Capítulo 4 - Lembrança ruim

Acordei assustado com o despertador do celular tocando. Levantei rapidamente pra chamar Alice, mas quando olhei pra cama ela não estava lá. Peguei meu celular e tinha uma mensagem dela:

Me desculpa e obrigada😔

Olhei par a cama bagunçada me sentindo meio decepcionado. Eu esperava acordar e ver Alice ali, conversar com ela sóbria e saber o que tinha acontecido. Isso teria que ficar pra depois.

Tomei um banho, arrumei meu quarto escondendo as evidências que eu tinha dormido no chão e coloquei a roupa de cama pra lavar, peguei meu material e meu uniforme do trabalho. Hoje eu ia direto da escola pra lá. Eu trabalho em um restaurante fast-food, um local muito agitado e barulhento, seria difícil lidar com o trabalho com tantas coisas na cabeça.

Sai de casa olhando para os lados na esperança de ver Alice, mas nada dela. Na escola também não. Ela não foi à aula. Devia estar com baita ressaca e deve ter inventando alguma mentira para o pai deixá-la faltar. Combinei com meu grupo de ensaiarmos a música da aula de artes no fim de semana e fui trabalhar.

No trabalho foi como eu imaginava. Muito corrido e cansativo, mas isso foi bom porque as horas passaram mais rápido. Meu lugar normalmente é no caixa, mas hoje eu estava cobrindo a folga do rapaz das bebidas e sorvetes por isso passei o dia todo preparando Milk-shake, Sunday e servindo refrigerantes.
Quando já estava acabando meu turno fui chamado para conferir o caixa e uma voz conhecida disse:

— Quero um Milk-shake de chocolate com cobertura extra, por favor? — era Alice.

Levantei os olhos, meu coração bateu mais forte e o alívio de vê-la bem, me fez sorrir feito bobo.

— Pode deixar que esse eu faço. — falei para o rapaz que já tinha chegado pra me render o turno.

Preparei o Milk-shake e entreguei pra Alice, tirei meu uniforme e sai. Ela estava me esperando pra irmos embora junto.

— Oi — falei

— Oi — ela respondeu

— Então... — falamos os dois juntos e rimos

— Pode falar. — concedi.

— Queria me desculpar pela confusão. Está tudo meio bagunçado na minha cabeça ainda. Eu queria que a noite passada não tivesse acontecido. — Alice sugou o Milk-shake após soltar um longo suspiro.

— Antes de mais nada Feliz Aniversario Ali! — falei entregando a ela uma caixinha pequena com meu presente.

Ela abriu o embrulho que revelou um delicado colar ao estilo relicário, ele era todo de vidro e tinha uma uma borboleta azul dentro. Nós vimos esse colar vendendo em uma de nossas visitas à praia, semanas atrás, e Alice ficou encantada, passou horas me falando sobre como amava borboletas e sua simbologia. Assim que ela se distraiu eu voltei e comprei o colar, me certificando de que não haviam outros iguais para não estragar minha surpresa. Ele ficou guardado desde então na minha bolsa para entregar a ela no seu aniversário. Alice ficou boquiaberta por um instante e depois sorriu, mas percebi que seus olhos marejaram quando ela entregou a correntinha para que eu a colocasse nela.

Se virando de costas ela levantou o cabelo e eu tentei disfarçar que minhas mãos tremiam enquanto eu fechava o colar sentindo o cheiro delicioso de morango e baunilha que exalava de sua pele.

— Obrigada Ed...não precisava... — ela falou ainda de costas pra mim colocando sua mão sobre a minha.

— Me perdoa por ontem? — pedi ainda próximo ao seu ouvido terminando por fim de fechar a correntinha e segurando em seu ombro.

— Eu que te devo desculpas e preciso também te agradecer por cuidar de mim.  — ela respondeu ficando de frente a mim.

— Não precisa agradecer. Eu só estou preocupado com você. O que realmente aconteceu pra você ficar naquele estado? — Perguntei sem rodeios

— Ed... Foram tantas coisas... Primeiro meu pai, ele vai se casar! E chegou em casa com ideia de irmos embora pra outra cidade!

