Capítulo 10 - Allysson


No meu grupo de amigos, a única coisa que temos em comum é o futebol.

Marcus é o gênio da música, a voz dele é bonita pra cacete, ele tem aquele tom grave que faz com nossa pele fique até arrepiada só de escutar. Meu amigo de olhos verdes é cantor, compositor, violonista e guitarrista, além disso, me contou que sabe utilizar outros instrumentos, tipo piano, bateria, violino e etc. Bom, mas desses últimos ele não gosta muito, prefere a guitarra, o violão e um bom microfone, mesmo.

Como a maioria de nós aqui, ele é de família rica, no caso ele só tem a mãe, mas conta como família, certo? Certo. Continuando,  a mãe dele é uma cantora super famosa, as músicas dela estão no auge das plataformas musicais, e ela é tipo, sei lá, muiiitooo esnobe.

Palavras do Marcus, não minhas.

Pode até parecer rude, mas é assim que ele sempre fala dela, acho que ele não é muito fã da mãe. E eu tento não julgar porque só Deus sabe a baita pressão que ela põe nele para seguir os passos dela, como se já não bastasse as mídias e a sociedade fazerem isso sempre.

Então, basicamente, o destino dele já está decidido, ele vai ser um cantor super famoso de uma banda famosa, aclamada por milhões.

Isso, é claro, sem importar o que ele quer de verdade.

O que no caso, não importa mesmo.

Pelo menos não para a mãe dele.

Depois disso vem o Lucas, que herdará as empresas petroleiras do pai no futuro. Sim, petroleiras.

E agora vem a pergunta de milhões... Tudo bem que essa é uma escola para ricos, isso é aceitável, mas esse cara não é podre de rico?

E a resposta é que sim ele é, e por isso que o pai dele investiu na segurança da nossa instituição, e que o meu amigo possui guarda costas. A pior parte é que nunca vemos eles, o que deixa tudo muito, muito assustador.

É muito comum estar perto de Lucas e se sentir vigiado, porque você está sendo vigiado. É assustador e útil, uma vez estávamos os dois fora da escola, quando um cara veio nos assaltar, em um piscar de olhos, ele estava no chão nocauteado, e uma mulher muito séria estava por cima dele. Ela perguntou se estávamos bem e depois seguiu todo um protocolo chato, e bastante demorado, da empresa antes de nos escoltar até a escola.

Mas não pense que é sempre tudo flores, porque sempre que nos envolvemos em uma briga, a prioridade deles é o Lucas, então eles pegam ele e nos deixam para trás.  

Mas isso é só nas brigas fora da escola, dentro eles nem ligam.  O porquê disso só o pai do Lucas sabe, ele que paga os caras.  E por mais que me mate de curiosidade querer saber, eu não tenho coragem de perguntar, o pai  do Lucas é assustador.

Só de pensar no rosto frio daquele velho, sobem arrepios por meu corpo.

Credo.

Agora, deixando o pai assustador do Lucas de lado, vamos focar mais no meu amigo, o que me leva a questionar: Como meu adorável brother saiu daquele homem? E a mãe dele? É a senhora mais doce, generosa e amavél que eu conheço... como pode domir com aquele homem?  Tudo isso me faz pensar em como o mundo é louco. E tipo eu sou amigo do Lucas há um tempão, mas nunca questionei isso...

Porque seria estranho e esquisito? Quer dizer é o pai dele... Questiono a mim mesmo.  Bom, sim, mas não é só isso, tipo eu não sei se o Lucas é árabe ou de qualquer outra região lá do ocidente... pera, é oriente, ás vezes me confundo, mas não dá para julgar porque sinceramente eles poderiam ter ao menos escolhido palavras completamente opostas, tipo amora e caju, sei lá.

Hum. Me perdi legal aqui. Eu tava falando do Lucas, certo? Certo. Enfim, Lucas.

Lucas.

Lucas é todo racional e lógico, e um fanático da matemática, ganhou várias vezes aquele concurso lá pra Nerds de matemática, a OBMEP.

Bom, o que dizer além de que existe mal gosto para tudo?

Por falar em mal gosto, lembrei agora!

Lucas já falou sim dos pais dele, porque a história deles foi tipo muito clichê, que nem aquelas saídas de filme mesmo, aqueles entre a estudante de intercâmbio pobre, e CEO rico.

Mas para resumir tudo vamos pular para o final, eles se casaram, mas como ela ama o Brasil e também sentiu muita falta do clima e da cultura daqui eles se mudaram para cá. Para não ter que mandar o filho por outro lado do mundo apenas para estudar, ele escolheu as escolas mais prestigiosas que tinham aqui para formar a educação do Lucas.

