017
Point of view: Riracha Manobal
— CHIQUITA! — acordei no o pulo ao ouvir Ahyeon gritar do outro lado do celular. — É pra você fazer a tarefa, não usar o caderno como travesseiro.
Estávamos em uma videochamada. Ahyeon estava ocupada com suas trezentas atividades enquanto eu enrolava para não ter que resolver uma equação de segundo grau usando a fórmula de Bhaskara.
— Argh, por que isso é tão difícil? — resmunguei, coçando minha nuca. Olhei para Ahyeon, que sorria como se soubesse de algo. — Por que tá me olhando assim? Tô toda acabada e descabelada.
— Você é linda de qualquer jeito, amor — corou ao perceber como se referiu a mim. Acabei sorrindo por isso. — Já que somos namoradas, posso te chamar assim, né?
— Claro que pode.
Ela assentiu e voltou a prestar atenção em minha tarefa.
Coloquei meu cotovelo na mesa e apoiei meu maxilar na minha mão, olhando a tela do celular. Captei o momento em que ela fez um coque rápido e mal feito para tirar o cabelo da frente de seus lindos olhos. Meu estômago gelou ao vê-la daquele jeito, foi um sentimento idiota, já que havia feito um simples ato para ajudar sua visão.
— Chiquita, presta atenção! — mandou, sem olhar para mim, folheando uma página do seu livro de história.
— Mas ficar te admirando é bem mais interessante — falei, recebendo seu olhar. — Você é tão linda... — disse quase num sussurro, vendo-a dar um sorriso singelo.
— Você já me disse isso hoje. Agora para de enrolar e faz logo a sua atividade. Sua mãe deixou bem claro que se você tirar nota baixa esse bimestre, ela vai tirar seu videogame e o seu celular.
— Mas eu não entendi a merda dessa fórmula de Bhaskara — coloquei a mão no rosto e insinuei um choro enquanto falava.
— Quer ajuda? — senti a mão de Jennie posar em minhas costas. Logo a encarei com o cenho franzido. — Eu posso te ajudar. Eu era a melhor aluna em matemática quando estudava.
— Cadê a Ellen?
— Dormindo ali no colchão — saiu da minha frente, dando-me visão da minha irmã dormindo como um anjinho.
— Ok...
— Amor, eu vou desligar pra você se concentrar na tarefa e não em mim. Tchau, beijo! — não deixou que eu respondesse e desligou.
Peguei o celular rapidamente, na tentativa de impedir, mas não deu certo. Olhei para o eletrônico com um semblante frustrado, escutando a risada baixa de Jennie, e só então me toquei que Ahyeon havia me chamado de amor na frente dela.
Olhei para a mulher que lançava um sorriso em minha direção, rapidamente tentei me explicar sobre aquilo, mas é óbvio que ela não acreditaria na minha desculpa boba de que ela me chamava de amor para fazer ciúmes no crush dela. Nem de homem ela gosta, primeiramente.
— Fica tranquila, eu não vou contar nada pra sua mãe. Agora vamos nos concentrar na sua tarefa, hoje você entende de uma vez por todas a fórmula de Bhaskara.
Ela se sentou ao meu lado, pegando o livro para ver a atividade. Por um segundo, vi uma semelhança entre ela e minha mãe, mas logo afastei esses pensamentos, percebendo que eu só queria que minha mãe, Sooah, estivesse ali no lugar da Jennie, me ajudando com a tarefa enquanto eu contava para ela sobre a minha vida.
Suspirei, tentando me concentrar e evitar sentir falta da minha mãe, mesmo sendo difícil. No entanto, sempre consegui disfarçar bem a saudade que sinto dela, não sou como minha mãe, Lisa.
[...]
— E então? O que acharam do pedido de namoro? — perguntei enquanto comia um pedaço de bolo.
— Achei a iniciativa dela em te beijar muito boa — Mina falou. — Foi inteligente falar 'sabe o que fazemos quando esse sentimento é recíproco?' e aí beijou. Vou aderir essa frase, só me resta coragem pra usar — bebeu um pouco de chocolate quente.