Meu estômago revirou com essa notícia. Alice não podia ir embora! Ela continuou a falar:

— Aí, briguei com ele, as coisas ficaram pesadas, ele foi trabalhar e me deixou trancada... — ela suspirou —  eu precisava sair de casa! Então aceitei ir naquela maldita festa. Me arrumei, pulei a janela e deixei um bilhete desaforado para meu pai, dizendo que ele não tinha o direito de me prender. Cheguei lá e me arrependi imediatamente, não tinha ninguém conhecido, minhas amigas me deram bolo e você também.

As brigas dela com seu pai eram recorrentes, foram aumentando conforme ela ia crescendo e isso me deixava revoltado. Eu não conseguia entender suas atitudes, muitas vezes raivosas e enciumadas, que me fizeram deixar de frequentar a casa dela quando ele estava por lá. Para evitar que eu o confrontasse Alice parou de me contar detalhes sobre suas brigas com o pai, então só o fato de ela mencionar isso me deixava preocupado.

— Eu não vi sua mensagem a tempo... me descul...

— Deixa eu terminar. — Alice me cortou. Ela parou e olhou em volta, estava tomando coragem para me contar. Já estávamos perto de casa, em uma pequena praça que estava vazia devido ao horário. Alice ficou de frente pra mim e respirou fundo. Seu rosto estava muito sério e seus olhos começaram a encher de lágrimas. Eu estava ficando cada vez mais preocupado. 

— Decidi ficar na festa, porque não queria voltar pra casa. Um garoto se aproximou de mim e começamos a conversar. Eu bebi duas ou três cervejas e a partir daí as lembranças ficam um pouco confusas...

— Ele te deu algo para beber? 

— Não, eu estava com meu copo. Eu nem estava a fim de conversar com ele. Revirei as lembranças na minha cabeça o dia todo e ainda não consigo entender... devo ter bobeado enquanto mexia no celular.

Senti uma pontada de culpa enquanto imaginava Alice esperando uma mensagem minha. Nada disso teria acontecido se eu não tivesse agido de forma tão infantil, se tivesse respondido suas mensagens. Alice suspirou e continuou falando.

— Disse para ele que não estava me sentindo bem, ele me ofereceu uma carona e me levou para o carro dele. Eu estava muito zonza Ed... não conseguia raciocinar direito e só me deixei levar. 

Meu coração estava disparado e eu passei a mão pelo rosto angustiado demais com o que estava ouvindo. 

— Entrei no carro e falei onde morava. Quando tentei colocar o cinto, ele me impediu e começou a passar a mão em mim... Insisti dizendo a ele que não queria, que não estava me sentindo bem... Tentei sair do carro e o idiota me impediu, dizendo pra eu ficar quieta, pois ele sabia que eu também queria. Quanto mais eu resistia, mais violento ele ficava. O infeliz sorria, se divertindo com meu desespero. Estava muito enjoada, minha cabeça doía... Ele me arrastou para o banco de trás e me prendeu debaixo dele... Por mais que chorasse pedindo que parasse, me deixasse em paz... ele continuava...

Enquanto Alice falava as lágrimas corriam pelo seu rosto, ela fazia algumas pausas entre os soluços e se envolvia com os próprios braços como alguém que procura consolo. Conforme ela ia relatando senti que minhas tremiam e meu sangue fervia de raiva. Dele e de mim! Eu não aguentava vê-la sofrendo assim, eu não aceitava que alguém tivesse feito isso com ela! E me culpava por não tê-la protegido.

— Quem é ele? Eu conheço? — falei muito mais alto do que eu queria.

Alice se assustou com minha reação e deu um passo pra trás instintivamente.

— Ele te drogou e te encurralou... Alice me diz se você lembra quem é esse babaca... - falei da forma mais suave que consegui me aproximando um pouco dela.

— Não! Ed, eu não quero mais pensar nisso! Eu só precisava te contar! Porque você me viu daquele jeito e você me ajudou... - Alice balançava a cabeça e as mãos tentando se explicar. — Eu não entendo como eu fui tão burra! De entrar naquele carro mesmo sentindo que algo estava errado comigo! - ela falou cabisbaixa enquanto tentava secar as lagrimas que lavavam seu rosto. 

