessa nosso quarto e fica em pé frente a mim. Não posso evitar ficar surpreso quando ele passa a mão em meus ombros, me consolando.

— Cara...

Queria dizer a ele que isso não era necessário e que eu não precisava disso, mas ele parecia estar mesmo um pouco preocupado e não consegui. Solto um suspiro e inspiro fundo antes de dizer:

— Eles falaram que queriam foder comigo, só por causa da minha bunda, e que me queriam com a boca tapada porque sou um porre. Apenas zoeira de mal gosto. Satisfeito?

Minha voz sai ácida, mas ele não me xinga como de costume, ao invés disso meneia a cabeça com uma expressão indecifrável.

— Não imagino alguém estando satisfeito depois de ouvir uma coisa dessas. — Novamente ele acaricia meu ombro.

Seu toque e tão gentil e preocupado que quero me afastar de imediato, Maksin não é assim. Pelo menos não COMIGO, e não é nada bom, sentir como perco a razão.

Quer dizer eu sou burro, mas nem tanto. Mas quando ele é gentil é inevitável pensar que le poderia, ao menos, um pouco não me odiar tanto... 

É só pena, Allysson. Não se deixe levar.

— O que mais eles fazem?

— Nada cara, relaxa, não é nada demais, apenas uns olhares e só isso, todo mundo faz isso não?

— Existe uma diferença entre admiração e perversão. — Ele balança a cabeça em discordância. — Pela forma que reagiu, tenho certeza de que você não gostou nem um pouco desses olhares

— Já disse que nem ligo. — Falo dando de ombros, mas é uma completa mentira, eu odeio como eles me olham e odeio como me sinto sujo e nojento por isso.

— Allysson... — ele parece que vai falar alguma coisa, mas muda de ideia. — Eles já fizeram algo pior?

— Pior?

— Como te tocar, ou...

— Não! Não, não, não, cê tá viajando demais cara. — Balanço a cabeça negando freneticamente, mas novamente não disse toda a verdade.

E nem pretendo dizer.

Realmente eles nunca passaram de olhares e zoações, nunca, jamais, exceto por Regbo. 

Ocorreu duas vezes, a primeira depois do jogo quando ninguém estava vendo, um beliscão na minha bunda, seguido de uma lambida nos lábios, e uma ajeitada no saco. Já a segunda... foi pior, na época em que eu ainda tomava banho junto com todos eu senti que estava sendo encarado, e quando me virei encontrei Regbo lá, me observando fixamente e de uma forma tão espeluznante, que  terminei e saí de lá o mais rápido possível.

Porém esse dia eu tinha aula de dança, tinha levado a roupa para trocar no vestiário, mas com a pressa e a falta de raciocínio esqueci. Voltei para lá, quando entrei o local tava vazio, até aí tudo bem, mas quando estava prestes a pegar minha roupa escutei aqueles barulhos molhados seguidos por gemidos afogados.

Segui o som até uma das cabines do banheiro e estava prestes a zoar o infeliz que tinha resolvido se masturbar no vestiário. Quando o escutei gemer: "Allysson", "Porra, vira essa bunda gostosa e...."

Ele foi interrompido quando abri a cabine com força, Regbo estava lá, massageando o fodido pau, e cheirando a parte de baixo da minha roupa de dança.

Nunca antes na vida senti tanto nojo, nojo dele, daquela peça de roupa e nojo de mim mesmo. Arranquei minhas roupas da mão dele, e corri para fora do local sem nem olhar por onde ia, mais tarde Renan me encontrou, sentado encarando a fogueira que antes era minhas roupas. Contei tudo a ele... implorei para que não falasse com ninguém, o envolvimento de adultos só pioraria as coisas, e ele aceitou, não é pra menos, já que ele conhece muito bem minha família.

Mas no final de semana seguinte, Regbo foi "assaltado" na rua, inexplicavelmente o ladrão não conseguiu levar nada, porém Regbo sim.

Uma boa semana no hospital.

Pelo que fiquei sabendo ele levou chutes tão fortes em suas partes baixas que foi sangrando pro hospital. Não demorou muito para a escola toda saber que ele rompeu um dos testículos.

Depois disso esse assunto nunca mais foi citado, nem por mim, nem por Renan e nem por Regbo. E apesar das provocações continuarem, nunca mais ocorreu nada desse tipo mais.

