5 - Eu Vejo Você

Zoe estava feliz.

Não, ela estava maravilhada.

Não, estava exultante, irradiando alegria por cada poro.

As malas estavam prontas. Passaportes ok. Ela, seu pai e tia Vivian partiriam para a Grécia amanhã perto da hora do almoço. Sairiam cedinho para chegarem no aeroporto com tempo de folga, e ficariam ali até a hora do embarque.

Finalmente seu pai conseguiu juntar o dinheiro da viagem. Dois anos atrás, quando sua doença quase voltou, ele havia acabado de começar uma poupança para realizar o sonho dela e, depois do beijo de quase cura de Morten, a doença estava adormecida novamente, então seu pai havia conseguido juntar a quantia necessária e eles iriam comemorar o décimo quinto aniversário de Zoe naqueles mares azuis e paradisíacos.

Querido Morten,

     Meu aniversário está chegando. Cada ano que passa eu devo a você. Desde criança, desde que descobri que meu organismo era falho e doente, eu nunca me permiti imaginar como seria meu rosto na adolescência. Como eu seria em minha fase adulta. Hoje eu sei que minhas maçãs do rosto são altas e rosadas. Sei que minha sobrancelha é escura e arqueada. Sei que estou tão alta quanto papai. Eu vi meu corpo mudar. E pude fazê-lo graças a você. Não sei quanto tempo ainda me resta, mas eu agradeço o tempo que tive. Hoje, mais do que naquela noite no hospital, a noite que nossa história começou, eu sei o valor do presente que você me deu. Então, eu agradeço por cada dia, cada hora, cada minuto e segundo que você me deu. Agradeço pelos momentos que passei com você. Obrigada.

Com carinho e gratidão, Zoe.

     Ela furou seu dedo e pingou a gota de sangue no final, abaixo de seu nome. Dobrou o papel cuidadosamente e o colocou no envelope cor de rosa que ela selou com uma fita adesiva cintilante com estrelinhas. E esperou, sentada em sua escrivaninha.

-- Ainda acha que quando os mortais morrem eles viram estrelas?

     A voz de Morten soa atrás dela, próxima ao seu ouvido lhe causando deliciosos arrepios. Há alguns meses que o sexo oposto estava despertando nela demasiada atração. Mas ninguém que conhecia lhe causava as sensações que ele causava.

-- Na verdade, Morten, eu não tenho certeza sobre nada nessa questão, há muitas possibilidades. Mas a idéia de que viramos estrelas é muito bonita, não acha? -- ela diz, sem se virar para ele.

-- Sim, Zoe, sem dúvidas. -- ele responde de um jeito que ela sabe que ele a está observando.

     Ela sente seu rosto queimar, seu coração acelerar.

-- Se fosse assim, se virássemos estrelas, olharia para mim no céu? -- ela pergunta levantando-se, cravando seus olhos nos dele.

      A sombra de algum sentimento passa ali, algo que pela pouca idade e experiência ela não sabe interpretar.

-- Eu a olharei onde quer que esteja. Não importa quanto tempo passe, não importa se o mundo acabe, meus olhos sempre estarão em ti, pequena.

-- Eu não sou mais tão pequena, Morten. Estou quase do seu tamanho. -- ela diz ao homem, com um sorriso atrevido.

     No último ano Morten notou que Zoe estava se transformando, de uma doce criança a uma linda mulher.

Curvas aparecerem em seu corpo, seu rosto perdeu completamente as feições infantis. Até seu olhar não tinha mais tanta inocência quanto outrora, apesar de ainda haver ali muita pureza.

Mas ele se obrigava a vê-la como a pequenina criança que conheceu naquele hospital, pois caso se permitisse vê-la pelo que realmente era agora, seus pensamentos tomariam rumos completamente novos e desconhecidos que ele não era capaz de suportar.

Zoe o intrigava, o animava, o deixava ansioso e nervoso.

-- Creio que isso não seja relevante. -- ele diz, e Zoe  parece não gostar do que ouviu.

    Ela suspira e segue até sua enorme cama de casal, irritada com a resposta que recebera.

Porque Morten não percebia que ela já era quase uma adulta? Ela percebia o quanto ele era belo, com aqueles cabelos negros contrastando com sua pele pálida e seus olhos verdes brilhantes, ele mal aparentava vinte anos! 

Zoe suspira e senta na ponta de sua cama, o convidando a sentar-se ao seu lado, o que ele faz em seguida mantendo uma distância respeitosa.

-- Eu o chamei aqui para contar a novidade. O segundo desejo será realizado amanhã, Morten! Viajaremos para a Grécia!

