Capítulo XXII [PARTE DOIS]





H U N T E R


NÓS NÃO ÉRAMOS BEM-VINDOS naquele pub. Sabíamos disso, nos orgulhávamos desse feito, e continuávamos a frequentá-lo mesmo assim. Não era apenas a promessa de perigo que nos atraía de volta noite após noite: a cerveja era boa e a música também. O lugar havia rapidamente se tornado uma espécie de refúgio para nossos amigos e seria difícil abrir mão do nosso programa preferido só porque o resto da clientela — composta por motoqueiros e bêbados solitários — nos odiava. Eles detestavam o barulho e o tumulto que o público da nossa idade trazia para o local. Não poderia culpá-los por desejarem de volta a paz e tranquilidade que só um ambiente livre de adolescentes poderia oferecer, mas, se não fosse por nós, o bar teria fechado as portas meses atrás. O movimento trazido pela banda era a única coisa que mantinha aquele lugar vivo — palavras do proprietário do lugar.

Naquela quarta-feira, a atmosfera do pub não era das melhores. Consegui distinguir o contorno de quatro figuras debruçadas sobre o balcão, todos munidos de uma garrafa ou mais. O barulho de conversas se misturava ao solo de uma guitarra elétrica tocando a distância e as ocasionais explosões de risadas. Era agradável, mas nada daquilo se comparava aos dias de ensaio da The F Word. Sentado ali, senti falta do palco, da multidão espalhada pelos cantos. O lado positivo de não nos apresentarmos era poder ver meus amigos de perto, sem aquela loucura de montar os equipamentos e suar como um porco sob holofotes.

Um copo de cerveja pela metade repousava sobre o tampo da mesa bem na minha frente. Aquele seria meu primeiro e último copo, já que precisava dirigir de volta para casa. Eu ria de alguma história que Zack contava, quando Seth interrompeu a conversa, se colocando de pé:

— Vou mijar — ele anunciou para todos ouvirem, me empurrando para fora do banco em U.

Em resposta, as garotas o vaiaram e batatas cobertas de cheddar voaram em sua direção. Havia três delas, sentadas lado a lado: Zoe, Jackie e Indy. Eu não tinha a menor ideia do porquê delas estarem ali, mas sabia que Zack estava adorando a companhia extra. Eu o invejava por parecer tão satisfeito enquanto dividia uma porção de fritas com Zoe, os dois se divertindo horrores e contribuindo para o caos que tomava conta da mesa. Parecia um casal de filme adolescente. Ninguém deveria encontrar a paz em um relacionamento estável tão cedo. Era irrealista e, francamente, até um pouco ofensivo.

— Vou dar uma volta — levantei do banco, ciente de que ninguém havia escutado uma palavra do que havia dito.

Eu gostava das meninas, mas era vergonhoso assistir meus amigos competindo para ver quem passava mais vergonha para chamar atenção de mulher. Seth, como de costume, estava na liderança e sempre arranjava algum motivo para desviar a conversa para si. Finch vinha logo atrás com aquela cara de quem comeu e não gostou: ele fazia o possível para esconder a dor de cotovelo que sentia ao observar Jackie e Seth flertando, mas se entregava ao implicar com a menina de graça. A troca de farpas entre eles conseguia ser pior do que briga no jardim de infância. Pelo menos, a situação toda me arrancara algumas risadas.

Cole fora o único de nós esperto o suficiente para fugir assim que se deparara com as meninas. Ele se misturava com facilidade, apesar daquele cabelo loiro, descolorido, destacá-lo na multidão.

Sequer cogitei perturbá-lo.

Ao invés disso, segui pelo bar em direção à saída. Athos, o dono do lugar, polia canecas de cerveja atrás do balcão e conversava com algum cliente, mas fez questão de me cumprimentar assim que me viu. Eu cumprimentei de volta. O cara era uma lenda viva. Pelo que eu ouvi, ele havia ganhado a escritura do pub em um jogo de poker. Quando nós surgimos com a ideia de nos apresentarmos aqui, meses atrás, Athos disse que nós seríamos sua próxima grande aposta. Aquele fora um voto de confiança do caralho da parte dele — antes de adotarmos a rotina intensa dos ensaios semanais, nós éramos uma merda. Talvez Athos tivesse enxergado um talento bruto em cada um nós, algo que fizesse o investimento valer a pena, ou talvez só estivesse bêbado feito um gambá, não importava: nós seríamos eternamente gratos por aquele gesto.

