Kitsune: A lenda do noivo da raposa encantada.
Essa é uma velha história, surgiu por volta do século VIII, durante o reinado do imperador Kinmei no Japão. Conta a lenda, que um jovem camponês que vivia em Mino-no-Kuni, atual prefeitura de Gifu, certo dia montou em um belo cavalo branco e, decidido, saiu à procura de uma noiva para com ele casar.
Depois de muito cavalgar, avistou, em uma grande planície, uma linda garota colhendo flores silvestres. O cavalheiro ficou admirado com a beleza da encantadora menina, que, percebendo sua presença, abriu um belo sorriso. Seus olhares se cruzaram e ele sentiu um estranho brilho em suas pupilas, como intencionassem seduzi-lo...Mal sabendo o imprevidente, que, por trás de tanta beleza, escondia-se uma raposa encantada.
Transmitidos por gerações, os antigos contos populares nipônicos (Mukashi banashi), geralmente, incluem folclóricas histórias sobre criaturas sobrenaturais, casamentos fantásticos entre seres diferentes, espíritos (Yurei) e monstros (Yōkai), muitos dos quais envolvem, principalmente, a natureza, muitas delas influenciadas pelo xintoísmo — uma das principais religiões do Japão.
O rapaz tomado de súbita coragem aproximou-se educadamente com o coração cheio de alegria. Descendo de seu cavalo, dirigiu-lhe algumas palavras:
— O que faz tão bela donzela nesta planície florida?
— Caminhando à procura, quem sabe, de alguém que possa preencher meu coração! -Respondeu atrevidamente a moça. O jovem levou um choque de encantamento, manifestando timidamente: — Gentil menina queira eu poder ser essa pessoa!
O cortejar se prolongou por algumas horas, no final da tarde, quando o Sol já se punha no horizonte, o galanteador propôs: — Aceita ser minha noiva? Um tanto ruborizada, a garota abaixou os olhos, respondendo: — Aceito!
Poucos dias depois, o jovem camponês voltou para casa na companhia da bela garota. A vila inteira se reuniu e, então, foi realizada uma grande festa de casamento.
Assim, o tempo passou e o casal vivia feliz. Não muito mais tarde, a jovem esposa engravidou e, no dia 15 de Dezembro, um filho saudável nasceu. Exatamente, naquela data, e hora, a cadela que o rapaz criava em sua casa, desde que era menino, também teve um filhote. Os dias foram passando e o cãozinho, todas as vezes que via a bela mulher do agricultor, começava a rosnar irritado, mostrando-lhe os dentes. Por vezes, chegou ameaçar atacar, deixando-a tremendo de medo. Certa vez, ela pediu ao marido: — Por favor, meu querido marido, livre-se desse cão que vive me atormentando. Porém, seu marido ficou com dó do pobre filhote.
E o tempo foi passando. Chegando a meados de Fevereiro; época de pilar o arroz em casca para fazer o beneficiamento. Certo dia, a jovem esposa entrou na despensa, onde se encontrava o pilão e o almofariz. A cadela, que descansava num canto com o filhote, de repente, avançou rosnando e atacou, saltando sobre ela enfurecida. Surpreendida, a mulher ficou paralisada de medo, tremendo de pavor. Ao ouvir os gritos, o marido correu em seu socorro. Mas o que viu o deixou ainda mais espantado.
Sua bela esposa estava se transformando em uma raposa. Imediatamente, a criatura recém-transformada, subiu sobre um armário para fugir dos dentes afiados da cadela e disse ao marido: — Desculpe-me querido, a cadela quebrou meu encanto, num momento de pânico, acabei por revelar minha forma original. Como pode ver, não sou humana, e sim uma raposa. Mas, creia, eu te amo como ninguém mais poderia amar nesse mundo! Tivemos uma bela convivência como marido e mulher. Embora por um período curto, nós fomos muito felizes. A prova da nossa felicidade é nossa linda criança, ela é fruto de nosso amor. Sei que, conhecendo minha verdadeira origem, é impossível permanecermos casados, por isso, retornarei a floresta. E, assim dizendo, a raposa saltou pela janela, desaparecendo na mata.
A raposa encantada em forma de mulher foi chamada de, kitsune. Dizem que a raposa voltava todas as noites para dormir com seu marido humano. Mas, na realidade, ela voltava apenas nos sonhos do jovem camponês. Certa ocasião, a raposa encantada veio visitar o marido trajando um lindo quimono. Seu longo traje tinha a cor rosa do alvorecer e uma elegância indescritível. Mas, tomada pelo vento, desapareceu flutuando para algum lugar distante e desconhecido.
Desde então, nunca mais sonhou com sua encantada. Porém, aquela visão ficou gravada em sua mente e ele não conseguiu esquecê-la. O saudoso marido passou a escrever poemas e recitá-los repetidamente em homenagem a sua amada.
Com o passar dos anos, o garoto, filho do camponês e da raposa, cresceu, tornando-se um rapaz de força e rapidez sem igual. O belo jovem, muito popular na província, acabou sendo eleito o organizador dos Festivais da Primavera e da Colheita. E, por ser conhecido como filho da raposa encantada (kitsune), o cargo de organizador dos festivais, passou a ser chamado de Kitsune-no-atae.
Fim
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