— Allysson, não está mentindo para mim, certo?

— Claro que não. — Respondo, mas minha hesitação o faz me encarar desconfiado.

— Claro que não. — Ele sussurra para si mesmo, incrédulo, parece que vai me questionar mais quanto ao assunto, mas ao invés disso balança a cabeça e me faz outra pergunta. — Quem?

— Quem o que? — Se você não pode com ele, se finja de tonto.

— Quem foi, Gonzales. — Ok, dessa vez ele não mordeu a isca. O que é bem chato, porque quando eu realmente estou sendo lerdo ele fica todo irritadinho.

Ele continua me encarando com aquele estranho vinco entre as sobrancelhas, e nada é mais injusto, é como se ele realmente se preocupasse comigo.

É claro que não tonto. Não vá se achando o especial, você é só mais um por quem Petrov pararia na rua caso achasse que essa pessoa precisasse de ajuda.

Falo comigo mesmo, e me aplaudo mentalmente, não é sempre, nem toda hora, que meu cérebro funciona direito, mas pelo menos as vezes consigo raciocinar.

Raciocinar... o que me leva a pensar, o que Petrov faria quando soubesse quem são os caras? Quer dizer pra mim isso não é nada demais, mas para ele é assédio, e assédio é um tipo de crime, tenho quase certeza...

Duvido que Petrov uma surra nos caras como quando me viu fazendo aquilo... Apesar que eu não tava fazendo assédio com ninguém..., bom, de qualquer forma, ele com certeza não vai explodir como faz sempre que se trata dos amiguinhos dele. Isso é certo. Mas então o que ele faria?

Dando novamente um bingo na noite, minha mente me leva a recordações das ameaças dele para mim. Falar com a diretoria.

— Não! Não quero falar nada pra diretoria, e você também não vai dizer nada do tipo, se fizer vou negar tudo, esses são meus assuntos então não se meta, Petrov.

Nossos olhares se encontram, tento permanecer firme, mesmo que sinta no momento contrações de medo no meu estômago, só de pensar no quão puto ele, ou melhor eles, ficariam caso a diretoria os chamassem... já conseguia até sentir tudo de novo.

— Ok! — Petrov fala mais alto que o normal, tentando me chamar a atenção. — Se não quer denunciar tudo bem, não vou te contrariar, mas me diga quem foi que fez, sem exceções.

— Petrov...

— Thales também participou? Por que se for isso...

— Não! Thales é um pé no saco, e um chantagista do caralho, mas nunca fez isso, aliás ele até ameaçou eles quando soube o que estavam fazendo, eles evitam de implicar comigo perto dele até.

— Perto dele? Então são os amigos de Thales.

— Sim, mas... pera, como cê soube?

— Dedução básica, Gonzales. — ele fala como se fosse óbvio.

— Ah, entendi, agora que tá tudo explicado, será que posso dormir?

— Por favor, ainda não. — Ele me olha muito sério. — Como assim Thales é um chantagista?

— Pergunte a ele. — Por Dios, eu já estou cansado desse assunto, que não vai dar em nada, porque é mais fácil o planeta se tornar quadrado do que Makssin parar de defender seus estúpidos amigos.

E sim, eu sei que a Terra é redonda.

— Ele tem a versão dele, você a sua, me diga.

— Sério?

— Parece brincadeira por acaso?

—Tá, mas é pessoal. — de braços cruzados, não consigo não reclamar. — Ele descobriu algo sobre mim e minha família, algo que eu não quero que ninguém saiba e está usando isso contra mim.

— É pessoal demais para me falar sobre? — sua voz é suave como se ele realmente não quisesse me pressionar a nada.

— Você é um porre, sabia? — reviro os olhos. — Não foi nada demais, teve um dia em que eu consegui tirar notas ainda piores que o normal, chamaram meu irmão na escola, ele já estava irritado, problemas em casa, sabe como é né? Ficou ainda mais puto e disse umas coisas bem chateadoras, Thales escutou e tá me enchendo o saco.

— Te enchendo como? — sua pergunta me irrita.

— Porque você se importa?

— O que?

— Isso e o outro assunto com os caras, tô perguntando porque você liga, eu já disse que não vou falar nada pra diretoria.

