Estou Na Porta Da Sua Casa

Quando eu era criança, amava brincar de boneca e eu tinha um sonho de ter uma que fosse do meu tamanho. Meus pais não tinham condições, então eu montava uma com travesseiro e lençol, pois assim eu poderia ter a minha sonhada boneca.

Mas eu não queria a boneca apenas para brincar, queria ter uma melhor amiga, já que eu não tinha uma e as amizades que eu fazia não duravam muito tempo. Então conhecer a Amy foi como se meu desejo de pequenininha se realizasse, a tal ponto que faria de tudo por ela.

Esconder e criar mentiras a ela me sufoca, pois ela é minha melhor amiga e me ajudou muito quando precisei.

Acordei com esses pensamentos pela manhã, isso está tirando meu sono e meus pensamentos estão sempre confusos, parece que a algum momento irei desmoronar. Me vesti com minha farsa e saí para o trabalho imaginário.

Ainda estou me sentindo vazia, por isso decidi almoçar em um lugar chique e caro, para pelo menos me sentir vazia, mas no lugar certo.

Adentro o ambiente, o restaurante é iluminado em tom dourado, tem as cadeiras acolchoadas, em cima da mesa a um aromatizante de baunilha no centro, o cheiro me conforta. Me sento à mesa e logo o garçom vem até a mim, faço meu pedido e pego em minha bolsa uma revista para ler.

Folheio algumas folhas até que escuto meu nome em uma voz rouca e mansa:

— Capitu.

Olho para o lado e avisto Nathan, o irmão de Dream que acabei encontrando na escada em sua casa. Inclino a cabeça para o lado e sorrio timidamente.

— Ah, oi.

Ele está a usar uma jaqueta jeans clara e camiseta branca por baixo, calça jeans escura e completamente mais apresentável que a noite que o conheci, a barba está feita e ele não possui cabelo em sua cabeça. Até mesmo eu estou mais apresentável e mais confortável com a situação.

Me levanto e o cumprimento com um aperto de mão. Estou tentando passar a normalidade quando não sei como agir nesse encontro inesperado.

— Eu vi o seu cabelo rosa e imaginei que fosse você. — Ele começa a dizer. — Ainda bem que te encontrei porque queria pedir desculpa pela forma que me viu.

— Imagina, foi você mesmo que disse que estava tendo um dia difícil. — O relembro sorrindo.

Nathan inclina a cabeça e espreme os lábios balançando a cabeça levemente dando a entender que se lembrou do nosso curto e constrangedor diálogo.

— Você está sozinha?

— Sim, estou.

— Posso lhe fazer companhia?

— Claro. — Eu ia dizer não, mas senti que deveria dar uma chance.

Ele senta na cadeira em minha frente e pega o cardápio.

— Você vem sempre aqui? — Pergunto guardando minha revista.

— Almoço sempre aqui, a comida daqui é uma delícia. — Sorri ao completar a frase e eu solto uma risada baixa com sua empolgação. — Nunca te vi por aqui. — Afirma esboçando expressão de dúvida.

— Minha primeira vez, eu precisava frequentar um lugar diferente.

— Meu irmão falou muito de você.

— Falou? — Acaba soando um pouco empolgada e assim que percebo fico completamente constrangida.

— Sim, ele realmente gosta de você.

Ouvir isso da boca do irmão dele faz meu coração sorrir, mas mesmo sentindo que isso possa ser bom só consigo pensar que eu sou a garota que ele paga para dançar por cima dele nas noites que se sente só.

Essa afirmação não pode subir meu ego, pois tenho coisas maiores para me importar.

— Então você sabe muito sobre mim?

— O suficiente. — Ele responde sorrindo de lado.

— Suficiente quanto?

— Bom, sei que você trabalha a noite, acho que isso é o suficiente.

— Acho que sim.

Nathan chama o garçom e faz seu pedido e logo em seguida outro garçom traz minha comida.

— Me desculpe a pergunta, mas por que você estava triste? — Sua feição alegre muda para uma mais triste e tensa.

Enquanto o ouço vou comendo.

— Eu era noivo. Minha noiva terminou comigo naquele dia, mais especificamente ela me traiu e me trocou por um cara mais rico.

Arregalo os olhos e engulo a comida com força que minha garganta acaba doendo. Então é assim que funciona essa vida de socialite.