Mas agora, se for para pensar bem, Lucas não me contou de onde ele veio, só a história dos pais dele... ou será que fui eu que não prestei atenção?

Bom, mesmo que quisesse eu não ia lembrar mesmo.

Então, por fim, temos Renan, que diferentemente dos outros dois ganhou a bolsa porque o pai é o pedreiro que fez a reforma da escola. 

Mas ele não se resume a isso, ele é o que chamamos de inspirador, mesmo tendo ganhado a bolsa de favor, e mesmo sendo péssimo nas aulas, ele se impõe, não permite ser chateado, chantageado ou humilhado por causa disso. No caso estou falando dele ser pobre, não de ir mal nas aulas.

Ele nunca aceita não, apenas justificativas, e ele mostra ser quem é, sem se importar com que os outros vão dizer.

E depois tem eu, minha mãe herdou alguns hei-alguma coisa de terras, que meu irmão é responsável de cuidar depois que ela morreu, ele também fez o próprio negócio e é dono de alguns vinheiros no Sul, já meu pai é um político importante da nossa terra natal, e a história por trás de não morarmos todos juntos... bem é complicada.

Eu sou o especialista em ser bom para nada, exceto para cozinhar, que como meu irmão fala, é inútil a menos que eu queira passar a vida sendo dono de Casa, que é como ele assume que será meu futuro se eu não seguir carreira no futebol.

Isso é claro supondo que alguém me queira. Palavras dele, de novo. Ele pensa que se eu não fizer carreira no futebol eu vou morrer de fome... e eu não discordo dele não.

Por isso estou aqui.

Meu objetivo é ser um profissional, por isso aturo o treinador e seus mordazes comentários. Mordazes. Palavra chique, não é? Escutei Maksin falar uma vez e não consigo parar de repetir.

MOR – DA – ZES.

Dá até gosto de dizer. Mordazes. Sim, eu sou aquele tipo de pessoa que tem palavras preferidas. Mordazes é uma delas. Irônico. Verossímil. E catalogado são outras... o que me faz recordar que devo procurar o significado de verossímil.

E de novo eu viajei. Onde eu tava? Ah, futebol.

Bom, eu me empenho no futebol, mas não é exatamente algo que eu gosto. Por isso, quando jogo, as coisas ficam bem mais divertidas e fáceis quando meus amigos jogam também. 

E talvez seja justamente por isso, que quando ele surge, meu corpo pesa no instante, como se do nada eu estivesse carregando dois sacos de cimento nos ombros. Sinto minha boca secar e azedar, calafrios atravessam meu corpo, e sinto uma maldita fincada de frio na barriga, que atravessa todo o meu ser. Ah não, não, não. .

Azedo, amargo e frio pra caralho.

Algo daria muito errado.

Muito, muito errado.


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Hoje é o dia que o treinador anunciará oficialmente quem são os titulares e os reservas do time.

Meu teste foi bom, e os dos meus amigos melhores ainda. Era certeza de que jogaríamos juntos. Absoluta.

Mas aí o presunçoso do Thales apareceu, com um fodido sorrisinho no rosto. E aí eu soube que estava ferrado.

Ele não deveria estar sorrindo assim. Não depois do que foi feito com ele, da última vez que nos vimos, ele estava com a porra do rostinho impecável exposto nas redes sociais, uma pequena vingança depois dele zombar de mim durante o treino. Lucas ficou bastante irritado, e junto aos nossos amigos e outros colegas de time, capturaram Thales e o forçaram a beber do próprio remédio, só que em dose maior.

Então definitivamente, ele não deveria estar sorrindo.

Meu olhar cruza com o dele, e isso leva arrepios ao centro da minha coluna. Merda, merda vai dar merda.

E de pensar que há pouco era só lembranças felizes com meus amiguinhos...

Para de drama Allysson, cê nem sabe o que vai acontecer. Relaxa caramba! 

Dou bronca em mim mesmo, as vezes não é nada....

Como para mostrar que o mundo quer me chutar as bolas, nem cinco segundos depois, ele aparece.

Foi como se, de repente, o mundo passasse a girar em câmera lenta e ao redor dele. O vento levou seus cabelos ao alto, os fios brilhantes sendo iluminados pela luz do sol, deixando-os alguns tons mais claros. Ele vestia uma camisa estilo regata solta, que deixava amostra os braços bem torneados, e em cima do ombro uma parte de uma tatuagem.

TATUAGEM? Como eu nunca pude ter visto que Maksim tem tatuagem? Talvez por que você nunca o viu sem camisa, sua anta.

