Assunto: Ódio
Querido Theo de 18 anos,
Odiamos muita coisa. Passamos a vida falando que odiamos algo ou alguém. Com motivos sérios e outras vezes por pura implicância. Eu por exemplo odeio a matemática. E achei melhor entender esse meu ódio.
Com 12 anos, eu fui selecionado para a segunda fase da obmep. Eu fazia uns estudos. Fazia dever. Tentava fazer uma ou outra questão. Mas não estava estudando o tempo todo. E eu gostava de uma novela que passava à noite. Recebi a notícia 1 semana antes. E no mesmo dia estudei uma meia hora de noite. Quando falei que tinha acabado de estudar por aquela noite, levei um belo sermão. Pois quem ganha medalha é quem estuda o tempo todo, e quando fui ver a novela o xingo foi pior ainda. Que aquela não era atitude de bom aluno e de quem quer ganhar medalha. Até desisti de fazer a prova. Eu era de escola pública, então eu nunca quis fazer a olimpíada, fiz pois eu era obrigado. E na segunda fase resolvi não fazer. Me xingaram de novo, pois eu era bobo de não fazer, que gente inteligente faz a prova. Mas eles falaram que quem quer corre atrás. Nunca gostei de fazer cálculos. Sempre achei chato. E eu desistindo dou lugar a alguém que realmente quer.
Começou aí.
E no oitavo ano eu vim para a escola particular. Mudou tudo. Eu estava super atrasado com a matéria e com as dificuldades devido à enorme discrepância entre as duas escolas. Perdi muitas médias. Foi humilhante. As pessoas que faziam bullying comigo não faziam por isso, mas elas não eram ruins de nota. No oitavo não. Eu sentia que eu era inferior por causa de nota. E era na matemática.
E como eu permanecia achando cálculos chatos, só piorava meu rancor.
E eu via tudo aquilo que tinha para a matemática:
Olimpíada brasileira de Matemática
Obmep
Olimpíada Mineira de matemática
E também tinha toda a propaganda feita pela mídia em cima dos talentos da matemática, mas não via nada sobre projetos de valorização de patrimônio, nunca nem vi propaganda da olimpíada de história ou de geografia na TV.
Isso me fez ver que também não importava as boas notas com História, Português, Espanhol... o que era importante era a matemática. Tá certo que tenho que focar onde tá ruim pra poder melhorar, mas um elogio seria legal. O que mudou isso foi a química. Por ela ser tão encapetada de difícil, foi um grande destaque meus méritos em Química.
Mas sempre vi um favoritismo.
Já vi gente afirmando que a inteligência lógico-matemática era a mais importante. Que tinha gente que era burra por errar contas simples. Uma coordenadora entrar na sala e desistir de dar um recado porque matemática é aula importante, segundo ela própria.
Mas não vi ninguém enaltecer o poder de comunicação da inteligência linguística. Ou que alguém é burro por não saber interpretar um neologismo de Guimarães Rosa. E a coordenadora deu o recado na aula de geografia. Geografia é menos importante? Acho que não.
Acho que ver história, sociologia, literatura, Português e outras dessas matérias que gosto terem tido essa menor relevância para a escola até a primeira série do Médio fomentou meu ódio.
Essa porra é importante para caralho mas não é algo que eu irei gostar.
Quem entende as raízes dos problemas sociais pela história é inteligente. Quem compreende a política internacional pela geografia é inteligente. Quem entende sobre a natureza é inteligente. Quem lê Guimarães Rosa e entende é inteligente.
Mas voltando a falar sobre ódio.
Há pessoas que odiamos e nos odeiam. Tudo quando se trata de ser humano é mais complexo.
Mas acho que entender melhor o porquê do ódio é a melhor forma de lidar com ele.
Sem ódio,
Theo de 16 anos.
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