Capítulo 17
- De certeza? – Mia questionou.
- Sim.
- De certeza, Asher? – revirei os olhos.
Aquele meu sábado de manhã começou com uma ida a casa de Mia. No dia anterior ela tinha-me obrigado a prometer que passaria por sua casa antes de conduzir até à dos meus pais. Definitivamente não estava pronto para lidar com eles, mas tinha que aproveitar que Declan e minha avó tinham decidido passear durante o fim de semana. Eu sabia que Mia queria que eu passasse lá para tentar ir comigo e deixei-a pensar que eu iria deixar que isso acontecesse apenas para ela ficar feliz. No entanto, não a estava a incluir nos meus planos porque não queria que ela conhecesse a minha família. De momento, eles não mereciam conhecer alguém tão bom para mim (e para o meu irmão) como a Mia.
Mas, como sempre, Mia conseguiu virar o meu plano do avesso. Quando cheguei, ela abriu-me a porta e puxou-me para o seu quarto, mostrando-me a sua cama cheia de livros e cadernos. Ela estava a tentar estudar sozinha e obviamente não estava a resultar, como nunca resultava. Mia só conseguia estudar quando alguém com uma paciência de santo – eu – a obrigava a focar-se. Percebi logo o que ela estava a fazer, mas não disse nada, limitando-me a suspirar e a ceder aos seus pedidos. Mia, no entanto, fez um ar de inocente e perguntou-me se eu tinha a certeza que a queria aturar antes de enfrentar os meus pais.
Daí a nossa conversa.
- Sim, Mia. De certeza. – garanti e o sorriso que recebi em troca foi o suficiente para me fazer relaxar.
Sentámo-nos no chão, em cima de almofadas, porque já tínhamos vindo a perceber que a secretária era pior para Mia. Só lá estudávamos quando ela estava certa de que queria estudar, o que não era o caso. Ela estava a usar o estudo como pretexto para adiar a minha visita aos meus pais e depois me convencer a ir comigo. Voltei a deixá-la fazer o que queria, porque seria pior para mim, a longo prazo, se não o fizesse. Assim sendo, coloquei-me confortável na pequena almofada e pedi-lhe para me dar o seu Caderno das Perguntas, o início das nossas sessões de estudo. Daquela vez, ela não tinha muitas dúvidas, mas eram os suficientes para gastarmos algumas horas naquilo, conhecendo Mia.
E assim foi. Ao tentar ajudar Mia a estudar e, de vez em quando, a repreendê-la por estar a distrair-se com tudo e com nada as horas passaram rapidamente e, sem que eu o percebesse, eram onze da manhã. Ela aproveitou isso para usar a necessidade de almoçar como desculpa, mas aí eu impus-me, alegando que podia parar num restaurante de fastfood qualquer e comprar algo para comer durante a viagem. Notei, pela maneira como ela cruzou os braços e olhou para mim com sobrancelhas juntas, que ela estava só preocupada, portanto a minha prioridade naquele momento foi tentar descansá-la. Eu não ia matar ninguém. Já tinha passado tempo suficiente para eu conseguir manter uma conversa com os meus pais.
Tinham passado cinco meses. Cinco. Segundo a minha avó, os meus pais ligavam a cada duas semanas – porque ela os proibiu de ligar mais frequentemente que isso – e tentavam saber tudo o que conseguiam sobre Declan. Ela afirmara que eles, sim, estavam preocupados com Deke, mas não o suficiente para o aceitarem completamente. Isso partira o coração do meu irmão mais novo, daí termos-lhe escondido todas as tentativas de comunicação que os nossos pais tentaram fazer depois do primeiro mês. Não sabia lidar com aquela situação e, se a minha avó não fosse tão boa pessoa e eu tivesse que criar o meu irmão mais novo...não sabia o que poderia acontecer.
- Eu vou contigo, então. – Mia interrompeu os meus pensamentos ao afirmar, numa voz forte. Levantei uma sobrancelha, cruzando os braços. – Eu sei que disseste que não querias que eu fosse, mas eu quero ir.
- E eu tenho que fazer tudo o que tu queres?
- Sim. – encolheu os ombros e eu deixei-me rir. Suspirei, sabendo que iria perder a discussão. – Tu precisas de mim lá e tu sabes.
Olhei para ela, atentamente.
- Verdade. – confessei e ela sorriu, beijando a minha bochecha com um pequeno pulo. – Vamos, almoçamos pelo caminho.
- É muito longe?
- Uma hora, provavelmente. Se eu tivesse ido de manhã, já estaria de volta. – ela revirou os olhos e eu ignorei-a, abrindo a sua porta para ela passar. – Adeus, Ava! – gritei.
- Adeus, Asher! Boa sorte, não mates ninguém. – gritou de volta, do seu quarto, e eu ri.
A viagem foi silenciosa, tirando o CD dos The Black Eyed Peas que a Mia insistiu que nós ouvíssemos. Como sempre, não me preocupei em discutir. Pelo menos eram os The Black Eyed Peas e não a Beyoncé ou outra coisa qualquer. Mia não se preocupou em tentar dizer-me que ficaria tudo bem, porque provavelmente estaria a mentir e ela odiava fazê-lo, portanto focou-se em cantar todas as músicas incrivelmente alto. Sorri, ao olhar para ela, vendo-a tão feliz a cantar as músicas que tinham feito parte da playlist da minha infância. Depois, pensei em Deke, porque ele adorava principalmente a música que estava a passar no momento. Don't phunk with my heart.
