Capítulo XXVII [PARTE UM]




H U N T E R


MAIS LEVE DO QUE UM BEIJO. Quase menos do que um roçar de lábios. Bastou aplicar uma pressão delicada sobre seu pescoço e April liberou um suspiro impaciente, muito parecido com um gemido. Ela procurava pela minha boca às cegas, pálpebras trêmulas e sobrancelhas franzidas. Debaixo da minha mão, seu coração estava disparado como as asas de um passarinho.

Eu sorri.

Há pouco mais de meia hora, meu corpo exausto colapsara sobre o dela. Eu teria apagado naquela posição se não fosse por sua mão gelada pressionada contra o meu abdômen. April se levantara, saltitara até o banheiro na ponta dos pés e voltara com a mesma rapidez, se aninhando ao meu peito e reclamando baixinho: "frio do caralho".

Desde então, mal havíamos nos movido sobre a cama.

Nós estávamos bem. Felizes. Exaustos.

Eu mesmo não conseguia acreditar na minha própria sorte. Apesar de ter todos os motivos para desconfiar de mim, April escolheu ficar do meu lado. Em algum momento dos últimos dias, atingimos um estranho nível de estabilidade que permitiu que isso acontecesse. Quer dizer, ela poderia ter me culpado pela situação toda envolvendo o irmão ou me punido por ter mantido-a no escuro, mas não o fez - era o primeiro voto de confiança que eu recebia em um bom tempo e a sensação era boa.

Céus.

Era boa demais.

Deslizei minha língua contra a de April em uma provocação e saboreei a resposta imediata do seu corpo. Ela arfava por mais e se agarrava a mim. Eu tomei sua boca com uma lentidão torturada, sem a intenção de apressar as coisas.

Só precisava disso.

O que quer que fosse.

April, no entanto, não estava no mesmo estado de espírito que eu. Ela escorregou uma mão sobre minha ereção e um tremor atravessou meu corpo.

- Calma. - Ri curto com surpresa, me apoiando sobre um dos cotovelos para enxergá-la melhor. - Eu quero tentar uma coisa.

Mesmo contrariada, April atendeu ao meu pedido.

Ela permitiu que eu a guiasse e meu estômago gelou com a antecipação. Eu encarava o rosto dela com devoção e a palavra certa para aquilo estava na ponta da minha língua. Eu precisava dizer. Me aproximei devagar, repousando minha testa contra a dela. A ruguinha teimosa entre suas sobrancelhas me deixava louco. Nenhuma outra me deixava louco April. Meu sorriso cedeu. Eu me sentia pesado, preso em um encantamento - April deve ter sentido aquilo também. Ela puxava o ar em um ritmo lento, não menos intenso do que antes. Era diferente. Cheguei mais perto, pronto para amá-la de todas as formas e teria feito isso se não fosse por aquele toque: uma pressão quase imperceptível sobre meu peito, que por pouco não estava lá. Assim que me inclinei para um beijo, sua mão se espalmou contra meu tórax e me segurou a uma distância confortável - um limite gentil, mas firme.

- Não - sussurrou.

Afastei meu rosto para observá-la melhor.

Por vários segundos, April permaneceu de olhos fechados. Desci meus dedos por seu cabelo e ela franziu as sobrancelhas de leve, retirando a mão que havia esquecido sobre meu peito:

- Desculpa - sua voz cortou o silêncio - É um reflexo.

A força da chuva castigava as árvores lá fora.

April tentou segurar minha mão, mas eu não deixei.

Um reflexo?

Encarei seu rosto, esperando por uma explicação, mas April tratou de desviar o olhar rapidamente.

Eu não deveria aumentar algo tão minúsculo, mas não conseguia parar de pensar naquele gesto: sua mão, o jeito que me manteve a uma distância segura - não era a primeira vez que ela me afastava e nem seria a última.

Minhas costas encontraram o colchão e meus olhos vagaram pelo quarto. As lâmpadas do jardim atravessavam os galhos tortos e projetavam sombras cheias de movimento no teto.

Passaram-se minutos.

Chovia tanto que por pouco não ouvi sua voz:

- Você sabe por que nós sentimos vontade de morder bebês?

O susto me despertou do sono:

- O quê?

- Meu Deus.

Ela grunhiu baixinho e tentou me dar as costas, mas não deixei.

Centenas de pensamentos atravessaram minha mente e tive certeza de que April detestaria ouvir pelo menos metade. Quando meu coração voltou a bater normalmente, eu perguntei meio risonho, apreensivo:

- Como assim bebês?

Apesar de ser relativamente novo nessa coisa de relacionamento, algo me dizia que existiam algumas etapas importantes antes de tocarmos no assunto bebês.

- Cala a boca. - Se April estava vermelha de raiva ou de vergonha, eu não sabia dizer. - Vou tentar explicar de outro jeito.

