Capítulo 12
A casa da minha avó não era muito longe, mas também não era muito perto. Tinha planeado sair do meu apartamento por volta das dez, mas alguém (Mia) decidiu aparecer e demorar meia hora a despedir-se do meu irmão. Já tinha feito o Jake prometer-me de que não iria proibir Deke de sair pela porta fora, obrigando Miles a controlar o seu namorado, mas Mia foi imparável. Assim que chegou, agarrou-se ao meu irmão mais novo e fê-lo prometer de que lhe iria ligar pelo menos uma vez por semana, para ela ter a certeza de que ele estava bem. Eu tinha-o obrigado a prometer ligar todos os dias, ou pelo menos dias alternados, portanto não era como se ela não fosse saber das coisas. Mas quem é que a conseguiu consolar? Eu não.
Demoraríamos cerca de duas horas e meia a chegar a casa da nossa avó. Preferi optar pelo caminho maior, que não atravessava a nossa cidade natal, para conter a vontade de parar na casa dos meus pais e obrigá-los a pedirem desculpa ao Declan - depois de gritar com eles. O meu irmão certamente notou nisso, mas não comentou. A viagem foi calma, portanto. Tínhamos um gosto musical suficientemente parecido para não haver guerras no CD a ouvir, provavelmente o oposto do que aconteceria se a Mia tivesse tido a sua vontade satisfeita e ido connosco. Quando ela o sugeriu, eu disse logo que não. Declan ainda ponderou, mas eu recusava-me a ter que apresentar Mia a um membro da família para além do meu irmão, mesmo se fosse a minha avó. Ela iria decerto dizer aos meus pais.
- Então... - olhei para o meu irmão, cuja face começava a ser rasgada por um sorriso. – A Mia?
- O que tem a Mia?
- Vocês estão juntos. – afirmou e eu ia negar, mas seria mentira. Nós estávamos juntos, mas não na maneira tradicional. – Eu gosto dela.
- Deu para perceber por todas as vezes que tomaste o seu lado. Pensei que eras fiel, Deke.
- E sou, mas eu gosto da maneira como ela te afeta. – encolheu os ombros, como se não fosse nada demais.
Em toda a minha vida, nunca tinha tido uma namorada. Sim, tive a minha dose de amores não retribuídos como qualquer outro adolescente, mas não me preocupava muito com compromissos. Não os achava importantes. Isso levou a uma reputação que a minha mãe detestou absolutamente, sendo que ela provavelmente queria que eu fosse pai antes dos vinte e cinco, mas eu não me importava. Por vezes juntava-me com uma rapariga, mas não durava muito tempo porque eu nunca gostava muito da pessoa. Estava atraído a ela, apenas. As pessoas que estiveram remotamente próximas de ser minhas namoradas eram, ironicamente, aquelas de quem eu não gostava. Era assim, sortudo.
Conseguia perceber o lado do Deke e, se a situação fosse inversa, eu também teria aquela maldita expressão na cara – como se soubesse tudo. Para além de estar obviamente atraído a Mia, havia algo mais. E o meu irmão conseguia ver isso na perfeição. Era nas pequenas coisas: como eu, dos seres menos pacientes que existiam, aguentava horas a tentar ajudá-la a estudar; a maneira como me preocupava constantemente com as feridas com que ela aparecia e tentava ao máximo impedir que ela batesse contra alguma coisa com qualquer força para lá do raspão. Tinha-a apresentado ao Deke e, mesmo se isso não foi exatamente propositado, tinha deixado que eles se tornassem amigos. Não ser extremamente protetor do meu irmão perto dela significava muito, eu sabia disso, mas estava a tentar negá-lo.
- A maneira como ela me afeta, como tu o dizes, é irritante. – o meu irmão mais novo riu com a negação expressa na minha voz.
Maldito miúdo inteligente, porque é que o ensinei tão bem?