Mia cantava a música apontando para mim sempre que o título da música aparecia, fazendo-me rir alto. Eu sorria-lhe e ela visivelmente apreciava o gesto, porque apertava a minha mão e voltava a fazer as suas danças, obviamente condicionadas pelo pequeno espaço do carro. Revirei os olhos quando ela não estava a olhar, mas permiti-me cantar com ela. Nos últimos meses, eu tinha ganho o hábito de acabar a cantar com ela todas as músicas que ela berrava ao meu ouvido, mas ela parecia cantar ainda mais alto depois disso então eu parava, mas depois comecei outra vez. A verdade é que aquele amor estúpido por aquelas músicas e a irritação que isso me dava era a nossa coisa. Algo que embora os nossos amigos achassem divertido, não entendiam.
Enquanto eu ficasse inicialmente irritado quando ela colocava aquelas músicas, estaríamos bem.
- I wonder if I take you home, would you still be in love, baby? – cantou para mim, abanando-se da forma que conseguia. Assenti, quando ela não estava a olhar.
O caminho que nos direcionaria para a casa onde cresci começava a aproximar-se e eu senti-me a ficar nervoso. Já não via os meus pais há muito mais que cinco meses, mas tinha falado com eles algumas vezes. Eles sentiam que aquilo que fizeram ao meu irmão não devia afetar a minha relação com eles, ridículos como eram. Senti raiva a crescer dentro de mim mas olhei para Mia, apreciando a forma como a sua liberdade me relaxava. Ela tinha razão, eu precisava dela comigo, por muito que o tentasse negar. Suspirei. O tempo há que não via os meus pais não era o problema, o problema eram eles e o que eles tinham feito.
Não sabia como iria lidar com o meu pai. Com ele eu recusava-me a falar, portanto a minha mãe tinha agido como porta-voz nos últimos meses, sempre falando pelos dois. A minha raiva por ela era menor, obviamente, do que a que eu nutria por ele. Ele tinha atacado o meu irmão mais novo, o seu filho, deixando-o a pouco de ter que ir para o hospital e levar pontos. Algumas das feridas que o meu "pai" tinha causado no meu irmão mais novo tinham dado espaço para cicatrizes que, tão cedo, nenhum de nós iria esquecer. Mesmo depois de cinco meses, não percebia como é que ele ainda existia. Um pai que atacara o seu filho pela sua orientação sexual. Quanto mais pensava nisso, mais ridículo me soava.
Apertei o volante nas minhas mãos, vendo os nós das mesmas a embranquecerem.
- Eu estou aqui, Ash. – prometeu-me Mia, com uma voz mais suave ainda do que o natural. Olhei para ela, permitindo-me sorrir.
Ao ver a familiar casa amarela, estacionei atrás da carrinha que eu sabia ser do meu pai. Para mim, estacionar naquele sítio era como se eu estivesse a impedir que ele fugisse. Não conseguia parar de pensar no Deke e na minha avó. Se ela não tivesse assumido o papel de nossa mãe, como é que estariam as nossas vidas? Suspirei, limitando-me a agradecer mentalmente pela existência da minha avó e do meu modelo. Não saí do carro, portanto Mia também não fez o primeiro esforço. Ficámos quietos durante aproximadamente um minuto, até o pequeno espaço não aguentar o silêncio que eu estava a causar e eu me vir obrigado a sair. Mia olhou para mim seriamente, lançou-me um sorriso, e abriu a sua porta.
- Não sei se não devias ficar no carro... - comecei a dizer, mas a sua posição calou-me. Fui lembrado do quanto ela adorava Deke e do quando os meus pais a deixavam raivosa, quase tanto como a mim.
- Não vou ficar no carro, Asher. – afirmou e a seriedade que a sua voz continha impediu-me de pensar em refutar. Assenti apenas, agarrando a sua mão para a puxar para mim.
Pouco depois, vi a porta da frente abrir, e respirei bruscamente. Quase me engasguei e fiz com que Mia olhasse para mim preocupada, mas ignorei. Olhei em frente, vendo a minha mãe a correr até mim. Ela estava vestida como de costume: saia cinzenta, blusa branca, e sapatos com salto mínimo. Cabelo atado. Maquilhagem mínima. Parecia-me a mulher que sempre fora, tirando as lágrimas que começaram a escorrer quando me viu. Ela quase saltou para cima de mim, mas eu não retribuí o abraço. No entanto, não fui cruel o suficiente para a obrigar a afastar-se de mim. Ela afastou-se voluntariamente, quando percebeu quão desconfortável eu estava. Olhou para mim e começou a chorar mais ainda, e eu entendi o porquê. Dantes, eu seria o primeiro de nós a tomar a iniciativa dos abraços e nunca era algo desconfortável.
Dantes, eu não achava que os meus pais eram capazes de expulsar o meu irmão mais novo de casa. As coisas mudaram.
well...aqui estamos
eventualmente o asher teria que enfrentar os pais, não é verdade?
na verdade já nem me lembrava quando seria este capítulo, mas chegou: o próximo terá a primeira interação entre eles
pela história e os poucos capítulos que tem, ninguém iria perceber que teriam passado cinco meses. e, como não é no ponto de vista do Declan, nenhum de nós (nem o asher, tbh) sabe quão mal ele está, mesmo estando num lar melhor e até ter o seu Patrick. um rapaz de 16 anos não deveria passar por aquilo que o nosso Deke passou - até me custa pensar nisto, na verdade
anyway, espero que tenham gostado da interação muito muito fofa, as always, entre o nosso casal preferido (depois do Deke e do Patrick...e do Miles e do Jake...estou a brincar, estão todos ao mesmo nível)
mini spoiler: depois da família Miller, vem a família das nossas gémeas lindas ;)
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