015
Point of view: Riracha Manobal
Ao descer as escadas, quase caí para trás ao ver minha mãe tomando café com a Ellen no colo. Cocei os olhos três vezes enquanto me aproximava, tentando saber se aquilo era alucinação por conta do sono. Belisquei-me, percebendo que minha mãe continuava ali.
— Bom dia, minha filha! Quer carona para a escola? — arregalei os olhos, parando no meio do caminho, tentando entender o que tinha escutado. — Está tudo bem?
— Eu tô bem, mas pelo visto você não. O que houve? Caiu da cama hoje? Dor de barriga? Febre? — arqueei a sobrancelha enquanto me sentava na cadeira em sua frente, vendo-a sorrir.
— Estou perfeitamente bem, Chiquita. E você? Parece cansada. Conseguiu dormir bem?
— Sim.
Não. Há dias que venho tendo insônias, e quando consigo dormir, meu despertador toca. Acho que é por conta do nervosismo em saber se entrei ou não na JYP Entertainment. Sem o meu celular está sendo impossível ficar calma.
— Bom dia, Chiquita!
Olhei para trás, vendo Jennie sorrindo e se aproximando com uma mamadeira. Encarei-a com desdém, percebendo que estava mancando e ainda sorrindo para minha mãe, que sorria para ela também.
Minha mãe está sorrindo... E ainda por cima é para uma empregada!? Opa, isso não está certo, tem algo de errado.
— O que faz aqui tão cedo, Jennie? Seu turno começa depois das sete — perguntei, observando a mulher entregar a mamadeira para minha mãe e se sentar ao lado dela.
Peguei um garfo e comecei a comer as frutas que Mina havia cortado para mim assim como toda manhã.
Jennie abriu a boca para responder, mas minha mãe a interrompeu e disse antes de beber um pouco de café:
— Ela dormiu aqui.
— Como é que é? — franzi as sobrancelhas, soltando o garfo e encarando-as com um semblante sério.
— É isso mesmo que você escutou. Jennie dormiu aqui, Chiquita — me desafiou com o olhar. Conhecendo ela, sabia que estava tentando me deixar enciumada.
Prestei atenção em cada movimento dela, até meus olhos automaticamente mudarem para a mão de Jennie, que antes estava em cima da mesa, mas agora ela abaixou-as para baixo, e com aqueles movimentos suspeitos, indaguei que ela colocou-as no colo da minha mãe.
— Fique tranquila, ela dormiu no quarto de hóspedes — explicou, voltando a se concentrar em seu café. — Jennie machucou o pé depois de pisar numa bola de basquete, e já estava tarde pra ela ir embora sozinha, então resolvi deixá-la passar a noite aqui.
— Hum — peguei o garfo novamente e comecei a mexer nas frutas, sem pegar nenhuma. — Vou pra escola, tchau!
Levantei-me, caminhando até a saída, mas minha mãe me seguiu e entrou na minha frente, impedindo-me de sair. Cruzei os braços e a encarei, esperando que ela desse passagem para eu continuar andando.
— Eu disse que vou te dar carona, sua ciumentinha — apertou minhas bochechas, mas eu rapidamente me afastei. — A mamãe é só sua e da Ellen, fique despreocupada — cochichou no meu ouvido antes de me puxar para um abraço.
Não retribuí, apenas continuei de braços cruzados, assimilando suas palavras e percebendo que ela era a Lalisa de oito meses atrás. Minha mãe estava de volta de verdade agora?
[...]
Finalmente saí do castigo, minha mãe devolveu meu celular antes de eu entrar na escola, mas só pude vê-lo agora que estou tomando sorvete com a Ahyeon. Respondi algumas mensagens dos meus amigos me desejando parabéns, nada demais, e logo voltei a prestar atenção no lago e nos patos que estavam passeando por aí.
Optamos por comprar o sorvete e viemos para um parque que tem muitos patinhos. Estamos sentadas perto de uma árvore. Ahyeon está do outro lado da árvore, tecnicamente de costas para mim, enquanto lê seu livro e toma o sorvete.
— Quita, escuta isso — pediu. — "Pela milésima vez no ano, eu desejo poder ir para casa com alguma outra pessoa. Só que esta noite, não é porque eu a odeio. É porque não consigo mais negar que eu gosto dela." — leu.
Aquilo fez meu coração palpitar, pois eu sabia que foi uma indireta. Hoje mais cedo, enquanto me esperava, me viu abraçando uma amiga minha, e ela ficou ardendo de ciúmes. Nunca tinha visto ela daquele jeito, naquele momento percebi que ela é uma cópia da irmã.
— Sobre o que fala esse livro? — perguntei, levantando meus joelhos para apoiar meus braços.
— Sobre uma jogadora de basquete e uma líder de torcida do time de futebol masculino. Elas são arqui-inimigas. Um clichê de inimigas que se apaixonam. As duas acabam batendo seus carros, daí a Scottie, a jogadora, tem que dar carona para Irene, a líder de torcida. Só que daí, elas resolvem entrar em um relacionamento falso. Motivo? Eu não lembro — rimos.
— Você sempre esquece o que aconteceu no início do livro quando chega na metade dele.
— Mania de leitora. — Escutei ela trocar de página, rindo baixo — Ah, lembrei, a Scottie queria fazer ciúmes na Tally, a ex dela, por isso entrou no relacionamento falso. Mas com o passar do tempo, elas se apaixonaram, entendeu?
— Ah, sim, entendi. E por que leu esse trecho para mim? — terminei de comer meu sorvete, lambendo vestígios que ficaram em meus dedos.
