Bônus | Hereditário

A história de
Jung Hoseok

Era uma noite tenebrosa como nunca ousou ser antes, até a chegada do paciente da sala 207. O cômodo era utilizado somente em casos de psicopatologias muito raras.

O hospício de Seul havia sido criado em 1944 e desde sua fundação a sala vermelha nunca havia sido habitada. Após décadas, a sala foi ocupada pela primeira por um homem ruivo de personalidade serena, seu olhar remetia pureza, mas nada se sabia do histórico do jovem rapaz. O homem até o instante era condenado como louco, andou pelos corredores do hospício causando temor nos psiquiatras e nos demais ali presentes, seu físico aparentemente saudável, não atormentou nenhum indivíduo ao seu redor que também era condenado por suas razões anômalas. Em curtos passos, ia até a sala mais temida do local.

ㅡ Preciso da ficha do paciente da sala 207 em minha sala, agora. — jogou sua prancheta com certa brutalidade na mesa da jovem recepcionista. O médico responsável pelo caso suava frio ao ser encarregado para tal enfermo.

ㅡ Doutor, não temos nenhuma informação válida sobre esse rapaz, seu histórico é inexistente. — explicou. — Tentamos obter informações sobre, mas a polícia apenas nos informou que esse jovem tentou se matar novamente. — levantou-se a jovem pegando de sua bolsa um maço de cigarro, escondendo com cautela no bolso de seu jaleco. ㅡ A polícia o deteve mais uma vez antes que algo trágico acontecesse, mas os vizinhos locais imploraram a viatura para que o levassem, não queriam ser submetidos a algum perigo.

ㅡ Compreendo que o caso é mais grave do que aparenta ser, esse jovem é destemido para a morte apesar de ser bastante calmo e racional. — virou de ombros e retirou seu jaleco, colocando seu paletó preto por cima da sua blusa social branca. O responsável saiu em direção a delegacia local para investigar sobre o caso.

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ㅡ Não entendo, como ninguém ousa saber da vida desse rapaz? — bateu o pulso na mesa do seu colega delegado. O médico ergueu o copo com bebida alcoólica que estava em sua frente.

ㅡ Estamos à procura de novas informações, mas nada que fosse novo sobre o garoto, apenas colhemos alguns relatos de seus vizinhos. — ergueu uma manchete antiga e posicionou o jornal sob a visão do homem a sua frente. ㅡ O garoto nada mais é do que um milagre do noticiário, sobrevivendo a um trágico acidente que assassinou toda a sua família na madrugada do ano de 1998.

ㅡ Deixe-me ver. — pegou o papel velho e o leu com bastante precisão. ㅡ Vejo que seu pai era engenheiro civil e seu avô era um administrador, porém, formado em ciências contábeis. — disse alto. — Posso tentar extrair informações a partir desse relato. Disseram-me que o menino é fascinado por números e percebo de onde herdou o talento. — levantou-se da mesa e saiu em direção ao trabalho.

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ㅡ O paciente não disse nada a noite toda?

ㅡ Nenhuma palavra sequer, apenas montou um cubo que trouxe consigo em mãos. — comentou um pouco decpcionado. — Veja essas imagens gravadas das câmeras de segurança. — entregou o computador contendo os arquivos. ㅡ Suponho que tenha sido um engano, o garoto conseguiu montar o cubo três vezes em apenas cinco minutos. — sua voz continha surpresa.

Novamente, voltou a interrogar o paciente, desta vez queria ajudá-lo. Alguém com uma mente tão incrível como aquela, não merecia estar em lugar daqueles.

ㅡ Confirmo sua admiração por combinações e números. Mas então por que tentaria cometer suicídio se tem um dom fascinante? — coçou o queixo após entregar o computador nas mãos do ajudante. ㅡ Precisa conversar comigo se quiser sair daqui. — retirou o cubo de sua mão enquanto o ruivo o olhou embravecido. ㅡ Diga-me por que está aqui, Hoseok. O que esconde atrás do seu talento nato?

Jung Hoseok não ousou fazer nenhum movimento que fosse arriscado, apenas cerrou seu olhar sereno no médico que estava quase para o enforcar com as próprias mãos.