Acabei rindo da sua fala, olhando para Jennie, percebendo que ela não é tão insuportável como eu pensava. Ficamos quase duas horas fazendo uma atividade que poderia ser feita em vinte minutos. Admirei sua paciência para me explicar a fórmula de Bhaskara.
— Eu achei que foi tipo cena de comédia romântica. E também achei fofo ela com ciúmes de você, acredito que esteja bem ferrada no futuro.
Assenti enquanto ria, mas logo parei, pois percebi que se alguma garota me olhasse por mais de um segundo, Ahyeon já acharia que eu estava traindo ela. Ó céus, eu estou tão ferrada!
Com esses pensamentos, nem percebi quando minha mãe se aproximou de nós com Ellen no colo, dando-a para Jennie. Reparei que em momento algum deixou que seu olhar encontrasse o da babá, o que estranhei muito, já que elas viviam trocando olhares.
— Aonde vai? — perguntei, vendo-a colocar um sobretudo. — Mãe?
— Vou resolver algumas coisas do trabalho. Não me espere pro jantar, vou demorar muito. Talvez nem durma em casa, já que terei que ir até o outro lado de Busan.
— Mãe...
— Jennie, pode dormir aqui hoje? Eu realmente não sei se conseguirei voltar — encarou-a nos olhos, pude perceber que Jennie também estava preocupada.
Como assim não conseguirá voltar? Minha mãe abandonou o trabalho, deixou seus funcionários trabalhando por ela... Será que... Não, ela não deve estar com pensamentos suicidas. Não pode ser, essa semana estava correndo tudo muito bem, ela sempre sorria perto da Jennie e essas coisas. Sim, ela sorria mais perto da Jennie do que comigo, não que a gente conversasse tanto, já que ela só ficava com a Ellen e com a Jennie. Eu também quase não parei em casa resolvendo algumas coisas da minha apresentação de dança, que pode ou não mudar minha vida para sempre.
— Mãe, você não pode sair hoje, eu preciso da sua ajuda — falei, tentando esconder o meu medo. Ela me encarou com o cenho franzido. — Tenho uma tarefa que eu preciso fazer. É uma pesquisa sobre como os pais querem que a escola melhore o ensinamento na escola, pra que seus filhos possam se tornar alguém muito experiente e talentoso na vida.
Meu Deus, o que eu falei?
A primeira palavra saiu pela minha boca e eu só fui seguindo o rumo, sem nem pensar no que estava falando.
— Jennie, você pode ajudá-la? Vi você ajudando-a a fazer a tarefa hoje, consegue ajudar nisso também, né? — ela assentiu, desconfiada. — Que bom! Tchau!
Disse, virando-se para sair. Caminhei atrás dela e segurei sua mão, recebendo seu olhar repleto de dor e meio úmido, ela provavelmente estava chorando há alguns minutos atrás.
— Mãe, a senhora tá bem? Quer conversar? Eu tô aqui pra você, tudo bem? — acariciei levemente sua mão, vendo uma lágrima escorrer de seus olhos.
Ela intercalou seu olhar entre minhas pupilas, preparando-se para falar, mas era como se algo estivesse tapando sua boca e impedindo-a de dizer alguma coisa.
— Se alguma coisa acontecer, promete que vai dar a sua irmã todo o amor e carinho que eu não consegui?
Suas palavras abriram a barreira que segurava minhas lágrimas, pois elas começaram a escorrer.
— Mãe... — deixei escapar, logo envolvendo meus braços em sua cintura com força e deitando minha cabeça em seu peito. — Não vai embora, por favor... Eu tô aqui pra você desabafar. Eu sou sua filha, lembra? Você tem o meu amor e vai ter o meu sofrimento se morrer. Por favor, fica comigo... Você é a única pessoa que eu posso chamar de mãe agora, não posso te perder também — disse, entre soluços fortes e dolorosos.