Owww. É verdade, nunca vi ele sem camisa, porque ele sempre entra para tomar banho e já sai com a roupa trocada, e sempre veste bermuda e camisa, acho que é por causa do ar condicionado, eu sou meio calorento, e aquele quarto é um forno mal planejado.

Mas talvez eu esteja disposto a sentir um pouco de calor em troca dele tirar a camisa.

Merda!!! Agora essa maldita curiosidade vai continuar martelando na minha cabeça, eu quero ver como é a droga da tatuagem, se é grande, pequenas, traços grossos, finos ou sei lá o que mais. Mas eu preciso ver!!! E é obvio que Maksim nunca vai querer me mostrar, então é melhor esquecer isso. O que é bem difícil, já que.... Stop! Esquece da tatuagem Allysson, esquece, olvida, foca em outra coisa, outra coisa..., mas outra coisa que não seja a maldita bermuda larga que não deixa nada para imaginação!

Absolutamente nada para imaginação...

Nada, nadica de nada...

Para de encarar isso, Allysson. Volta os olhos para cima, mais para cima. Isso. Perfeito, se mantenha assim. Antes que Maks venha e te arranque os olhos por encarar as partes baixas dele.

Mesmo que seja algo deliciosamente delicioso de olhar, ou tocar... 

Inspiro e expiro. Não sei se pela euforia por Maks estar aqui ou pelo mal-estar quando vejo que ele para de imediato ao lado de Thales, se pondo em pé como se também estivesse esperando o resultado.

— Não é proibido entrar nas reuniões oficiais quem não está no clube? — Marcus questiona, intrigado.

— Deveria ser.

— Mas é, não ficaram sabendo que agora ele está no clube? – Ai, merda, merda, merda.

— O que?! Como assim? Por que não me contou antes?

— Porque fiquei sabendo sem querer, além do mais não tenho que te relatar tudo sobre minha vida.

— Não é sobre sua vida, é sobre ele!!

— Cara, relaxa um pouco, está tão apaixonado assim? Uma dica... se pressionar demais, asfixia. Cê tem que dar espaço pro cara.

— Eu e ele não temos nada! 

— Então não precisa se matar por causa disso, é algo tão irrelevante... ou ele é insuportável e você está se sentindo perseguido? Porque se for isso...

— Se for isso o que você faria? — falo desafiador, mas curioso duvido que eles teriam peito para encarar Maksin Petrov. Mas criatividade é uma coisa que esbanjamos...

— Eu diria para batermos nele, mas aí acabaríamos fudidos né? O cara bate para caralho, então... sei lá, vou pensar em alguma coisa. Ele tá te perseguindo?

— Não, não é isso. — Tento explicar o porquê, mas o apito do treinador nos interrompe.

O bolor amargo ainda não desce por minha garganta então não posso evitar ficar frustrado e ansioso com a divisão do time.

Principalmente porque as coisas entre Maks e eu só vão piorando, eu passei de ser ignorado por minha mera existência, a ganhar olhares gelados para cada mini gesto que faço que o recorda de que também estou no dormitório.

Bom... talvez não seja pra tanto. Mas um pouco de drama não faz mal.

É só que, por um momento eu achei que a gente ia começar a se dar melhor. Mas aí ele voltou a me tratar como antes. E eu não sei o que fiz!

Acho que humilhar o amigo dele na internet tenha sido um começo. Uma luzinha se acende na minha mente.

Bom, é claro, só eu mesmo para desconsiderar que ele ia ficar sabendo disso.

Me dou um tapa mental pela burrice. 

— Muito bem, molengas. É o seguinte, depois de que todos fizeram aquele teste horrível, decidi escolher entre os menos piores para ir para o time principal, assim que eu disser seu nome vá e cruze aquela linha dali.

Ele aponta para a linha de giz que fizera pouco tempo atrás.

— Muito bem. Renan Siqueira, Thales Ribeiro, Lucas Cohen, Issac Vieira, Francis Regbo, Craig Park. — Nesse ponto o treinador já perde a paciência e só fala os sobrenomes. — Vitorino, Ferrari, Leclercq, Gonzales e Petrov.

— PETROV! — Os meninos e eu exclamamos juntos.

— Sim, Petrov, infelizmente para o Torricelli, Petrov é melhor atacante.

— Mas ele não fez o teste com a gente. — Marcus diz indignado.

— Mas fez comigo, e não costumo fazer exceções, mas esse cara é muito bom como alguns de vocês podem lembrar. — Ele fala fazendo referência ao primeiro ano. — E a menos que queira ser expulso do clube, eu recomendo que passe essa indignação para o treino. Não é só porque você é o reserva que eu cobrarei menos.

