1 - Comédia do Improviso
A grande diferença entre a commedia dell'arte e o teatro que estava sendo produzido na renascença era o caráter popular que ele tinha.
Ou seja, enquanto o teatro renascentista se apoiava nos ideais clássicos da época, a commedia dell'arte era oposto ao modelo erudito, que costuma dividir seus conhecimentos com a sociedade em geral.
Era também itinerante, ou seja, a companhia teatral apresentava em diversas cidades.
Muitas companhias teatrais fizeram sucesso atraindo o público, até mesmo os nobres da época. Havia várias companhias teatrais que viajavam mundo a fora. As vezes acontecia de um grupo se encontrar com outro e se uniam para realizar um único espetáculo, mesmo sendo por alguns dias.
Seus atores se apresentavam em locais públicos, sejam nas ruas ou praças. Os palcos eram improvisados e o esquema de apresentação estava baseado na improvisação e espontaneidade de seus atores.
Por esse motivo ficou também conhecida pelo nome de "Commedia All'Improviso" (Comédia do Improviso).
E este era o nome do nosso grupo de teatro de rua. Nos tempos atuais, um grupo de atores tentavam ganhar a vida se apresentando e viajando por todo o Brasil.
Os personagens que faziam parte das comédias desenvolvidas pela Commedia Dell'arte eram caricaturados, tipificados e estereotipados. Estavam divididos em três grupos:
Os enamorados que estavam dispostos ao casamento e não apresentavam postura cômica... ou pelo menos não tão cômica. Os criados eram aqueles que possuíam baixa renda. E os patrões, que também eram chamados de velhos, eram as pessoas que apresentavam melhor situação financeira.
Os personagens mais populares eram os Zannis. Eram personagens trapaceiros, cômicos, malandros e criativos. Dessa categoria, o que merece a maior atenção era o Arlequim, a principal figura da Commedia Dell'arte. Era um servo e palhaço trapalhado, ágil e malandro.
E quem sempre fazia o papel de Arlequim era André, o líder do grupo, diretor e motivador de toda a turma de atores.
O efeito cômico se dava justamente pela atuação de seus personagens. Um deles era a Colombina, uma criada graciosa, inteligente, ágil e habilidosa. Trata-se da única criada feminina, namorada de Arlequim. Era também a namorada de André na vida real, Carolina e a segunda líder do grupo na ausência dele.
Havia também um chamado de Pantaleão, um velho rico, conservador, autoritário e avarento, sempre interpretado por Paulo, melhor amigo de André e quem escrevia os roteiros das peças, junto com o Beto, o motorista do ônibus que leva o grupo para se apresentar Brasil a fora. Ele também canta nas apresentações e faz o papel de Brighella, o servo fiel, astuto, egoísta, ágil e cínico. Trata-se de um trapaceiro cantor que trabalha para Pantaleão.
Havia também o Pierrot, um servo fiel e honesto, interpretado por Pedro, o responsável pelo orçamento e despesas do grupo. Ele também é técnico em contabilidade, então esta função ficou por sua conta. Sua ajudante é a sua namorada Rosália que faz o papel de Pulcinella, um corcunda também conhecido como Punch. Ela é feminista e não tinha nenhum problema em fazer papel de homem durante as apresentações.
Outra feminista no grupo é a Giuliana, que interpreta Dottore, um velho rico, charlatão e avarento. Aliado de Pantaleão, possuía uma postura de intelectual. É também a "mãe" do grupo, sempre disposta a dar colo a quem precisa.
Capitão, conhecido como Carlos, era um fanfarrão, mentiroso, preguiçoso e forte. No entanto, tem uma postura covarde nas batalhas e no amor. Na vida real era também como o seu personagem, tirando a parte do mentiroso e preguiçoso. Era tipo um guarda costas do grupo e apaixonado por Lavínia.
Orazio, um enamorado ingênuo, fútil, atraente e vaidoso, movido pela paixão, interpretado pelo enamorado Leandro, o cozinheiro do grupo.
E Isabella, uma moça enamorada inocente, vaidosa e com alto poder de sedução, apaixonava-se com facilidade. Era o papel de Lavínia. Era encarregada pela confecção dos figurinos da turma e junto com as outras meninas do grupo ajudavam Leandro a cozinhar.
Apesar de todas as dificuldades que o grupo passa, amam o que fazem. Não se importavam com as longas viagens, as noites mal dormidas e a comida improvisada. O amor pela arte de atuar compensava.
***
Mas infelizmente nos últimos meses, parece que o amor pela arte de atuar não estava mais dando conta.
