Estou Na Porta Da Sua Casa - Parte 2
Engulo seco e saio da sala às pressas, sem me importar com quem está à minha frente, eu só preciso estar bem longe para poder surtar. Adentro o vestiário e apenas algumas garotas estão presentes, assim que vejo que Ruby está aqui, me sento na cadeira ao seu lado enquanto ela retoca sua maquiagem.
Assim que ela me vê sorri, porém não diz nenhuma palavra, continua a passar sua maquiagem.
— Ruby, eu tive uma conversa estranha com Dream, ele quer que eu seja uma propriedade dele. — Solto as palavras para ela como desabafo.
Meu coração palpita menos e agora estou suando frio e um pouco arrepiada, confesso que estou com medo.
— E isso não é bom?
Fico surpresa com sua fala.
— Não é, Ruby! Isso é doentio. — Acabo gritando e chamando a atenção, ela me olha arregalando os olhos.
— Muitas aqui querem sair desse lugar com um cara rico que as banque e você está com essa sorte e ainda está reclamando? — Ela diz calmamente balançando a cabeça e articulando com as mãos.
— Eu só tive medo...
— Dream pode ser assim, mas acho que te ama.
— Não teve nem tempo disso. — A interrompo.
— Ou você o ama ou fuja, porque esses caras ricos só fazem propostas uma vez e dependendo do cara, você não tem a opção de fugir.
— Ruby, você está me assustando.
Passo a mão no cabelo, tento regular a respiração e consigo aos poucos. Tudo que se passa em minha mente agora é minha família, eu entrei nessa por eles, eu não posso ter os colocado ainda mais na merda, não posso.
— Não amiga, estou abrindo seus olhos para a oportunidade, agarre ou eu agarro. — Ruby afirma totalmente calma com a situação. Será que só eu vejo o grau disso tudo? Talvez Ruby não me entenda e não sei quem irá me entender.
Todo o meu corpo está cansado, principalmente minha mente de tanto que estou pensando no pior. Minha vontade é de chorar e cair em depressão eterna, porém preciso ser forte, preciso continuar com minha armadura de pessoa alegre e sem problemas perto daqueles que eu amo, preciso privá-los dessa parte ruim da minha vida. Eles não merecem as consequências de minhas escolhas.
Abro a porta e me deparo com minha melhor amiga assistindo tv, o volume está baixo pois ela está com minha irmãzinha dormindo com cabeça em seu colo em um sono completamente pesado, sorrio ao ver a cena.
— Chegou cedo hoje. — Amy diz quase como um sussurro.
— Sim, o trabalho foi bem tranquilo. — Minto. — Pode deixar que eu a ponho na cama.
Coloco minha bolsa no canto do sofá, vou até minha irmã, a pego no colo e a levo para seu quarto.
Assim que a deixo em sua cama, a cobri e lhe dou um beijo em sua testa. Volto a sala e antes mesmo de pensar em dizer alguma coisa Amy toma a frente:
— A gente precisa conversar. — Diz em tom firme. — Capitu, tenho pra mim que você está escondendo algo de mim.
Ai não, tudo que eu menos queria hoje era ter essa conversa com Amy.
— Por que disso? — Me faço de sonsa, por que é só isso que consigo ser no momento.
Até então ela estava de costas. Amy desliga a tv e se levanta e vem até mim.
— Eu não consigo entender esse teu trabalho, você tem noção do quanto ele te tornou submissa a ele...
— É esse trabalho que coloca comida na mesa Amy. — A interrompo.
— E o meu trabalho? Não coloca comida na mesa?
Estalo a língua e passo a mão na cabeça.
— Não foi isso que eu quis dizer, e você sabe.
— Qual é o nome da empresa? Qual é o local? Me faça acreditar. — Pede batendo em seu peito.
— Por que eu tenho que te fazer acreditar em algo que está nos rendendo?
— Não foge do assunto Capitu.
— Só me deixe retribuir tudo que fez por mim.
— Eu deixo, não estou te impedindo, só não quero voar de mais, preciso ser pé no chão e eu sou a mais velha aqui.
— Idade não entra no caso, eu sou mais jovem, porém sou tão adulta quanto. — Falo a ela me virando e indo para a cozinha.
— Então seja adulta e assuma suas verdades, pois você passa mais tempo em seu trabalho do que passa com seus irmãos, eles sentem sua falta. — Afirma me seguindo.
— E você acha que eu não sinto? Eu faço tudo por eles! — Grito com ela, Amy arregala os olhos. Eu não queria estar descontando minhas frustrações em cima dela, porém no momento eu não sei mais quem eu.
— Não fuja dos meus questionamentos, por favor. — Pede com os olhos marejados — As vezes acho que você está fazendo algo horrível, como ser prostituta, stripper ou sei lá o que.
Inclino a cabeça e me espumo por dentro, me sinto completamente constrangida e ofendida com sua fala, ela não tem culpa de não saber quem eu sou, porém tem culpa de estar dizendo uma baboseira dessa.