— Uou, sinto muito. Pense que pode ser um livramento. — Tento achar um alívio em toda essa confusão.

— Até foi, só que estávamos juntos a quase cinco anos, Dream estava certo sobre ela.

— Você e seu irmão tem uma relação bem próxima.

— Temos sim, nós fomos jogados no orfanato quando bebês e saímos juntos, foi praticamente destino. — Nathan afirma mudando totalmente a postura, sua voz se encontra mais mansa e objetiva.

— Não sabia dessa história. — Digo e volto a comer.

— Meu irmão não gosta de mencionar muito, mas somos. Nossa mãe é coreana e nosso pai estadunidense. Não podiam ter filhos e resolveram adotar, no fim adotou dois irmãos, um de cinco e um de sete anos.

Limpo minha boca com o guardanapo.

— Aposto que você é o de cinco.

— Acabou de ganhar a aposta.

Rimos.

— Você tem um sorriso bonito. — Ele elogia e acabo sorrindo mais. — Tem um sorriso verdadeiro, singelo e muito angelical. — Nathan diz quase como um sopro e olha para mim como se tentasse arrancar minha alma, ele está paralisado e quando percebe passa a mão na nuca e sorri rindo baixo. Me senti um pouco desconfortável e por isso também dou um riso baixo. — Você tem irmãos? — Ele muda de assunto.

— É... — Engulo seco. — Tenho, tenho sim, tenho dois, Anny e Tony.

— O seu nome é diferente do deles, peculiar. Algum significado? — Pergunta engrossando a voz, tenho pra mim que está tentando chamar minha atenção.

— Vou deixar você pensar sobre. — O que foi isso?

— Misteriosa. — Ele tenta me intimidar e acaba funcionando.

— Eu tento.

Dou um sorriso forçado para não demonstrar o quanto esquisito foi esse momento. Pelo visto nunca iremos parar de termos momentos estranhos.

— Me desculpe a observação, mas você já pensou em fazer outra coisa sem ser... Você sabe...

— Stripper? Eu não tenho vergonha, pode dizer.

Sei que quando assumi entrar nessa vida, eu deveria ser honrosa comigo mesma e com as garotas que eu trabalho, por isso o seu questionamento não me ofende, na verdade sinto curiosidade em suas palavras e está tudo bem, desde que a pessoa não ofenda.

— Me desculpe novamente...

— Não, eu entendo a curiosidade. Eu não tive tempo pra pensar em me formar, meus pais morreram me deixando com dezesseis anos e com duas crianças pra cuidar, a sorte é que tinha minha amiga Amy e a avó dela, assim evitou que caísse em lares adotivos e me separasse de minha família. Só que eu queria ter estudado mais, estar fazendo uma faculdade de administração ou qualquer coisa do tipo, mas a vida não foi justa comigo.

— Deve ter sido difícil, eu tive a sorte de não ter sido separado do meu irmão e ainda ter sido adotado junto dele.

— E adotado por uma família rica que pode dar tudo a vocês. — A realidade de uns nem sempre a realidade de outros. Suspiro antes de voltar a falar. — Eu trabalho para que meus irmãos tenham futuro, não ligo muito pro que será de mim nos próximos anos.

Ele sorri quando me ouve e sorrio de volta por saber que essa é minha realidade desde que me entendo por gente. Não pretendo parar por aqui.

A comida dele chegou e por ironia acabei de terminar a minha. O almoço acabou sendo muito mais do que esperava que fosse.

Começo a olhar ao meu redor e vejo pessoas importantes sentadas comendo e saboreando de suas comidas, conversando sobre negócios enquanto eu sou apenas um nada para ele. Consegui perceber que essa realidade nesse restaurante chique, comida importada não é a minha realidade, foi bom enquanto durou, mas não deveria estar aqui, ainda me sinto vazia.

— Tenho que ir agora.

— Sério? Sua companhia estava ótima.

— Eu só, preciso ir, só isso.

— Espero que não tenha sido nada do que conversamos...

— E não foi, você é uma pessoa boa Nathan, eu que ainda tenho assuntos pendentes comigo mesma.

Me levantei pegando minha bolsa e retirando minha carteira, estou suando um pouco frio e só desejo ir embora.