— O que isso tem a ver?

— Que não é da sua conta, Petrov.

— Acredite ou não, é sim.

— Não, não é. Isso é um problema meu, que eu nem me importo, então não tem motivo para você se meter.

— Está falando do Thales ou dos outros?

— Do Thales e dos outros, mas mais dos outros do que do Thales. — balbucio embolado. — Acha mesmo que não sei que você vai dar um jeito de meter uma colher com os meninos.

— Ok, e se for, e daí?

— Não pode! Não tem esse direito.

— Não tenho? Pois acredito o contrário, jamais que eu vou permitir que alguém seja assediado sabendo que posso fazer algo para impedir.

— Você não é o super-homem, sabia?

— Posso até não ser, mas depois que eu conversar com eles duvido que se atrevam a fazer qualquer coisa com você. — ele fala com a expressão mais aterradora que já vi na vida, levando calafrios pelo meu corpo.

— Credo, Petrov, falando assim até parece outra pessoa.

— Não é isso, só acho que esse tipo de gente merece o pior dos castigos.

Sua voz é assustadoramente sombria e amarga, ele cerra os punhos com força antes de cruzar os braços como se quisesse se conter, e vejo um quase que imperceptível estremecer em seu corpo. Não posso evitar questionar a mim mesmo: O que aconteceu com Petrov? E porque ele parece ter uma ligação muito mais pessoal com tudo isso? Até parece que deixou de ser algo sobre mim, e passou a ser algo diretamente relacionado a ele...

— Entendi... — resolvo mudar de assunto, respondendo a sua pergunta anterior. — Sobre o de antes, bem ele fica ameaçando em falar, cê sabe muito bem que eu não tenho a melhor das reputações, mas prefiro zoar que ser zuado e o que Thales tem daria muita munição contra mim.

— Não é como se você não merecesse as vezes... — ele murmura para si mesmo.

— Rá! — grito apontando o dedo direto para seu rosto. — Sabia! Você não ia perder uma.

— Perder uma o quê? Não é como se fosse uma mentira.

— Olha, para de me encher, ninguém dessa escola é santo não, todo mundo vive falando de como eu faço isso e aquilo, mas na primeira oportunidade me esculacham por minha inteligência, ou melhor, pela falta dela.

Ele me encara com semblante surpreso, como se fosse inesperado eu falar sobre isso.

— Porque essa cara, Petrov? — questiono com acidez na voz e amargura no peito. — Não é como se eu não soubesse o que falam de mim por aí, é meio complicado quando sempre tem um pra me lembrar.

E dito isso, levanto as mãos e vou contabilizando com os dedos.

— Vamos lá, meu irmão, minha família, Thales, o time de futebol, Pedro, Paulo, você, os professores e... — faço uma pausa dramática. — Veja bem! Todo o resto da escola também. Falta só eu estar passeando na rua e uma criança me apontar e dizer, nossa mãe viu aquele cara? Ele parece tão burro.

— Gonzales. — ele fala com certo receio e novamente vem aquela sensação de que ele pode estar sentindo pena e mim. Pelo visto o tiro saiu pela culatra.

Não! Não vou permitir isso. Forço minha voz a voltar a leveza do sarcasmo habitual antes de dizer:

— Corta essa, Petrov, larga de drama, eu convivo com meu cérebro todo o dia e sei que de longe ele é um dos mais espertos, ou um dos mais práticos, ou um dos mais sábios. Ou que seja bom pra qualquer outra coisa. — falo divagando.

Ele ainda me encara com certa  — eca!  — compaixão.

— Quer dizer eu sei que sou burro, e meio lerdo, ou melhor, muito lerdo e muito lento, e que não presto atenção nas coisas, mas não precisam ficar me relembrando disso a tooodaaa hora, certo? — dou algumas piscadinhas tentando transparecer que estou pouco me fudendo para isso, mas Maks não cai e me olha com seriedade. — Não? Sério mesmo? Que pena... mas fazer o quê? Não é como se eu respeitasse os limites das pessoas também.

Dou de ombros, e a impaciência começa a brilhar nos olhos do meu colega.

— Está fugindo do assunto.

— Estou?

— Não se finja de bobo, Gonzales, estamos convivendo já algum tempo e eu já sei quando você está perdido na conversa e quando você simplesmente se faz de tonto.