—Porra. — Renan esbraveja do meu lado, dando um soco nos armários.

— E você também Siquera, você pode ser bom, mas ainda pode ser substituído, temos gente no time reserva, e na parte reserva do reserva o suficiente.

Renan cala a contragosto, ficando quieto.

— Ótimo, os do time principal podem seguir para o campo e começar a aquecer, vou anunciar agora quem conseguiu chegar no time reserva e os que ficaram para escanteio.

Ninguém se atreveu a contestar o treinador, apenas entregamos a Marcus um soquinho de consideração, eu cheguei até mesmo a abraçá-lo, afinal de contas não seria o mesmo sem ele. Ele apenas me dá uns tapinhas nas costas e sussurra que tá tudo bem, mas sei que ele se sente injustiçado, todos nós sentimos por ele.

Além disso, vejo que Renan está muito puto, não só nosso amigo tomou no cu por conta de Maks, como também Thales saiu ganhando na escolha de time. Somos onze no total, dentre esses além de Lucas e Renan, Craig e Vitorino são nossos colegas mais próximos, —  eles também participaram da pegadinha contra Thales — o que quero dizer é que antes estávamos seis contra cinco, mas agora com a entrada de Maksim e a saída de Marcus, nós ficamos em desvantagem.

— Ele disse para nos aquecermos, o que deveríamos fazer? — Francis, amigo de Thales, questiona assim que pisamos em campo aberto.

Seu sorriso audacioso, revela o quão confiante se sente tendo o melhor amigo lutador ao seu lado. Sua arrogância e achismo me fazem ter vontade de arrancar aquele sorriso a base de tapas, uma pena que com Maks perto eu não conseguiria algo assim, mas pensaria em alguma coisa logo, logo.

— Então o que deveríamos fazer? — Questiona novamente.

— Nos alongar.

— Fazer uma corrida aberta.

Maks e Renan falam ao mesmo tempo.

— Alongar vai prevenir lesões musculares. — Maks defende.

— Correr vai acelerar os batimentos cardíacos e deixar o corpo aquecido para os seguintes exercícios. — Renan fala em tom decisivo.

— Ei, gente, relaxem. Vamos votar. — Thales fala em tom zombeteiro. — Quem apoia o alongamento?

Seis mãos se ergueram, indicando o que seria mais uma vitória para o idiota. Nem por cima do meu cadáver!

— O que estão esperando, vamos correr. — Falo, já iniciando uma corrida parado.

— Fizemos uma votação, Gonzales. — Thales reclama.

— E eu nunca disse que tinha concordado, o justo é o justo, e se você quer se alongar em vez de correr e eu quero correr em vez de me alongar, cada um faz o que quer.

— É isso aí. — Lucas urra, aplaudindo.

— Não é isso não! Somos um time Gonzales, devemos estar sintonizados. — Thales rebate.

— O que claramente não estamos. — Falo encarando a Maks, que retribui um olhar tão gelado que chega a congelar minha espinha. — Se não queremos alongar, não queremos ora.

— Isso é uma democracia, a maioria decide, é o justo. — Francis fala.

— E quem decidiu que isso é uma democracia?

— Mil novecentos e trinta Gonzales, não consegue nem decorar datas simples? — Thales novamente zomba.

— Não perguntei sobre a independência, estou falando do sistema daqui. Obedecemos ao treinador.

— Em primeiro lugar. — A voz fria de Maks se fez soar. — O que Thales falou foi sobre a data dita como inicial da democracia do país, não a data da independência, que no caso é sete de setembro. Em segundo lugar, na ausência do treinador, e na falta de capitães, o justo seria uma votação.

— Só porque você decidiu que seria assim? — Rebato irritado.

— Porque se trata de princípios básicos.

Meus dentes rangeram tanto que senti que poderiam quebrar, queria gritar com Petrov, xingá-lo até minha boca secar, e quer saber? Fodas, faria isso agora mesmo. Dei um passo à frente, o dedo em riste, mas antes que pudesse pronunciar qualquer coisa, senti as mãos de Renan na base das minhas costas.

— Enfie seus princípios básicos pelo rabo, Petrov. — Meu amigo grita, antes de puxar a mim para uma corrida.

Rindo logo nossos outros amigos nos seguem também, deixando um Thales muito frustrado para trás. Percebo durante os breves instantes, que um olhar feroz me segue, congelando-me até a alma, sei que se me virasse para trás daria de encontro com dois olhos cinzas tempestuosos me encarando. E sinceramente...? Não tenho nem um pouco de coragem de encarar.

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