Passei a língua pelo lábio inferior, incapaz de segurar um sorriso.

Eu ainda estava frustrado, mas adorava vê-la constrangida.

Decidida a ignorar minhas gracinhas, a menina soltou o ar devagar. Olhava para o teto, para a parede, para qualquer lugar que não fosse na minha direção.

- Você já sentiu uma pontada de tristeza inexplicável depois de passar por algo muito bom?

Ergui uma sobrancelha.

- O que isso tem a ver com bebês?

- Esqueça os bebês, Hunter. - Se ela pudesse apagar minha memória com um soco, tive certeza que o faria. - Só responde.

Eu não sabia onde a April queria chegar com aquela conversa, mas ela ficava bonita envergonhada daquele jeito.

Decidi facilitar um pouco.

- Acho que sim.

Ela apertou os olhos como se não acreditasse em mim.

- Eu não sei, April - disse em um tom mais sério. - Isso foi muito vago.

- Tudo bem - tentou de novo, apoiando-se sobre os cotovelos. - Imagina que você assistiu a um show da sua banda favorita. Ótima apresentação, a plateia em êxtase. Então o show acaba e todos vão para casa. Você sente uma tristeza, um vazio.

- Vazio do tipo "que pena que acabou"?

- Sim - em segundos, o brilho de certeza desapareceu de seus olhos: - Não. Droga - reclamou, escondendo o rosto atrás das mãos e sua voz soou abafada. - Eu odeio explicar. Parece tão ridículo.

Não resisti. Meus dedos acompanharam seu cabelo macio do topo até a ponta.

- Continua - disse baixo - Eu estou ouvindo.

Nós estávamos sozinhos naquele quarto. Não poderia ser tão difícil dizer em voz alta seja lá o que fosse.

- É só uma coisa que eu li em uma revista. - Ela respirou fundo e me encarou. - Nosso cérebro balanceia nossas emoções para não nos sobrecarregar com os estímulos. É como se nossas emoções viessem em pares. Tipo tristeza e alegria...

- Tipo chorar de felicidade? Ou rir em um funeral?

- É isso - disse, aliviada.

Algo se suavizou dentro de mim.

Eu não conseguia desviar os olhos de April.

- Ou pelo menos eu acho que é isso - admitiu, menos confiante - Eu li já faz um tempo.

Escondi um sorriso, observando as maçãs de seu rosto tingidas de vermelho. Eu não sabia o significado de todas aquelas informações separadas, mas sabia que era algo importante para April.

- Tudo bem - afastei uns fios de cabelo de seu rosto e acompanhei a curva de seu ombro - Você explicou bem.

Embalado pelo barulho fraco da chuva, observei uma ruguinha surgir entre suas sobrancelhas. Antes que eu pudesse perguntar o que houve, seus dedos frios envolveram minha mão e a trouxeram para cima, para altura dos nossos olhos. Muito devagar, April pressionou seus lábios contra as costas da minha mão.

Um beijo suave, infinitamente terno.

Minha pele ainda formigava quando ela me encarou conflituosa, como se decidisse que aquilo não era suficiente.

- É assim que nosso cérebro reage a estímulos fortes. - April se ajeitou sobre os travesseiro e se inclinou para mim, roçando as peças frias de seus piercings contra meu peito. - O sistema nervoso desencadeia reações opostas. - Cada palavra soava macia aos meus ouvidos. - Uma resposta evolutiva. Nós estamos o tempo inteiro tentando sobreviver.

Ela se movia sem pressa.

Eu fechei meus olhos, agarrando seu quadril com minhas mãos.

- Quando você chega tão perto. - Seu nariz se arrastou sobre a minha pele. - Tão calmo. É demais para mim.

O calor de sua respiração batia em meu pescoço, enviando arrepios pelo meu corpo inteiro. Meu coração martelava no peito, refém de cada avanço de April.

Ela poderia arrancar a carne dos meus ossos e eu chamaria aquilo de paraíso.

Sorri sem fôlego.

- Você sente vontade de me morder?

- Não - disse rouca. - Eu sinto como se pudesse morrer.

Meu sorriso fraquejou. Afastei os cabelos macios que cobriam seu rosto para encontrar seus olhos castanhos brilhantes, carregados de emoção.

- Você poderia me matar com um beijo.

A angústia em sua voz doeu em mim.

Não tive tempo para entender.

April puxou meu lábio inferior entre os dentes e suas unhas afundaram na minha nuca. Senti sua língua deslizar sobre a minha e o peso de seu corpo, tão deliciosamente familiar, me prendendo contra o colchão. April me beijou e eu soube que ela me teria em qualquer lugar que quisesse: em suas mãos, em sua cama, em sua vida.

Quando nos afastamos, meu pau pulsava no meio das minhas pernas. Mesmo deitado, me sentia zonzo. Se fechasse os olhos agora, tinha certeza que o cheiro de seu shampoo invadiria meus sonhos.