— Eu te amo, mini Lisa — sussurrou, deixando um selar em minha cabeça. — Prometo que sempre vou te amar. Eu não vou morrer, só preciso de um tempo pra mim.
— Você sempre precisa de um tempo pra você — afastei-me, enxugando minhas lágrimas. — É sempre assim, você tira um tempo pra você e esquece que tem filhas. Por que não pode ficar como estava ontem pra sempre? Esta semana tava indo tudo bem, você estava sorridente e tudo mais. O que aconteceu? O que te fez mudar do nada? Eu tô começando a gostar da Jennie, ela é legal.
— Eu sei que é. Mas entenda, minha dor é...
— Sua dor. Vamos falar de dor então? Eu começo — sorri. — Minha mãe morreu no nascimento da minha irmã mais nova, e a partir dali, minha outra mãe esqueceu que tem filhas, se trancou dentro de um quarto com garrafa de pinga e cerveja e virou uma cachaceira profissional. Desde então tive que fazer o papel de mãe cuidando da minha irmã recém-nascida. Olha que legal. Sabe quantos passeios escolares eu já recusei porque tinha que ficar com ela, muitos. Tudo isso por conta do seu luto. Quase nove meses, Lalisa. Acorda pelo bem da Ellen, pelo meu bem. Percebeu que mesmo tendo depressão e tomando remédio pra isso, eu nunca abandonei minha irmã? Nunca. Diferente de você, acho que tenho mais maturidade do que uma adulta de 32 anos.
— Chiquita, não fala assim comigo — mandou com sua voz mais grave.
— Vai mesmo se matar? Por que se for, já me avisa, assim não vou precisar sofrer tanto.
— Chiquita! — escutei a voz da Jennie, logo sentindo sua mão no meu ombro. — Não piora a situação, conversa com a sua mãe do jeito certo e sem brigar — sussurrou para mim.
— E o que adianta? No final sempre acabamos brigando mesmo — cruzei os braços e olhei para minha mãe, que já conseguia conter seu choro com muita dificuldade. — Pense como uma mãe responsável antes de se jogar na primeira ponte que aparecer na sua frente — falei, passando ao lado dela e indo em direção ao meu quarto.
Antes de subir as escadas, escutei Jennie falar:
— Não liga pra ela, Lalisa. Vamos conversar, tomar uma água, comer alguma coisa.
Subi até o último degrau e me sentei ali, escutando a conversa delas enquanto me rendia ao choro forte, mas silencioso.
— A Jennie tem razão. Eu fiz um bolo delicioso, é o seu preferido, não quer experimentar? Fiz especialmente pra você.
— Obrigada, Mina. Mas sinto que Chiquita não quer minha presença aqui, olha o jeito que ela me tratou... — escutei sua voz embargada falhar conforme a frase, indicando que havia começado a chorar. — Vou dormir na casa do meu irmão hoje.
— Lalisa, você tá esquecendo que ela é sua filha. Você manda nela, não pode deixar ela falar essas coisas pra você — Jennie falou.
— Desiste, Jennie, a Lisa perdeu o argumento a partir do momento em que a Chiquita falou sobre a sua forma de lidar com a morte da Sooah — Mina afirmou.
— Tchau! — falou e logo escutei seus passos até a porta.
De onde eu estava dava para ver a entrada direitinho, ou seja, eu estava vendo minha mãe, estava acompanhando cada movimento dela enquanto minhas lágrimas caíam sem parar. Ela se virou, olhando para mim com os olhos mais dolorosos possíveis. Seus lábios formaram a frase 'eu te amo, mini Lisa' antes de sair.
— Segura a Ellen — Jennie pediu, e logo a vi correndo até a porta que foi fechada em sua cara, mas ela abriu novamente.
A partir daquele momento, só escutei o choro da Ellen e nada mais...
Me sinto uma filha horrivel. Talvez por minha causa, eu perca minha mãe, e eu não suportaria passar por tudo aquilo novamente, não quero perder a única pessoa que posso chamar de mãe.
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