Capítulo XXVIII
A P R I L
— EU SOU LOUCA, ARTHUR? — A voz da minha mãe irrompeu do silêncio. — O único de nós que teve que ir a um psiquiatra foi você.
Uma porta no fim do corredor se fechou com um baque e a discussão acalorada se tornou um ruído incompreensível à distância.
Dessa vez, meus pais felizmente tiveram a decência de fechar a porta antes que um deles dissesse algo que destruiria de vez qualquer respeito que eu tinha por eles. Paige e Arthur Wright podiam acordar discutindo e trocando os insultos mais baixos, mas até o horário do almoço a coisa toda teria ficado para trás. Eu, por outro lado, não conseguia digerir tanta negatividade antes do café da manhã sem ter uma baita indigestão — por isso, eu os ignorava como regra; não só para me preservar, mas para preservar meu amor por eles também.
Quer dizer, apesar de ter abordado o assunto como ogro, Hunter estava certo sobre minha família: amar aquelas pessoas era complicado — eu mesma, muitas vezes, precisava de pequenos truques para lidar com suas falhas.
Naquele momento, por exemplo, ovos fritos estalavam sobre a frigideira aquecida enquanto eu dava meu melhor para ignorar a voz da minha mãe no fim do corredor — agora que a verdade estava à solta, eu não queria arriscar ouvi-la, nem mesmo vê-la: só a ideia de encarar seu rosto e não encontrar algo para admirar me apavorava.
— Você vai beber isso?
Uma embalagem de iogurte proteico invadiu meu campo de visão.
Eu despejava os ovos sobre uma torrada quando Cole surgiu ao meu lado, sacudindo a garrafinha a centímetros do meu nariz. O sol das primeiras horas da manhã atravessava as janelas e projetava uma luz amarelada pelo interior da cozinha — se não fosse pelo barulho dos nossos pais discutindo atrás de portas fechadas no outro cômodo, nós estaríamos sozinhos no mais perfeito silêncio, cada um preparando seu próprio café da manhã.
Não me dei ao trabalho de respondê-lo.
O iogurte era só um pretexto para dar início a uma conversa. Um descuido meu e ele voltaria a agir como se nada tivesse acontecido, assim toda conversa sobre drogas e arriscar a vida de seus amigos ficaria para trás.
— Tudo bem — disse ao encostar a porta da geladeira. — Agora é meu.
Meu irmão abriu a embalagem ruidosamente e aproveitou a oportunidade para me lançar um olhar avaliativo.
Se eu o conhecia bem, havia acordado mais cedo para correr antes da escola e, entre malhar e se arrumar, perdera a hora. Vestia o mesmo que eu: camisa de botões branca sob um colete de lã acinzentado. Qualquer um que visse seus cabelos loiros ainda úmidos escovados para trás e seu uniforme de St. Clair perfeitamente alinhado imaginaria que aquele era um rapaz com um futuro promissor pela frente — o hematoma esverdeado sob seu olho direito, entretanto, contava uma história diferente.
Mordi a torrada.
— Hunter falou comigo na outra noite.
Uma simples menção ao nome fez o calor se espalhar meu rosto.
— Escuta, April, eu não posso te dizer o que fazer...
— Não pode mesmo — eu o interrompi, batendo as mãos para afastar os farelos da torrada.
— Só não deixa ele te tratar como vagabunda.
Ergui os olhos.
Cole estava maluco se achava que conseguiria chamar minha atenção com ofensas.
Larguei a torrada sobre o prato e pedaços de ovo mexido cobertos de abacate se espalharam pela bancada.
Antes que eu pudesse alcançar a porta, sua mão se fechou ao redor do meu pulso. A dor provocou uma reação imediata no meu corpo: eu pulei, tentando me esquivar.
Meu irmão não me soltou. Ele puxou a manga da camisa para cima e descobriu uma marca azulada na minha pele. Fez a mesma coisa com o outro braço, sem me deixar sair do lugar.
Eram marcas de mãos.