— Você é um porre? Eu já disse isso alguma vez?

— Praticamente incontáveis vezes, mas se você quiser saber aproximadamente quantas, eu poderia calcular.

Isso não é possível, senhorrr.

— Eu sabia, você não é um humano e sim um robô, tudo isso aí é falso e você é feito de metal. — falo dando um passo a frente e socando de levinho sua testa, tentando escutar o barulho oco que confirmaria o que eu disse.

— Hei, pare com isso. — ele fala agarrando meu pulso.

— Não. Isso é uma conspiração. — forço a minha mão a sair do seu agarre, mas é inútil. — Eu só preciso escutar o barulhinho de oco e confirmar tudo.

Ele revira os olhos com desdém.

— Se quer escutar barulhos ocos bata na própria cabeça, Gonzales.

— Hei!

— Tanto faz, quer parar de fugir do tema?

— E tenho outra opção? — bufo irritado me soltando de seu agarre, mas não consigo ignorar que onde ele acabou de tocar se sente quente e vazio. — Para resumir, meu irmão disse que ou eu dava um jeito na vida, ou me preparava para vender meu corpo na rua.

Dessa vez ele arregala os olhos até o talo.

— E Thales... Thales usou isso contra você? — ele pergunta chocado, como se não conseguisse imaginar seu companheiro fazendo algo do tipo.

— Sim, e não me leve a mal, minha vida já éum inferno, tudo o que eu não preciso é ser conhecido como a prostituta da escola.

Adolescentes são maus. E eu digo por dupla experiência própria, a de acusador e a de vítima.

Ele ainda permanece em silêncio, o que leva um bolor amargo a minha garganta.

— Olha só, se não sou eu o hipócrita agora, né? — dou uma risada sem humor. — Talvez eu mereça, isso é uma compensação.

— Não. — ele fala balançando a cabeça em negação. — Não diga isso, ninguém merece passar por nenhuma situação desse tipo, nem mesmo você.

— Nem mesmo você. — repito as palavras, absorvendo o quanto elas são duras de engolir. — Você fala como se eu fosse um demônio.

— Você não é um demônio, Gonzales, mas também não vou passar a mão na sua cabeça como se você não cometesse erros que são inaceitáveis.

— Mas é claro que não. —  dou meu sorriso mais cínico. — Porque todo mundo é perfeito e pode errar, menos eu, é claro.

— Errar é uma coisa, cometer crime é outra bem diferente.

— Crime? Que crime?

— Bullying é crime. E um ato atroz e covarde praticado por pessoas desagradáveis, sem consciência, que não tem o mínimo respeito por seus iguais, de índole péssima e uma incrível falta de construção de caráter, a maneira como elas tratam os outros é nojenta, o que as torna vis e nojentas também.

Infelizmente, essa é uma das poucas e raras vezes que minha cabeça resolve realmente prestar atenção em cada palavra dita. E não preciso nem dizer como elas soaram feito um chute no saco.

— Entendi, eu sou vil, nojento e tudo que você disse aí, não preciso de mais nada Petrov. Posso ir dormir agora.

Pergunto dando as costas para ele, minha garganta trêmula e consigo sentir meus olhos arderem. Eu não consigo compreender como cheguei a tal ponto, eu não sou assim, um pobre fraco que chorar por qualquer coisa, mas veja só, olha como eu estou a beira das lágrimas de novo pela terceira vez no dia.

Tento controlar a incessável vontade de chorar, mas ao fazer isso sem querer solto um fungar. Mordo meus lábios para evitar que aconteça novamente, mas já era. Maks gira meus ombros para que fique frente a frente com ele, abaixo minha cabeça cabisbaixo, mas ainda assim sei que ele consegue ver as lágrimas escorrendo por meu rosto.

— Merda! Você tá chorando. Allysson olhe para mim. — Sua voz soa estranhamente angustiada.

Espera, Makssin angustiado, por minha causa? A ideia era tão hilária que eu começo a gargalhar em meio a onda de lágrimas.

— Merda, você tá rindo? Que tipo de porra de humor negro você tem, Gonzales?

Por um instante a voz dele soou com o mesmo asco costumeiro, levando leves facadas ao meu coração. E num rompante tudo voltou com força assolando minha mente e minhas emoções.

