Ébano - Parte final
ADONIS NARRANDO
Acordo com o som de meu despertador. É hora de levantar. Será que tudo foi real? O meu espancamento? Meus pais terem que ir na escola? Minha tentativa de suicídio? O Colours? Foi real?
Olho para meu braço, e então vejo as marcas que eu fiz ontem à noite. Foi tudo verdade, não era sonho. Aquelas histórias. Hannah, Dimitri, Daniel, Apollo, Jin, Harry e Pedro... são todos reais. Tudo isso aconteceu.
Por que será que as pessoas sofrem daquele jeito? Por que alguém quer explorar uma garota lésbica abandonada? Por que alguém tem que matar um cara que anda de mãos dadas com seu melhor amigo? Por que um pai impede seu filho de ser feliz? Por que muitos religiosos pregam discursos de ódio contra nós? Por que botar o filho gay na rua? Por que a nossa cabeça tem que nos destruir por dentro?
Enfim, eu tenho que levantar. Minha mãe bate na porta. Ela entra com calma.
- Filho, é hora de acordar. Pode se arrumar com calma hoje. Nós vamos todos de carro. - Ela diz.
- Mas a reunião com o diretor é só às 8:00. Não precisa levar todos nós se quiser. - Eu falo na esperança de não ter que fazer Rubens e Sara serem vistos comigo.
- Na verdade, o seu professor de Sociologia ligou de novo ontem a noite. Agora, ele também quer falar sobre o desempenho de seus irmãos. Parece que as notas de Sara...- Ela parou de falar. - Se arrume com calma. Vamos todos juntos.
Ela saiu rápido dali. O que será que foi? O que ela viu? Espera... a escrivaninha! Não tirei os comprimidos que ia tomar de lá. Estão todos espalhados nela. Será que foi isso que ela viu? Agora não importa mais. Vou dar um jeito neles.
Tomo banho, e me troco. Me visto e coloco uma blusa branca de manga longa por baixo do uniforme, de modo a evitar que os meu cortes sejam vistos.
Vou tomar café. Todos estão juntos na mesa. O silêncio quase mata. Rubens parece bem nervoso. Sara quase não come. Normalmente eu só como uma fruta por causa da caminhada, e por causa do tempo. Mas hoje me alimentei melhor. O que é raro. Só costumo comer bem quando mamãe está em casa.
Depois do café, estamos todos no carro. Chegamos na escola em 7 minutos. O professor Guilherme estava na porta provavelmente nos esperando. Alguns alunos da turma de Rubens e Sara veem que saímos do mesmo carro. Acho que o disfarce deles vai por água a baixo.
- Olá, senhor e senhora Silveira. Sou Guilherme, o professor de Sociologia e Filosofia de seus filhos. Por favor me sigam até a diretoria. Sara, Rubens, vocês vêm junto. Adonis, você será chamado posteriormente, enquanto isso não precisa ir para a aula. Pode esperar no patio. - O professor Guilherme falou.
Eles foram com o professor Guilherme, e eu fiquei sozinho. Se eu for no banheiro, Leo e a guangue dele vão estar lá. Fui para o pátio, e no caminho ouvi cochichos de todo o tipo.
"O Rubens e a Sara são irmãos do viadinho?"
"Não acredito que a bixa tem família"
"Acho que nem os pais da bixa amam ela"
Era cruel ouvir isso. Sei que minha mãe me ama. Ela é a única pessoa nesse mundo que demonstra isso. Eles desmerecem o único amor que já recebi na vida. Pego meu celular e meu fone, e começo a ouvir Idol, do BTS. Fico imerso na música para esquecer o que ouço ao meu redor.
Vou até embaixo de uma árvore, e me sento ali em baixo, esperando as pessoas saírem, esperando a maldade humana sair de perto de mim.
Começo a refletir sobre tudo o que aquelas histórias me contaram. Hannah disse que não importa se alguém faz algo errado pensando esse errado ser o certo, devemos impedir. Isso me faz lembrar de Leonardo. Ele acha que é engraçado ver meus olhos em pranto. Ele acha que está correto. Mas não está. Ela fala de justiça.
Dimitri me repassou os ensinamentos de Daniel. Devo curtir a vida. Só se vive uma vez. E não devo deixar de ser bom com os outros. Não importa quem amamos, devemos amar a nós mesmos e aos outros. Ele fala sobre respeito.
Apollo e Harry. Ambos pedem para não deixarmos o amor ir embora. Para eles, o amor cura tudo. Mas, o único amor que recebo é de minha mãe. Harry me mostrou como às vezes, nem o amor fraternal continua a existir. Eles falam sobre amor verdadeiro.
