Oblíqua e Dissimulada - Parte 2

Adentro em casa, mais cedo que o comum, pois não via necessidade de continuar ali rodeada de sentimentos ruins. Meus irmãos e Amy estão vendo algum filme, minha irmãzinha dorme no colo de meu irmão e essa cena é tão linda que me vejo com sorriso nos lábios, minha família é completamente perfeita, por mim, eu morreria vendo essa cena.

Cumprimento eles e recebo sorrisos de Tony e Amy. Porém o sorriso de Amy não foi totalmente sincero.

— Tony, leva sua irmã pro quarto, por favor. — Peço e assim ele o faz, tentando não acordar a irmã. Faço uma feição dando a entender que precisava falar com Amy e ele não retorna.

— Eu pedi demissão. — Digo me sentando ao lado de minha amiga.

— Você o que? — Amy perguntou virando seu corpo e completamente confusa.

— De-mi-ssão. — Falo lentamente.

Ela me dá um soco de leve no ombro. As pessoas estão gostando muito de me bater ultimamente.

— Para de graça Capitu, você entendeu.

— É claro que entendi, mas eu não quero brigar com você e se esse emprego for por motivo de briga, prefiro achar outro, o que já fiz.

— Você está louca. — Afirma balançando a cabeça negativamente.

— Eu sei e olha, meio expediente, de segunda a sexta, na empresa Parker...

— Na Parker? Aquela chique do prédio enorme?

— Sim!

Amy ri baixo sem acreditar em minhas palavras, dou um sorriso confiante para que ela entenda que eu não estou mentindo.

— Como? Você não tem experiência nenhuma.

— Bom, cheguei lá bem na hora que a secretaria foi demitida, eles estavam desesperados e eu já estava lá e você sabe como rico fica desnorteado sem alguém pra dizer horário de reunião. — Amy balança a cabeça positivamente espremendo os lábios enquanto conto minha calculosa mentira. — Então eles fizeram uma entrevista comigo, fizeram um teste e depois só me disseram "contratada".

— Eu não to acreditando. Uma empresa daquela não ser rígida e contratar assim sabe.

Mesmo ela tendo razão, me senti um pouco afetada por sua fala.

— Tá duvidando da minha capacidade?

— Não Capitu, você sabe que não, eu só acho isso muito coisa de filme, de golpe.

Talvez eu esteja sendo chata e hipócrita, mas ela disse em um tom de desprezo, como se não contratariam alguém como eu. Respiro fundo para medir as palavras.

— Eu tento fazer de tudo e você ainda me diz uma coisa dessa, olha, eu vou dormir ok? Achei que ficaria feliz.

— Capitu, me perdoe, por favor, você sabe que eu te amo.

Também amo essa vaca, ela consegue ser iditota e fofa ao mesmo tempo.

— Chata.

— Você.

— Quanto é o salário?

— O suficiente.

— Quanto....?

— Amy, podemos pegar um vinho e assistirmos à TV? Seria muito bom aproveitar e me contar sobre seu dia.

Ela ri e se levanta para ir à cozinha.

Por alguns segundos até me esqueci que a vaca e idiota no momento, sou eu.

Estou completamente nervosa.

É até estranho pensar que estou em um emprego na empresa Parker. Tudo bem que consegui de uma forma não convencional e que não é exatamente por um motivo tão legal, mas ainda assim é assustador pensar que estou dentro dessa enorme empresa.

As pessoas literalmente quase morrem para trabalhar aqui dentro, todos de San Michael querem estar aqui, o currículo para entrar aqui dentro deve estar impecável, até mesmo de estagiários.

Os melhores hotéis da cidade foram arquitetos pela Parker e são os mais concorridos para se ter estadia, apenas pela estrutura.

Adentro a empresa com o coração explodindo, mas claro tentando passar confiança. Hoje coloquei uma blusa social branca, saia envelope preta fosca, blazer preto, comprei alguns acessórios como pulseiras e brincos, salto fino e preto, bolsa de lado, e estou usando uma maquiagem leve.

O cabelo continua rosa, para combinar com minha personalidade.

Talvez eu devesse voltar a minha cor natural de cabelo e ser mais profissional, mas confesso que gosto de como as pessoas me olham quando veem meu cabelo colorido dentro de uma empresa grande como essa.

Chego ao elevador e consigo sentir o olhar penetrante das pessoas, principalmente dos homens, deveria me incomodar, mas depois de passar meses em uma boate de strip-tease, você se acostuma.

Assim que o elevador abre no local indicado por Dream na mensagem, respiro aliviada por ter apenas a recepcionista que ele já havia me avisado que estaria à minha espera.

O local é moderadamente grande, com duas mesas uma do lado da outra.

— Você deve ser a Capitu, correto?

— Sim, sou eu.