Petrov é o último jogador.

Câncer para o time.

Trate de arranjar um cérebro novo, porque com esse daí mal, mal para trabalhos braçais você serve.

Tem razão se colocasse uma mordaça era vapo, vapo.

Você e seus amigos me perseguem porque sabe que eu vou ser chamado pelo olheiro, e você vai ficar pra escanteio, como sempre.

Vender seu corpo na rua já que você não serve pra mais nada, certo?

Nojento.

Todas as palavras fizeram um eco horrível na minha cabeça, e um oco sem tamanho em meu coração, levando a meu peito sentimentos sombrios e indecifráveis.

Como me dizia mamãe, tem uma hora que de tanto acumular você explode.

Eu não consegui compreender a princípio, praticamente me vi como um espectador em meu próprio corpo enquanto me observava engolir aos poucos as gargalhadas e substituí-las por longos e fortes soluços.

Por mais que tentasse não consegui auto controle sobre meu corpo e apenas chorei de frustação, magoa e tristeza, os soluços só foram diminuir quando, em um lapso de lucidez, mordi meus lábios. Fiz isso até meus engasgado choro começasse a diminuir, até sentir o gosto doce e metálico do sangue.

— Merda Allysson, por favor, como faço pra você parar ? Qualquer coisa, sério, eu juro, faço qualquer coisa é só me dizer. — Ele parece até desesperado e preocupado quando segura meu rosto entre as mãos, com firmeza e delicadeza.

Ao mesmo tempo em que sinto meu peito mais quente pelo gesto, não consigo deixar de sentir vergonha por estar chorando em sua frente, vergonha por tudo até agora. Eu só queria poder me encolher num canto e desaparecer.

— Sua boca, por Deus ela tá sangrando, pare de se morder, caramba. — Ele fala, mas involuntariamente, mordo ainda mais.

Em um gesto quase que frenético, mas ainda comedito, afinal ele é Makssin Petrov, ele me guia até seu lado do quarto, e me senta sobre sua cama, abre uma das gavetas do guarda roupa, e pega sua caixa, meticulosamente organizada, de primeiros socorros. Ele se senta ao meu lado na cama, e no momento em que vê que realmente não abrirei minha boca, força passagem com um dedo, aplicando a pomada logo em seguida.

Sinto uma ardência que faz com que eu deseje limpar o local com a língua, novamente Maks me impede, forçando o dedo por minha boca, impedindo que eu movimentasse qualquer coisa.

— Não pode lamber a pomada, ou vai tirar o efeito.

Em nenhum momento nossos olhos se encontram, minhas bochechas coradas pela vergonha, e mais uma vez agradeço por minha pele ocultar, pelo menos parte do efeito. Já que, na breve olhadela que consegui dar, depois de reunir coragem o bastante, ele também estava ficando levemente vermelho. Mas nele o vermelho transparece mesmo.

Ficamos uns bons dois minutos na mesma posição, até Maks confiar que tudo deu certo e retirar o dedo que prendia minha língua no lugar, limpando-o com uma gaze logo em seguida.

Sem estar mais entorpecido pela presença de Maks tão, mas tão, próximo de mim, consigo voltar a raciocinar novamente, e minhas bochechas queimam quando penso na vergonha que passei em frente a ele. Meu único desejo é fugir, desaparecer da frente de Maks, e torcer para que ocorra um milagre e ele esqueça da cena que causei. Ou da minha existência.  Ou dos dois. O que vier primeiro é lucro.

— Gonzales... — a voz dele sai em alerta quando, em um salto, saio em um impulso para fora da cama.

Ignorando-o, sigo em passos rápidos para alcançar a porta e fugir o mais rápido daqui, contudo antes que alcance a maçaneta sua mão agarra meu braço, não em um aperto forte, mas um firme, que me faz voltar para trás.

— Petrov, o que quer?

— Para onde você vai?

— Embora daqui, obviamente, acho que já fui bastante humilhado pra uma noite só. — E dito isso viro de costas, para fugir da tentação de querer encarar aqueles olhos nebulosos.

— Humilhado, por Deus, Gonzales, não...

— Não exagere? Não faça drama? — praticamente grito as palavras. — Não tente mandar no que eu devo ou não sentir Petrov!