Jin. Esse foi sem dúvidas o mais triste. Eu li uma carta de suicídio. Ainda não sei o que o matou. Não sei se o que o matou foi a falta de amor, se foi a intolerância, se foi a tortura, se foi a própria religião em si... quando falamos sobre LGBT, muitas vezes o argumento religioso é aquele que vai justificar o ódio. Ele fala sobre ódio.
E por fim, Pedro. Aquele que me lembra a mim mesmo. O psicológico abalado por ele mesmo. A tentativa de reprimir a tristeza, a falta de amor próprio, a insatisfação com a vida. Ele tem atitudes como as minhas. Ele fala sobre se amar, pois o amor próprio é o único amor garantido que teremos, e as outras histórias comprovam isso.
Acho que já deu. É hora de dar um jeito na minha vida. Preciso resolver meus problemas, pois se eu continuar sufocando eles, vai chegar a um ponto em que nem eu poderei dar um jeito neles.
Sinto alguém se aproximando. Alguém para em minha frente. Olho para cima.
É Leonardo. Mas, dessa vez, ele está só. E com o mesmo pedaço de madeira na mão dele. Já consigo até relembrar a mesma dor que senti ontem.
- Olá, viadinho. Ouvi falar que você veio de carona com o Rubens Silveira e a Sara Silveira. Por quê? - Ele ria enquanto falava.
- Eles são meus irmãos. - Já é hora de assumir isso, eles terão que aceitar que somos parentes.
- Você? Vocês não são parecidos. Não minta. - Ele ria e debochava.
- É verdade, eu sou adotado, mas sou irmão deles. É que ninguém sabia. - Eu insisto.
- É mentira. E sabe o que acontece com quem mente? Apanha! Eu já disse antes. Essa madeira de ébano é tão preta quanto o seu próprio cabelo. Tenho certeza que ela foi feita pra bater nessa sua cabeça. - Ele levantava a madeira de ébano para me bater.
Eu me levantei e saí correndo. Ele veio atrás de mim. Fiz o percurso em um caminho específico, se eu fosse apanhar, essa seria a última vez.
Corri em rumo ao corredor da sala do diretor. Chegando lá, ele me alcançou, me deu uma rasteira e eu caí com tudo no chão. Ele me deu um golpe certeiro nas costas com o pau.
Eu gritei altíssimo. Como nunca antes. E em dois segundos alguém já vinha me socorrer, e em mais 10 segundos, meu pai tirava Leonardo de cima de mim, e o arremessava do outro lado do corredor. Eu ainda estava gemendo de dor no chão, mas pude ouvir bem claramente as palavras de meu pai:
- ESCUTE AQUI, SEU MERDINHA. SE EU DESCOBRIR QUE VOCÊ OUSOU TOCAR EM UM FIO DE CABELO DO MEU FILHO OUTRA VEZ, EU VOU QUEBRAR TODOS OS SEUS OSSOS.
Minha mãe veio até mim. Estava doendo tanto. Meu pai largou Leo de lado, veio até mim, me pôs nos braços e me levou para a enfermaria. Um ato de amor que nunca esperei dele. Ele também me ama, mas me ama de um jeito diferente. O jeito dele é assim. Ele é frio por natureza, mas nunca imaginei que fosse protetor assim. Quem protege de tal forma, sem dúvidas, é porque ama.
Lá a enfermeira me olhou, e minha mãe ficou lá e auxiliou, é claro. Ele não fez nada sério, mas estava doendo.
O diretor, Rubens, Sara e o professor Guilherme chegaram. Eu estava deitado na maca da enfermaria.
- Adonis Benvólio Silveira. - Começou o diretor. - Acho que descobrimos o seu agressor que não quis falar conosco ontem.
- Adonis, meu filho, isso aconteceu outras vezes? - Minha mãe pergunta abalada.
- Sim. Já tem mais de dois anos. - Eu respondo.
- Por que você nunca contou? - Meu pai fala.
- Eu não sei. Tinha medo de que nada mudasse e a implicância dele só piorasse. Todos sabiam dessas agressões, todos nesse Colégio já me viram apanhar, mas ninguém nunca fez nada a respeito... até ontem. - Eu falei.
- Ontem, eu entrei no banheiro e encontrei Adonis jogado no chão e sangrando. Nenhuma autoridade do Colégio sabia, então quando eu o achei, na hora tive que pedir uma reunião com os senhores. - Guilherme explica para meus pais.
- Rubens. Sara. - Meu pai os chamou. - Por que nunca ajudaram seu irmão mais novo? - Ele estava nitidamente bravo, e mamãe estava muito desapontada. Eles não sabiam o que responder.
- As pessoas faziam questão de esconder isso deles. - Me intrometi. - É por isso. Sabiam que por nós sermos irmãos, não podiam deixar eles saberem, e eu nunca tive coragem de contar.
