8 - O Mal Do Mundo

Querido Morten,

     Hoje eu tive meu primeiro encontro. Talvez você já saiba mas eu quero escrever mesmo assim. Scott tem me convidado desde o ano passado para sair. Ele é um cara legal, apesar de ser o típico aluno exemplar e capitão do time de futebol. Talvez se eu fosse outra pessoa desse certo. Talvez se eu fosse alta, loura e esguia desse certo. Ou então se eu fosse líder de torcida, ou do time de ginástica. Talvez se eu fosse saudável. Mas não sou nada disso, como sabemos bem. Fomos ao cinema e quando eu pedi para assistir o filme sobre apocalipse zumbi, Scott decidiu que assistiríamos a comédia romântica que foi melosa e previsível. Ele tentou segurar minha mão o filme todo e, ao final do encontro quando me beijou, eu não senti nada.

     Pode ser ilusório ou infantil, mas eu esperava que meu primeiro beijo fosse ser incrível, esperava que pássaros cantassem, que a lua nos iluminasse como a luz de foco num palco. Esperava que meu interior fosse inundado por êxtase e felicidade. Mas não houve nada disso. Foi estranho, molhado e constrangedor. Ao menos para mim foi assim. O que faremos, Morten? Falta um desejo e temos pouco tempo e meu coração não parece propenso a se apaixonar por Scott nem por nenhum outro garoto.

De sua confusa e preocupada amiga, Zoe.

     Ela estava no telhado, sentada na inclinação sobre as ondulações das telhas. Havia chegado ali pela janela do sótão e estava confortável e tranquila  pois sempre que precisava pensar ia ali para observar as estrelas.

E era o que fazia agora.

Zoe tinha escrito a carta assim que chegou do encontro horas atrás mas ainda não o havia convocado pois ao assinar aquele papel uma luz de aviso soou bem no fundo de sua mente, como um alarme piscando em vermelho e soando sons de alerta.

Alerta máximo.

Como ela pôde demorar tanto tempo para perceber? 

Zoe não se considerava inocente ou tapada, mas o tinha sido até aquele momento.

Porém agora sabia a verdade. Mas, aquilo mudava alguma coisa? Ela não sabia. Ainda não, e decidiu pensar naquilo depois. Com calma. E não do jeito que estava, com o coração acelerado quase escapando de seu peito, e aquele frio na barriga que era tão assustador e tão delicioso.

     Zoe finalmente espeta o dedo com uma agulha, pinga uma gotinha de sangue ao final da carta e a enfia num envelope próprio para cartas que comprou. Em seguida o fecha usando um selo com o desenho de beija flor. E aguarda ansiosamente que ele apareça.

-- Uma escolha de lugar interessante essa noite.

     A voz dele soa grave e baixa perto de seu ouvido, e ela sente o impacto pelo corpo todo. 

-- Eu gosto daqui. É calmo, e ver a infinidade do céu me ajuda a pensar.

-- E em que você precisa pensar?

     Zoe sabe que Morten a está observando, mas ela continua olhando para as estrelas.

-- No fim.

     Ambos ficam ali um momento, sentados com as pernas dobradas e os braços apoiados dela, olhando para a imensidão acima.

O silêncio é confortável, porém não dura muito.

-- Como é ser você? -- Zoe pergunta.

-- Eu não entendi.

-- Eu sei que se ressente por ser a morte, mas quero saber como é para você.

     Morten toma um segundo para organizar os pensamentos, para que seja o mais honesto possível. Com Zoe e consigo.

-- É… triste. Todos sabem, Zoe, que a existência aqui é limitada, mas ninguém está preparado para ir. Morrer é como ir embora de um aniversário sem comer o bolo. É como quando a festa acaba e você ainda não tomou coragem para enfrentar a timidez e dançar uma música. É como assistir um filme e parar na metade, sem nunca saber do final.

-- Sim, eu sei disso tudo, mas como você se sente a respeito?

-- Eu me sinto… cansado. Desde que o mundo é mundo eu estou aqui, fazendo meu trabalho de levar os humanos aos seus destinos pós morte, deixando para trás dor e sofrimento por onde passo. -- Morten diz as últimas palavras sussurradas, como se tivesse medo de que o Criador ouvisse seu desabafo.

-- E não há nada de que goste?

-- Eu gosto de observá-los. Gosto de ver crianças nascerem, ver o meu oposto acontecer. Gosto de ver idosos nas ruas pois sei que eles são sortudos que tiveram bastante tempo. Gosto de ver os mortais realizar seus sonhos, conquistar seus objetivos, pois assim sei que eles saberão que valeu a pena.

-- Mas sempre vale a pena, Morten. Mesmo que batalhamos a vida toda e não chegamos onde queríamos, de alguma forma valeu a pena. Eu me sinto triste pela humanidade não perceber isso, mas eu percebo. A vida é o que acontece enquanto você faz planos, e se pensarmos apenas no futuro nunca aproveitaremos o presente.