— Eu ia dizer para não ir embora. — ele fala suavemente, como se tratasse com uma criança. — Sua boca ainda está ferida..., tá essa é uma péssima desculpa, mas pelo visto não é apenas ela que se feriu.

Oh Deus, qual o problema desse homem? Como alguém pode mudar de humor tão rápido? E a forma de agir?! Uma hora é um brutamontes, outro só sério, outra frio, depois um cavalheiro, depois amigavél e gentil...

E tudo isso num intervalo de menos de quinze minutos!

Só falta ele começar a zoar jutno comigo, aí eu já tenho uma parada cardíaca e morro de vez. 

Homem doido do caralho.

— Pare de agir assim. — resmungo irritado, uma coisa é lidar com o Maksin de sempre, outra bem diferente é a surpresa desse novo, gentil, delicado e protetor.

Maldito Petrov, como ele pode ficar infinitamente mais atraente quando seus olhos passam a brilhar com preocupação? 

— Agir como?

— Como se eu fosse a porra de uma flor delicada, que precisa ser tratada com cuidado. — Se ele vai continuar agindo assim, vou usar minha melhor arma: a habilidade de deixa-lo irritado.

— Não estou agindo como se você fosse uma flor, só estou agindo como alguém que foi um babaca e está tentando não piorar as coisas ainda mais.

— Se é assim, faz a ideia cara, o que ocorreu aqui não foi por sua causa, ok?

— Pode até não ser, mas mesmo assim piorei tudo.

— Você só disse a verdade, sinceridade é tudo, não é?

— Sinceridade tem hora e lugar, as vezes eu acabo falando coisas duras demais, e nem sempre isso é bom, principalmente quando é o momento errado.

— Tá dizendo que esse foi o momento errado.

— Não só o momento, mas as escolhas de palavras, eu podia ter sido um pouco menos duro. — Dá até vontade de vomitar, só de imaginar Maksin sendo ainda mais gentil... comigo.

Sinto até um arrepio no corpo.

Isso, provavelmente, é antinatural.

Contra as leis da natureza.

Deve até ser considerado como inflação aos direitos humanos.

— Deixa pra lá cara, você tá certo, eu sou tudo isso e muito mais e...

— Não. Não sei porque é assim, ou porque escolheu atuar desse jeito, mas independentemente disso você é um ser humano, e está sofrendo, seu dia foi uma merda e eu ajudei a te magoar.

— Para com isso cara, eu vou superar. 

E é melhor parar mesmo, com o rumo que tão indo as coisas aqui é capaz de chover granito.

E não, dessa vez não troquei as palavras, existem coisas que não podem ocorrer no mundo sem causar consequências gravissímas. 

Água não pode misturar com óleo. — Não que eu saiba exatamente o porquê, mas sei que é verdade. — Não se pode subir para baixo. Não se pode entrar para fora. Um lobo não pode cruzar com um cordeiro. E Maksin Petrov nunca trata com gentileza pessoas que perseguem os outros.

Allysson Gonzales persegue os outros.

Logo, Maksin não é gentil com Allysson.

E ponto.

Foi uma das poucas coisas que eu consegui aprender em filosofia, Platão era um cara dez nisso. Ou seria Socrátes? Arquimedes?

— Tenho certeza que sim. — ele revira os olhos. — E pode até ser que amanhã vamos estar de novo nos engalfinhando.

—Engal- o que?

— Esquece.

Antes que eu possa falar qualquer coisa a mais ele me guia até minha cama e delicadamente me faz sentar nela.

— Mas que porra é essa? — sinto-me como uma princesa em um filme antigo.

Não sei se isso me faz querer rolar nos lençóis de alegria, ou vomitar pelo esquisito que é, ou me enforcar por isso estar me fazendo ficar feliz.

Ele não responde, ao invés disso, vai até seu armário e rebusca lá pegando dois objetos que não consigo distinguir, então apenas acompanho com o olhar enquanto ele vai até o pequeno freezer e tira de lá uma garrafinha d'água, depois volta até a mim de novo.

— Toma. — ele fala estendendo para mim uma pílula e a garrafinha.

— Que caralhos é isso?

— Dipirona, pra sua dor de cabeça.

Como ele sabia que tô com dor de cabeça?