— Que porra é essa?
— Você — cuspi. — Você começou isso. Você provocou aqueles malucos.
Porra.
Eu havia passado o fim de semana inteiro pensando em como abordar o assunto sem perder a cabeça, mas ali estava eu: tremendo de raiva, pronta para insultá-lo até que faltasse ar nos meus pulmões.
Observei seu pomo de Adão descer rapidamente e seus olhos, castanhos iguais aos meus, se arregalaram.
— Não. — A voz dele soava sufocada. — Não, April.
— Milo... — Eu não esqueceria esse nome. — Ele veio se apresentar para mim.
— Filho da puta.
— Hunter me contou sobre seu envolvimento com a Sick Rabbit.
Eu precisava admirar o senso de autopreservação do meu irmão.
Em questão de segundos, qualquer resquício de preocupação fraternal em seu rosto se esvaiu para dar lugar ao desespero. Cole ergueu uma mão em direção a minha boca e lançou um olhar rápido por sobre o ombro, como se cogitasse me calar à força.
— O que você está dizendo?
— Como você pôde colocar todas aquelas pessoas em risco? Três meninos foram parar no hospital. Um deles teve que passar por cirurgia.
— Eu sei — sibilou entre dentes. — Eu os visitei no fim de semana, tá legal? Eles estão bem. Todos apresentam quadros estáveis.
— Claro. — Ri alterada. — Você os visitou. Isso melhora tudo.
O barulho de passos atravessou o corredor e eu tratei de puxar meus braços para perto do corpo. Apesar da expressão perigosa, Cole não apresentou resistência.
Quando meu pai surgiu na porta, cada um ocupava um canto da cozinha.
— Bom dia — ele murmurou baixo, sem levantar os olhos do jornal que tinha em mãos. Quando percebeu o filho mais velho parado em frente a geladeira, franziu a testa: — Bomba em física de novo? Sério?
— A nota do site não é definitiva. — Pela primeira vez, os olhos fundos de noites mal dormidas trouxeram um aspecto doentio para o rosto de Cole. — Os professores têm até o fim do período para lançar as provas.
Quase sorri.
Perto do nosso pai, ele sempre seria uma criança respondona.
Naquela manhã, vestindo uma camisa de botões e calça social, meu pai parecia mais velho do que eu lembrava — era quase como se, do dia para a noite, novas linhas de expressão tivessem surgido em seu rosto: marcavam seu sorriso, o canto de seus olhos e, principalmente, sua testa. Ele parecia mais com um ser humano, menos com a presença onipotente da minha memória.
Olhando para seu rosto, beijado pela idade, eu me perguntei se não havia sido dura demais com ele no passado. Eu queria deixar o ressentimento para trás — não porque Hunter havia ridicularizado meus sentimentos, mas talvez porque houvesse chegado a hora.
Papai voltou sua atenção para mim. Por trás dos aros dourados de seus óculos, seus olhos me examinavam com um brilho irônico:
— Eu quero ouvir a advogada — ele disse, achando graça. — E então? Qual o argumento da defesa?
Minhas mãos envolveram uma caneca de café quente.
— Não posso me envolver nessa. É conflito de interesses.
Se tinha alguém no mundo que precisava ouvir críticas, esse alguém era Cole.
Meu pai deixou escapar uma risada.
Havia uma ponta de ceticismo em sua expressão, mas nada que me despertasse uma reação negativa. Pelo menos por agora eu estava em paz com ele.
— Pena. Você poderia ter uma carreira e tanto se quisesse.
Nós conversamos sobre inscrições para faculdade até minha mãe chamá-lo para atender o telefone no escritório. Cole permaneceu o tempo todo calado. Eu estava em dúvida se ele estava puto por eu ter uma relação boa com nosso pai ou se ele tinha medo que eu abrisse a boca sobre seu novo negócio paralelo — se bem que eu tinha um forte pressentimento de que a segunda opção seria a mais correta.