— Não, eu insisto em pagar, não se preocupe.

Sorrio em forma de agradecimento.

— Lhe devo um jantar então?

— Combinado.

Ele sorri, não havia notado como seu sorriso é largo e gentil.

Guardo a carteira novamente na bolsa e me dirijo a saída, respiro fundo quando saio do restaurante aliviada por estar a voltar a minha real vida e realidade.

Adentro a sala onde já encontro Dream sentado esperando por mim, corro os olhos delicadamente por ele. Seu sorriso é literalmente um pedido, para que tudo comece de uma vez.

Sorrio maliciosamente enquanto caminho em passos lentos ao Poli. Usando uma lingerie ousada e em tons de rosa, começo a fazer meus movimentos, até que o escuto me chamar e viro meu rosto vendo ele insinuar para que me sente ao seu lado e assim o faço.

Dream chega seus lábios perto dos meus e selamos um beijo rápido, tão rápido que não dá tempo de sentir qualquer sentimento, ele se afasta me fazendo pensar que talvez tenha entendido seu pedido totalmente errado, além de estar confusa com o que houve aqui e não consigo esconder minha feição estranha.

— Soube que se encontrou com meu irmão. — Ele afirma colocando sua mão sobre minha coxa e a massageando.

— Sim, acabamos almoçando juntos. — Respondo um pouco ofegante por sentir que sua mão está cada vez mais perto do meu ápice.

— Falaram algo de importante que eu deva saber? — Pergunta retirando sua mão, me deixando sem reação.

— Não que eu saiba... Por que a pergunta? — Ergo a sobrancelha.

— Só queria saber.

— Você não parece apenas que queria saber.

Dream me olha receoso e eu o olho confusa, ele está pagando para que eu fique dando uma de psicóloga?

— Eu só queria saber, não se preocupe, na verdade isso foi bom, pois tenho uma proposta a você.

Dream coloca sua mão novamente em minha coxa e chega mais perto colocando sua mão livre por cima de meus ombros.

— O que seria?

— Quero que você saia daqui, venha trabalhar em minha empresa, quero lhe dar tudo que tem direito.

Semicerrei os olhos, empurrei sua mão de minha coxa e me levantei passando a mão em meu rosto. Ando um pouco em círculos até ter uma noção mais clara do que ele me pediu.

— Você está me oferecendo sair daqui para ser apenas sua? Como uma propriedade? — Questiono piscando algumas vezes em seguida.

— Não seria muito diferente daqui.

A fala me deixa pensativa.

— Não, não seria, mas seria como serviço particular e eu não quero ir rápido assim, eu tenho uma família.

— Eu também tenho e eu quero ser seu. Por que todo o espanto?

— Por que? Por que... eu não esperava.

Solto uma risada um pouco estranha.

— Eu posso pelo menos pensar sobre tudo isso? — Pergunto coçando a bochecha em seguida.

— Você tem até amanhã quando eu voltar aqui para me dar uma resposta. — Ele diz firme, tão firme que me assusto com o tom de sua voz. — E você irá pelo seu bem. — Afirma ríspido.

Arrepio de medo.

Nunca havia o visto com esse olhar, parece até que não conheço quem está tentando ter algo comigo. Um frio na barriga me possui por completo e dou passos lentos para trás até me sentir longe o suficiente.

— Você não está me dando escolha? É isso mesmo?

— Você é minha. — Ele me responde rapidamente se levantando e vindo até mim.

Ele fica frente a mim e inclina sua mão a passando levemente pelo meu rosto, rosno baixo e suspiro.

— Eu sou minha, não tenho dono. — Digo empurrando sua mão de minha face.

— Mas agora tem. — Diz rispidamente.

— Você está me assustando Dream! — Exclamo e me afasto indo para uma direção oposta à dele.

— Me desculpe se fui agressivo ou rude, — altera a voz para a voz que sou acostumada a ouvir, meu coração se acalma junto — só quero que você venha comigo, aqui eu posso te dar uma vida de luxo, mas você continuaria mentindo para aqueles que ama. Eu não irei suportar você com outros caras se não for eu. O serviço foi feito, pode ir para casa e pensar sobre o caso, mas antes pegue seu pagamento com a Layla.

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Deu quase 5K o capitulo, por isso dividi em dois, espero que gostem!!
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