A moça se levanta e vem até mim sorrindo e inclinando a cabeça. Ela usa um vestido folgado e azul, o que não valoriza nenhum pouco seu corpo, seus olhos são claros e um rosto um pouco redondo, sua boca é um pouco grossa e a mais volume no lábio superior, seu cabelo está totalmente preto o que com certeza é tinta, pois conheço uma cabelo pintado de longe. Ela me parece tão linda, mas tão desleixada.

— Quando me disseram que tinha cabelo rosa, até desconfiei sendo honesta, mas é um charme.

— Obrigada. Então você deve ser a Bella.

— Exatamente, venha comigo.

A sigo até as mesas.

— Aqui são nossas mesas, a sua é essa e a minha é aquela ali.

Reparo mais nas mesas e vejo que em cima de minha mesa está escrito em uma placa "Secretaria de Nathan Parker" enquanto o nome de Dream está na placa da Bella. O que me deixa confusa, pois achei que trabalharia diretamente com ele.

Bella se senta e eu me sento em minha nova cadeira de trabalho.

— Entendi, mas aquela sala ali não é a do Dre... Desculpa, Bernard?

— Ah sim, esqueci que vou ser sua tutora. — Ela fala de um jeito meigo e engraçado, parece uma boa pessoa. — Você e eu somos secretarias dos dos irmãos Parker, quando uma não estiver a outra fica encarregada do trabalho da outra, mas em termos gerais, para não pesar, você fica encarregada do Nathan enquanto eu fico encarregada do Bernard. O senhor Nathan é super tranquilo, vai gostar de trabalhar diretamente com ele. Eu diria que você é mais minha assistente do que secretária.

— Entendi, eu só achei que fosse trabalhar diretamente com Bernard, já que foi ele que me contratou.

— Isso seria impossível.

— E por que seria impossível?

Bella trava.

— Ah você sabe, assuntos que não lhe pertencem...

Essa fala me faz lembrar sobre o que realmente vim fazer aqui, o que me faz pensar que talvez Bella saiba muito mais do que penso que saiba. Grace pode ter ido nas fontes erradas, Bella não me parece o tipo de pessoa que estaria envolvida nisso, apenas se ela não quisesse e fosse forçada a estar envolvida.

— Mas quando precisar entrar nas salas de reuniões, é você que irá entrar, quando precisar de dar algum recado, você que irá dar, apenas alguns recados eu mesma dou. Mas sempre que tiver alguém público, é você que estará lá nos representando. — Bella afirma ainda em tom brincalhão.

— E porque disto?

— Já olhou para mim e se olhou no espelho? É óbvio que você é mais apresentável, você fica com a beleza e eu com a funcionalidade.

Ela disse de uma forma tão natural que parece que está convicta que isso seja verdade, ela precisa de alguém para a tirar desse lugar obscuro, ninguém merece não se amar.

— Isso é doentio, você é linda.

— Não é o que os caras dizem, e olha que eu não uso óculos e aparelho como o estereótipo diz, e eu nem ligo para os estereótipos. — Seu jeitinho está começando a me deixar constrangida e irritada. — Mas vamos lá, vou te ensinar a mexer no sistema, começar do zero, já que não tem experiência nenhuma na área, mas não se preocupe, se não estiver afim de aprender ou não conseguir, você pode apenas continuar, sabe, aqui...

— Pelo o que percebi você sabe de onde eu vim e quem eu sou, mas você mesma disse que não liga para estereótipos, então saiba que estou aqui para trabalhar. — A interrompo.

Ela arregala os olhos e solta um sorriso largo, pelo visto as coisas por aqui são bem diferentes.

— Gostei de você, é a primeira que não chega me insultando e pondo ordens.

— Com certeza nunca faria isso.

— Eu fico muito feliz por você não ter síndrome de famosa, sério.

— Você é engraçada Bella. — E um pouco irritante.

Bella me ensinou bastante coisa em uma hora de trabalho, me dando mais certeza que ela sabe de muito mais, pois Dream em nenhum momento escondeu a ela sobre mim, ela não me passou senha de seu computador e de nenhuma coisa do Dream, o que é muito suspeito.

Me pediu para ir organizando a agenda do Nathan dessa semana, o que é até fácil.

— Olha, eu to concentrada aqui, você poderia colocar esses papéis na mesa do Nathan, por favor? — Pede Bella apontando para os papéis sem ao menos tirar os olhos do computador.

— Claro, é para isso que as secretarias servem.

— Ou jogam as folhas na sua cara. — Ela é tão direta que me faz inclinar a cabeça e arregalar os olhos.

— Você diz como se tivesse outras antes de mim.

Bella parou de olhar a tela de seu computador e percebo que engole seco.

— É melhor calar a minha boca antes que eu fale merda e perca minha vida.