-- Sim, tem toda razão, Zoe. Mas há também algumas almas que vão em paz, que tomam as minhas mãos sem hesitar. Veja bem, eu nunca chegarei se não for a hora, a menos que a pessoa tente me encontrar.

     Morten falava sobre os suicidas. Almas tão tristes e quebradas que infelizmente decidiram seguir aos braços da morte a fim de acabar com seu sofrimento.

    Almas que precisavam de atenção e ajuda, carinho, amor e cuidado. E por não tê-los em vida, o procuram em Morten.

   Se ele pudesse mandar uma mensagem para o mundo seria essa, a mesma mensagem que o Criador mandou tantos milênios atrás: amem seu próximo. Dêem amor e atenção pois esse é o remédio da dor na alma.

--  A falta de amor é o mal do mundo, não é mesmo? -- Zoe diz, triste.

-- Sim, isso e a ambição. São os maiores males, são o que corrói a parte boa da humanidade.

     Zoe pensa um momento, pensa o quão triste é querer morrer, preferir partir do que viver mais um dia.

   Se Zoe pudesse ela abraçaria cada um que passa por aquilo, ela os ajudaria e conversaria e aconselharia. Sem julgamentos ou repreensão, apenas amor.

   Ela não tinha muito tempo para isso mas esperava que, se alguém no mundo passasse por esse desespero, que encontrasse uma pessoa com a disposição de ajudar.

-- Mas há também, Zoe, os que agradecem o tempo que tiveram. Mesmo que tenha sido pouco. Nós os chamamos de Almas Evoluídas. São os que entendem que isso aqui -- ele abre os braços mostrando o redor -- é passageiro, e que de uma forma ou de outra a vida continuará depois da morte.
  
     Essa última frase de Morten levanta uma outra questão que não sai da cabeça dela.

-- Eu estive pensando em outra coisa também.

-- Diga-me.

-- Em nós.

     Zoe percebe a expressão de Morten tornar-se confusa com a mudança de assunto.

-- Porquê?

-- O tempo está acabando, Morten.

-- Sente-se doente novamente?

-- Eu sinto a doença aqui, quase acordando. E não fazem nem seis meses desde o último beijo de quase cura.

-- Assim que seu coração se apaixonar por um mortal, será o fim.

     Morten não admitiria, mas não queria que esse dia chegasse.

   Não queria ver Zoe se apaixonar e não queria ter de levá-la. Mas ele, mais do que ninguém, sabia que isso era impossível.

Zoe agora tinha dezessete anos.

  Faziam nove anos desde o acordo deles, e seu poder de adormecer a doença estava perdendo o efeito.

   Se Zoe não se apaixonasse, ao completar dez anos do acordo ela poderia trocar esse desejo por outro, desde que esse não fosse mais tempo.

   E então, acabaria.

   Ela seguiria em frente e Morten ficaria aqui, fazendo o que sempre fez.

-- Eu tive um encontro hoje. Com um garoto da escola.

    Morten sabia sobre o encontro, mas quando o rapaz chegou para buscá-la mais cedo naquela noite ele retirou-se, tirou sua atenção de sobre Zoe, dando-lhes privacidade.

Ele não queria ver aquilo.

E, quando ela o chamou ele ficou feliz pois pensou que ela ficaria a noite toda fora, como as garotas de sua idade faziam, mas por alguma razão isso não aconteceu.

-- E como foi?

-- Eu não senti… nada. Nadinha, Morten. Talvez entre nós dois seja eu a incapaz de amar.

-- Ele só não era a pessoa certa. Há outros garotos.

-- E se eu não quiser um garoto?

-- Quer uma garota? -- Morten pergunta.

     Zoe sorri com o que ele disse. Ela era bem segura em sua sexualidade, e não era nada daquilo. E não teria problema se fosse.

-- Sabe, se essa fosse a questão tudo seria até mais fácil. Mas não, não quero uma garota.

-- Eu não entendo, Zoe.

-- Morten, você é tão ou mais tapado do que eu.

     Ela solta uma grande risada e deita sua cabeça no ombro da morte, e a conversa morre ali, naquela frase que diz tanto para Zoe e que apenas confunde Morten.

     Naquela noite, enquanto ambos permanecem observando as estrelas, Zoe pensa que mesmo com os males do mundo há também o bem.

Há o amor.

     E ela torce para que as pessoas percebam que devem agradecer por cada dia.

     E Morten, bem, ele não pensa em nada além da doce mulher que está deitada em seu ombro, ele só pensa na sensação boa do corpo dela próximo ao seu e o som suave de seu respirar.

     Morten e Zoe agradecem a cada dia que tem. A cada chance, a cada momento que puderam ter juntos, eles agradecem ainda ali naquele telhado enquanto observam as estrelas.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top