- Agora, shiu - sussurrou baixinho. - Eu tenho que acordar daqui a cinco horas.

Ela deitou sobre meu peito e seus cabelos se espalharam pela minha cara.

Eu mal respirava.

Meu Deus.

Isso é maldade.

Após minutos resistindo ao impulso de envolvê-la em meus braços, reuni coragem o suficiente para me afastar.

Se eu não saísse naquele momento, nunca mais sairia.

- O que aconteceu?

- Não posso ficar, April. - Me sentei sobre a cama, meio amolecido pelo modo como as palavras escaparam da boca dela. - Tenho que ir para casa. Minha mãe deve estar preocupada.

Desde a última vez que cheguei em casa às seis da manhã de olho roxo, as coisas tinham mudado. Eu decidi abandonar meu lugar no topo da lista de preocupações da minha mãe e me esforçar para manter as atividades ilícitas no mínimo.

Infelizmente, por causa de April e todo caos no pub, havia esquecido completamente o horário combinado. Minha mãe precisaria entender meu lado - não era toda noite que eu tinha chance de dividir a cama com a garota que me tirava o sono.

Quando me virei para April, ela tinha os olhos arregalados:

- Sua mãe?

Por que tão surpresa?

- É - resmunguei sem esconder o incômodo, estendendo o par de jeans amarrotado em frente ao meu corpo - Eu tenho uma.

O tecido não estava totalmente seco, mas o aquecedor fez um bom trabalho. April havia me dito para estender as roupas próximo à saída de ar quando saímos do chuveiro. Mais um pouco de calor e as calças estariam perfeitas.

- E uma irmã também - acrescentei distraído, desamassando os jeans com as mãos.

A nova informação pareceu piorar as coisas.

- Uma irmã? - repetiu fascinada, ajoelhando-se sobre a cama. Cobria os seios com ajuda dos cobertores grossos enquanto seus cabelos castanhos sedosos caíam sobre os ombros como cascatas.

- É - franzi o cenho - Ela tem seis anos.

- Você está falando sério?

Por que eu mentiria sobre uma coisa dessas?

Peguei meu celular dentro do bolso da jaqueta e mostrei a primeira foto que encontrei. Uma versão pixelada de Julie sorria para câmera com um tutu de ballet sobre os pijamas. Era recente, no máximo dois dias atrás.

- Meu Deus - ela tomou o aparelho da minha mão - Olha esses dentinhos.

Antes que eu pudesse evitar, um sorriso deslizou pelos meus lábios. Me sentei sobre a beirada da cama e observei a alegria de April meio orgulhoso. Julie era mesmo uma figura.

- Tem certeza que vocês são parentes?

Fechei a cara.

- Só estou dizendo que ela é adorável. - April voltou os olhos para a tela e a luz fraca do celular iluminou seu sorrisinho - Você nem tanto.

Eu me coloquei de joelhos sobre a cama e tentei pegar o celular de volta, sem sucesso.

- O que está fazendo? - perguntou rindo, fugindo de mim.

Não respondi. Apenas posicionei uma perna de cada lado de seu quadril e a empurrei contra o colchão. April não resistiu. A expectativa tomava seus olhos. Desci meu tronco devagar e minha boca alcançou seu ouvido:

- Você já viu o suficiente.

Em um movimento sorrateiro, agarrei o aparelho.

- Trapaceiro - April resmungou contra os meus lábios, me puxando para si.

Era tão gostoso.

Minhas mãos se enroscaram em seus cabelos macios. Segurei firme, puxando rente à sua nuca. Ela sorriu deliciada com o puxão, oferecendo seu pescoço para mim:

- Precisa mesmo ir? - Acompanhava os músculos das minhas costas com as unhas. - É madrugada. - Havia uma súplica escondida em seu tom de voz: - Não faz sentido pegar a estrada no escuro.

O barulho contínuo das gotas contra o telhado arrancou um grunhido do fundo da minha garganta. April estava tão quentinha. Em outras circunstâncias, jamais escolheria voluntariamente deixar sua cama para vestir roupas úmidas e congelar de frio.

Pressionei os lábios sobre a pele fina abaixo de seu queixo e observei os pelinhos de seu pescoço se arrepiarem.

Eu precisava ir embora, mas Deus sabia que eu queria ficar.

Se cedesse à tentação, além de decepcionar minha mãe, eu teria que me levantar antes do café da manhã dos Wright. Isso me daria menos de quatro horas de sono. Na saída, eu precisaria me esgueirar pelos corredores como um ninja e sumir, porque nem fodendo eu encontraria os pais da April daquela maneira.

- Não quer esperar até a chuva diminuir?

Ergui o rosto.

Ela não faria aquela pergunta se soubesse o poder que tinha sobre mim.

- Acho que posso ficar mais um pouco - concordei devagar, observando suas feições se suavizarem - Até a chuva diminuir.

