Capítulo 2 - Reunidos


Enquanto chegava a cena do crime, pedi para o meu assistente enviar a carta ao rei. O garoto correu em direção ao centro de recados da cidade e eu estudei a cena.

Os cortes eram os mesmos, lâminas afiadas rasgaram a garganta e os pulsos do homem, um Ás de paus estava sobre o peito do cadáver. Eu peguei a carta que explodiu em minha mão sem deixar vestígios e a fumaça formou as palavras "Os de Paus se lembram".

Afastei-me enquanto tudo era registrado com as fotografias e estudei o beco. Logo um dos outros investigadores me trouxe a identificação do homem morto. Um comerciante importante.

Aquela morte, não poderia ser escondida, aquilo causaria pânico. Ouvi o barulho de engrenagens e olhei para cima, havia uma das maquinas usadas por jornais, para fotografar, logo eles colocariam as fotos nas primeiras páginas dos jornais.

Nós retiramos o cadáver e eu exalei notando que estava ainda muito longe de uma resposta. Não havia formas de encontrar um caminho à seguir para aquela situação. Outro corpo, eu me perguntava quantos mais seriam até que eu conseguisse descobrir o assassino.

— Senhor? — o garoto chamou.

— A carta foi entregue e o rei lhe enviou esta.

— Obrigado!

Apanhei a carta que o assistente me entregava e a abri, o rei me chamava ao castelo. Suspirei e avisei que estava saindo por hoje, caminhei para um veículo de aluguel, observei o homem que atiçava as chamas do outro lado do vidro para manter o veiculo em movimento. Um trabalho certamente exaustivo.

Quando paramos em frente ao castelo, paguei o homem e entrei, o rei já me esperava na sala do trono junto a rainha, curvei-me para os dois.

— Como podemos ajudar? — questionou o monarca.

— Façam mais reuniões, quero observar os ricos, mesmo que não estejam fazendo isso por conta própria, provavelmente há alguém envolvido, mas poderei analisa-los.

— Então o senhor realmente acha que o assassino é um dos nobres? — a rainha me perguntou.

— Ou algum rico sem títulos. Hoje encontramos o corpo de um comerciante. Ele costumava vender peles — informei.

— O mesmo assassino? — o rei perguntou.

— Sem dúvidas, majestade.

— Organizaremos reuniões semanais, se elas forem mais frequentes, podem desconfiar, a próxima já está marcada para daqui duas noites — a rainha me disse.

— Estarei aqui — avisei.

Após a dispensa, saí do castelo e passei os dois dias seguintes enfiado em um escritório analisando o passado dos quatro mortos. Havia poucas situações semelhantes entre eles. Todos tinham sido de famílias pobres, se envolveram com crimes de furto anteriormente, mas após adultos seguiram seus caminhos.

No dia da reunião, saí atrasado e quando cheguei ao castelo, grande parte dos nobres e ricos já estavam. As roupas elegantes diziam muito sobre eles. Mulheres em vestidos longos, com saias volumosas, homens em vestimentas elegantes.
Todos em cores entre o preto, vermelho e branco.

Aceitei um cálice com vinho que um dos criados me ofereceu e tratei de observar a todos, era evidente que a maioria ali poderia ter razões para assassinar, alguns olhavam para outros com inveja, ou pura raiva. Enquanto os observava uma ideia me surgiu, poderia ser um rico querendo vingança por ter sido roubado.

Talvez ele tenha esperado tanto tempo para que não desconfiassem dele. Com toda certeza muitos ali tinham dinheiro para equipamentos sofisticados. Observei principalmente o barão, o conde e o marquês, os três eram homens altos, jovens e fortes, além de muito ricos, certamente poderiam comprar equipamentos e teriam a força necessária para usá-los.

Engoli o vinho e continuei observando os nobres, algumas danças foram iniciadas, logo em seguida o rei fez seus anúncios na tentativa de acalmar todos sobre os assassinatos que vinham acontecendo no reino, observei as reações e quando o rei falou que eu estava ali naquela noite, muitos olhos se voltaram para mim.

— Vamos deixar que o nosso melhor investigador cuide disso, enquanto nos focamos em seguir com a vida no reino — disse o rei.

A rainha se levantou e sorriu graciosa, os cabelos ruivos dela estavam trançados.