No momento em que papai sumiu no corredor, Cole se colocou de pé e encurtou a distância com passos cautelosos. Tinha os braços cruzados sobre o peito e me encarava com seriedade. Não agia de maneira intimidadora, nem nada parecido.
Finalmente, eu senti que nós colocaríamos as cartas na mesa.
Quer dizer, era isso que eu esperava.
— April, eu não sei o que Hunter te disse, mas ele não está envolvido. Ele não sabe.
Meu coração pulou no peito.
No fim, eu tinha feito a escolha certa ao confiar em Hunter: ele podia ter escondido de mim que meu irmão, um pequeno traficante, havia irritado uma gangue de motoqueiros, mas seu envolvimento naquela história acabava ali.
— Hunter disse que eu deveria conversar com você.
Meu irmão meneou a cabeça.
— Não há nada para conversar, April. Você é minha irmã mais nova. Eu te avisei que você deveria ficar longe do pub. Por acaso você me ouviu? Não.
Quase ri.
— Olhe as coisas que você faz para ganhar dinheiro. — Foi minha vez de cruzar os braços. — Consegue ser ainda mais irresponsável do que eu imaginei.
A cada palavra, o brilho de consternação em seus olhos queimava com mais intensidade. Cole não era de ferro. Se eu continuasse apelando para a culpa, talvez conseguisse abalar sua confiança naquele maldito plano.
— Todo mundo sabia que aquele lugar era perigoso. — Ele fez uma pausa e foi como se estivesse surpreso ao ouvir o som de sua própria voz. Era quase como se não a reconhecesse. Erguendo as mãos para ajeitar os cabelos loiros, ele deu dois passos para trás e recomeçou: — Você não precisa mais se preocupar. Eu tenho tudo sob controle. Se algo der errado, o problema é meu.
— Bom, as coisas já deram errado. Tem pessoas no hospital.
Cole continuou a me encarar, queixo erguido e maxilar destacado sob a pele.
Não tínhamos mais o que discutir. Meu irmão jamais daria o braço a torcer. Seja por orgulho ou por estupidez, ele afundaria com aquele barco.
Eu estava a caminho da porta quando parei ao seu lado:
— Se você puser as mãos em mim de novo, Hunter vai arrebentar a sua cara.
• • •
Minha carona para escola foi igualmente tensa.
Indy dirigiu o caminho inteiro absorta em pensamentos atrás do volante. Aparentemente, ela havia passado o fim de semana longe do celular — tudo isso porque monopolizamos o grupo de mensagens com nosso plano de participarmos de uma aula de defesa pessoal bem cedo no domingo. Nós esperamos até o último minuto por uma confirmação da parte de Indy, mas não obtivemos respostas.
Eu e as meninas insistimos em ir de qualquer maneira e nos divertimos horrores quando descobrimos que era uma turma para terceira idade — Jackie se tornou um fenômeno no meio das senhorinhas.
— Poderia ter sido legal se você tivesse ido.
Terminei a curta história com um sorriso, esperando pela reação da minha amiga.
Nós estávamos no estacionamento de St. Clair e faltavam poucos minutos para o sinal tocar. Distraída pelos gritos de alunos que corriam até o edifício principal, Indy saiu do carro sem dar muita importância ao que eu disse.
Bati a porta atrás de mim e me preparei para segui-la até os prédios.
— Ei — murmurei ao alcançá-la. — Está tudo bem?
Ela andava agarrada aos próprios livros, seus olhos claros semicerrados graças à claridade que atravessava as nuvens acinzentadas. Tinha os cabelos loiros soltos, sem a trança francesa habitual, e vestia um cachecol fino ao redor do pescoço.
Parecia estressada.
— Para, tá legal?
— O quê?
Pela primeira vez, notei os círculos escuros sob seus olhos cobertos por corretivo. Certamente, aquilo não fazia parte de sua maquiagem usual — blush e hidratante labial eram mais do que o suficiente para minha amiga.
— Nós já conversamos sobre isso antes. Eu não gosto de ser tratada como criança.