Nós trocamos um olhar demorado e uma tensão gostosa desceu pelo meu abdômen. Puta que pariu. O que eu sentia ao lado de April, eu não sentia ao lado de mais ninguém. Eu queria que April fosse minha namorada.

Por que tinha que ser tão difícil, meu Deus?

- Venha aqui. - Ela segurou a coberta rente aos peitos e a estendeu sobre meu corpo.

Talvez tenha sido o calor debaixo dos cobertores ou a maneira como suas mãos me tocaram enquanto eu me acomodava ou o fato de April estar completamente nua ao meu lado. Não sei. Foda-se. Todos esses fatores misturados contribuíram para que meu pau quase escorregasse para fora da cueca. Ajeitei o volume dentro da boxer e limpei a garganta, tentando clarear a mente.

Nós éramos perfeitamente capazes de dividir a cama por mais algumas horas sem transar.

Molezinha.

- O que houve?

Mesmo de olhos fechados, eu sabia que a curva de um sorriso acompanhava sua pergunta.

- Fale comigo, April - pedi. - Não me deixe dormir.

Claro. Nós sempre podíamos fazer sexo até o sol raiar, mas eu estava tentando provar um ponto para April: nós podíamos ser um casal normal - daqueles que tem uma via de comunicação saudável e ficam mais de quarenta e oito horas sem brigar -, nós só não queríamos essa porra.

Talvez assim ela se acostumasse de uma vez por todas com a ideia de ser a minha namorada.

Uma ruguinha ameaçou surgir entre suas sobrancelhas.

- Falar o quê?

- Não sei - minha voz soava rouca - Nós podíamos conversar.

April assentiu devagar.

A julgar pela expressão em seu rosto, o maquinário de seu cérebro trabalhava a todo vapor. Depois de vários segundos, seus olhos se arregalaram de leve. Ela ergueu um dedo como se me dissesse para esperar e esticou o corpo até a cômoda.

Ouvi gavetas se abrirem e fecharem.

Quando voltou para cama, April tinha uma garrafa de vodka nas mãos.

- Você vai beber? - Foi a minha vez de franzir a testa.

- A bebida entra, a verdade sai. - Ela sorriu orgulhosa de si e parou com os lábios a centímetros do gargalo: - E ajuda com a outra coisa também.

Ah, sim.

A outra coisa.

Eu deixava April nervosa.

Em qualquer outra ocasião, seria delicioso ouvir aquelas palavras, mas agora - que eu sabia que April bebia para evitar os sentimentos - não parecia algo a se comemorar. Eu poderia muito bem estar empurrando a garota em direção ao alcoolismo.

A bebida desceu pela sua garganta em dois goles longos. April limpou a boca com as costas da mão e sufocou uma tosse, olhos fechados com força.

- É madrugada - sua voz se ergueu sobre o silêncio - Sobre o que as pessoas conversam de madrugada? Sexo?

— Verdade. — O sorriso malicioso estava de volta em seu rosto — Deveríamos começar com as perguntas existenciais?

Fiz uma careta.

— Nós devíamos tentar outra coisa — sugeriu, suas sobrancelhas franzidas em concentração. — O que acha da política externa dos Estados Unidos?

Jesus Cristo. — Levei uma das mãos à testa, afundando os dedos em meus cabelos. — É melhor guardar isso para as aulas de geopolítica.

— Detesto aquele cara — April se remexeu sobre a cama, inconformada.

— Por quê?

— Ele não me respeita.

Por um motivo ou outro, todo mundo odiava a aula de geopolítica. Além dos slides intermináveis, o professor sempre tentava incitar a participação da turma em um debate.

— Ele provavelmente se sente intimidado. — Afastei os cabelos castanhos de seu rosto. — Você é jovem, inteligente...

— Uma mulher.

Um pequeno sorriso deslizou pelos meus lábios.

— É, por aí. Ele é velho, obsoleto, prestes a bater as botas... A nova geração deve deixá-lo morrendo de medo.

Ela me encarou desconfiada, sem acreditar em mim.

— Você é brilhante, April — sussurrei. — Não estou dizendo isso só porque quero te comer.

— É — disse, estreitando os olhos. — Até mesmo porque você já está na minha cama.

Uma risada escapou da minha garganta e não pude evitar beijá-la. Um beijo carinhoso, tão espontâneo que evocava uma intimidade que aquecia o peito. E o rosto, aparentemente.

Nenhum de nós soube o que fazer depois.

Antes que o silêncio pudesse pesar, April limpou a garganta:

- Talvez devêssemos começar com clichês como "você acredita em Deus?" ou algo do tipo.

- Não - respondi na lata. - E você?

Ela piscou algumas vezes, olhos castanhos bem abertos.

- Não.

- Você pode acreditar, se quiser, April. - Sorri irônico. - Eu não vou zombar de você.

