Capítulo 4

O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado.

Jean-Jacques Rousseau


Todo santo dia eu acordo e penso se hoje aparecerá um doador. Porém no final de cada um dele, nada acontece; nem uma mensagem ou ligação para me dar esperança.

Já não aguento mais fazer hemodiálise. Tenho me sentido muito mal: enjoando, tendo calafrios, vômitos, minha pressão caindo e sentindo dores fortes na cabeça. Isso tudo têm sido um martírio para mim.

Até convulsões já experimentei. E é por esse motivo que agora ando apenas acompanhada. Quando não é por minha mãe, é pela Luiza.

— Amiga, por mais que eu ame bancar ser sua babá, tenho quer ir. — Lu levanta, pegando suas coisas para ir embora.

— Relaxa, miga, eu nem assistir nada, apaguei no meio do episódio 3. — Luiza e eu passávamos horas assistindo séries na Netflix.

— Eu vi, né? Por isso não venho mais ver filme contigo. Você não é boa companhia — falava magoada.

— Meu amor, vai catar coquinho, vai. — Mostrei o dedo para ela.

— Ei, que coisa feia! Vou contar para sua mãe, hein? — Pegou o travesseiro e jogou em mim.

— O que vai me contar, Lulu? — Mamãe entrou com um cesto na mão, catando minhas roupas.

— Tia Amélia, a senhora tem que dar umas palmadas nessa menina. — Apontou para mim e mostrei a língua.

— Vaca.

— Putiane.

— Ei meninas, vocês têm que idade? 5? Oras! Se comportem. E você, mocinha, levanta e vai se arrumar que hoje vamos sair — falou, se dirigindo a mim.

— Ah não, mãe! Eu não quero sair. Tô muito mal – falei passando as mãos nos olhos.

— Filha, sei que não tem sido fácil mas você precisa sair um pouco; viver um pouco. Eu e seu pai andamos muito preocupados com você. — Mamãe pronunciou, eu pude notar a angústia na sua voz.

— Amanda, sua mãe está certa. Não se deixe ser tragada pela doença. — Luiza falou triste.

Eu via o quanto elas e meu pai  sofriam. Por mais que eu tentasse, eu não conseguia; já tinha ido a psicólogos porém nada adiantava, no final eu só queria ficar em casa, deitada. Minha amiga sempre tentava me animar e me levar a festas, mas tudo era em vão.

— Um dia tudo isso vai passar, filha. Eu prometo! — Mamãe me abraçou com os olhos cheio de lágrimas.

— Mãe! Não vale.

— O que, filha? Essa mãe não pode nem abraçar sua única filhinha? — Ela limpava os olhos na manga da blusa tentando disfarçar que estava chorando.

Minha mãe tem sido essencial na minha vida esses anos; sem ela não teria força para lutar, pois a mesma sempre me impulsiona a continuar. Só não desistir ainda por causa dela e do meu pai. Lu tem sido muito importante também. Com ela eu posso me abrir, chorar, rir, e implicar. Ela é a irmã que nunca tive.

— Tia, conta aí que festa é essa que vocês vão. — Luiza, e sua curiosidade, questão à mamãe.

— Vamos à inauguração de uma escola de dança! Recebemos o convite ontem. — Ela respondeu.

— Escola de dança? Sério, mãe? Lá só deve ter velhos. — Me joguei na cama.

— Acho que não, filha. Mas só saberemos quando chegarmos lá. — Pegou o cesto e foi em direção a porta.

— Vista aquele vestido que você ganhou da Luiza — falou e saiu.

— Isso, isso! — Lu exclamou batendo palmas.

— Não.

— Deixa de ser chata e anda logo! Vá se banhar — falou enquanto caminhava ao meu guarda roupa.

— Ué? Você não ia embora? — Luiza era inacreditável.

— Mudei de idéia! Vou ajudar você a ficar linda para os velhinhos. — Me mostrou a língua.

— Tchau! Vou ali me afogar debaixo do chuveiro. — Saí ao encontro do banheiro.

Depois de 2 horas me estressando com a Luiza, eu estava pronta: com um vestido vermelho que marcava meus seios e cintura, e que era solto na parte de baixo. Cachos enfeitavam meus cabelos, deixando eles mais volumosos. E apenas um gloss e um rímel completavam meu visual.

Minha cabeça já estava estourando antes, e depois da Luiza puxar tanto meus pobres cabelos para deixá-los caheados, a dor aumentou.

— Sinceramente, não sei para que essa produção? Os velhinhos nem vão me enxergar, coitados.