Rubens e Sara olhavam surpresos para mim. O professor Guilherme deu um leve sorriso. Eu não sou um monstro, não quero ver ninguém mal.
- É verdade filhos? - Nossa mãe perguntou.
- É mamãe. - Disse Sara.
- Também ficamos sabendo agora o que aconteceu com nosso irmão. - Rubens falou.
Irmão. Irmão. Irmão. Essa palavra ficou se repetindo na minha mente. É a primeira vez que eles a falam. É a primeira vez que me chamam de irmão. Somos irmãos.
- Filho, por que aquele menino tante te amola? - Meu pai pergunta.
É agora. Vou sair do armário.
- Porque eu sou gay. No dia em que beijei um menino, ele ficou sabendo. E resolveu me maltratar a partir daí. - Eu me assumi. Finalmente me assumi.
- Adonis, eu e sua mãe já sabíamos. E te aceitamos do jeito que você é, filho. Nós te amamos. - Meu pai fala. Eles vem até mim e me abraçam. Depois vem Rubens e Sara. Eles sussuram um "obrigado" em meu ouvido.
- Filho, mas ainda temos um assunto para tratar. - Minha mãe diz. - Os remédios que vi sob a sua escrivaninha hoje de manhã. Seja sincero, Adonis. Você tentou suicídio?
- Eu ia tentar. Mas quando estava prestes a tomar os calmantes, eu parei. E me lembrei do que o professor Guilherme me disse. Que tem uma organização virtual chamada Colours que ajuda LGBTs. Então, eu resolvi conhecer, vi histórias de muita gente, histórias que me inspiraram a continuar a viver. - Eu falo. Mas também arregaço as mangas de minha blusa, e mostro os cortes. - Minha cabeça está uma bagunça. Eu nunca consigo parar de pensar na desgraça que minha vida é. O tanto que eu sofri, o bullying que passei no orfanato, o bullying que sofri aqui, a homofobia... eu me sinto tão perdido. Eu sinto que sou um peso na vida de vocês. - Comecei a chorar.
Minha família me abraçou, agora, eu preciso do apoio e do carinho deles mais do que nunca.
MÊS SEGUINTE
Preenchido. Satisfeito. Amado. É assim que me sinto. Depois de tudo o que passei. Aquele dia foi como minha morte e renascimento. Penso até em fazer uma tatuagem de fênix algum dia. Minha vida está se endireitando aos poucos.
Comecei a ir no psicólogo para me ajudar com meus problemas de autoaceitação. Também fui diagnosticado com depressão profunda, e estou tendo que tomar antidepressivo.
E para auxiliar, também solicitei ajuda no Colours, depois da aula irei até a Pampulha para me encontrar com um garoto gay, que está disposto a conversar comigo e ser meu amigo. Ele se identificou como Guel. O conheci pelo Colours.
E hoje é o primeiro dia que volto para a escola depois de tudo. Leo foi expulso, talvez agora eu tenha sossego. E Rubens e Sara irão comigo. Se me contassem há um mês atrás que ficaríamos próximos e passaríamos a nos tratar como três irmão, eu não acreditaria.
Meu pai está nos levando de carro para a escola. Ele e minha mãe estão preocupados comigo, mas caso as coisas não melhorem, piores não irão ficar.
Desço do carro, meu pai me deseja sorte. Eu sigo em frente, vejo muitos olhares em minha direção. Mas o olhar ameaçador do Rubens para eles é mais forte. Quando passávamos, uma garota e um garoto falaram entre eles:
- A bixa tá acompanhada. - Disse a garota.
- Acho que o pai e a mãe os obrigam a aceitarem ele. - Disse o garoto.
Meus irmãos se revoltaram na hora.
- Ele é uma boa companhia, diferente de você sua ridícula. - Sara falou pra garota.
- Eu não sou obrigado a aceitar meu irmão, mas eu o aceito porque ele é minha família e eu o amo. Mas se você continuar a falar tais coisas, serei obrigado a esfregar sua cara no asfalto. - Rubens disse para o garoto.
Quase chorei. Meus irmãos e eu somos verdadeiramente uma família.
A aula foi normal no resto do dia. Acho que ninguém mexeu comigo porque estão com medo do Rubens. A aula acabou, e eu fui sozinho até a Pampulha. Estou esperando para encontrar com Guel.
Eu espero algum tempo, até que o vejo. Não é possível. Deve ser um sonho. Será que ele é o Guel? Ele está vindo até mim.
- Adonis Benvólio Silveira? - Ele diz.
- Miguel de Souza Alencar? - Eu pergunto. Ele assente. - Você é o Guel?
- Sou. - Ele diz. Eu não acredito. É ele! É o meu Miguel. O Miguel que beijei. É o Miguel que foi separado de mim e mandado para um Colégio interno em São Paulo.
