012

Point of view: Riracha Manobal

Eu posso estar exagerando ao tratar a Jennie assim, mas o fato de minha mãe tê-la abraçado me deixa indignada. Acho que a razão para isso não é ciúmes, mas sim o medo de perdê-la para sempre. Mal recebo carinho da minha mãe.

Hoje é meu aniversário e também tenho aula de dança. Estou sem meu celular, então se recebi alguma mensagem, provavelmente não vi.

A rotina não mudou. Lisa bebe, bebe, bebe, dorme, come de vez em quando, bebe mais um pouco, grita comigo — já está se tornando frequente desde que Jennie chegou —, se estressa facilmente, não tem paciência para conversar comigo, só me olha para brigar. Isso é tão triste. Ela cagou pelo simples fato de que tenho depressão.

No dia em que levamos Ellen para o hospital, eu estava fingindo dormir, então ouvi todo o seu discurso, até acreditei que aquilo poderia ser real, mas não foi. Normalmente, ela só sai daquele quarto para pegar mais cerveja, e olhe lá.

Tirando o fato de ninguém ter lembrado do meu aniversário, o dia foi tranquilo. A escola não deu tanta dor de cabeça como ultimamente, e agora estou na aula de dança, tentando acertar um passo quase impossível.

— Chiquita — a professora veio até mim. — Mexa a cabeça primeiro e depois os ombros. Você está mexendo os dois ao mesmo tempo.

Escutei-a, fazendo o movimento devagar.

— Assim?

— Isso! Você está indo muito bem — sorriu satisfeita. — Acelere os movimentos — acelerei, começando a fazer no ritmo original. — Isso! Mais rápido, mais rápido.

— Tá saindo, não tá? — perguntei, alegre ao me ver pelo espelho grande.

— Boa, garota! — ela sorriu, se afastando. — Vamos, meninas! Animação, animação — saltitou pela sala, indo até o centro.

A aula transcorreu bem até o momento em que todas as meninas pararam de dançar e começaram a cochichar entre si. Até a professora parou e ficou me olhando com um sorriso no rosto.

Estranhei, mas logo vi pelo reflexo do espelho Ahyeon passar pela porta com um buquê de rosas e uma caixa de bombom em formato de coração. Levei minhas mãos até a boca, sentindo lágrimas brotarem no meu rosto. A garota se aproximou, oferecendo-me um sorriso perfeito e um olhar apaixonado.

Ela parou em minha frente, suas pupilas dilatando, seu sorriso contagiante. Tudo naquela garota era bem feito: seus traços, suas curvas, sua pele, seus olhos, boca, nariz, tudo.

— Feliz aniversário, solzinho! — desejou. — Achou que eu fosse esquecer? — assenti, chorando e pegando as flores e a caixa de bombom. — Eu nunca esqueceria um dia tão importante para você.

— Obrigada — agradeci quase num sussurro, logo sentindo seus braços rodearem minha cintura.

Minhas amigas vieram pegar as flores e a caixa para que eu pudesse abraçar Ahyeon. E assim fiz. Envolvi meus braços em seu pescoço, grudando mais nossos corpos, sentindo o cheiro maravilhoso de seu perfume que provavelmente ficaria em minha roupa. Arrepiei-me quando ela começou a acariciar lentamente minha pele nua — eu estava de cropped.

— Eu te amo tanto, Ahy — falei entre lágrimas. Por incrível que pareça, sou muito emotiva e choro fácil. Já me acostumei com a ideia de que ninguém liga para mim; receber um presente desses é suficiente para me fazer chorar litros.

— Eu também te amo, solzinho!

Após sua fala, gritos foram escutados pela sala, junto com a voz das meninas cantando parabéns para mim. Ahyeon se afastou, juntando-se a elas e formando um coral lindo. Aquele sorriso apaixonado que ela só tinha para mim me desconcertava, me fazia apaixonar ainda mais por ela.

Eu só sabia chorar.

[...]

— Por que quis vir caminhando? Minhas pernas estão doendo, Ahy — choraminguei, seguindo ao lado dela.

— Porque eu quero passar mais tempo com você. Minha irmã disse que só está me esperando para irmos embora — explicou, olhando para mim. — Está com frio?

— Um pouco, mas posso aguentar.

— Cadê seu moletom?

— Eu esqueci.

— Nada muito diferente vindo de você — encarei-a com raiva, enquanto eu cruzava os braços tentando me esquentar. — Não faz cara de brava e cruze os braços, assim você só fica mais fofinha — riu, apertando minha bochecha.

Mostrei a língua e olhei para frente. Vi pelo canto do olho quando ela tirou seu sobretudo. Surpreendi-me quando meu corpo foi coberto pelo tecido grosso e quente. Olhei para ela, confusa, mas aceitei a roupa, pois estava morrendo de frio.

Seu braço envolveu meu pescoço, puxando-me para mais perto e me abraçando de lado, para andarmos mais grudadas e aquecidas.

Enquanto conversávamos, paramos na entrada da minha casa para que eu pudesse pegar a chave da porta. Ahyeon me esperou pacientemente, concentrada em falar sobre o último livro que havia lido.

— Achei! — exclamei, pegando uma chave solitária dentro da bolsa. — Esquece, é a chave do meu armário.

— Espera, deixa que eu resolvo — disse ela, indo até a porta e tocando a campainha diversas vezes. Não demorou muito para que Mina abrisse. — Prontinho. Vem, vamos entrar — falou, pegando meu pulso e me puxando até a porta.