— Caralho, porra, cacete... — Falo baixo, porem sei que ela ouviu. — E se eu fosse Amy? O que você tem contra essas pessoas?
— Nada, só não é um trabalho digno. — Responde me fazendo a olhar com desdém, ela logo percebe. — Cacete Capitu você não é, ou é?
— Claro que eu não sou Amy, mas saiba que muitas delas não tem escolhas. — Respondo rapidamente para não dar mais suspeitas.
— Mas nós temos escolha.
— Temos? — Pergunto franzindo a testa.
Antes de Amy ousar responder vejo Tony na porta da cozinha totalmente sonolento e eu aviso Amy com o olhar, ela rapidamente limpa as lágrimas que teimaram em descer.
— Eu não queria atrapalhar a briga de vocês, mas eu tenho prova amanhã e...
— Nos desculpe Tony. — Amy fala a ele virando o rosto na tentativa de esconder seu rosto.
— Eu preciso ir dormir. — Saio da cozinha passando direto por eles e indo para meu quarto.
No instante que fecho a porta me permito finalmente me expressar. Vou até minha cama, pego meu travesseiro e coloco minha face sobre ele e grito com todo o ar que tenho em meu pulmão. Me levanto com os cabelos desarrumados, me sinto mais leve.
Não me permito chorar pois sei que se começar posso chamar a atenção com meu choro estridente, pois eu preciso chorar e extravasar de uma forma surreal.
Engulo o choro e respiro fundo, me levanto, pego minha toalha e vou para o banho.
Horas mais tarde quando percebo que todos já dormiram, me levanto de minha calma e a passos lentos vou até a porta de minha casa, destranco, saio e olho para todos os lados me certificando que não a ninguém.
Em seguida, vou até a lixeira e retiro dela duas bolsas pretas e rapidamente me encontro dentro do meu quarto. Dream passou dos limites dessa vez, ele me deixou duas bolsas pretas cheias de dinheiro, não sei nem quanto a aqui, só sei que é muito. Como vim mais cedo imaginei que Amy estaria acordada e quando cheguei vi a luz da TV pela janela e por isso coloquei as duas bolsas no lixo torcendo que ninguém visse ou que o lixeiro passasse.
Enfiei as bolsas no fundo do guarda roupa colocando umas roupas por cima, não sei até quando vou conseguir guardar esse dinheiro aqui, mas no momento o dinheiro é o menor dos meus problemas.
Meu telefone toca e no impulso atendo. Meu coração acelerou em segundos, por que alguém me ligaria essa hora da noite?
— Alô?
— Estou na porta da sua casa, dentro do meu carro. — A voz feminina diz.
— Grace?
— Por favor, venha aqui agora!
Ela desliga o telefone e me deixa extremamente preocupada. Sem ao menos pensar, corro para a rua e avisto seu carro, de pijama adentro o mesmo.
— O que aconteceu? — Pergunto assustada.
Grace está com uma feição de medo, o que me causa ainda mais angústia, está usando blusa e calça moletom, se parece até comigo no momento.
— Você vai aceitar a proposta de Dream?
Sua pergunta me assusta ainda mais, principalmente o modo áspero que ela pergunta.
— Não tive tempo de pensar sobre isso ainda, mas como você sabia? Eu contei só pra Ruby. — Questiono incrédula.
— Deveria ter pensando antes de contar em um vestiário cheio de mulheres fofoqueiras.
Bufo alto e sai quase como uma risada.
— Mas ainda não significa você estar aqui a essa hora no seu carro me botando uma pilha de medo. — Falo a ela articulando as mãos.
Ela leva sua mão ao porta luva o abrindo e retirando folhas recortadas de jornais e jogando em meu colo.
— O que é isso? — Pergunto pegando as folhas.
— Leia todos eles. — Pede firme e assim eu faço.
— Todas mulheres desaparecidas. — Falo a ela minhas observações e ela me olha ainda mais triste. — O que está havendo?
— Essas cinco mulheres desaparecidas tiveram contato direto com Dream.
Arregalo os olhos e engulo seco.
Passo os olhos pelas folhas e tudo que me vem à mente são meus irmãos e minha amiga, meu estômago embrulha e minha respiração fica rápida.
— Onde você quer chegar? — Pergunto com a voz falha, mas firme.
— Elas faziam parte do Club Capitu, e você está se encaminhando para ser a sexta e eu não vou deixar.
Meus olhos se enchem de lágrimas, e olho para cima tentando deixá-las nos olhos e depois que percebi que meu lado frágil já se foi, tento voltar a dialogar.
— Grace, eu preciso de mais explicações, eu...
— Hilary, Amélia, Brooke, Kelly e Cindy, todas elas foram perseguidas por Dream, elas não eram nada antes do Club, ele fez isso com você e você caiu como elas.
— Como? — Pergunto como suplica.