— Claro que vão! E quem sabe você não ache um legal que esteja com um pé na cova e doe o rim? — Lu não tinha mesmo limites.

— Luiza!

— Tá bom, tá bom — falava com desdém.

— Só estou indo por causa dos meus pais. — Suspirei cansada. — Queria trazer um pouco de paz para eles.

— Eu sei, amiga, mas tenta pelo menos trazer um pouco de paz para você. Se divirta! Por mais que você nunca tenha feito isso, será bom. Você vai se arrepender de nunca ter ido comigo durante a faculdade.

Uma dor se formou no meu peito. Aquela afirmação só me deixou com mais dor, pois eu poderia não aguentar o transplante e perder a chance de viver.

Tentei esquecer tudo aquilo e me dar a chance de, pelo menos hoje na frente dos meus pais, ser uma garota normal. Nem que talvez fosse com gente velha e chata.

Quando o carro parou em frente ao prédio, logo me deparei com a fachada de vidro que se tornou vitrine para o estúdio de dança. De arquitetura contemporânea, trouxe um tom rústico através dos materiais. Propositalmente, as janelas do térreo estavam abertas, assim como as portas para quem quisesse entrar.

— Uau! — Mamãe, assim como eu, estava impressionada.

— Andem, vamos entrar! — Papai chamava do topo da escada.

Assim que entramos no hall de entrada, fomos recepcionados por um homem muito bonito. Esse não era velho.

Ele se vestia de forma elegante e era muito simpático. Claro que reparei no seu rosto quadrado e na covinha que ele tinha na bochecha ao sorrir.

Apesar de não estar muito contente por ter saído, acabei me animando, principalmente quando ele se apresentou como Vinicios Matos de Marias, o dono da festa.

— Filha? Está sentindo alguma coisa? — Mamãe me olhava preocupada.

Nem tinha reparado que o moço bonito já tinha saído. Fiquei presa na minha bolha, imaginando mil coisas com o moreno que nem tinha saído do lugar e acabei me perdendo em pensamentos.

— Si-sim, mamãe, só estou com uma dorzinha de cabeça, mas creio que logo passe. — Realmente eu não estava me sentindo muito bem, porém não deixaria transparecer.

Meus pais estavam tão felizes por eu estar ali tentando me divertir, não queria tirar aquele momento deles. Sem falar que vira e mexe eu via como papai olhava para minha mãe com cumplicidade e amor.

— Venha querida, vamos dançar! – Papai pegou na mão da mamãe e conduziu ela até o meio do salão.

Andei um pouco pelo local da festa, reparando nos detalhes da decoração. Tudo foi muito bem ornamentado. A festa acontecia, acredito, no salão principal, onde seria feito aulas de balé.

O lustre acima e as cortinas vermelhas nos faziam imaginar que a festa era em um palácio.

Caminhei um pouco enquanto observava o salão, e de vez em quando olhava meus pais. Logo depois fui procurar um lugar para sentar, quando uma voz feminina chamou atenção de todos.

— Meus amigos e ilustres convidados, para todos nós é um grande honra tê-los aqui hoje. Convido vocês a serem transportados, juntamente com nossos dançarinos, para a Espanha, nesse belíssimo número de dança! — Palmas foram ouvidas. Algumas pessoas se sentaram e outras ficaram em pé esperando começar.

A iluminação mudou, deixando todo o salão meio escuro, focando no casal que apareceu no centro. A dançarina estava belíssima, vestindo um vestido preto com aberturas dos lados, deixando à mostra suas belas pernas. Porém meus olhos quase saíram da órbita quando vi o seu par: Vinicios, o dono da festa, era o parceiro dela.

O homem estava lindo em uma roupa que deixava bem visível seus músculos debaixo da camisa azul marinho e na calça preta,  mostrando toda a sua elegância.

Meus olhos não se desviaram deles por nenhum momento. E por um instante eu quis ser a bailarina. Ele a envolvia como se ela fosse sua vida, e ao mesmo tempo como se ele estivesse sofrendo. Ela também não deixava a desejar com toda sua sensualidade e expressões. Quando percebi, eu já estava chorando.

Foi quando os olhos de Vinicios se encontraram com os meus. Primeiro com o semblantes preocupado, depois com total entendimento. Eu chorava porque era lindo vê-los dançarem, com toda a magia que esse tipo de arte pode proporcionar. Eu chorava porque foram muitos prazeres da vida que eu havia mesmo perdido, e talvez nunca teria chance para os aproveitar.

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