O dinheiro estava curto... aliás estava tão curto a ponto de não ser mais visto. O pouco que entrava mal dava para encher o tanque de gasolina e fazer a manutenção do ônibus. Não dava para comprar roupas novas para as apresentações. Quando uma peça se acabava, era preciso remendá-la até onde podia. Quando não tinha mais condições de mantê-la, não tinha como substituí-la. Assim como os espetáculos, precisavam improvisar os figurinos.
Roupas, medicamentos e objetos de uso pessoal novos também estavam fora de cogitação. Também foi preciso improvisar. Muitas vezes tiveram que dividir e compartilhar entre eles. E não era fácil, principalmente entre as moças da turma, quando acabava o pacote de absorventes...
Quando não conseguiam dinheiro em suas apresentações, tinham de se virar para conseguir algum dinheiro extra. As vezes se ofereciam para trabalhar em algum comércio por algumas horas e nem era tanto pelo dinheiro, mas sim em troca de algum remédio ou mantimento e já perderam a conta de quantas vezes tiveram de ir à igreja da cidade onde estavam de passagem ou em casas de caridade em busca de roupas, para poder ter o que vestir e se agasalhar durante o frio.
Chegavam a fazer pequenas demonstrações de show no meio do trânsito para arrecadar dinheiro e por pouco não foram atropelados. Mas a pior parte era quando não tinham o que comer e tiveram que mendigar por comida.
Até que chegou uma hora em que não deu mais para aguentar aquela situação. Todos se reuniram para conversar sobre o destino do grupo. Ou encerrá-lo de vez.
— Não podemos mais viver desse jeito André. — Disse Pedro, mostrando o livro caixa ao líder, com todas as despesas do grupo:— A gente se mata de trabalhar e nada de dinheiro. Em nossa última apresentação, se ganhamos um real foi muito. A nossa situação só piora e eu não estou falando só de dinheiro. Também estamos sofrendo represálias. Ainda vamos morrer e de graça!
E isso era verdade. Infelizmente já aconteceu de uma das meninas do grupo serem assediadas durante as apresentações. Paulo e Carlos foram defendê-las e um deles levou uma facada. O hospital mais próximo estava milhas de distância de onde estavam. Por sorte Giuliana era técnica em enfermagem, então tinha conhecimento em primeiros socorros e cuidou de tudo.
Também já ocorreram situações das quais eles foram assaltados e por pouco não perderam o ônibus ou de serem confundidos com bandidos e passarem a noite na delegacia.
Temendo de não terem sorte na próxima vez, precisavam tomar uma decisão.
Uma noite, o grupo resolveu interromper a viagem para acampar, como sempre faziam. Em bons tempos, procuravam passar a noite em algum hotel de beira de estrada, somente pelo prazer de dormir em uma cama e fazer uma refeição decente. As vezes até improvisavam um show para os hospedes.
Mas com as condições em que atualmente se encontravam, isso não era possível. Tinham que agradecer por pelo menos ainda terem o ônibus para dormir.
Se reuniram em volta da fogueira. Antes mesmo de alguém ali se pronunciar, lagrimas começaram a brotar nos olhos de todos, pois já sabiam o motivo daquela reunião, que provavelmente pode ser a última do grupo.
Quando precisava conversar com o grupo, André sempre ficava de pé para falar e ouvir. Mas o seu desanimo era tão grande, que desta vez não se levantou.
— Bom... todos já sabem o motivo de estarmos reunidos aqui... devido a nossa situação...
Foi difícil para ele tomar esta decisão, logo para ele que foi o idealizador daquela companhia de teatro. Na verdade, foi difícil para todo mundo.
— ... nós teremos de encerrar as nossas atividades! Não tem mais condições de continuarmos a viver dessa maneira. Então está decidido, vamos amanhã cedo fazer a viagem de volta para a nossa antiga cidade e cada um aqui seguirá o seu caminho. Foi bom enquanto durou... e uma honra atuar com cada um de vocês.
Toda a turma se comoveu com o discurso de André. Para dar um pouco animo e também como uma despedida, Beto, Leandro e Lavínia sugeriram que na viagem de volta para casa, ainda passassem por algumas cidades para realizarem as últimas apresentações do grupo. Além de estarem juntos por mais algum tempo, quem sabe não ganhariam alguns trocados para as despesas da viagem.
— Quem sabe também a nossa sorte também muda durante a viagem! — disse Carlos tentando animar a turma. Todos aprovaram a ideia, apesar de ninguém ter muita fé na frase dele.
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