Não resisti ao ímpeto e a abracei. Eu era mais alto que Alice e meu abraço a envolveu fazendo com que repousasse a cabeça no meu peito. Primeiro ela se assustou, provavelmente porque não esperava isso de mim. Mesmo sendo amigos, em certo momento, passei a evitar esse tipo de contato físico. Era difícil pra mim, controlar tudo o que sentia por ela tendo-a tão perto. Mas agora ela precisava e eu faria o que fosse necessário para que ela se sentisse melhor.

— Me desculpa por sair sem te avisar, mas assim que despertei as lembranças  voltaram com tudo e eu... — soltou um longo suspiro — Eu precisava voltar pra casa antes que meu pai chegasse.

Apertei ainda mais nosso abraço sentindo sua respiração se acalmar aos poucos e torci para que ela não percebesse o quanto meu coração estava disparado. Após alguns minutos assim eu fiz a pergunta que estava me sufocando por dentro:

— Ele... Ele te fez... Ele conseguiu... — me enrolei com as palavras, não sabia com perguntar isso sem feri-la ainda mais.

— Não. Eu fiquei muito nervosa tentando me desvencilhar dele e estava muito enjoada aí eu vomitei. Sujei tudo, ele e o carro. Ai ele ficou bravo e com nojo, saiu de cima de mim para se limpar e eu fugi. — ela respondeu baixinho ainda abraçada comigo.

Respirei aliviado, mas a raiva ainda estava correndo pelas minhas veias. Abaixei o rosto e beijei o topo da cabeça dela inspirando profundamente e me acalmando com o cheiro doce dos seus cabelos. Suas mãos subiram pelas minhas costas me causando sensações que eu precisava controlar. Descolei nossos corpos rapidamente e pra disfarçar o meu impulso estranho eu perguntei:

— Você não vai mesmo me dizer quem fez isso com você?

— Não! Isso não é importante Ed! Você quer fazer o que com essa informação? —  ela retrucou colocando as mãos na cintura e só por essa ação já percebi que estava irritada.

— O que quero fazer? Quero quebrar a cara desse babaca! Quero denunciar ele pra polícia! Quero que você pare de sair com caras idiotas que não se importam de verdade com você! — eu respondi quase gritando e me arrependi em seguida.

Alice deu dois passos para trás. Ela não esperava isso de mim, seu rosto transpareceu sua decepção.

— Então você acha que a culpa é minha? É isso que você tá dizendo? — me perguntou em um fio de voz.

— Não... Não é isso que eu quis dizer... — gaguejei. —   Eu só quero dar a esse cara o que ele merece!

— Você vai bater em alguém? Ele só iria te machucar! Você não é meu super-herói Ed, eu não posso depender de você para me defender! Só vim contar isso pra você porque te devo uma explicação e porque achei que era meu amigo!

Alice virou as costas e saiu andando. Há alguns minutos estávamos abraçados e agora isso? Não dava pra acompanhar as mudanças de humor dessa menina! Apertei o passo e tentei alcança-la, mas não sabia exatamente o que dizer pra ela. Me enchi de coragem e antes de chegar nas nossas casas segurei ela pelo braço fazendo ela virar pra mim.

— Escuta! Coisas ruins aconteceram na sua vida, mas a culpa não é sua! Eu só fico bravo porque parece que você tem imã pra confusão e para garotos errados. Eu me preocupo com você Alice. Às vezes é difícil ser seu amigo porque eu... eu... Gosto muito de você! — foi só o que consegui dizer após engasgar no meio da minha confissão.

Alice me encarou os olhos marejados novamente. Ela demorou alguns segundo pra responder:

— Eu sou estragada, Ed! Não presto pra nada, meu pai está certo  Nada na minha vida da certo! A única coisa boa que tenho é a nossa amizade. Eu não quero perder nossa AMIZADE. — Ela frisou bem a ultima palavra.

Um silêncio constrangedor se instaurou entre nós enquanto nos olhávamos. Haviam tantas coisas que eu poderia responder, mas eu já tinha falado demais. A atmosfera de coisas não ditas ficou pesada demais. Alice virou as costas e entrou correndo na casa dela.

Eu pensei em segui-la e continuar minha confissão, mas desisti e fui pra casa ainda me sentindo engasgado com tudo o que perdi a oportunidade de dizer pra ela.

Olá de novo!!! Algum palpite do que esta pra acontecer nessa história? O que vocês estão achando? Não esqueçam de comentar e deixar essa escritora aqui feliz. Beijos

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top