— O nome verdadeiro dele é Bernard, Bernard Parker. Dream é um apelido que foi dado, ele é sobrinho do dono do Club e quando atingiu a maioridade se tornou sócio. Bernard sempre tem atos psicóticos, ele nunca se interessava por nenhuma mulher do Club e muito menos por uma mulher que o quisesse, elas tinham que ser inalcançáveis no início. — Cada palavra dela me faz ter a certeza de que meu medo por ele não foi em vão, se intensificou cada vez mais. — Os problemas já vinham antes dele, metade das meninas que você conhece e que não saem da boate, na verdade são traficadas e não podem pisar em falso e devem até ser atrizes para atrair mais mulheres.
— Como eu não percebi? — Sussurro a mim mesma passando as mãos fortemente pelo meu rosto. — Por que está me contando isso agora depois de eu ter entrado nesse erro? — Pergunto a ela com muita dor no peito.
— Porque tudo foi programado para que você não desconfiasse de nada, além de que minha vida está em jogo neste momento, não só a minha e sim de várias meninas! — Enfatiza me olhando nos olhos com um olhar de pavor.
— Muita coisa para minha cabeça.
— Calma que isso não foi nem metade.
Pisco rapidamente ao ouvir isso.
— Então continue. — Peço voltando a olhar para as folhas em meu colo.
— Eu era jornalista antes de ir fazer uma matéria e nunca mais ver minha família novamente. Acabei me acostumando com os anos e a ter medo das pessoas, eu conheci as cinco meninas e sei que tentei, mas Bernard escolheu a dedo. — Aponta para as folhas. — Todas elas eram pessoas comuns, mas que tinham um único desejo, se tornarem ricas. Dream como um bom psicopata seguiu cada uma delas, viu cada família, conheceu cada passo delas e depois obrigou as strippers para ir até elas, oferecem o emprego, depois de um tempo elas conhecem ou reencontram o Dream e com poucos meses elas se tornam suas propriedades. Elas ficam tão cegas pelo dinheiro que não questionam uma só palavra e entram num relacionamento completamente tóxico, ele é violento, mau caráter e tudo que a de ruim.
— Grace...
— Eu tentei avisar todas elas, quatro delas me ignoraram e preferiram seguir as ordens dele, mas quando cansaram acabaram tendo o mesmo fim. Uma delas acreditou em mim, tentou fugir, mas era muito ingênua e confiou tudo a empregada, porém ela também tinha medo e acabou tendo o mesmo fim. Ela era a Amélia e foi a única que foi tão longe, chegou a ficar noiva dele e ser mostrada a publico.
Pego a foto de Amélia que foi recortada do jornal, ela era tão linda, cabelo cacheado de pele retinta e um sorriso arrebatador, parece ter sido uma pessoa doce.
— Onde está a polícia? Família?
— A família dele não quer enxergar o que ele faz, as das vítimas nem se importaram tanto, só a família da Amélia e da Cindy que esperam até hoje justiça. Bernard é um cara bom e grato pela família dele e a polícia, bom, você acha mesmo que a polícia é tão confiável? Você pode contar nos dedos quem realmente pode contar. — Mordo os lábios, suspiro e digo baixo "Não pode ser" várias vezes seguidas. — Mas você é diferente das outras meninas Capitu, você não quer só o dinheiro, você faz tudo pelos seus irmãos e por isso eu sei que você vai ter uma atitude diferente das outras meninas, pois você tem pessoas que não quer deixar para trás e por isso eu estou aqui.
— Não sei como eu pude cair nessa, eu sou tão... mas tão...
— Ingênua? Sim, você é, você tem dezenove anos e tem desejos como toda jovem mulher, mas tem pé firme e sabe seu objetivo, só que Bernard não percebeu esse lado, eu tenho certeza que ele apenas te viu como uma garota ingênua que faria de tudo por dinheiro, ele não olhou nas entrelinhas.
Eu estou com medo, não posso negar isso a ninguém, mas eu tenho mais medo ainda do que isso causa na minha família. Eu me sinto burra, porém posso mudar esse jogo e o que me deixa brava são essas cinco mulheres que estão sem justiça no momento.
Toda tensão e paixão que eu tinha por Dream ou Bernard, a porra do nome desse infeliz, sumiu nesse momento. O que me resta é ódio, pavor e respeito pela trajetória dessas cinco mulheres. Eu tenho que lutar, eu preciso ser ainda mais forte.
Sei que nada será fácil e sei principalmente que isso atrai ainda mais perigo, no entanto não quero ser a sexta mulher, mas se eu for, quero ser a última.
— O que você quer que eu faça? — Pergunto a Grace.
— Quero que se junte a mim e às meninas e nos ajude a derrotar Dream, você é a peça principal para que todo o pesadelo acabe.
— Estou me tremendo de medo, mas eu faço qualquer coisa.
!!!!!!!!!
É gente, a vida da nossa Capitu só piora. Vem aí em! Me digam suas impressões!
!!!!!!!!!
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