— Você quis dizer emprego, né?

— Sim. Mas antes, quando chegar, coloque as folhas em frente do computador, bem visível.

Confusa me dirijo à sala do Nathan.

A sala do Nathan é ao lado direito e a do Dream do lado esquerdo, Bella disse que essa é a parte dos irmãos da empresa que ninguém ousa vir sem ser chamado. Acima deste andar está o do pai deles, onde segue as mesmas regras do andar de seus filhos.

Fecho a porta e fico chocada com o tamanho dessa sala. O prédio é todo revestido com vidro, ou seja, a sala é completamente transparente e dá para ver tudo do lado de fora, mas as pessoas de fora não conseguem ver dentro. A mesa é grande, com algumas molduras, vou até a frente do computador colocar as folhas exatamente como Bella pediu, tentando não me distrair com nada, já que não seria legal ser vista fuçando as coisas no primeiro dia do plano.

Na saída acabo me distraindo com uma foto que está no canto da mesa, deduzo que seja Nathan e Dream crianças, pelo cenário eles estavam em algum tipo de passeio, abraçados e sorrindo como se não amanhã.

— Está tudo bem aí?

Me assusto com a voz atrás de mim e esbarro no quadro, mas o dono da voz consegue pegar o quadro antes que ele caia no chão. Assim que se levanta percebo que o dono da voz é Nathan e fico completamente sem graça.

— Sim, está claro, desculpe, eu vi as fotos e... É melhor eu ir.

Ele ri de mim e o acompanho.

— O que exatamente você faz aqui Capitu?

— Eu trabalho aqui? — Falo em tom de pergunta como se estivesse com a mesma dúvida que ele. — A Bella disse que eu sou como uma assistente, até gosto do termo... — Nathan morde o lábio inferior e muda sua feição drasticamente para uma mais séria. — Você não fez uma cara muito boa.

— Eu só não esperava te encontrar aqui, mas que bom que está aqui. — Ele tenta voltar a sorrir.

— Melhor ir se acostumando, pois sou sua secretária direta.

— Assim posso te proteger. — Ele diz no automático com voz grossa e sucinta.

Mordo a língua com sua fala, não esperava que ele fosse dizer isso e é esquisito pensar que isso foi dito.

— Proteger do que exatamente?

— De se meter em encrenca. — Nathan afirma tentando sair de seu tom sério e amedrontador. — Sabe, você é nova, ainda indefesa.

Não me seguro e solto uma risada alta, o fazendo rir de nervoso.

— Posso ter meus dezenove, quase vinte, um pouco ingênua, sorriso verdadeiro, singelo e angelical, mas eu mesma me protejo. — Afirmei em tom brincalhão me lembrando do que ele me disse dias atrás e ele ri de lado.

—Tudo bem, confio em você.

— Que bom, por que você terá de confiar por bem ou por mal não é? Enfim, voltando ao trabalho.

Saio de sua frente me dirigindo a porta, assim que pego na maçaneta Nathan me interrompe.

— Olhos de cigana oblíqua e dissimulada. — Ele diz me fazendo rir baixo. — Espero ter acertado.

Me viro e o vejo sorrindo com as mãos dentro do bolso de sua calça.

— Andou fazendo o dever de casa.

Nathan começa andar até minha direção ficando frente a mim. Cruzo os braços esperando suas palavras.

— E com toda certeza você é oblíqua, consigo ver isso. — Nathan fala com voz mansa e rouca, e sinto uma pontada entre minhas pernas. Oh céus, tesão essa hora?

— E talvez um pouco dissimulada.

Antes mesmo de seguir meu desejo carnal, me viro, abro a porta e saio da sala. Ando até minha mesa e Bella me olha confusa.

— Demorou em.

— Acabei conversando com Nathan.

Paro para analisar nossa conversa e me lembro da forma que ele disse que queria me proteger e como foi tão suspeito o jeito de sua fala.

Estou me tornando boa em analisar coisas ao meu redor.

Grace acha que Nathan não sabe de muita coisa e o taxou como ingênuo, mas Dream também me acha ingênua, então talvez, realmente, Grace não tenha analisando bem o que acontece dentro dessa empresa. Mas as coisas aqui agora estão diferentes e eu estou perto.

O plano está ganhando forma e como um dos tópicos, declaro a mim mesma agora que se eu quero descobrir mais sobre essa organização, devo me envolver com Nathan e me tornar alguém pelo qual Bella chame de melhor amiga.

Serei dissimulada, mais do que imaginam.

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O comeback veio, graças a papai! Espero que gostem hihihi O próximo capitulo deva demorar novamente, pois estou trabalhando de mais, além de estar muito focada no físico de Ela por Três, então me perdoem, juro que estou dando meu máximo!
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