No entanto, seria no mínimo engraçado se ela dissesse que acredita, considerando as inúmeras piadas de cunho religioso que compartilhamos.

— Não, não é isso. — Ela meneou a cabeça, envergonhada. — É besteira. Eu odiava as aulas de religião. Isso foi há anos, ainda no fundamental. Se você me perguntasse o que eu achava, eu responderia que tudo não passava de uma grande perda de tempo, controle social e tudo mais. Além do meu problema com o cristianismo, eu também não gostava da ideia de uma existência após a morte. Via aquilo tudo como uma muleta. Pra mim, era uma saída para quem não queria encarar a vida de frente. Eu era muito pretensiosa.

— Só "era"? — Torci o nariz. — Tem certeza?

A mão gelada de April me empurrou no abdômen e eu ri baixo.

— Eu mudei de ideia — ela disse, ignorando o constrangimento. — Não tenho uma religião, mas acho que a fé em si é algo muito bonito. É algo que une pessoas, ou pelo menos deveria. É muito poderoso acreditar em algo. Muito humano.

Meus olhos desceram pelo seu rosto, atraídos para seus lábios. Eu não conseguia parar de encarar April, hipnotizado pelo ritmo das palavras que saíam de sua boca. Em meu coração, eu senti que a conhecia. Eu a conhecia, mas sabia tão pouco sobre ela.

- Quando você parou de acreditar?

— Não sei. — April ergueu um ombro e o lençol deslizou por sua pele. — Na infância, quando meus pais me obrigavam a ir à missa, nunca senti o que deveria ter sentido. — Ela fez uma pausa, seus olhos distantes como se vasculhassem por memórias. — Minha avó morreu muito cedo, pouco tempo depois de dar à luz a minha mãe. Uma das poucas coisas que sei sobre ela é que a família dela era muito católica. Acho que foi por isso que minha mãe deu tanta importância à fé. Uma busca por aprovação, talvez. Um último elo com a própria mãe. — Os lábios de April se ergueram em um sorrisinho: — Quando eu e meu irmão crescemos, nossa mãe parou de nos obrigar a ir à igreja. Hoje a religião oficial dos Wright é o dinheiro.

Não consegui sorrir de volta.

— E você?

— Quer mesmo saber? — disse arrastado, espreguiçando o corpo sobre a cama.

April afundou as unhas em meu abdômen em retaliação.

— Tudo bem. — Agarrei suas mãos geladas, depositando um beijo rápido em seu pulso. — Não é nada especial, April. Minha mãe me arrastava para igreja quando eu era criança, igual a sua.

Ela deitou a cabeça no travesseiro e se inclinou na minha direção, olhos escuros brilhando em curiosidade.

— Quando minha mãe não estava de plantão... Ela é enfermeira, aliás... Ela me colocava para dormir. Todas as noites ela me dava um beijo na testa e me dizia para fazer minhas orações.

— O que aconteceu?

— Eu parei.

April examinou meu rosto com cautela, como se esperasse por algo mais.

Eu revirei os olhos.

— Parei de orar quando meu avô morreu — admiti de uma vez.

— Sinto muito.

April pousou sua mão no meu braço e eu forcei um sorriso, embora o assunto me irritasse.

— Tudo bem. — Trouxe sua mão para meu peito, entrelaçando seus dedos com os meus. — Faz muito tempo. Uma manhã ele acordou bem cedo e se sentiu mal. Caiu, bateu a cabeça. Minha família inteira foi pega de surpresa. Meu avô era um homem forte, não era tão velho. Ninguém estava esperando por uma coisa daquelas... Quer dizer, a queda foi um detalhe. — Lancei um olhar. — No hospital, os médicos fizeram um exame e encontraram um tumor no cérebro dele. Inoperável. — Arregalei os olhos de leve, como se fosse um palavrão. — Eu lembro disso porque meu pai não parava de mostrar uma moeda estúpida para fazer a comparação.

— Sinto muito.

— Faz muito tempo, April.

Eu devia ter uns dez, onze anos. Meu pai era um babaca e o único homem que eu realmente admirava estava numa cama de hospital.

— À noite, antes de dormir, eu orava como minha mãe havia me ensinado. Mais por hábito do que por qualquer outra coisa. — Abri um sorriso que azedou na minha boca. — É engraçado. Eu, que me achava tão mais esperto que as outras crianças por não acreditar no Papai Noel, orava por um milagre.

April não achou tanta graça quanto eu.

— Você era uma criança.

— É — concordei distraído. — Bom, uma vez minha família estava reunida por seja lá qual motivo. Nós estávamos na sala de estar dos meus avós, eu, meus tios e meus primos, quando uma das garotas disse... Eu me lembro até hoje. Ela disse: "nós devemos orar para que ele morra".

— É uma coisa horrível para se dizer na frente de uma criança.