O garoto fascinado no cubo mágico sorriu de canto enquanto era observado minuciosamente pelo psiquiatra a sua frente, o médico ofertou liberdade para o jovem que não ousou a noite inteira dar seu depoimento sobre o caso, apenas focou seu olhar calibre no cubo que era montando e desmontado por diversas vezes e o retirou sem permissão da mão gélida do profissional que cuidaria de seu caso raro.

ㅡ Hoseok, o ano era 1998 quando em uma noite, uma família que voltava de viagem sofreu um trágico e inesperado acidente, jamais solucionado, apenas um único sobrevivente, uma criança chamada de "O milagre". — ergueu-se para frente, se aproximando do rosto de expressões vazias, até que o barulho do cubo montado parou. Ousou novamente tentar arrancar respostas do solitário. ㅡ Por acaso sabe alguma coisa desse menino que estamos falando? — mudou seu tom de voz, suas expressões estavam sérias e as suas palavras cortavam como navalha. ㅡ O milagre de 1998, aquele que venceu a morte e que pena... perdeu a todos que amava. — sendo sarcástico e egocêntrico, logo sentiu o ar sendo travado de sua circulação sanguínea. O ruivo ergueu o braço e apertou a garganta do psiquiatra.

ㅡ Não cabe a você julgar uma realidade a qual não ousou viver, então nunca dê sua opinião sobre assuntos que não são da sua conta. — ameaçou. — Cale a sua boca! — elevou o tom a cada palavra dita naquele instante, mas não sentiu temor e nem medo vindo do estranho incompetente.

ㅡ O que vai fazer, me matar? Meus assistentes cuidaram para que sua sentença seja perpétua, então não queira supor nada contra minha autoridade, já que aqui, você não é absolutamente ninguém, apenas um louco, maníaco, arrogante e inútil. — sorriu malicioso e cheio de certeza para o jovem que a cada segundo, colocava mais intensidade em sua mão.

ㅡ Cale a boca. — arrogante e destemido a ferir a incompetência vindo do tal médico, o ruivo tirou forças de suas mágoas feridas naquela noite e jogou o corpo contra a cadeira, o fazendo ficar estagnado no chão imundo da sala 207.

ㅡ Tragam forças braçais, esse homem é um louco! Um psicopata! — gritou raivoso. — Quem ousa derrubar o médico mais remunerado dessa área hospitalar? Que homem mais arrogante e estúpido! Tenho pena de seres humanos como você que fingem ser o que não são. Diga no fundo dos meus olhos quem é você! — o médico estava fora de si, tinha o seu orgulho ferido e se sentiu humilhado.

ㅡ Sou Jung Hoseok, paciente da sala 207. — ironicamente, ergueu seu joelho até as proximidades da face do intrigante médico, e ousou bater sem piedades no homem que tanto feriu sua dignidade e seu passado. Merecia ficar com a face desfigurada, era apenas um nojento que se achava melhor que os outros.

Ainda cerrando seu olhar caótico no profissional a sua frente, abaixo-se, e com a ponta do dedo indicador tocou o rosto ensanguentado do homem que agora pedia piedade.

ㅡ Homens como você não deveriam ser tão bem pagos para falar tolices e idiotices sobre uma realidade que não é sua. — segurou o médico pela gola da sua blusa social. ㅡ Escute bem — forçou seu punho e contraiu sua garganta o deixando asfixiado. ㅡ Não te compete julgar uma realidade que você não viveu.

Destemido a sair daquele prédio caótico e cheio de médicos aspirantes e corruptos, o ruivo levantou-se do chão imundo e cuspiu na cara do homem que tanto o provocou. Seu ódio era perceptível em seu olhar, e não havia ninguém que ousasse interromper seu caminho. Abrindo um leve sorriso de canto, ao que voltava seu campo de visão novamente no médico caído e indefeso. Não sentia pena, e por que sentir?

Desejou ser ousado pela última vez, despiu o miserável a sua frente e colocou todo o traje elegante de um profissional humilhado.

ㅡ Você não tem poder algum sobre mim, sem o seu traje patético de médico. — sorriu em escárnio. — Está vendo o homem a sua frente? Também sou um médico e talvez melhor que você. — sua voz era provocativa. — Passou anos na faculdade para aprender como ser egocêntrico com as pessoas. Vejo que essa aula você não ousou faltar nenhuma vez. — arrumou o colarinho e o jaleco, iria desperdir-se finalmente daquele lugar caótico. ㅡ Sinto pena de você. — retirou-se da sala 207 andando calmamente pelos corredores conturbados.