Finalmente. Eu não aguentava mais tentar contornar seu mau humor — pelo menos agora teríamos a chance de resolver esse clima ruim.
— Você está falando da aula de defesa pessoal? — Franzi o cenho. — Eu queria ir. Os últimos dias foram muito ruins e conseguir tirar a minha cabeça do drama por pelo menos um hora foi um alívio. Todas nós estávamos precisando disso.
A justificativa pareceu amolecer minha amiga. O desconforto em seu rosto deu lugar a um rubor saudável enquanto ela me avaliava.
— Além disso, o instrutor era muito gato — eu disse baixo, encaixando nossos braços para que pudéssemos andar juntas em direção ao prédio. — Ele me pegou pela cintura.
Apertei a dela como quem fazia cócegas.
— Tenho certeza que ele aproveitou toda chance que tinha para flertar com vocês.
— Na verdade, ele era gay — confessei, arrancando mais uma risada da minha amiga. — Ele não deve aguentar mais aquelas senhorinhas assanhadas. Pelo menos, elas eram cheias da grana.
É claro que eu estava inventando a porra toda.
Felizmente, as senhorinhas eram muito respeitosas e nada atiradas. Se alguma coisa, tratava-se de um grupo de românticas incorrigíveis — cada um de nós, jovens, teria saído daquela aula com um encontro marcado com seus netos se dependesse da vontade delas.
Minha tentativa de quebrar o gelo funcionou tão bem que logo engatamos uma conversa boba. Apesar de atrasadas, subimos as escadas que levavam aos prédios da ala leste de St. Clair tão devagar que, quando atingimos o topo, a tensão de mais cedo pareceu ter ficado para trás.
— Você fica aqui. — Indy apontou para portas fechadas do ginásio. Havia um grupo de meninas reunido sob a marquise do pavilhão e, a julgar pelos detalhes no uniforme, todas pertenciam a séries inferiores. — Boa sorte.
Eu suspirei, me encaminhando para as portas, e olhares maravilhados acompanharam cada um de meus passos.
Definitivamente, eu teria um dia longo pela frente.
• • •
Olha, eu não queria me gabar, mas a comoção causada por Jackie na aula de defesa pessoal não chegava nem perto daquela causada por mim naquele ginásio. Na última meia hora, eu tinha atingido o status de deusa entre aquelas meninas. Elas olhavam para mim como se eu fosse o ápice da existência humana e estava achando difícil não deixar aquilo subir à cabeça.
— Mais tinta azul. — Eu instruí, contornando os cartazes espalhados pelo chão. — Não se esqueçam de misturar com o branco até encontrar o tom certo.
Nós não tínhamos tempo hábil para comprar uma lata de tinta do tom certo.
Os jogos internos começariam em poucos dias e o colégio parecia prestes a explodir em pompons e confettis. Havia cartazes e adereços de todas as cores em toda parte, mas o azul e branco tradicional da Thomas não estava à vista.
Graças ao desfalque dos nossos cofres, nós estávamos atrasados em todos os sentidos: tintas, camisas, cartolinas. Por isso, enquanto a equipe de coreografia realizava seu último treino no ginásio, os alunos restantes — eu inclusa — estavam condenados à arrumação e a confecção de cartazes.
A maioria aceitou a distração de bom grado, transformando suas preocupações em produtividade enquanto os meninos feridos na noite do pub não recebiam alta — eu assinei um ou dois cartões da turma desejando melhoras, sentindo olhares de julgamento sobre mim. Eles sabiam que meu irmão havia escondido informações que colocaram todos em risco, mas felizmente não sabiam até que ponto ele estava envolvido naquela merda.
Nosso maior problema como equipe, porém, foi enfrentar a burocracia de St. Clair. Os professores não gostaram da ideia de nos liberar por dois tempos inteiros, mas — para a diretoria — manter o espírito escolar vivo era tão importante quanto estudar.
E eu aprendi essa lição na marra.
