Já Pensou Em Ser Alice De Verdade?
— Nós temos um novo recorde de dívidas. — Afirma minha amiga Amy brincando.
Tento ri junto dela, mas estou completamente preocupada.
Amy sempre tenta levar tudo da melhor forma, a conheço a seis anos e ela vem sendo a melhor amiga de todas. Depois que meu pai morreu e minha mãe veio a falecer no parto de Anne — minha irmã mais nova — Amy vem me ajudado muito desde então.
Tive que assumir uma responsabilidade muito grande com pouca idade, cuidar de duas pessoas e sustenta-las quando nem mesmo conseguia me sustentar. Ter conhecido Amy foi a melhor coisa de minha vida.
— Você sabe que dívida é uma forma mais chique de dizer que temos contas. — Ironizo e minha amiga ri.
— Sinceramente, não havia passado isso em minha cabeça até agora.
Estamos sentadas na mesa da cozinha, tomando um vinho que comprei do mais barato no mercado, enquanto meus irmãos estão dormindo.
Nossa casa não é grande, mas consegue nos suprir. Cozinha pequena, sala razoável, três quartos e um banheiro, na verdade essa casa é inteiramente de Amy, ela morava aqui com sua avó até a mesma falecer e deixar essa casa para a neta.
Os pais de Amy ainda estão vivos, mas ela finge que não tem família, eles faziam muito mal a ela, seu pai por exemplo batia nela todos os dias, até sua avó intervir e ela vir morar aqui na cidade e assim eu pude a conhecer.
— Se não pagarmos, iremos perder a casa. — Afirma Amy colocando seu cabelo castanho de trás da orelha.
— Nós ainda temos tempo. — Tento amenizar a situação.
— Eu sei que temos tempo, mas com meu salário de professora e o seu de garçonete não vai ser o suficiente, vamos ter que arrumar um emprego extra. — Explica Amy me fazendo bufar.
— Porra. — Passo a mão na cabeça.
— Sem palavrões em casa senhorita Capitu.
— Duvido muito que meu irmãozinho não saiba nenhum. — Afirmo cruzando os braços.
Ela ri baixo.
— A Anne ainda não sabe e esse foi o nosso combinado.
Sorrio torto.
— Ok, ok, ok. Voltando ao assunto, talvez eu consiga trabalhar a noite como garçonete de outro estabelecimento e você poderia dar aulas particulares. — Sugiro.
— Parece uma boa. Mas você poderia pegar o dinheiro que gasta pintando seu cabelo de rosa e juntar. — Brinca me fazendo ri.
— Tudo, menos as tintas de meu cabelo ok? São baratinhas, e retoco só quando acho que precise.
Rimos baixo, mas logo o local fica em um silêncio horrível e minha mente se enche de dúvidas se realmente vamos pagar tudo que temos a pagar. Meus pais deixaram tantas dividas, a avó de Amy deixou muitas dívidas e nós duas tivemos que fazer ainda mais dívidas para nos sustentar, isso está virando um ciclo vicioso que terá um final trágico.
— Tutu. — Escuto minha irmãzinha de seis anos me chamar baixinho.
Olho para o lado e ela está toda sonolenta, com seu cabelo castanho liso bagunçado e meu irmão Anthony ao seu lado, também sonolento com o cabelo do mesmo jeito de nossa irmã.
— Vocês estão acordados a quanto tempo? — Pergunta Amy.
— Tempo o suficiente para escutar tudo que disseram. — Responde Thony.
— A gente vai morar na rua Tutu? — Pergunta Anne e meus olhos se enchem de lágrimas.
— Não, nunca! — A respondo e ela vem até mim e se senta no meu colo.
— Eu consegui um emprego, irei começar amanhã. — Thony conta vindo até a mesa e se sentando ao lado de Amy. — Eu vou trabalhar em uma sorveteria perto da escola, talvez o dinheiro ajude.
— Isso é ótimo Thony, mas você é jovem, tem dezesseis anos, não deveria se preocupar com isso. — Fala Amy e concordo com ela balançando a cabeça positivamente.
— A Capitu tem dezenove e cuida da gente, você Amy cuida da gente, é o mínimo que eu tenho que fazer. — Fala Thony e Amy o abraça.
