020
Point of view: Narrador
Aquela manhã estava sendo difícil tanto para Lisa quanto para Chiquita. Lalisa se arrependia profundamente do que havia feito, chorava sem parar, com um peso enorme em sua consciência. Jennie tentava acalmá-la a todo custo, oferecendo água, remédios para dor de cabeça e tudo o que precisava.
A babá acabou por dormir lá, passou a noite cuidando de Lisa e vigiando para que não saísse no meio da noite.
— Eu fiz mesmo isso? — perguntou, deixando uma lágrima pingar no chão. Jennie assentiu, afagando suas costas. — Por que não me impediu? Eu estava bêbada, Jennie.
— Você jogou a garrafa no chão segundos após chegarmos. Mas você não chegou a bater na Chiquita porque a Ahyeon afastou você dela.
Lisa enterrou os dedos entre seus fios morenos e abaixou a cabeça, pensando em como faria para fazer as pazes com Chiquita.
— Não, não, não, não! Eu sou uma idiota — puxou seu próprio cabelo. — Ela nunca mais vai olhar na minha cara — chorou. — Jennie, me ajuda, o que eu faço? — olhou para Jennie, implorando por uma ideia de como fazer Chiquita perdoá-la.
— Bom, ela comentou comigo e com Mina que a semana está muito corrida, já que está se preparando para uma competição de dança muito acirrada e, se ela ganhar, vai competir internacionalmente. Você poderia ajudá-la no treino, já que ela reclamou que não estava conseguindo fazer um passo.
Seus olhos encheram-se de esperança, e, por conta do calor do momento, segurou o rosto de Jennie com as duas mãos, deixou um selar rápido em sua testa e falou:
— Você é a melhor, Jennie! Obrigada!
Levantou-se do sofá em seguida e foi até a chave do carro.
Jennie ficou sem reação, seu coração palpitava tão forte como o bumbo de uma bateria. Sentir seus lábios molhados terem contato com sua pele a deixou arrepiada, mesmo sendo apenas um beijo na testa.
Ao voltar à realidade, viu que Lisa procurava sua carteira em todo lugar.
— A Chiquita está na escola agora.
— Eu sei, vou conversar com a professora de dança dela e pedir pra ela me passar os passos da coreografia.
— Vai conseguir tudo em um dia?
— Pela minha filha, eu consigo tudo — encontrou a carteira e a colocou no bolso de trás de sua calça.
Há mais de cinco anos que Lalisa não dançava. Ela havia parado por conta de um pequeno trauma. Ela quebrou a perna dançando, e depois disso, nunca mais ousou pisar em um estúdio de dança. Mesmo traumatizada, estava disposta a fazer de tudo para recuperar a confiança e o amor de sua filha, mesmo sem tê-los perdido.
Ela foi até o estúdio onde Chiquita tinha aula de dança e conversou com a professora, que se dispôs a ajudá-la. Lalisa não deu detalhes do que aconteceu entre elas, mas falou que Chiquita estava brava com ela.
O restante do dia foi corrido e puxado, pois a coreografia era bem difícil e Lalisa ainda tinha medo de fazer determinados passos de dança, mas no final, deu tudo certo.
Chiquita chegou e foi ensaiar com sua professora, mas até então, Lisa estava escondida. A garota optou por ficar ensaiando mais um pouco, e como sua professora confiava bastante nela, deixou as chaves do estúdio com ela e pediu para que ela fechasse.
— Ah, droga! — exclamou ao cair no chão pela décima vez.
Respirou fundo três vezes antes de se levantar e tentar o passo novamente. Lalisa viu a oportunidade e entrou de fininho na sala, dando um pequeno susto em Chiquita.
Seu olhar repleto de dor encontrou os olhos de sua mãe, e aquela expressão acabou com Lisa em mil pedaços. Ela se aproximou lentamente, enquanto Chiquita, meio receosa, se afastava devagar.
— Desculpa... Eu estava bêbada, foi errado o que eu fiz. Pra sua informação, fiz de tudo pra conseguir sua confiança novamente e pra recuperar seu amor.
— Você é minha mãe, nunca perdeu meu amor. Mesmo me machucando muito, não consigo te odiar. Eu até tento, mas é impossível — sua voz estava firme, suas mãos tremendo e seu rosto suando frio.
— Volta comigo hoje, eu deixo você jogar fora ou quebrar todas as garrafas de cerveja e pinga que tenho em casa.
— Não vai me bater se eu fizer isso?
— Não. Eu não vou. Aquela mulher de ontem não era eu. Aquele corpo de ontem estava consumido por álcool, e você sabe o que o álcool pode fazer com uma pessoa.
— Eu não sei.