Naquela manhã mesmo, eu havia tirado a sorte grande: por causa do meu papel de destaque naquela pequena insurreição estudantil, fiquei encarregada de coordenar nossos calouros durante as atividades. No fim, pouco mais de uma dúzia de meninas apareceram para ajudar na confecção de cartazes, o que me deixava com cerca de metade do efetivo previsto pelas folhas de presença.
Para mim, aquilo não era exatamente o fim do mundo — quanto menor a responsabilidade, melhor.
— April?
Uma voz miúda me chamou.
Ah, sim.
Era Samantha. Ou Tabitha.
— Não ligue de volta. — Eu continuei o discurso com um tom profissional enquanto ela me seguia de perto com uma prancheta entre as mãos: — Espere até ele ir atrás de você. Daí você ataca.
Eu estava arrasando.
Bom, isso ou eu estava criando uma geração de meninas emocionalmente danificadas como eu.
A primeira opção soava mais reconfortante.
— E se ele quiser ficar com outras garotas?
Se eu estivesse entre amigas, minha resposta seria algo nas linhas de: "beije o melhor amigo dele!" ou "dê um tapa na cara desse infeliz!". No entanto, como eu era a adulta responsável naquela parte da quadra, eu ergui o queixo e disse:
— Termine. Você sabe o que quer e não deve aceitar menos do que isso.
Para minha sorte, as meninas entenderam a tarefa bem rápido. Eu não tinha muito o que fazer além de sugerir mudanças bobas e resolver os contratempos que apareciam no caminho — isso sem contar com os pequenos dramas da vida privada: eu não imaginava que as meninas tivessem tanta fofoca para compartilhar.
Não imaginei que conquistaria a confiança delas tão rápido.
Quando cheguei no ginásio mais cedo, percebi que as calouras mal conseguiam me encarar nos olhos. Elas me contaram, cheias de medo, que Lexie havia apavorado uma boa parte delas na última reunião. As meninas estavam esperando que eu continuasse com o reinado de terror da minha colega, mas felizmente eu decidi que seria muito mais divertido fazer com que elas me adorassem — com certeza a minha crescente popularidade entre as calouras deixaria muita gente zangada.
Eu era tipo a princesa Diana, se ela fosse má e tivesse muito tempo livre à disposição.
Antes que eu me empolgasse demais com essa história de bancar a irmã mais velha, Tabitha, a menina de mais cedo, me chamou:
— Ela quer falar com você.
De olhos arregalados, Tabitha gesticulou para algo atrás de mim.
Ah, sim.
Falando no diabo.
Próxima à arquibancada, Lexie me aguardava de braços cruzados e uma cara de poucos amigos. Um rabo de cavalo apertado segurava seus cabelos longos no topo de sua cabeça e sombra preta esfumada destacava seus olhos verdes. Ela vestia shorts de elastano comuns aos uniformes de educação física e uma babydoll justa com os dizeres "KEEP CALM AND BELIEVE IN YOUR TEAM" se sobrepunha ao símbolo do time — era a camisa da torcida, eu mesma tinha encomendado uma.
— Boa sorte! — Tabitha ergueu os polegares em entusiasmo e tratou de desaparecer.
Eu estava de joelhos contra o chão, consertando as letras tortas de um cartaz. Tive que entregar meu pincel a outra pessoa e pedir para me substituírem.
Vários pares de olhos aflitos me seguiram no trajeto que fiz até Lexie.
Caramba.
As fofocas que inventariam ao meu respeito seriam insanas.
— Vejo que você está fazendo um ótimo trabalho com as calouras, April.
Eu franzi as sobrancelhas para o elogio.
Em nosso último encontro, ela havia deixado claro que usaria tudo que estava ao seu alcance para deixar a minha vida mais difícil. Não havia mais necessidade de trocarmos bajulações ou conversa fiada.
— O que você quer?
— Sabe... — Ela riu e a postura peçonhenta se desmontou por um minuto: — Nós vamos ter uma pequena confraternização antes dos jogos. Algo exclusivo para os veteranos. Você deveria vir.
