Capítulo 3 - Acompanhar

Encarei o céu escuro e me perguntei pela milésima vez como resolver aquela situação. Mais uma noite sem conseguir dormir e esperando pelo próximo cadáver, quando o dia amanheceu, tomei um banho frio para tentar me manter acordado.

Não havia novos cadáveres quando cheguei ao escritório dos investigadores, eu suspirei aliviado.

— Algum progresso? — questionou um dos meus colegas de trabalho.

— Um pouco.

— Precisa cuidar disso logo, as pessoas estão começando a ficar em pânico — rebateu.

— Acha que faria um trabalho mais rápido? — inquiri e ele ficou calado.

Sentei à minha mesa e observei os detalhes das informações das vítimas procurando alguma coincidência entre elas.

— Mesmo que você seja o melhor por aqui, não significa que não sejamos bons também. Enquanto você não consegue capturar um assassino, nós já lidamos com inúmeros crimes menores — o homem rebateu fazendo-me notar que ele ainda estava ali diante de mim.

— Então que tal você me ajudar. Diga-me com quantos crimes de assassinato você lidou desde que entrou na corporação? — inquiri e ele ficou mudo. — Quantos criminosos que você prendeu continuam presos? Deixe que eu respondo por você, nenhum. Estou neste trabalho há alguns anos e lidei com cada caso de assassinato que surgiu desde que entrei. Meu jeito de investigação pode ser lento, mas não corro o risco de prender homens inocentes como já aconteceu em inúmeras das suas investigações. E não precisa me dizer que as pessoas estão em pânico, sei disso sem que você me diga.

Esbocei um sorriso e saí do prédio, o meu assistente me seguiu dizendo que precisava ter certeza de que eu ficaria bem sozinho e que não prenderia alguém apenas por esbarrar em mim, eu me vi tentado a jogar o homem no primeiro rio que encontrasse, entretanto, não podia fazer isso. Eu tinha um certo histórico de investigador problemático, nunca trabalhava com outros porque sempre tinham a intensão de me dizer como fazer o meu trabalho, sem realmente se moverem para ajudar.

Fiquei alguns dias em uma cela certa vez apenas por ter enfiado o rosto de um parceiro na pilha de fezes de cavalo que estava no meio da rua. O homem tentou fazer uma piada dizendo que eu deveria cheirar as fezes para dizer o que exatamente o animal comeu. Eu apenas segui a piada tentando fazer com que ele provasse o excremento para me dizer o que tinha ali.

Segui pelas ruas movimentadas da capital tentando não lembrar dos meus piores momentos de rebeldia juvenil, estávamos perto dos jogos reais do festival, todos estavam decorando as ruas e comprando roupas para a ocasião, certamente minha mãe enviaria um pacote para mim com roupas novas para as celebrações.

Distraí-me com os meus pensamentos e acabei esbarrando em um homem que estava imóvel na calçada.

— Me desculpe — pedi, mas ele não me deu atenção, estava esticando-se para ver algo.

Uma multidão imóvel se formou na rua e eu comecei a contornar as pessoas, algumas vezes sendo obrigado a pedir que me deixassem passar, até que finalmente vi o que estava acontecendo, a duquesa estava no meio da rua com um homem segurando sua mão tentando leva-la consigo. Ela se desvencilhava e ele a segurava outra vez.

Senti a raiva anterior percorrer o meu corpo e me aproximei.

— Duquesa — chamei. — Algum problema?

— Investigador, finalmente chegou! — ela se soltou do homem e se aproximou de mim. — Achei que não viria mais.

O rosto da mulher estava pálido e as mãos em luvas pretas tremiam quando ela envolveu o meu braço. Ao ver o estado da bela dama, eu tentei não pensar demais naquilo ou possivelmente atiraria aquele sujeito no rio mais sujo que eu encontrasse.

— Algum problema, senhor? — questionei sem conter minha irritação.

— Nenhum, investigador, apenas queria mostrar a senhorita os nossos novos itens, ela parece gostar de joias — sussurrou a mentira sem esconder o provável medo de ser preso.

— Se a duquesa estava se desvencilhando do seu toque, por que continuou a puxá-la? — inquiri em minha maior atuação de autocontrole.

— Eu não sabia que ela é a duquesa — o homem pareceu pálido ao sussurrar as palavras. — Não imaginei que uma mulher nobre se vestisse dessa forma.