— Quero aproveitar sua atenção, para lhes dizer que a nova duquesa se desculpa por não estar presente, é do conhecimento de poucos que a antiga duquesa tinha uma irmã mais nova cuja saúde é muito frágil, a garota herdou o título, mas com a morte da irmã mais velha há tão pouco, ela não se sente pronta para estar em sociedade — anunciou.

Observei o ambiente, alguns sussurravam, provavelmente fofocas sobre a nova duquesa que sequer estava presente para defender-se do que diziam. Eu realmente odiava reuniões da corte.

A noite arrastou-se e quando a festa acabou, eu agradeci mentalmente por retornar a minha casa, organizei meus suspeitos mentalmente e anotei os nomes, assim como o que me levou a suspeitar deles. Quando chegasse ao escritório precisaria pedir uma investigação sobre o passado de cada um.

Nas semanas seguintes mais corpos apareceram e mais reuniões na corte aconteceram, eu tentava não pensar na grande mistura de cadáveres, pois eram pessoas sem parentesco e muitas de classes diferentes demais. Durante as reuniões, eu observava aqueles que pareciam mais suspeitos e que o passado era misterioso, aquela altura, eu já tinha vasculhado o passado de quase todos naquele lugar.

Eu tinha conversado com quase todos, sempre começando com assuntos simples sobre o tempo, o reino, os negócios, alguns como eu suspeitava, tinham passado por roubos que não foram solucionados, outros vinham perdendo trabalhadores entre as vítimas recentes.

Aquela era a décima noite de reuniões, eu tinha uma pilha cada vez maior de corpos e muitos suspeitos dentro daquele castelo.

Muitos desconfiavam de todos e a maioria vinha até mim com a mesma suspeita, a duquesa de Copas jamais apareceu em público, mesmo depois que os crimes começaram, ninguém nunca a viu e alguns até mesmo se perguntavam se na verdade não era um homem e que ele era o assassino.

As teorias pareceram absurdas a princípio, mas com o passar do tempo, eu não podia me dar o luxo de deixar teorias de lado, por mais estranhas que fossem, tudo precisava ser levado em consideração.
Passava da meia-noite quando trombetas soaram anunciando a chegada de alguém. Encarei as portas abertas e uma garota entrou, eu pude ouvir os suspiros ao meu redor, fechei minha boca e observei a mulher que entrava.

Ela devia ter pouco mais de vinte anos, os cabelos ruivos caiam soltos sobre o ombro esquerdo, enquanto ela caminhava de cabeça erguida, uma cartola branca estava em sua cabeça, adornada pelo símbolo do reino. A mulher usava um vestido justo em seu tronco, com um decote generoso, alças finas caiam em seus braços deixando toda a pele dos ombros exposta, a saia volumosa chegava apenas ao meio das suas coxas e deixava suas pernas a mostra, uma meia preta transparente com corações nas coxas pouco fazia para cobrir as pernas da mulher. Luvas curtas vermelhas cobriam suas mãos, as botas em seus pés mal cobriam os tornozelos e em seu rosto tanto as pálpebras quanto os lábios estavam com um vermelho intenso e abaixo do olho direito, havia um coração pequeno.

Apenas a maquiagem era convencional, já que muitas das mulheres e mesmo homens de nosso reino usavam o coração pelo rosto.

Ela caminhou de cabeça erguida até junto ao trono e curvou-se em uma reverência profunda. Olhei ao redor e vi muitos dos homens a encarando com desejo, algumas mulheres seguravam os braços daqueles que poderiam ser seus maridos, enquanto estes permaneciam encarando aquela mulher que chegara. Em minha própria essência eu senti um calor me percorrer o corpo, a bela mulher parecia ter noção do quanto sua aparição tinha sido arrebatadora.

— Peço que me perdoem por demorar tanto para chegar, majestade — ela sussurrou com uma voz bela e baixa. — Estive em um momento difícil desde a morte de minha irmã.

— A Duquesa Hadassa de Copas — anunciou o rei. — É bom finalmente conhecê-la.

A mulher se virou para encarar a todos e esboçou um sorriso, todas as mulheres pareciam irritadas ou invejosas, todas elas usavam aqueles vestidos longos e de gola alta, expondo apenas suas mãos e rosto e a garota chegara ao castelo vestida daquela forma. Com toda certeza muitas ali estavam com ciúmes de seus pretendentes, Hadassa provavelmente tomaria para si todas as chances de casamento.