Lexie me convidando para uma festa?
Eu assisti Carrie, a Estranha e sabia muito onde aquilo iria parar.
Depois do que pareceu uma eternidade, ela liberou uma risada nervosa:
— E então?
— Eu ouvi o convite. — Eu cruzei os braços, abrindo um sorriso detestável. — Só estou tentando entender qual a sua jogada.
— Eu estou sendo gentil.
— Certo. — Ironizei. — Infernizar pré-adolescentes deve ter perdido a graça.
As sobrancelhas de Lexie se ergueram de leve. Por trás de seus olhos verdes, eu quase podia enxergar seus pensamentos disparados — ela parecia lutar contra impulsos assassinos.
— Justo. — Lexie limpou a garganta e recomeçou: — Bom. Eu vou estar muito ocupada com a coreografia e não terei tempo para comprar os brownies. Já que você está tão envolvida com o time, pensei que poderia nos ajudar.
— Que brownies?
Ela olhou para longe, como se o assunto não tivesse importância, mas eu podia ver suas orelhas erguidas como as de uma raposa.
— Aqueles que têm em toda festa do time? — Fez um gesto vago com a mão. — Sempre elevam a nossa moral antes dos jogos.
Eu não teria como saber. Até algumas semanas atrás, eu evitava me envolver com a fraternidade por uma questão de puro capricho.
Meus olhos vagaram pelo ginásio, atraídos pelo movimento de pompons coloridos. Alguns metros dali, a equipe de coreografia ensaiava os passos de uma música pop e, mais atrás, os garotos estendiam uma faixa acima da entrada.
Embora estivesse de costas para mim, eu reconheci Hunter próximo às portas duplas: ele e Finch tinham uma escada de madeira encaixada sobre os ombros e a carregavam para longe.
Desde a nossa última conversa, eu temi pelo momento em que nos veríamos de novo. Eu esperei ser derrubada por uma onda aterradora de vergonha, mas nada aconteceu — por incrível que pareça, eu não me arrependi de tentar confiar em Hunter.
Doía, é claro, mas não a ponto de me afugentar.
Eles apoiaram a escada na parede e, com o coração apertado, eu o observei subir os degraus.
— Hunter adora eles.
A voz de Lexie me assustou.
Dessa vez, ela sorria para mim cheia de malícia.
— Não vai dar — eu disse de uma vez, pronta para dar as costas. — Hoje a noite eu estarei ocupada.
Antes que eu pudesse ir muito longe, Lexie se colocou no meu caminho.
— Você acha que está acima de nós, não é?
— Gosto de pensar que sim, Lexie.
Tentei sair pela direita com um sorrisinho, mas cinco unhas pintadas de azul se cravaram no meu pulso:
— Bom, você vai descobrir que, para Hunter, você vale tanto quanto qualquer outra. Você é nada. Nada, está me ouvindo?
Havia puro ódio em seus olhos, uma emoção tão crua que abalava sua voz e mudava seu rosto. Por um momento, eu pude vislumbrar o rancor que Lexie guardava em seu íntimo. Você é nada. Ela queria passar adiante o sentimento — esperava que eu repetisse as palavras, assim como ela repetiu —, mas eu não me identificava com aquilo.
Em vez de me encolher de medo, eu me sentia eufórica, prestes a cair no riso.
— Sabe que agora eu estou começando a me lembrar? — Desci meus olhos para o chão e franzi as sobrancelhas, pensativa. — Hunter disse algo assim mesmo. Ele disse: "Não quero te comer outra vez. Vá perturbar outro". — Meu coração batia como louco. — Ah, não, espera. — Voltei a rir, encarando Lexie. — Ele disse isso para você!
Antes que eu conseguisse terminar a frase, a mão dela agitou meus cabelos. Eu fechei os olhos e esperei pelo tapa, mas um ombro forte me empurrou para trás.
Quando abri os olhos novamente, Josh Halden segurava Lexie pelos pulsos.