— É. — Forcei um sorriso, embora minha voz soasse rouca. — Mas agora eu entendo.

— Como assim?

— Ninguém a contrariou. — Franzi a testa, concentrado em terminar logo a história. — A garota disse: ele precisa ir, ele sente muita dor. Nisso ela estava certa. Ele já tinha enganado a morte muitas vezes, mas aquele tumor... Nós o assistimos definhar naquela cama de hospital. Os remédios não serviam de alívio. Eu me lembro de quando segurei a mão dele no hospital, ele apertou tão forte que eu ainda consigo sentir. — Era uma coisa boa ter a mão de April sob a minha. Afastava os fantasmas. — Ele não falou comigo, mas estava lúcido. No dia em que o visitei, ele pediu à minha mãe para morrer.

— Não deviam ter te levado para vê-lo — disse baixinho.

— Eu precisava me despedir.

April assentiu devagar, olhos brilhando.

— Não tive coragem de pedir a Deus para que ele morresse — confessei. — Não tive coragem sequer para pensar sobre isso. Não pensei mais em Deus, na morte ou em qualquer uma dessas coisas. Ele morreu algumas semanas depois.

— Sinto muito. Sua prima foi insensível.

— É. — Eu testei um sorriso, pronto para colocar isso para trás. — Mas nem todo mundo está preparado para falar sobre morte. Não tem manual para isso.

— Ainda assim — ela murmurou, usando meu peito como travesseiro.

O barulho incessante da chuva atravessava as janelas enquanto April brincava com a minha mão, distraída com seus próprios pensamentos. Eu ergui a mão livre e dei início a um carinho preguiçoso no topo de seus cabelos. Se continuássemos naquela posição, meu braço ficaria dormente em pouco tempo, mas não me importei. Era bom tê-la perto.





Depois de uma breve discussão sobre quem tinha direito à próxima pergunta, ela começou a me contar uma história sobre a mãe. Ou sobre casacos de pele. Ou talvez os dois. Eu prestava atenção em silêncio, fascinado com aquele novo lado de April — sua admiração profunda pela família, principalmente pela mãe, me pegara desprevenido.

Veja bem, April idolatrava aquela mulher.

Eu não conhecia Paige Wright muito bem, mas ela não me parecia do tipo maternal. Nem do  tipo amável. Pelo menos duas vezes eu a encontrei esbarrando em mesinhas de canto, apoiada em corrimãos, perambulando meio bêbada pela própria casa em horário comercial. Em ambas ocasiões, April a ajudou a subir as escadas e a desaparecer no corredor sem se importar que a observavam — ela só tinha olhos para a mãe, para seus pés descalços e passos em falso.

A mulher que April descrevia em nada se parecia com a mulher que vi.

Pelo contrário, April falava da mãe com uma admiração que apenas crianças muito pequenas nutriam pelos pais: todos seus defeitos eram detalhes menores, notas de rodapé engraçadinhas ou escolhas criativas perfeitamente justificáveis, até mesmo admiráveis.

— Primeiro cigarro? — reclamou, revirando os olhos para a lembrança. — É constrangedor. Eu tinha uns treze.

— Isso é precoce.

— É. — Deu de ombros. — Eu roubei o maço da bolsa da minha mãe. Na época, ela dizia que tinha parado de fumar, mas chegava em casa todo dia cheirando a cigarro. Segundo ela, era culpa da chefe, que fumava como uma chaminé. O cheiro ficava impregnado em tudo: nas roupas, no cabelo. Até os dentes dela estavam manchados, mas ela insistia em dizer que não fumava. Se meu pai acreditava nela, eu não sei. Naquela época ele não prestava muita atenção na gente. Enfim, quando encontrei o maço na bolsa dela, fiquei furiosa. Eu odiava mentiras.

— O que você fez?

— Por vingança, roubei o maço e chamei Indy para fumar comigo depois da aula. — Um sorrisinho bobo deslizou por seus lábios: — Nós odiamos. Indy teve um ataque de asma. Jogamos tudo na lixeira da cozinha e minha mãe encontrou. Ela me puxou para um canto e me perguntou quem pegou o maço. Eu coloquei a culpa no meu irmão.

Eu ri alto.

Que pestinha.

Minha irmã podia ser pequena, mas eu não a imaginava fazendo esse tipo de coisa — nem agora, nem nunca.

— O crime perfeito.

— É — ela concordou pensativa e seus cabelos se moveram sobre os seus ombros, brilhando sob a meia luz. — Cole ficou de castigo por uma semana. Ele já tinha começado a fugir de casa para ir a festas, então foi tudo muito conveniente.

Eu senti que a história não acabava ali.

— Mas...?

— Os maços de cigarro continuaram a sumir. Eu esperei que minha mãe viesse falar comigo, mas isso nunca aconteceu.

Parei de afagar seu cabelo, incrédulo.

— Você continuou a roubar?