— Devo dizer, minha querida, que sua escolha de vestes é peculiar — a rainha disse.

A garota colocou uma das mãos sobre os lábios e virou-se para a rainha mantendo os olhos no chão. Os murmúrios preencheram o lugar, muitos criticando a falta de decência da mulher outros elogiando sua coragem.

— Eu peço desculpas se estou sendo inconveniente, como sabe, minha família costumava viajar bastante e como não pude ir com eles por causa dos meus problemas de saúde, eles sempre me traziam roupas de outros reinos. Vestindo-me sempre dessa forma, eu imaginei que ficaria mais confortável vindo ao castelo deste jeito, já que esta é a primeira vez que apareço diante de tantas pessoas... se há alguma lei que me impeça de vestir-me dessa forma, por favor, majestade, diga-me imediatamente e eu jamais entrarei em outra reunião nestas roupas — a voz da garota estava cheia de urgência, como se ela estivesse nervosa com toda aquela situação.

— Não há leis que a proíbam de vestir-se assim, apenas fiz um elogio, peço que venha como se sentir bem — a rainha disse com um sorriso gentil e a garota retribuiu.

— Vamos voltar as nossas danças — disse o rei ainda encarando a garota.

Enquanto todos pareciam procurar uma forma de retornar ao estado anterior, a garota tentou passar entre as pessoas para chegar as mesas, mas um dos homens se aproximou dela, o marquês. Um homem cujo passado era uma mistura de mistérios e incertezas.

Observei a postura da mulher, ela parecia tímida apesar de estar tão exposta, em nada parecia ser uma ameaça ao reino ou as pessoas no salão como as teorias anteriores sugeriam.

A garota sorriu em cumprimento e manteve as mãos entrelaçadas a frente do corpo, o homem lhe disse algo que fez com que ela encarasse as botas em seus pés. Ele lhe estendeu a mão e ela ergueu as próprias dizendo algo que não consegui entender, da distância em que estava sequer pude ler seus lábios.

Me aproximei mais tentando observar melhor os dois buscando qualquer traço de mentiras na mulher ou de ameaças por parte do homem. Independentemente de suas feições, eu precisava cogitar todas as possibilidades, apesar de uma jovem tímida e que até onde eu sabia passara boa parte de sua vida dentro de casa, Hadassa poderia ter sido a mandante dos assassinatos, assim como qualquer mulher no salão.

O marquês segurou a mão dela e a levou para o centro do salão onde alguns casais dançavam. Encarei a forma como a mulher parecia nervosa, o sorriso falhando e as mãos que tremiam levemente.

Ao iniciarem a dança ela pisou no pé dele e levou as mãos ao rosto envergonhada, o homem sorriu e negou com a cabeça. Me ative por um instante aos sussurros ao meu redor.

Apostas estavam sendo feitas, se o marquês conseguiria conquistar a duquesa ou não. Outros homens sussurravam coisas que não deveriam ser ditas em um local tão cheio de mulheres, alguns deles casados. Depois de aparecer em público daquela forma, eu torcia para que a mulher tomasse cuidado ao andar pelo reino ou mesmo em sua casa.

Quando a música foi finalizada, a duquesa se afastou do marquês e sentou-se junto a uma mesa num canto do salão, algumas mulheres mais jovens pediram para se sentar junto a ela, a garota sorriu e indicou os lugares, elas começaram uma conversa animada.

Me aproximei da mesa e peguei um cálice que estava sobre ela. Os olhos verdes da duquesa encararam os meus por um momento, havia uma astúcia ali que eu não via em muitos olhares, por um instante me perdi naquele olhar.

— Investigador Louis — cumprimentou uma das garotas à mesa e eu desviei meus olhos de Hadassa. — Estávamos aconselhando a duquesa sobre os perigos de se vestir dessa forma, com a onda de crimes que vem assolando o reino, pode ser perigoso para uma mulher vestir-se em trajes tão expostos, quando ela não tem ninguém além de criados em casa. O que o senhor acha?

— Senhorita viscondessa, eu creio não ser completamente correto querer impor nossas maneiras a alguém, acredito que a duquesa deva vestir-se como quiser. Aliás gostaria de lhe dizer, sem querer ser rude, que a senhora é belíssima e que este vestido lhe caiu perfeitamente bem — elogiei.

As bochechas da mulher ficaram vermelhas e eu me afastei deixando as garotas sozinhas.

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