• • •
— Você está sempre me salvando, Josh.
— E você está sempre precisando ser salva, April.
Na última vez em que eu o vi, eu havia amassado parte do para-choque dele em um dia de chuva. Eu ainda me culpava pelo pequeno acidente no estacionamento — Josh, no entanto, não parecia sequer lembrar do ocorrido.
No momento, nós caminhávamos lado a lado, contornando a confecção de cartazes pelo canto da quadra. Ele me explicou que a professora de literatura nos procurava: aparentemente, era dia de tirar fotos dos alunos em destaque — eu aceitei, claro, jamais recusaria a um pedido daquela professora; ela sempre fora muito gentil comigo.
— Não culpe a vítima. — Eu empurrei o ombro dele de leve. — Eu podia ter acabado como aquele balde de tinta.
Nós observamos o balde metálico que Lexie havia chutado em sua saída dramática. A tinta teria feito um estrago e tanto no chão do ginásio se não fosse pelas lonas velhas que usamos para forrar nossa porção da quadra: era um ambiente perfeito para comportar estudantes sem talento com o pincel e, de quebra, à prova de Lexie.
Josh estava prestes a me responder quando o som de gritos irrompeu da porta do ginásio.
No topo de uma escada portátil, uma garota ria escandalosa e pedia para descer. Ela se agarrava firmemente ao degrau metálico enquanto erguia uma grande faixa de boas vindas sobre a entrada com a mão livre — ela devia estar prestes a pendurá-la quando os meninos tiveram a brilhante ideia de sacudir a escada contra a parede.
No meio da confusão, os meus olhos encontraram os de Hunter.
A visão de seus ombros tensos, perfeitamente imóveis sob o uniforme, me inquietou — sem dúvida, ele nos vigiava há um bom tempo e não demonstrou sinal de constrangimento ao ser pego.
Que ótimo.
Hunter territorial e ciumento. Justamente o que precisávamos agora.
— ME LARGA!
Mais risos atravessaram a quadra.
Dessa vez, a menina estava sobre os ombros de Seth, que havia iniciado uma brincadeira com outros garotos. O barulho dos pares de tênis cantando contra o piso se tornou tão alto quanto o de uma partida de basquete em andamento — se ninguém os interrompesse, o caos se espalharia e nós perderíamos o frágil controle que tínhamos sobre o ginásio.
E eu fui burra a ponto de ter prometido ao diretor que manteria tudo em ordem.
Quando eu estava me conformando com a ideia de levar uma advertência, avistei os cabelos loiros do meu irmão: ele levou um par de dedos à boca e assobiou alto, chamando atenção de todos para si.
Os garotos pararam de correr e seus sorrisos foram substituídos por olhares de desconfiança, um por um. Eu sabia que Cole não estava em seu melhor momento como representante da Thomas, mas a maioria ainda tinha respeito pelo cargo — se eu fosse ele, eu me prepararia para ser deposta a qualquer momento.
Virei o rosto.
— Seus amigos são interessantes. — Josh, que até então observava a cena em silêncio, sorriu.
Eu endireitei a minha postura, me esforçando para manter o tom amigável.
Por mais que eu quisesse, não podia simplesmente ignorar a professora e abandonar Josh em uma quadra com pelo menos meia dúzia de caras que adorariam quebrar a cara dele.
— Bom, você sabe — tentei um sorriso —, as coisas por aqui nunca ficam entediantes.
Até onde eu sabia, Josh odiava a Thomas. Eu era a única pessoa da nossa fraternidade com quem ele mantinha uma relação amigável e, mesmo assim, não éramos tão próximos.
O desprezo óbvio tornava a cena de momentos atrás ainda mais bizarra: Lexie e Josh, duas pessoas que até então eu acreditava não terem conexão alguma, tinham discutido cara a cara. Josh havia segurado a garota pelos pulsos e murmurado algo baixo enquanto a puxava para perto. Não consegui ouvir o que ele dissera, mas — seja lá o que fosse — Josh tinha sorte de ser vários centímetros mais alto que Lexie — caso contrário, teria perdido o nariz para uma porção de dentes afiados.