— Sim. Eu jogava tudo em uma lixeira da rua, dobrando o quarteirão.

Apoiei meu peso sobre o cotovelo, encarando seu rosto.

— Não era da minha conta — explicou. — Eu não devia invadir a privacidade da minha mãe e ela não me devia explicações, mas eu era teimosa. Odiava mentiras. — April me encarou por um momento e a tempestade em seus olhos se suavizou um pouco: — Bom, não importa. Meu pai não ficou sabendo de nada disso. Nem do cigarro, nem das fugas, nem do roubo.

— E sua mãe?

- Ela parou quando fez tratamento nos dentes, mas fuma às vezes.

Uma risada curta escapou pelo meu nariz.

Paige soava exatamente como eu imaginava: um clichê. Uma esposa troféu, uma mãe apaixonada pelo próprio reflexo, uma dependente de remédios e bons vinhos. Ela sempre fora gentil comigo em nome da boa convivência e — quando eu não estava interessado na filha dela — uma simples tolerância era o suficiente para mim, mas agora que eu sabia da importância que April dava para opinião da mãe, eu tinha medo — não queria descobrir o que aquela mulher diria a April sobre mim.

Eu, com certeza, passava longe de ser tão rico e tão bem relacionado quanto o genro ideal.

- Por que o baixo elétrico?

Encarei seu rosto, subitamente confuso.

- O quê? - Demorei alguns segundos para voltar a mim: - Não, April. Isso é muito sem graça.

- Não vale. - Ela afundou suas mãos sobre o meu peito, me empurrando contra a cama. - Toda vez que você não quiser responder uma pergunta você vai usar essa desculpa?

- Não é uma desculpa. É um desperdício de pergunta, eu estou avisando.

Ela nem piscou.

- Anda.

- Tudo bem. - Cocei o queixo, sem saber por onde começar. - Quando eu tinha uns onze anos, eu comecei a causar problemas na escola. Coisa que castigo algum era capaz de corrigir. Minha mãe procurou atividades para me deixar ocupado e eu tinha jeito com o violão. Meu pai até tentou me empurrar a guitarra, mas eu queria mesmo era o baixo. Ele foi músico também, fez parte de uma banda na faculdade. Nunca entendeu minha decisão.

Eu me lembro da nossa visita a loja de instrumentos musicais, da forma que meu pai se agachou para me encarar nos olhos. Ele ficou inconformado quando preferi o baixo elétrico à guitarra, ombros caídos e tudo. Minha mãe teve que dar um empurrãozinho para ele voltar a agir como um adulto.

- Você é bom nisso - ela murmurou contra minha pele. - Gosto de te ver no palco.

Um sorriso involuntário cresceu em meus lábios enquanto eu procurava sua boca para um beijo:

- Você gosta?

- Sim.

Inspirei fundo, satisfeito com a confissão.

Eu amava a banda. O frio no estômago, a luz cegante do palco e o ruído dos alto falantes vibrando pelo meu corpo. Era tudo muito novo, cheio de energia. A música era minha vocação, a única coisa que eu me imaginava fazendo no futuro e eu sabia que esse pensamento sozinho seria capaz de deixar minha mãe apavorada - ouvir seu filho mais velho dizendo que viveria para o rock and roll não deveria ser exatamente tranquilizador.

- Eu quase sinto inveja - April sussurrou baixo, ainda de olhos fechados. - Enquanto as pessoas da nossa idade estão quebrando a cabeça para descobrir quem são e o que querem, vocês sobem no palco e, de repente, tudo está lá: um futuro de fama, música e sexo.

- Nós somos bons assim? - provoquei.

- Sim.

Desci um carinho preguiçoso por sua coluna e a puxei para mim, arrastando meu nariz pelo seu pescoço.

- Continue me beijando com vontade, amor - disse, sorrindo. - Quem sabe eu não escrevo uma música sobre você?

- Babaca - ela riu contra meus lábios.

Para minha surpresa, April não se contentou com um beijo. Ela se debruçou sobre o meu peito e seus seios quentes roçaram contra a minha pele: mamilos eriçados, piercings e tudo. Meus dedos subiram por suas costelas e acompanharam as curvas suaves de seus peitos, capturando o par em taças. Eu estava tão distraído que só me dei conta de que April queria me montar quando suas pernas me prenderam contra o colchão. Segurei um xingamento entre os dentes e minhas mãos desceram pelo seu corpo em um gesto automático, ajudando April a se sentar. Ela estava muito nua e muito quente em cima de mim. Meus olhos se reviraram de tesão enquanto ela deslizava o quadril para baixo até se encaixar sobre o meu pau dolorosamente duro.

Quando abri os olhos novamente, os lábios de April estavam se movendo.

Ela estava falando.

Puta merda.

O que ela estava falando?