Eu me levanto, e o abraço. Ele me abraça de volta. Começamos a chorar no ombro um do outro. Depois de um tempo chorando e nos abraçando, fomos conversar.
- Eu li sua história. Como você está? - Ele me pergunta.
- Melhor agora. Mas ainda me sinto sozinho.
- Não se sinta mais sozinho. Eu estou aqui com você. - Ele fala.
- E você? Você leu minha história. Mas eu não sei o que aconteceu com você. Eu me culpei pelo que aconteceu contigo. - Lhe explico.
- Não se preocupe. Depois de um tempo, meu pai entendeu. Mas ele queria que eu ficasse em São Paulo porque a educação lá era melhor. Mas eu não quis, e agora voltei. Mas estou em outro Colégio. - Guel me explica.
- Hum...
- Eu não devia ter ido embora, me desculpe. Eu te deixei sofrer nas mãos do Leo sozinho. - Ele se desculpa.
- Não precisa se desculpar, Guel. Não foi opção sua. E não foi culpa sua o Leo ter sido aquele idiota. Embora tenha doído bastante a surra com aquele pedaço de pau. - Eu falo.
- Aquele pedaço de madeira era ébano, não é? - Ele pergunta.
- Sim. Ele dizia que era. Porque a cor lembrava meus cabelos. - Digo.
- Ouça com atenção. - Ele começa a se pronunciar - Era uma vez, um rapaz gay, que detinha o título de mais belo moço do mundo. Seus lábios eram vermelhos como a Rosa, sua pele é branca como a neve, e seu cabelo é preto como o ébano.
- Mas é a história da branca de neve.
- Não, é a história de um rapaz. Que é mais belo que a própria Branca de Neve, que era considerada a mais bela pessoa deste mundo, até que esse rapaz surgiu. Ele detém o nome de um personagem mitológico tão belo quanto ele próprio, e nome do meio de um personagem de William Shakespeare.
- Adonis... Benvólio... - Eu digo ao reconhecer aquele como sendo meu nome.
- Adonis Benvólio Silveira. Esse é você. Dentre todos, o mais belo. E lembre-se, sua beleza vem de dentro.
Miguel nessa hora acabou com o espaço que existia entre nossas bocas. Foi um beijo doce. Senti carinho. Senti algo a mais.
- Em São Paulo, sempre me lembrei de você. Talvez seja muito cedo para tentar ter algo a mais com você. Mas por enquanto, quero ser o amigo que você precisa. - Ele me abraça.
Eu tenho um amigo. Sempre desejei saber como é a amizade. E agora eu sei, é um tipo de amor. O amor pelo outro em seu estado mais puro, pois não envolve laços de sangue ou uma tensão sexual, é só amor.
Depois de tudo o que passei, cheguei a uma conclusão, o porquê as outras pessoas me odiavam. Porque elas não eram capazes de amarem a si ou aos outros.
Enquanto estou aqui, em um parque a beira de uma lagoa, cheguei a uma conclusão. Minha própria frase:
O amor é universal, o ódio é restrito aqueles que são incapazes de amar.
Sinto que, a partir de agora, minha vida tomará um novo rumo. É hora de depois de tanto sofrer, finalmente ser feliz. Serei feliz ao lado de meu pai, de minha mãe, de Sara, de Rubens e de Miguel. Minha família.
Esse é o fim de minha história. Mas o fim de uma história é apenas o começo de outra. O fim de minha tristeza é o começo da minha alegria.
Fim
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Obrigado a todos que leram Colours. Fico grato a quem se emocionou e se manteve fixo na história de Adonis. E espero que esse livro traga algo de novo na vida de vocês.
Obrigado!
HANNAH: Não tenha pena de fazer o que é certo, só porque quem faz algo errado faz isso pensando este errado ser o certo.
DANIEL/DIMITRI: Não importa se amamos homens ou mulheres, o mais importante é amarmos uns aos outros e a nós mesmos.
APOLLO: Procure sua alma gêmea, o amor cura qualquer dor.
JIN: Não desista. Só covardes desistem. O corajoso tenta várias vezes, e errando ou perdendo, ele continua até vencer a vida.
HARRY: Se o amor vier até você, não o deixe ir embora.
PEDRO: Se ame, por tudo que for sagrado, se ame. Pois se você não se amar, não terá garantia de receber amor de mais ninguém. E quem não se ama e não se sente amado, só é amado pela tristeza, pela ira do ódio e pela depressão; e elas não sabem amar direito.
ADONIS: O amor é universal, o ódio é restrito aqueles que são incapazes de amar.
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Também os convido a conhecerem minha outras histórias em meu perfil.
p3drulukas
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