Desconhecidos, com certeza, não discutiam daquele jeito.
Ao meu lado, Josh concordou com o queixo, distraído:
— Nunca vou entender por que você escolheu entrar para Thomas. Eu sei que já te disse isso antes, mas eles são tão...
— Pobres?
A sugestão o fez engasgar.
Pela primeira vez na vida, eu vi o rosto dele enrubescer. Josh gaguejou uma explicação e seu constrangimento cômico me fez ter certeza de que meu palpite estava correto — o dinheiro trazia a ele uma falsa sensação de superioridade.
Um sorriso inocente se espalhou pelos meus lábios.
— Eu estou brincando com você, Josh.
Apesar de ser um pouco babaca, Josh era uma boa pessoa.
Ou, pelo menos, eu achava que ele poderia ser.
— April. — Ele me segurou pelo braço, procurando pelos meus olhos. — Eu não sou assim. Se é isso que você pensa a meu respeito... Eu não sei o que dizer. Eu não quis ofender seus amigos.
Dei de ombros.
— É uma rivalidade antiga.
A maioria dos estudantes da minha fraternidade era bolsista ou vinha de famílias de classe média. Não havia dinheiro atravessando gerações, nem o plano de fundo sofisticado das famílias abastadas da região. Eles viviam em um mundo diferente daquele conhecido por Josh, por isso, o estranhamento — nada, no entanto, justificava a quantidade de comentários maldosos que eu precisava ouvir toda vez.
— Me desculpa, Josh. Eu estou descontando na pessoa errada.
Josh não tirava os olhos de mim. Ele não estava acostumado com meu veneno — eu não tinha mais motivo para fingir ser uma garota amável e sem opiniões, muito menos estava interessada em conquistar seu coração.
Eu estava apaixonada por outro.
Ergui uma mão ajeitar meu cabelo e a atenção dele foi para o meu pulso:
— Lexie não fez isso. — Ele segurou meu braço e foi a minha vez de entrar em desespero. Um movimento rápido e Josh desceu minhas mangas para inspecionar a região. As marcas de hematoma continuavam ali, exatamente como hoje de manhã. — Quem te machucou? — Os olhos de Josh subiram para meu rosto e então voaram para o outro lado da quadra: — Foi ele?
Pelo visto, Josh havia percebido que Campbell acompanhava nossa conversa de longe.
— Josh, pelo amor de Deus. — Eu tive que segurá-lo. — Isso não tem a ver com o Hunter.
— April, eu ouvi os rumores. — Ele parecia ter esperado por aquela oportunidade há muito tempo. — Já está na hora de alguém ter uma conversa com o sujeito.
— Josh, por favor. — Eu quase pulei em cima dele. — Podemos tirar a foto da professora? Eu te explico no caminho.
Tudo que eu sabia era que nós precisávamos desaparecer daquela quadra o quanto antes. Hunter caminhava na nossa direção e — que Deus nos ajude —, a julgar pela expressão em seu rosto aquilo não acabaria bem.

N/A (26/02/2024): Boa noite!!!
Conforme prometido, estou aqui. *aplausos* obg obg!!!
Ah, o trecho do spoiler literalmente fechou o capítulo kkkkk essa foi a minha maior vigarice!!!!!! Perdão, as coisas estavam mto paradas, eu tive que tomar medidas drásticas. O desfecho fica pro próximo cap!!
Ah, prometo o Hunter fará uma aparição impactante!!! Senti falta dele, inclusive.
Não se esqueçam: qualquer coisa é só falar!!
Bjs!!
B.
P.S.: A respeito da frase que abriu o capítulo: não preciso dizer que a mãe da April errou, né? Eu não quero ser didática e pegar todos pela mão, então vou resumir: retratar personagens maus/errados/burros/problemáticos não significa endossar tais atitudes.

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