Declan só fez pior quando decidiu por acaso mudar a estação de rádio para uma que eu achei completamente apropriada para a vida de Mia. Em segundos, o início da Candyman da Christinna Aguilera estava a ecoar no meu carro, fazendo-me querer sangrar dos ouvidos. Não que eu odiasse a música, mas era suposto o meu irmão estar do meu lado. Mais uma vez, Mia ganhou-me e nem sequer estava perto de nós. Senti-me particularmente derrotado quando o meu irmão mostrou saber a letra praticamente toda da música, comentando que Mia o tinha obrigado a ir ouvir aquilo e cantado até com ele.
- He's a one stop shop, makes my cherry pop. He's a sweet talking sugar coated candyman.
Após duas horas e um quarto, estávamos a estacionar à porta da nossa avó. Ela tinha um pequeno jardim à frente da sua porta, no qual se entrava a partir de um pequeno portão que estava demasiado ferrugento e que já fazia barulho quando era aberto desde os meus dezasseis anos. Antes de sequer abrir o porta-bagagens, abanámos o sino que ela gostava de ter, porque odiava campainhas pela facilidade que tinham em estragar-se. Claro que eu abanei aquilo durante mais tempo do que era preciso – aliás, abanei aquilo até ela aparecer à minha frente e me bater no peito, fazendo-me rir. Ela revirou os olhos e eu sorri, baixando-me para a abraçar.
- Olá. – cumprimentei, recebendo um beijo na bochecha como resposta.
- Oh, meu querido Declan, o que é que te fizeram? – murmurou, assim que olhou para o meu irmão. – Passei estes últimos dias a ligar à vossa mãe, pelo menos durante três horas. Ela reclamou comigo a dizer que eu ia fazer com que ela perdesse o emprego, mas eu respondi-lhe que não era nada que ela não merecesse. – encolheu os ombros, fazendo-nos rir. – Não foi assim que eu a criei! Quem é que ela acha que é, para fazer isto a um filho?
- Nós sabemos, avó. – Deke consolou, conseguindo, como sempre, ser a melhor pessoa de todos nós. A senhora sorriu-lhe, suavizando a sua expressão, mas não antes de revirar os olhos. – Obrigado por me ter deixado vir para aqui.
- És meu neto, Declan Miller. Se achavas que eu ia ser remotamente parecida com a mulher que te expulsou de casa, estás muito enganado, menino!
Limitei-me a rir com o tom que a minha avó usou. Sabia que Declan estaria em boas mãos, se não em melhores, até. Com a minha avó ele estaria seguro, porque ela nunca o faria sequer sentir-se mal consigo próprio. Quando Jake se assumiu e a minha avó soube disso, ela quase o adotou quando soube que a sua mãe tinha parado de falar com ele. Aposto que não sabia que a sua própria filha faria muito pior do que deixar de falar para um filho durante dos meses. Na altura, eu também não imaginei que a minha mãe fosse pior que a mãe de Jake. Fomos todos desiludidos.
A culpa de a minha mãe ser assim era do meu avô, obviamente. Se ela tivesse sido influenciada pela nossa avó, ela seria uma pessoa completamente diferente. Quando a minha mãe era nova, os seus pais separaram-se (mas não num divórcio oficial) e como, na altura, o avô tinha muito mais possibilidades para manter uma filha, ficou acordado de que seria ele a ficar com ela. A minha avó, no entanto, tentava estar presente na vida da filha, levando-a a escola e ensinando-lhe tudo o que podia. No entanto, era com o nosso avô que ela vivia e foi a sua mentalidade que ela herdou, infelizmente.
- Nunca vou perdoar o vosso avô por isto. Se eu já achava que ele era uma péssima desculpa de ser humano antes, agora está abaixo do nível de inseto. – contive um sorriso, gostando da forma como eu partilhava as mesmas visões que a minha avó. Sempre gostei mais dela, de qualquer forma. – Uma coisa é ser um humano desprezível, mas deixar que outra pessoa se torne assim também e, por sua vez, fazer indiretamente com que um neto seu seja expulso de casa aos dezasseis anos?