ㅡ O que está fazendo? Vá atrás daquele enfermo! — gritou enraivecido o homem despido e sem autoridade. ㅡ Não olhe para mim com esse seu olhar medonho, seja útil e faça alguma coisa! — sua voz elevou-se à cada palavra, fazendo a conversa ser ouvida pela ruivo que já estava fora da sala.

ㅡ Ele tem razão, chefe. Por que tão egoísta e rude com todos? Pessoas devem ser tratadas como pessoas e não como animais, doutor. — foi em direção a porta da sala, e fechou-a para que os pacientes não vissem as expressões pasmas do psiquiatra, já bastava toda a humilhação passada em sua presença.

ㅡ Rosa... Rosa, rosa... Onde está a cor rosa? — brincava pelos corredores do hospital com seu cubo mágico. ㅡ Mas que patético, esse quadrado rosa não deveria estar aqui. Pense, Hoseok, pense. — parou de caminhar a fim de conter toda sua concentração na montagem do cubo.

ㅡ Doutor, poderia me informar onde fica a sala 207? O lanche está sendo servido. — sorriu a empregada para o homem deslumbrado com o cubo em sua mão. ㅡ Doutor, o senhor está bem? — indagou curiosa ao ruivo perplexo que respondia somente cruz branca, cantos estratégicos, segunda camada. ㅡ Doutor?

ㅡ Segunda camada, deixe-me ver, azul. — arregalou os olhos na formatação. ㅡ Cruz amarela e pronto, mais um cubo montado e talvez em tempo recorde! Pegue de recordação, minha cara. — entregou o cubo nas mãos da moça que se surpreendera com a cena. ㅡ A sala fica no final desse corredor. Tenha um bom dia. — saiu, deixando a mulher paralisada e sem reação momentânea.

Caminhando vagamente pelos corredores do hospício mais famoso de Seul, retirou o jaleco branco e manchado levemente com sangue, o entregando a recepcionista que o olhava surpresa.

ㅡ Estamos no horário usual, não pode sair do atendimento sem a permissão do diretor. — comentou. — Está me ouvindo? — ergueu seu corpo sobre o balcão e gritou ao homem que não lhe dava ouvidos. ㅡ Não se faça de surdo... Doutor, pare! — deu um grito deselegante, fazendo o ruivo a sua frente parar enquanto as portas automáticas do hospício se abriam.

ㅡ Você nunca deve incomodar um louco fugitivo. — sorriu, caminhando enquanto a recepcionista apertou o botão do alarme. O código especial da sala 207 foi acionado pela primeira vez em décadas de existência, deixando os corredores iluminados com luz vermelha.

ㅡ Chamem a polícia! — paralisou e sentiu todas as extremidades de seu corpo tremer ao ver o homem colocar seu dedo indicador perto dos lábios em voto de silêncio.

ㅡ Faça silêncio, há pacientes querendo descansar. — ordenou o ruivo.

— Seu louco! — ela gritou, assustada.

— Louco? É uma palavra forte demais para mim. Prefiro chamar de incomum. — riu com a própria fala.

— Do que você está falando? O que... — estava em pânico.

— Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras. — ele sorriu bobo. — Frio, sarcástico e sem coração. Foi no que eu me transformei. E só agradeço à sociedade. Acho que essas frases me definem muito bem. — deu de ombros. — Tenha um ótimo dia. — ele saiu pela porta da frente, sorrindo.

Jung Hoseok era um louco fugitivo, um nojo de pessoa, não atura mesmices, pessoas efusivas. Ele era simpático com quem queria, não se sentia obrigado a agradar ninguém e o melhor de tudo era que não ligava para que os outros estavam pensando.

O ruivo já havia presenciado a morte com os próprios olhos, e depois daquele acidente, teria morrido mais de uma vez desde aquela noite. É libertador saber que os números combinados milhões de vezes chegariam perto da loucura. Se há um infinito de códigos e possibilidades, um matemático era um louco por querer provar o que simplesmente não dá, – deveriam pensar nisto como numa terapia —, ele pensava enquanto montava seu cubo mágico.

Ele acreditava que a vida fosse uma completa tragédia. Agora se dava conta de que é uma comédia e de que tudo ao seu redor era estupido demais para suportar aquela mesmice. O mundo precisava, quem sabe, se distrair com um cubo mágico.

Com carinho;
Teteca
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