Ele pediu desculpas curvando o corpo. Encarei a mulher e ela apenas suspirou aliviada por se livrar da situação. Continuei observando até que ela ergueu o olhar para mim e esboçou um sorriso grato.

— Desta vez, aparentemente, o senhor escapou de um problema — avisei.

O homem caminhou para longe de nós e a multidão começou a se dispersar, a duquesa ao meu lado voltou a suspirar e levou a mão ao peito.

— A senhora está bem? — questionei.

— Senhorita — ela sorriu ao dizer. — Estou bem, lhe devo um agradecimento por isso, investigador.

— Não se preocupe.

— Posso lhe pagar uma bebida? — inquiriu.

Olhei ao redor e vi o meu assistente me procurando em meio à multidão, eu não queria que o homem continuasse me seguindo pela cidade então fiz o possível para me esconder dele atrás de outras pessoas. A duquesa não largou o meu braço, se fizesse, provavelmente seriamos separados.

— Claro, tem algumas casas de chás aqui por perto — falei. — Se me permite perguntar, como a senhorita chegou àquela situação?

— Como o senhor deve saber, minha saúde nunca foi muito boa, então eu nunca saía de casa, estava tentando pedir informação sobre as costureiras da região, minha irmã sempre comprava minhas roupas então eu nunca estive com uma costureira e ela nunca me disse onde poderia encontra-las. É vergonhoso admitir, mas sequer me lembro o caminho para a minha casa e perdi de vista o veículo de minha família — sussurrou e eu ri da situação.

— Sinto muito.

— Tudo bem. O senhor parece cansado — comentou enquanto eu tentava nos guiar para uma casa de chás.

— Estou tentando desvendar um caso — respondi evasivo.

— Ah! Entendo completamente, li muitos livros sobre investigação, adoro desvendar mistérios.

— A senhorita me parece esse tipo de pessoa — ela sorriu. — Devo lhe dizer para ser mais cuidadosa, não peça informações a todo e qualquer estranho que vir.

— Achei que este lugar fosse muito seguro.

— Infelizmente, há pessoas ruins onde quer que vamos, além disso, há um assassino à solta — alertei.

A expressão dela ficou séria e a mulher voltou a olhar para os sapatos seguindo-me pela multidão.

— Algum problema? — perguntei.

— Problema nenhum. É só que... me lembrei do que aquela mulher me disse ontem na festa, talvez eu devesse me vestir de forma diferente, levando em conta o que aconteceu há pouco e o que o senhor acabou de me dizer — comentou.

Nós entramos numa das casas de chá e a dona do lugar não pareceu surpresa com as roupas e até mesmo chamou a mulher ao meu lado de duquesa, certamente os boatos sobre ela já se espalhavam. Nos sentamos junto a janela que estava aberta.

— Não acho que a senhorita deveria mudar seus modos por nada, se a duquesa se sente bem vestindo-se dessa forma, não cabe aos outros julgarem e eu certamente não quis dizer que a senhorita deveria mudar, apenas lhe disse para ser mais cuidadosa — falei sentindo o meu corpo esquentar apesar do vento frio que entrava pela janela.

— Obrigada... por favor, me chame de Hadassa, duquesa é... como eu costumava chamar a minha irmã, me parece errado ser chamada dessa forma — pediu encarando as ruas movimentadas que víamos pela janela.

A dona da casa de chás trouxe nossos pedidos e a duquesa agradeceu esboçando um sorriso gentil para a mulher. Observei enquanto minha acompanhante provava o doce que a senhora trouxe.

— Eu nunca provei algo tão delicioso — sussurrou.

— Você nunca saiu da mansão? — interroguei e ela fez que não.

— Quando eu era criança, tive uma febre muito alta, minha irmã me disse que quase morri, depois disso tive problemas para respirar. Sempre que ando demais ou me esforço de alguma forma, fico sem ar — explicou. — Um médico da família disse a minha mãe que eu evitasse sair porque qualquer resfriado poderia ser problemático para mim.

Assenti em compreensão e bebi um pouco do chá. Me admirava que ela se vestisse daquela forma com um problema como aquele. Imaginei o quanto ela deveria querer fazer coisas diferentes apenas por tudo que jamais pôde fazer.

— Mesmo agora a senhorita ainda tem os problemas para respirar? — inquiri.