- O avô não me fez nada, avó. – Deke tentou argumentar, mas a nossa avó ignorou-o, continuando a pegar em tudo o que podia fazer o seu marido parecer mal.
O nosso avô, sendo bastante mais velho que a mulher, já estava num lar há uns anos. Era a nossa mãe que o sustentava, colocando o dinheiro que faltava quando a reforma do nosso avô não chegava para pagar o estabelecimento. No entanto, mesmo tendo o "marido" a deteriorar a algumas horas de distância, a nossa avó não sentia a mínima pena por ele. Se as histórias que ela nos contava em crianças eram minimamente verdade, o nosso avô não era, de todo, a melhor das pessoas. Não só tinha uma mentalidade conservadora – que eu até perdoava devido à sua idade – como era daquele género de pessoas que criticava tudo o que não fosse igual a si. Infelizmente, a nossa mãe cresceu com esse tipo de influência na sua vida e acabou a ser igual.
Apesar de tudo isto, não conseguia achar em mim a força para perdoar a minha mãe, e eu sabia que a minha avó estava na mesma posição. Declan ainda não tinha falado comigo sobre o que sentia em relação a tudo isto, para além do óbvio, e eu não sabia até que ponto ele culpava a mãe. O pai ainda era um assunto intocável entre nós, pelo menos até as suas feridas sararem, porque enquanto ele tivesse provas, eu iria querer matá-lo antes de sequer começarmos a conversar. Deke era uma boa pessoa; aliás, ele era demasiado boa pessoa. Eu sabia que era questão de semanas até ele perdoar os nossos pais, apesar de tudo, porque ele era assim mesmo. Foi espancado pelo seu próprio pai por algo de que ele devia ter orgulho como de qualquer outra parte da sua vida, e ainda foi expulso de casa aos dezasseis anos, mas ele iria perdoá-los. A culpa de ele ser assim era do nosso tio paterno que, apesar de partilhar alguns pensamentos com o nosso pai, era terrivelmente boa pessoa.
Eu, obviamente, era mais parecido com a minha avó. Se eu já o achava antes, naquele momento tornou-se dolorosamente óbvio. Deke notou, porque não parava de alternar entre olhar para mim e para a nossa avó, como que à espera que nos juntássemos numa só pessoa.
- Mas agora não vamos pensar em pessoas que não merecem sequer ser chamadas de tal. Estão aqui os meus dois lindos netos, que me adoram e que eu adoro e, para além disso, um deles vem viver comigo. Estou feliz. – ambos rimos e eu coloquei uma mão no ombro de Declan, apertando-o. – Já tratei de tudo o que havia a tratar. Foi difícil, porque a vossa mãe achava mesmo que eu ia deixar que tu voltasses para aquela casa depois disto, mas ela assinou tudo o que havia a assinar. Sou mais teimosa que ela.
- Nós sabemos que sim. – sorri para ela, proibindo-a de pegar nas malas mais pesadas que tínhamos trazido connosco. – Obrigado por estares a cuidar do Deke, a sério. Eu queria estar com ele, mas...
- Mas estás na universidade e precisas de te focar nisso, só depois é que eu vou começar a ponderar em pensar na ideia de deixar que o Declan saia de perto de mim.
- Ainda bem que ele, agora, está numa boa casa.
- Eu também acho. – Deke intrometeu-se, para se fazer notar, causando o meu riso.
EU ADORO A CHRISTINA AGUILERA
tanto que demorei uns bons 10 minutos a reler/editar isto porque me distraí a cantar músicas delas
also: adoro a avó dos meus meninos, a ídola do meu lindo asher
gosto muito do facto de o Deke adorar a Mia (e vice versa tbh) porque mesmo num capítulo sem ela, once again, ela está sempre presente - principalmente sob a forma de músicas que um rapaz como Asher não gosta de admitir que também gosta ;)
espero que estejam a gostar desta história <33 e não se habituem às atualizações frequentes, porque aposto que assim que o 2º semestre começar volto a demorar bué tempo - mas aproveitem enquanto dura eheh
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