-... Mas é uma coisa boa, Hunter. - Ela jogou os cabelos sobre os ombros, liberando seu colo nu. - Você odiaria ser amado por mim.

Merda.

A conversa que tivemos mais cedo.

Isso era importante.

- Não se precipite. - Minha voz soava fraca, entrecortada. - Você não sabe do que eu gosto.

- Eu estou te fazendo um favor - ela me encarou cheia de certeza e suas unhas desceram pelo meu abdômen até encontrarem a barra da minha cueca. - Eu sou ruim com as pessoas que eu amo. É sempre assim. Nós somos sempre mais cruéis com aqueles que amamos.

- Puta que pariu. - Mal conseguia respirar. - Você está me dizendo que tem como ser ainda mais cruel?

Uma gargalhada suave escapou pelos lábios de April.

Nós nos encaramos por vários segundos até que eu finalmente entendesse que ela ria de mim.

- Nunca se apaixonou antes, não é?

Se meu coração já não estava disparando antes, depois dessa pergunta, ele pulava do peito.

Se ela estendesse a mão, poderia senti-lo bater como louco.

Eu sou louco por você, April.

-  E daí? - Franzi as sobrancelhas, irritado. - Você também não.

Eu esperava que não.

Era bom que não.

- Junto com o amor - April continuou, rebolando de leve sobre a minha ereção -, vem a cobrança e o ressentimento. É fácil ignorar quando alguém erra se você não tem sentimentos pela pessoa, mas quando se trata de alguém que você ama... - Seu quadril girou sobre o meu e eu grunhi, perdendo a paciência. - Eles têm todo poder para te machucar e são os únicos que sabem como fazer isso.

Um rugido, uma risada.

Eu não conseguia mais raciocinar.

Enquanto ela estivesse sentada no meu pau, eu não venceria essa discussão.

Então, eu juntei forças e fiz o que era lógico: agarrei April pelo joelho e a joguei contra a cama, invertendo nossas posições. Um gritinho e seus cabelos estavam espalhados pelo travesseiro.

- Que tipo de amor é esse? - esbravejei.

Quando encarei os olhos de April, eu me dei conta de que havia cometido um erro.

- O único que eu conheço - ela respondeu de uma vez, mal segurando as emoções. Furiosa, magoada. Eu não queria machucar April, mas faria isso se continuasse a pressioná-la.

Em um ímpeto para consertar as coisas, eu tomei os lábios de April em um beijo correspondido com ferocidade. A noite inteira, tudo que ela estava tentando me dizer era que tinha medo de se entregar. Ao invés de ser compreensivo e oferecer segurança, eu a confrontei.

- Nós vamos devagar, ok? - murmurei ao separar nossos lábios, mãos enroscadas em seus cabelos longos. - Você está se torturando por coisas que ainda nem aconteceram. Amor não precisa ser assim. Nós não precisamos ser assim. Eu quero cuidar de você, April. - Segurei seu rosto com cuidado e vasculhei cada traço em busca de um sinal de compreensão. - Me deixa cuidar de você.

Eu esperei desesperado por uma resposta.

Nariz vermelho, olhos brilhantes. Nunca a vi tão vulnerável.

Depois do que me pareceu uma eternidade, ela assentiu de leve, arrastando seu nariz contra o meu.

Não consegui resistir ao beijo que partiu de seus lábios. E nem ao próximo.

Quando me dei conta, nossos corpos estavam unidos de novo.


CONTINUA...





N/A (27/07/22): Boa noite, QUE SAUDADES!!!

Vou usar o restinho do meu "recesso" (bota aspas nisso) pra escrever. NÃO ME ZIQUEM TO IMPLORANDO quero muito escrever. Meu cérebro é desse tamaninho 🤏, mas BS é uma das poucas coisas que gosto de fazer na vida.

Esse capítulo foi partido ao meio porque to com medo de matar vocês com muita conversa de casal. Espero que não tenha ficado muito frufru porque eu sou o tipo de leitora que pula conversas muito melosas.

Comentem aí o que vocês gostaram.

Uma observação: cara, eu tô pra há ANOS pensando nesse capítulo (não porque arquitetei o planejamento em mínimos detalhes, mas porque eu sabia o que iria acontecer e estava ansiosa. Acho que a próxima parte é mais decisiva, porém, aqui tivemos um bom começo. É importante porque estou plantando várias coisinhas. Podemos dizer que estamos em 50% do livro agora.

Sobre a revista que a April citou... É uma matéria da superinteressante que eu li, literalmente, algo como "por que queremos apertar bebês?", o ataque que a gente sente. Não tenho formação em psicologia e April tem 17 anos então acho que tudo bem ficar apenas na superficialidade. Caso tenha ficado muito bosta, me avisem. Meio bosta ainda é tolerável. (to brincandokk)

Enfim, agradeço a minhas leitoras lindas por lerem!!! E por nunca desistirem desse livro!!!

Beijinhos!

B.

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