— Hoje eu não quero brigar, não quero te machucar, não quero te fazer ter medo de mim — se aproximou mais. — Eu quero te ajudar a pegar essa coreografia pra te ver brilhando nos palcos, carregando o meu legado junto com você.
Uma lágrima escorreu do rosto de Chiquita quando ficou a centímetros de sua mãe, abrindo os braços e os envolvendo em sua cintura fina. Mesmo com medo, com receio, ela sabia que aquela mulher não estava embriagada, e que, sóbria, Lalisa não teria coragem de machucá-la daquele jeito.
Odiar sua mãe? Nunca. Ela nunca odiaria a única pessoa que a inspira desde pequena.
— Vamos logo! — se afastou. — Esse passo que você tava fazendo parece impossível, né?
— Muito.
— Ok, vamos, eu te ajudo. Confia em mim, se cair, eu te seguro — ficou atrás dela. — Flexiona os joelhos...
Chiquita seguiu as instruções de sua mãe e começou a treinar aquele passo muitas vezes, agora já sem o apoio de Lalisa.
— Mais uma vez — ordenou com voz firme, observando Chiquita pelo espelho. A garota repetiu o passo imperfeitamente. — Mais uma vez — Lisa colocou as mãos na cintura, vendo sua filha dançar quase perfeitamente. — Mais uma vez.
— Calma — pediu, buscando por ar. O suor já pingava de seu rosto, sua garganta seca, implorando por água. — Só um minutinho.
— Não existe um minutinho quando você está treinando para uma competição que pode mudar sua vida. Mais uma vez! Anda — ordenou, e Chiquita obedeceu.
E assim seguiu parte da noite, ensaiando até não sentir suas pernas. Apesar de Lisa ser muito rígida, conseguiu fazer Chiquita aprender aquela parte e executá-la perfeitamente. A garota agradeceu quando Lalisa disse que já poderiam ir embora.
— Eu não sinto minhas pernas — choramingou, enquanto era carregada por Lalisa até o sofá, onde Jennie se encontrava assistindo TV com Ellen dormindo em seu colo.
— O que aconteceu? — perguntou, olhando para Lisa e Chiquita, que estava sendo colocada no sofá.
— Ela me fez treinar até eu não sentir minhas pernas. Eu me traumatizei com a frase "mais uma vez" por culpa dela — apontou para sua mãe, indignada.
— Pelo menos você conseguiu fazer o passo. Inclusive, com quem aprendeu a ser tão chantagista? Acredita que ela me fez uma chantagem para eu trazê-la no colo?
— Acredito — Jennie afirmou, rindo.
Lisa lançou um olhar para Jennie, percebendo o brilho em seus olhos enquanto ela observava a interação entre Chiquita e ela. Por um momento, Lisa se perguntou o que se passava na mente da babá, mas logo afastou esses pensamentos.
— Bem, acho que agora merecemos um descanso, não é mesmo? — sugeriu Lisa, olhando para Chiquita.
Chiquita concordou com um sorriso aliviado, olhando sua mãe se sentar no sofá, entre ela e Jennie.
Jennie suspirou suavemente e se recostou no sofá, observando Lisa com uma expressão serena. Ela sabia que suas emoções eram complicadas, mas estava determinada a manter suas próprias questões fora do caminho da relação profissional que tinha com Lisa.
A mulher notou o olhar de Jennie e sorriu gentilmente para ela, agradecida por toda a ajuda e apoio que ela havia dado.
— Você é incrível, Jennie. Obrigada por me ajudar hoje — disse Lisa, tocando levemente a mão de Jennie.
Jennie corou levemente, sentindo-se um pouco desconfortável com a intensidade do olhar de Lisa. Mas ela apenas sorriu e respondeu:
— Eu sempre estarei ao seu lado, não importa o que aconteça. Se precisar de ajuda, é só me chamar — deu um sorriso singelo.
Lisa sentiu um frio em sua barriga, e sabendo o que eu aquilo significava, pensou em se afastar, mas logo lembrou do que a avó de Sooah disse a ela e resolveu deixar aquele sentimento fluir. A mudança dela estava começando ali.
Chiquita se levantou um pouco no sofá e encarou as mãos de sua mãe juntas com a de Jennie. Franziu o cenho e semicerrou os olhos, encarando aquela cena desconfiada. Percebeu que os olhares delas não desviavam, e aquela troca estava tão intensa que ela podia sentir o calor.
"Talvez seja só o fogo em cima da minha cabeça, mesmo. Ser vela é tão irritante" pensou, voltando a prestar atenção na TV.
Chiquita ainda tinha ciúmes de sua mãe, mas não queria brigar com ela novamente. Além do mais, havia percebido que o motivo de sua mãe estar sorrindo frequentemente, era a Jennie, e isso significava que a antiga Lisa estava morrendo aos poucos, ou seja, uma nova vida sem álcool talvez estivesse começando.
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