— Quando minha irmã morreu, eu tive um resfriado e a situação voltou, eu estive bem por alguns anos, mas depois da morte dela, me descuidei, passei muito tempo na água fria tentando não pensar. Por esta razão demorei muito para ir ao castelo e não o recebi quando foi até a minha casa — explicou.

— Me desculpe, parece até que estou em meio a um interrogatório — pedi e ela sorriu.

— Não tem problema — murmurou antes de levar a xícara aos lábios. — Acho que estou me acostumando com interrogatórios, todos me fazem muitas perguntas.

— A senhorita parece bem jovem. Quantos anos tem?

— Tenho vinte e cinco. Meu aniversário foi um dia depois da morte da minha irmã — a encarei sem saber se lhe dava felicitações ou se lamentava, certamente o aniversário agora a lembraria da morte da irmã. — O senhor se importa se eu lhe fizer uma pergunta?

— Claro que não — respondi de imediato já que a estive interrogando.

— Quantos anos o senhor tem?

— Vinte e sete.

— O senhor parece mais velho — comentou e levou as mãos aos lábios. — Me desculpe... Eu nem sempre penso muito antes de falar. É um dos problemas de não ter convivido o suficiente com estranhos.

Exalei um riso e a mulher voltou a ficar com as bochechas vermelhas, Hadassa bebeu mais do chá em sua xícara e esperou que eu falasse.

— Eu trabalho demais e ultimamente mais do que o comum — expliquei tentando não demonstrar que estava cansado até mesmo disso.

— Deve ser cansativo — sussurrou traçando o contorno da xícara com a ponta do dedo enluvado.

— Um pouco.

— Quando eu era criança, queria aprender a mexer com invenções e armas, mas minha saúde nunca me permitiu, já que qualquer esforço me deixava sem ar — confessou.

— A senhorita gosta desse tipo de coisa? — perguntei surpreso.

— Um pouco, mas não faz diferença, já que não tenho mais idade para aprender e agora com o título e as responsabilidades, não me sobra tempo — murmurou.

— Lamento que seus desejos não possam ser realizados.

A mulher sorriu e jogou os cabelos para trás enquanto ficava de pé.

— Podemos ir? Quero lhe pagar uma bebida de verdade antes de nos separarmos.

Eu ri das palavras e a acompanhei. Insisti que ao menos a conta da casa de chás eu pagaria, a mulher aceitou relutante e nós voltamos para a rua movimentada, ela voltou a segurar em meu braço, me acompanhando até um bar. Quando entramos os olhos se voltaram imediatamente para nós.

Alguns sussurros se espalharam pelo lugar, nós caminhamos até o balcão e ela pediu a bebida, a mulher certamente ouvia o que diziam ao seu respeito, mas ignorava as palavras.

— Não lhe incomoda o que dizem? — inquiri quando ela sorriu me encarando.

— Aprendi há muito que o silêncio é a pior das ofensas, se falam comigo e eu não respondo, podem estar dizendo que sou a pior das pessoas ou deformada, no final elas saem envergonhadas por não serem respondidas — falou.

Vi-me admirado pela coragem e astúcia da mulher. Nós bebemos juntos apenas um copo, então a mulher pagou a garrafa e me encarou.

— Pode me dizer o caminho que sigo para chegar a minha casa? — questionou com as bochechas vermelhas.

— Posso acompanha-la — sugeri.

— Não, não precisa. Já o incomodei o suficiente para um dia — sussurrou.

— Tem certeza que não quer? — inquiri e ela assentiu séria, a seriedade repentina me deixou desconfiado.

— Aproveite sua bebida — o sorriso retornou ao seu rosto e eu tentei retribuir.

— Quando sair do bar siga a avenida pela esquerda, quando chegar a uma encruzilhada siga o caminho da direita, após um período curto de caminhada, conseguirá ver sua casa — indiquei.

— Eu agradeço. Até a próxima — ela ergueu a mão e eu estendi a minha, a mulher colocou a dela sobre a minha e eu levei sua mão aos lábios.

— Até.

Observei-a caminhar em direção a saída, sentindo o frio atingir o meu corpo ao vê-la se afastar, muitos olhos também a seguiram conforme se afastava em direção a porta do estabelecimento.

O lugar foi tomado por conversas quando a duquesa já não estava, alguns olhares estavam sobre mim e eu permaneci imóvel observando a garrafa de bebida até me levantar e sair do bar. Incapaz de controlar aquela necessidade de vê-la chegar bem em casa e a desconfiança que tomava posse dos meus pensamentos.

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