    Ela vê um discreto sorriso surgir nos lábios dele, e Morten não demonstra surpresa alguma.

-- Você já sabia! -- ela exclama -- Anda me espionando, Morten?

-- Digamos que eu mexi alguns pauzinhos e consegui adiantar a sua viagem. -- ele assume.

-- Você o quê? -- Zoe exclama, surpresa -- O que você fez? Ande logo, conte tudo!

     Morten dá de ombros e mantém o sorriso no rosto.

-- Seu pai não havia conseguido juntar dinheiro pois ainda estava pagando as dívidas do seu tratamento.  Então, "alguém" deu a ideia a um agente de viagens de fazer uma super promoção de um pacote de viagem para a Grécia, e "alguém" também fez com que seu pai soubesse disso. Os custos saírão menos da metade do preço!

-- E esse "alguém" foi você?

-- Na verdade eu cobrei alguns favores.

-- Quem deve favores à morte? -- ela pergunta, curiosa.

-- Ficaria surpresa com a quantidade de anjos apaixonados por humanas. Eles pedem que eu dê alguns anos presente a elas. Veja bem, eu só posso fazer isso quando tenho permissão lá de cima, do Criador. Então quando eu consigo, eles ficam me devendo algo de minha escolha, gratos por eu ter pedido à favor de suas amadas.

     Zoe leva alguns momentos para absorver toda a informação que recebeu.

Anjos apaixonados por humanas.

Morten intercedendo por elas, e gastando seus favores com Zoe.

E, de novo, anjos apaixonados.

-- Você já se apaixonou? -- ela pergunta num sussurro, com medo da resposta.

     Morten fica zonzo com a pergunta, nervoso. Ele nunca se apaixonou. Ele nunca sentiu nada. Mas isso foi antes da bela jovem à sua frente aparecer no caminho de sua existência.

-- Não, Zoe. Eu nunca senti o amor.

-- Porque? Nunca encontrou alguém que o interessasse? Em todos esses milênios? Impossível!

-- Eu acho… acho que não sou capaz de amar.

-- Se anjos são capazes de amar, você também o é. E talvez pense assim por não ter conhecido o amor, por não saber como ele é.

-- Eu não sou um anjo.

-- Não. Você é a morte. Você é a única certeza que todos temos. Você é o que torna o rico e orgulhoso igual o pobre e humilde. Você é, muitas vezes, a justiça que falta nesse mundo, apesar de ser injusto em algumas vezes. Os dois lados de uma mesma moeda.

-- E também sou o que trás sofrimento, tristeza e dor. -- ele diz, cabisbaixo.

-- Todos temos um lado sombrio. Um lado que não queremos ter mas que está ali e que nunca irá embora. E sabemos que amamos alguém quando aceitamos os defeitos e ainda queremos estar ali.

-- Eu não vejo defeitos em você.

-- E o que você vê, Morten? 

-- Eu vejo luz. Eu vejo bondade. Eu vejo alegria. Eu vejo os seus sonhos e seus desejos. Vejo o quanto evita de querer aquilo que não pode ter. Vejo o quanto tenta não se entristecer pelas coisas ruins em sua vida porque sabe que a tristeza não vai ajudar em nada. Vejo o quanto agradece a cada nascer de uma nova manhã, quando grita "bom dia" sorrindo para o sol. Vejo o quanto se esforça para ver a beleza de cada coisa da vida, de cada momento. Eu vejo você, Zoe.

     Ela fica sem palavras. A cada sentença proferida por Morten, seu coração errava uma batida e acelerava ainda mais. A jovem temia que ele pudesse ouvir seu pulsar frenético. A emoção que Zoe ouviu na voz dele a tocou no fundo da alma.

-- Eu vejo você, Morten. Todos os seus lados. E ainda assim gosto do que vejo.

     Eles trocam um sorriso e o silêncio é tudo que há por um momento. Mas Zoe quer mais. Mais do que palavras, ela quer toque.

-- O que está fazendo? -- ele pergunta quando Zoe começa a se aproximar.

-- Abraçando você.

     Ela passa seus braços pela cintura dele, e se aconchega deitando a cabeça em seu peito.

Um segundo depois Morten retribui, passando os braços pelas costas dela, a puxando para mais perto.

Ambos sentem o aroma e calor um do outro.

Zoe cheira a lavanda e algo cítrico.

Morten cheira âmbar e madeira junto do aroma único dele.

Ali, naquele abraço, Zoe se sente em casa e Morten sente que finalmente enxerga o mundo.

Ele estava só e perdido e Zoe foi seu farol.

    

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