Capítulo 13 - O choro de Samuel
MELISSA NARRANDO
Estava caminhando junto de Jacquie para a pista de skate. Ele parecia triste. Preciso fazer algo.
- Jacquie, você está bem? Se quiser podemos deixar isso pra outro dia.
- Não precisa. - Ele diz. - Eu já sabia. Só não queria admitir. Mas agora vejo que eu me livrei de fardo. Acho que estou livre. Me sinto bem pelo o que acabei de fazer. Eu já estava pronto para a hora em que ela terminasse. Mas como fui eu quem fez isso.
- Você está bem mesmo?
- Estou ótimo. Vamos. - Ele diz e me leva até o skate parque.
Eu sou meio desastrada. Tive várias quedas muito feias. A gente estava se divertindo e rindo muito. Nem percebemos quando começou a escurecer.
- Jacquie. Já está escuro, EastCity é muito perigosa à noite. Preciso voltar pra casa. - Eu aviso ele.
- Eu vou com você. - Ele fala recolhendo o skate e tirando o capacete. - Ei! Aquele não é o Samuel?
Eu olho na direção em que ele aponta. E realmente era o Samuel.
- Espera. Ele está com o Alejandro? - Ele pergunta. E vejo que tem mais alguém com ele.
- Fique aí. - Aviso a Jacquie. - Eu vou ver o que eles estão fazendo.
- Nem pensar. Eu vou com você. O Alejandro é extremamente perigoso. Eu vou com você.
- Então, vamos.
Nós aproximamos e nos escondemos em arbustos.
SAMUEL NARRANDO
Estou no skate parque esperando por Alejandro. Em alguns instantes, ele chega.
- Olá, Drogado de Los Angeles. - Ele fala.
- Se for para me humilhar não precisa continuar. - Eu o aviso.
- Vou te falar o que quero com os Wolverstyle. - Ele começa a contar. - O Pai do Bello morreu trabalhando na fábrica de enlatados. Uma máquina de encher as latas de ervilhas deu curto circuito. Era ele quem operava. Ele morreu eletrocutado.
- Você e o Bello não são filhos do mesmo pai? - Pergunto a Alejandro.
- Não. O Pai do Bello era um morador de Catarina. Nossa mãe é imigrante ilegal do México. Eu não tenho pai. - Ele para um pouco. - Em vez de recebermos o seguro de vida que a própria fábrica oferecia, nós recebemos uma carta que exigia ficarmos quietos sobre o acidente. E em troca minha mãe receberia um emprego de garçonete no Bordel. Eu tinha 6 anos na época. O Bello tinha 4. Depois de um tempo, houve uma briga no cabaré do Bordel. E no meio da confusão, chamaram a xerife Wolverstyle. Ela começou a atirar. E uma bala atingiu minha mãe. Ela morreu.
- Meu deus. Mas acho que isso não é razão para ter rancor dos Wolverstyle por causa da xerife. - Eu falo.
- Não é. Mas o que aconteceu depois foi pior. Eles enterraram o corpo da minha mãe no cemitério de Catarina durante a noite. Somente eu e meu irmão fomos ao enterro. Estávamos sob a tutela da assistência social. Pelo o menos era o que eu pensava. Um dia me chamaram no Bordel para conversar. Mas, quando eu estava prestes a entrar, veio a surpresa. Cheguei do lado de fora da sala da administração do Bordel. A Xerife Wolverstyle estava falando com a Diretora do Bordel.
- Naquela época era a Diretora Milkovich? - Pergunto.
- Sim. Foi o último ano dela na direção do Bordel. Elas discutiam se estava tudo certo para um tal leilão. Acho que você já ouviu falar dos boatos que dizem sobre o leilão humano do Bordel de EastCity. Mas naquele dia, a xerife me disse que não foi expedido o boletim de óbito da minha mãe, e que se eu não me prostituisse, ela iria levar meu irmão para um orfanato em Ohio. Eu só tinha 11 anos quando fui forçado a me prostituir. - Ele parecia prestes a chorar. - E no dia em que bati em Edward, eu falei para a xerife que eu queria dinheiro para poder sustentar a mim e a meu irmão até eu fazer 18 anos, mas eles pararam o pagamento.
- E por causa disso você quer se vingar? - Pergunto.
- Eles tiraram tudo de mim. Meu padrasto, a minha mãe e 5 anos da minha vida trabalhando naquele Bordel. - Ele fala com ódio nos olhos - E você vai me ajudar. Eu sei que você também viu a Taylor saindo do Bordel. E eu tenho certeza que os Wolverstyle comandam aquele lugar.
- E o que te dá tanta certeza que eu vou me unir a você? Só porque vai me ameaçar com a polícia da Califórnia? Eu não sou ser sua marionete - Ele ri na minha cara.
- Não. Mas sim, porque você deve isso ao Jackson. Se for provado o que acontece no Bordel de EastCity, o tráfico humano dos Estados Unidos vai ter uma queda drástica. Creio que esse leilão venda cerca de 250 seres humanos. Você vai ajudar mais de 250 pessoas só esse ano, e impedir que pelo o menos 1000 pessoas sejam traficadas nos próximos 4 anos. Você deve ao Jackson. - Ele faz um semblante sinistro. - Ou...
- Ou o quê? - Pergunto, mesmo sabendo que não vou querer ouvir a resposta.
- Ou Jackson McShire terá feito um grande sacrifício por um moleque drogado que não vale a pena. Ele deveria ter ajudado o Justin. Você cuspiu no prato que comeu. Entendo porque sua mãe quis vir pra cá. Pra tirar o filho drogado de Los Angeles. Você é um ingrato. Sempre tão cheio de si. E agora que tem a chance de cumprir a promessa que fez a aquele que te salvou, vai recuar. Você não vale a pena nem o prato que você come. E você sabe disso...- Enquanto ele falava, eu chorava, porque eu sabia que era verdade.
- Por favor, para...
- Eu não vou parar. Você tem que ouvir a verdade. Você é tão covarde e desprezível quanto eu. Eu sou um incendiário e você é um ladrão drogado. Enquanto um inocente está na prisão e seu ex melhor amigo cumpre pena em um reformatório, você anda pelas ruas em liberdade como se você fosse uma boa pessoa. O que você sabe muito bem que não é.
- Por favor, para com isso...
- Você não aguenta ouvir a verdade. A verdade dói, não é? Espero que essa dor te faça abrir os olhos para você poder olhar no espelho e ver quem você é...- Eu não parava de chorar.
Por que ele tem que estar certo? Por que tudo o que ele fala é verdade?
- PARAAAAAAAAA...
- Já chega! - Essa voz me salva. - Sai daqui Alejandro. Eu ouvi tudo.
- Melissa, Jacquie, como vão? Só estava tendo uma conversa agradável com Samuel. - Ele dá uma risada quase macabra. - Só mais um aviso, Samuel. Tudo nessa vida tem um preço, até mesmo a liberdade. E a sua liberdade custou a vida de alguém. Aproveite que você está livre e cumpra suas promessas.
Ele vai embora caminhando. Sempre bem calmo. Ele nunca vi ele fora de controle. Essa calma que ele carrega é algo assustador. Pela primeira vez, tenho que admitir para mim mesmo.
Eu estou com medo. Mas não de Alejandro, e sim de suas palavras.
A verdade é aterrorizante.
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