— Você é um menino de ouro! — Exclama Amy apertando a bochecha de Thony o deixando sem graça.
— Eu posso trabalhar também. — Afirma Anne com sua voz fofa e baixinha.
— Não precisa, mas obrigada pela tentativa. — Falo apertando minha irmã e enchendo-a de beijos logo em seguida.
Comecei a trabalhar na cafeteria a mais ou menos seis meses, não recebo muita gorjeta, mas sempre que um tal cara vem aqui ele me deixa uma quantidade grande de gorjeta.
Raramente ele vem, três vezes no mês no máximo, ele se denomina como Dream, não sei se esse é seu nome verdadeiro, mas se realmente for faz jus ao nome, pois ele realmente é um sonho.
Entrego o café para o cliente junto do bolo que ele pediu.
Assim que volto ao balcão o tal cara adentra a cafeteria, sempre com belos ternos, uma barba grande e bem feita, anéis em volta de seus dedos, pele preta retinta que chama a atenção de qualquer um presente, principalmente a minha.
— O de sempre Dream? — Pergunto sorrindo.
— Olha só, não me chamou de senhor. — Sorri maliciosamente.
— Depois da última vez que esteve aqui e me exigiu que lhe chamasse apenas de Dream, não tem como continuar referindo a você como senhor.
Ele ri baixo e logo faz seu pedido se sentando sempre na mesma mesa ao lado do vidro.
Pego seu café sempre sem açúcar e o pedaço de bolo de cenoura com cauda de chocolate e vou até sua mesa entregar.
— Obrigado Capitu. — Agradece me olhando de lado.
Engraçado como meu nome em sua boca me faz suspirar.
— Você faz algo mais além de trabalhar aqui? — Ele me pergunta no instante que iria voltar ao balcão.
— Por que a pergunta? — Inverto a situação.
Ele sorri de lado depois de beber um pouco de seu café.
— Bom, talvez algum dia você possa ser mais que uma garçonete para mim. — Afirma me deixando sem graça.
— Você é muito direto.
— Não gosto de esconder o que penso. Mas ainda não respondeu minha pergunta.
Mordo o lábio superior e sorrio de lado.
— Quando realmente me chamar para sair, posso dizer o que faço ou não faço fora daqui, mas agora tenho mais clientes para atender. — Falo a ele que arregala os olhos espantado com minha resposta.
Se ele pode ser atrevido eu também posso.
Saio de seu lado e atendo alguns clientes que adentraram, rapidamente volto ao balcão e deixo Molly atender o restante. Logo Dream vem até o balcão e Molly vai o atender, ele paga pelo café e o bolo, em seguida vem até a parte do balcão onde estou, meu coração acelera pelo seu olhar centrado e fulminante.
— Amanhã as oito, se topar... — Diz e estende um cartão. — Você já sabe.
Pego o cartão de sua mão e o olho surpresa, três meses para que ele fizesse o convite. Ele vai embora da cafeteria e Molly vem até mim empolgada.
— Caralho, ele é um gato. — Molly vem andando lentamente.
— Cala boca Molly. — Peço desviando dela e guardando o cartão no avental.
— Você sabe que não estou mentindo. — Afirma me fazendo sorri de lado. — Achei que ele não fosse te chamar nunca.
— Nem eu.
Rimos.
Alguns minutos depois Ruby adentra a cafeteria, sempre com suas belas roupas de marca, cabelo escovado esbanjando ouro e pedras brilhantes, pele retinta e de lábios carnudos, a mulher mais linda que já conheci.
— O mesmo de sempre senhorita Ruby clamorosa? — Pergunto e ela ri.
— Olá Alice, o de sempre e já separa o de minhas vadias por que elas já devem estar chegando.
Dou uma risada baixa.
— Quando é que vai me chamar pelo meu nome?
— Quando você pintar o cabelo de outra cor que não seja rosa.
Ruby me chama de Alice pela cor do meu cabelo, desde que começou a frequentar aqui ela vem me chamando de Alice, fazendo referência ao filme Closer onde uma das principais usava uma peruca rosa icônica.