Choro dá dor de cabeça, idiota.

Não sou idiota. Respondo a mim mesmo.

É sim, um idiota e um bebê chorão. Como foi capaz de se mostrar tão fraco diante de outra pessoa?

Não é outra pessoa, é Maksin, e não é como se fosse a primeira vez.

E de quem é a culpa? Se você se controlasse mais isso não teria acontecido.

Esquece isso logo, caramba! 

Largo o diálogo comigo mesmo e pego o remédio em sua mão, enfio na boca, e engulo com a ajuda da água. Quando penso que ele vai voltar para sua cama, ele na verdade me estende uma barrinha de chocolate.

Uma barrinha de chocolate.

Alguém me mata aqui mesmo?

— Não fode, Petrov.

— Só aceita, Gonzales, não sei exatamente o que mais você passou hoje, e nem vou perguntar, mas tenho certeza de que você tá precisando adoçar um pouco seu dia.

— Isso é provavelmente a coisa mais clichê que já escutei. — Ponho o dedo indicador na boca e faço como se fosse vômitar, apesar da zuação ele apenas dá uma leve risada, dando de ombros.

— Diga o que queira.

E dito isso ele atravessa o quarto, voltando para seu canto, ele deita em sua cama, e com seu Kindle na mão parece bem entretido em ler o que quer que estivesse ali.

Eu me concentro na barrinha, mas por algum motivo não consigo comê-la. Ao invés disso a guardo na mesinha de cabeceira e me deito. O sono não vem, o único que consigo fazer é olhar o cara a poucos metros de mim.

— Petrov? — falo depois de um tempo, quebrando o silêncio. Ele sobe ligeiramente o olhar, mas sem perder a concentração na leitura.

— O que?

— Ainda odeio você.

— An-hã. — e volta a ler.

— Petrov?

— O que?

— Você ainda me odeia também, né?

— Claro que sim. — Ele reposnde bufando, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

E de novo o doce silêncio reina, deixando um ar de leveza no ar, mas como uma pessoa sempre insatisfeita, não consegui me segurar.

— Petrov?

— Argh, não fode Gonzales.

E dito isso dá as costas e volta a leitura.

Rio internamente, decidido a deixá-lo em paz, mas não resisto, a curiosidade me corroí, então solto:

— Uh, Petrov?

— Maldita seja, Gonzales?!

— O que é vil? — falo relembrando o xingamento.

Ele parece chocado, e fica em silêncio, mas logo recebo como reposta uma travesseirada.

— Me lembre de no seu próximo aniversário te presentear um dicionário.

Estrondosas gargalhadas escapam da minha garganta, chegando até a formar lágrimas nos cantos dos meus olhos.

— Você quer é fazer um meteoro cair na Terra, né? — E nisso bato duas vezes na madeira,c omo quem espanta uma maldição.

— Por qual motivo? Eu te presentear algo? Ou o paradoxo de que o presente seria algo que supostamente deveria ser utilizado lendo, mas você seria o presenteado?

Dessa vez sou eu que respondo com a tarvesseirada. 

— Ambos, é claro, não vê que você estaria indo contra duas das leis naturais do universo? Quer explodir o planeta, só pode. 

Falo balançando a cabeça com um falso exaspero, e ele dá uma leve risada, eu mesmo tento segurar a minha enquanto fecho os olhos esperando o sono me levar, o que ele parece querer fazer com urgência agora, mas antes de me entregar a ele, não consigo evitar sussurrar:

Gracias.

Não poderia dizer com certeza, mas escutei um:

— Por nada.

E simplesmente assim, estava selado, estávamos em paz, pura completa paz. Por hoje. Apenas por hoje. Mas ainda assim, paz.

— Gonzales?

— ? — apenas consigo balbucear em meio a névoa do sono.

— Espero que esteja planejando tomar um banho.

— Eu estou?

Não seria nem preciso dizer que senti aquele olhar penetrante me encarando, fazendo meus ossos estremecerem.

— Ah, droga, como eu odeio você. — reclamo, enquanto forço meu corpo a levantar ainda meio tonto.

— Eu te aviso se você demorar muito. — 'É o único que responde.

Babaca irritante e pretencioso. Como, como eu o odeio!!!

Talvez nem tanto...

Mas odeio!

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