— Você é mais inteligente que isso, Riracha — falou, baixo, suspirando em seguida.
— Sou?
— É — ficou silêncio. — Se eu for te explicar, vou usar uma maneira... — pensou por alguns segundos — bem óbvia.
Sorri sem mostrar os dentes, olhando para o céu azul e cheio de nuvens. O barulho da movimentação da água ecoava em meus ouvidos, junto à melodia que o vento emitia ao passar entre as folhas das árvores. Tudo naquele dia estava perfeito, tirando a notícia de que Jennie havia dormido lá em casa, e também a cena que vi de minha mãe sorrindo para ela e ainda por cima ela colocando a mão na perna da minha mãe.
— Eu realmente não entendi. Poderia me explicar? — menti.
O silêncio caiu sobre nós e acabei me surpreendendo quando Ahyeon se sentou em minha frente, suspirando alto em seguida. Seus olhos focaram em mim, mas eu continuei olhando o céu.
— Eu sei que somos novas ainda, também sei que vou fazer 16 anos e você só tem 14 anos, mas... eu não aguento mais ver você de papinho com aquelas garotas.
— Aquelas garotas são minhas amigas.
— Amigas que flertam com você — falou, e eu a encarei, percebendo sua raiva sendo expressada pelo seu olhar. — Olha aqui, Riracha Manobal, eu não quero que você fique flertando com elas de volta, me escutou?
— Por que não? — perguntei, sorrindo de canto e com as sobrancelhas arqueadas. — Quer namorar comigo por acaso?
— Sim — respondeu, tranquila. Minha expressão mudou para surpresa. — Se isso vai fazer você ter olhos apenas pra mim, eu quero namorar com você.
— Ahyeon... — falei, baixo, observando seu rosto e não conseguindo expressar nenhuma reação.
— Já tô cansada disso. Nos tratamos como namoradas, mas você fica dando em cima de outras garotas. Mesmo que seja na brincadeira, eu não gosto disso, Riracha — sua voz firme me fez arrepiar.
— Mas eu sempre tive olhos apenas para você — meus lábios se formaram em um pequeno sorriso quando percebi sua expressão envergonhada. — Amo quando você sente ciúmes de mim; ele sempre tem três fases. Primeiro você me ignora, depois você começa a jogar indiretas do tipo: "por que não vai lá com a sua 'amiga'" — fiz aspas e afinei a voz. — Após fazer seu drama, você gruda em mim e não me deixa falar com minhas amigas, e quando deixa, fica abraçada em mim a conversa toda, mesmo não participando dela.
— Eu faço isso?
— Faz. E toda vez que isso acontece, eu me apaixono mais ainda por você.
— Sério? — assenti. — Sabe o que você faz quando esse sentimento é recíproco? — neguei. — Isso — após sua fala, fui surpreendida quando selou nossos lábios.
Sua mão foi parar em meu maxilar, fazendo um leve carinho pela região. Não aprofundou o beijo, apenas continuou aquele ato inocente e sem nenhuma intenção a mais. Sem reação, aceitei o beijo, não me movi, pois fiquei sem saber o que fazer.
O frio na barriga me consumiu, meu coração palpitou e foi como se eu estivesse nas nuvens, até o vento parou para nos ver.
Aquilo estava realmente acontecendo, não era um sonho. Eu estava beijando a Park Ahyeon, minha crush, praticamente desde quando me entendo com gente. O mais doido disso tudo foi que ela me beijou, e ainda por cima admitiu seu ciúmes.
Após um tempo, ela se afastou um pouco, deixando um selar rápido nos meus lábios. Ainda de olhos fechados, senti seu olhar em mim, e ao olhar para ela, percebi que suas bochechas estavam meio coradas, o que me fez sorrir de orelha a orelha.
Coloquei uma mecha de seu cabelo para trás lentamente, vendo suas pupilas dilatarem um pouco. Desviou o olhar, completamente tímida. Levou suas mãos até seu rosto, mas como estava com um moletom o dobro de seu tamanho, fez com que ficasse ainda mais fofa.
— Por que tá com vergonha? Há alguns minutos não parecia ser essa Ahyeon toda tímida.
— Eu te beijei, porra, o que quer que eu faça? — falou com a voz embargada, fazendo-me sorrir enquanto a encarava com carinho e preocupação.
— Por que está chorando? Não gostou?
— Eu te amo pra caralho, não quero te machucar. Vai que a gente começa a namorar e por causa do meu ciúme besta a gente... — antes de terminar sua frase, a puxei, fazendo-a deitar a cabeça em meu peito. Acariciei seus fios.
— Então agora somos namoradas?
— Eu não sei, você quer? — olhou para mim. Assenti, limpando algumas lágrimas sua.
Ela com certeza estava de TPM.
— Claro que eu quero — deixei um selar rápido em seus lábios, acariciando suas bochechas. — Saiba que não vamos terminar por causa de seus ciúmes. Lido com isso há anos e nunca me afastei de você.
— Promete que não vai?
— Prometo. Se ficar enciumada, é só dormir que passa, ok? — recebi um tapa leve como resposta.
Ela virou de costas, pedindo para que eu abrisse mais as pernas. E ao fazer isso, ela encaixou seu corpo no meu e deitou seu tronco, encostando-o no meu. Envolvi meus braços em sua cintura, e logo ela estava ali, aconchegada em meu corpo, lendo o seu livro e recebendo meu carinho em sua cintura. Por incrível que pareça, comecei a ler junto com ela e gostei, mesmo sem saber o contexto.
Esse capítulo merece uma estrelinha, não merece?
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