Começo a preparar seu pedido e de quebra vou conversando com ela que se senta em uma das cadeiras do balcão, como sempre.
— Essa semana foi do caralho, hoje vou ter que ralar muito pra cobrir a porra do prejuízo.
— Bom, pense que não é você que está prestes a perder a casa e sua irmãzinha ouviu sua conversa e agora tem medo de morar na rua e de ganhar dinheiro para comer na merda escola. — Desabafo e suspiro forte.
— Credo garota, sua vida só vai decaindo. Já pensou em ser Alice de verdade?
— Você sempre faz essa pergunta e a resposta é não. — Enfatizo.
— Qual é Capitu, com esse corpo você consegue muito mais do que pagar suas dívidas. — Explica quase que implorando.
Reviro os olhos.
Ruby é uma stripper e como percebemos pelas suas joias ganha muito bem, algumas delas também são presentes caríssimos que ela ganha dos caras apaixonados. Desde que a conheço ela vem me chamando para fazer parte do Club, principalmente pela semelhança com a Alice do filme por ela também ter sido uma stripper.
Mas não nego que já pensei várias vezes nessa possibilidade, só que não sei como falar isso a Amy e seria difícil esconder isso de minha amiga e de meus irmãos, minha vida mudaria drasticamente.
Escuto o sininho e mais pessoas entram na cafeteria e dessa vez as amigas de Ruby adentram, rapidamente estão sentadas e as entrego os mesmos pedidos de sempre, tanto para elas quanto para Ruby.
— Quando frequentei esse lugar a primeira vez, eu não imaginava me tornar amiga da garçonete sexy. — Começa Ruby e já vejo que será mais uma de suas tentativas para me afiliar ao Club. —Você é jovem e pode aproveitar mais sua vida.
— Porra Ruby...
— Eu não saio indicando a boate que trabalho pra qualquer um tá, você está precisando.
— Ainda não cheguei a esse ponto. — Afirmo a ela revirando os olhos.
— Pelo menos vem essa noite ao Club, tenho a sensação que irá se identificar, só não se identificou ainda por que nunca foi.
— Agradeço, Ruby, mas não...
— Sabe quanto eu ganho por noite? Mais de quinhentos dólares, isso por que não estou contando os presentes, tem noite que consigo arrecadar mais de mil dólares. — Me interrompe.
— Você nunca me havia dito quanto recebia. — Tento não mostrar que me interessei pela quantia, mas é em vão.
— Não foi fácil receber esse valor, mas eu trabalhei muito. Capitu, me escuta, você se daria bem lá e poderia apenas trabalhar, quitar suas dívidas e depois cair fora como muitas fazem.
Suspiro.
Ruby sorri de lado, seu sorriso um tanto ambicioso me faz questionar, por que eu? Por que ela quer tanto que eu vá? Mas mesmo com esses questionamentos, a ideia de me juntar a elas fica cada vez mais forte.
Me viro e vou para a cozinha correndo ao banheiro sem nem avisar de minha saída repentina. Fecho a porta e retiro a touca e olho meu reflexo no espelho.
Me viro e vou para a cozinha correndo ao banheiro sem nem avisar de minha saída repentina. Fecho a porta e retiro a touca e olho meu reflexo no espelho.
Todos os dias que Ruby me chamou para se juntar a ela e as meninas nunca me deixou tão perturbada quanto agora, eu sei que preciso de dinheiro o quanto antes e sei mais ainda que essa pode ser uma saída, talvez a única possível. Não me imaginei em nenhum momento fazendo o que ela faz, nem em meus sonhos mais loucos, porem se essa é a saída para meus problemas, eu posso pensar melhor sobre.
Coloco a touca novamente e volto ao balcão, Ruby está prestes a ir embora da cafeteria, saio do balcão e corro até ela com o coração prestes a sair de meu corpo.
— Ei Ruby. — Consigo sua atenção. Ela para de andar e se vira a mim. — Eu posso visitar o local, apenas visitar. — Falo a ela que sorri de lado.
Espero estar fazendo a escolha certa.
!!!!!!!!!!!
Primeiro capitulo e ansiedade a mil ksksks Me digam o que acharam, e até o próximo em!
!!!!!!!!!!!
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