— Por que tá tudo escuro, Mina? Acabou a luz? — perguntei, antes de chutar a quina da parede. — Ai, meu dedinho!!!! — gemi, abaixando para massagear o local.

Ahyeon colocou suas mãos em minhas costas, perguntando se eu estava bem. Alguns segundos depois, a luz foi acesa e tomei um susto grande ao ver um monte de gente parada na minha frente, cantando parabéns bem alto e olhando para mim.

Escutei a risada de Ahyeon ao ver meu estado. Levei minha mão até o peito esquerdo, tentando me recuperar do susto e sentindo meu coração palpitar.

Não demorou para que meu rosto se iluminasse com um sorriso de orelha a orelha, minhas mãos batendo uma na outra enquanto eu saltitava feliz até a mesa onde estava o bolo junto com a vela que Mina acendia. Nem consegui ver quem estava ali, o calor do momento não permitiu que eu prestasse atenção em outra coisa além do lindo bolo à minha frente.

— Com quem... — começou.

— Cala a boca, Momo! — cantei no ritmo da música, fazendo todos rirem de nós.

— Também te amo, Riracha! — ela respondeu no mesmo ritmo, se aproximando para me abraçar. Tentei me soltar, mas ela não deixou. — Consegui te enganar bem, né? Eu sei que sim. Você pensou que eu tinha esquecido do seu aniversário?

— Tenho certeza de que você só lembrou porque a Chae falou.

— Bom, errada não está — ela se afastou. — Vai, quero saber para quem é o primeiro pedaço — saltitou batendo palmas como uma criança.

Mina me ajudou a cortar o bolo, e logo todos estavam curiosos para saber para quem era o primeiro pedaço.

— O meu primeiro pedaço vai pra uma pessoa muito especial para mim, na verdade, vai para três pessoas muito especiais pra mim. Só que duas delas não podem comer o bolo, então... O primeiro pedaço vai pra minha mãe — falei sorrindo, percebendo que todo mundo murchou o sorriso.

Varri meus olhos pelo local, procurando minha mãe, mas não a encontrei em lugar algum. Meu coração apertou, sabendo que ela só poderia estar bebendo ou no cemitério.

Com o bolo em minha mão, fechei os olhos e senti uma lágrima escorrer pela minha bochecha, mas ela logo foi limpa por alguém que eu já reconhecia pelo toque. Abri os olhos e vi minha mãe diante de mim, estendendo a mão para pegar o bolo.

— Feliz aniversário, mini Lisa — sussurrou, sorrindo. Acho que essa foi a primeira vez que ela sorriu para mim desse jeito em oito meses.

Envolvi meus braços em sua cintura fina, sendo esse um abraço apertado onde consegui "desabafar" tudo o que estava entalado em minha garganta. Seu carinho em minha nuca foi reconfortante, como um conselho, um aconchego, ou até mesmo palavras bonitas.

— Gostou da surpresa? — perguntou após eu me afastar, mesmo não querendo. Assenti, contendo o choro. — Não chore, bebê. A mamãe preparou isso para você com todo o amor e carinho que eu pude.

Essas palavras... Ok, eu já havia chorado muito na aula de dança, mas agora, pareço uma criança. As lágrimas não param de brotar. Toda a angústia que consumia meu corpo há alguns dias atrás sumiu. Meus pensamentos suicidas deram fim ao perceber que eu era sim amada e que eu tinha o amor da minha mãe para mim. Ter seu sorriso já era o suficiente.

— Vai cumprimentar os convidados, eu ajudo Mina a servir o bolo.

Ela estava diferente, agindo como antigamente. Isso não é ruim, mas é estranho, muito estranho.

Olhei em volta, vendo que tinha bastante gente. Os funcionários da casa, Ellen que estava no colo de Jennie, ao lado delas, Dahyun e Jisoo, junto com Chae e Ahyeon. Um pouco mais afastados estavam meu tio, minha prima e meu avô.

Espera!

Meu tio, minha prima e meu avô?!

Ai meu Deus!

Sem demora, corri para abraçá-los. Meu tio abriu os braços, e ao chegar perto, praticamente pulei em seus braços, que me receberam com o maior amor e carinho do mundo.

— Ah, como você está grande, cogumelo! — falou, me colocando no chão e vendo-me o encarar com ódio. Sorriu, percebendo o motivo. — Feliz aniversário, Lisinha!

— Para de me chamar por apelidos de anos atrás.

— Quer que te chame como, então?

— Não sei se você sabe, mas o nome dela é Riracha Manobal, mais conhecida como Chiquita — Minnie falou, recebendo nossa atenção. — Feliz aniversário, Cha! — desejou, abrindo os braços para que eu a abraçasse.

— Obrigada, Minnie! Você encolheu? — perguntei, saindo do abraço.

— Não, você que cresceu, mesmo — falou, e eu assenti.

— Vovô! — exclamei, agachando-me um pouco para abraçá-lo. — Por que está na cadeira de rodas?

— Não estou muito bem de saúde ultimamente, querida, mas nada com que se preocupar. Feliz aniversário, que Deus te dê muitos anos de vida e muita saúde pra continuar sendo essa garota linda que é hoje em dia — ele sorriu, fazendo sua pele enrugar um pouco e seus olhos fecharem.

— Obrigada! Ah, sabia que me apresentei no teatro principal daqui?

— Sério? Me conta como foi. Quero saber detalhe por detalhe — falou, sorrindo gentilmente para mim.

O que acharam desse capítulo?

No próximo vou explicar o porque dessa mudança repentina da Lisa.

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