No caminho para saída, uma antiga máquina de fliperama capturou minha atenção. Debaixo da superfície de vidro, pequenas luzes coloridas piscavam, brilhando sobre um cenário intergalático composto inteiramente por seres extraterrestres que declararam guerra contra a humanidade. Ruídos de sintetizadores e música acompanhavam o jogo, como uma trilha sonora. Aquela máquina parecia fazer parte de um canto da nostalgia, assim como a jukebox ao seu lado.

Me aproximei, tateando os bolsos em busca de trocados.

Eu não jogava pinball havia séculos. Provavelmente, não via uma geringonça como aquela desde pirralho. Deslizei uma moeda para dentro e um tilintar metálico fez o fliperama ganhar vida. Meus dedos encontraram os botões nas laterais e me inclinei sobre a máquina, esperando a bolinha prateada descer pelo painel.

Qualquer esperança que eu tinha de jogar naquela noite foi destruída no momento em que unhas pintadas de preto se afundaram em meu braço. Lexie Palmer se enfiou entre mim e a máquina sem fazer cerimônias. Impulsionando seu corpo para cima, a garota se sentou graciosamente sobre o velho fliperama e suas pernas bem torneadas se abriram para mim. Subi meus olhos para seu rosto e ela riu, descarada:

— Fiquei impressionada com você ontem à tarde.

— O que está fazendo aqui?

Seu sorriso cheio de dentes pareceu aumentar assim que ela percebeu minha impaciência.

Não consegui esconder. Quanto mais eu pensava, mais irritado ficava. Tanta merda poderia ter sido evitada se eu tivesse ignorado essa garota. Era impressionante como ela sempre parecia me encontrar nos meus piores momentos. Seth havia me dito mais cedo para eu não fazer cena, mas seria preciso um autocontrole do caralho para não discutir com Lexie.

— Foi bastante heróico — ela continuou — Você, irritado, louco para entrar no campo e salvar April. Enquanto isso... — uma risada e seus olhos percorreram meu corpo. — Meu Deus, eu não sei o que ela vê em Josh Halden — me preparei para interrompê-la, mas meu desejo de calá-la apenas serviu para incentivá-la a falar mais — Ele parecia querer se enterrar de tanta vergonha enquanto os amigos dele se acabavam de rir. Não é um bom momento para ter o nome dele associado ao de April Wright ou algo assim.

— Josh Halden — cuspi.

Ela veio até aqui atrapalhar meu jogo e, para piorar, ainda queria falar de Josh Halden?

Antes que eu pudesse mandá-la embora, ela se aproximou:

— Que foi? — seus olhos esverdeados me examinaram — Não me diga que você achou que fosse o único a chamá-la de princesa.

Fiquei imóvel.

Apenas ouvir o som da palavra deu um nó na minha cabeça. Eu sabia que não podia confiar em Lexie, mas não consegui deixar de escutá-la.

— Não seja ingênuo, Hunter. Eles quase namoraram. Todo mundo fala sobre isso nos corredores — minha pausa tornou tudo mais interessante para Lexie, que arrastava suas unhas sobre o meu casaco — Pergunte à April o que ela estava fazendo com Josh na terça, antes do primeiro horário. Ela nunca se atrasa para aula. Você sabe disso, não é?

Engoli aquelas palavras como veneno.

Inferno.

Não o Josh Halden.

April havia beijado esse cara na minha frente pelo menos duas vezes desde o início do ano letivo. Nós ainda não tínhamos nada naquela época, mas aquele era o tipo de memória que fazia meu estômago revirar. Eles pareciam tão certos um para o outro que faria todo sentido se ela decidisse ficar com Halden — April era toda aparências e aquele babaca nascido em berço de ouro pertencia a uma das famílias mais ricas da cidade —, ele deveria ser o sonho de consumo de uma garota como ela.

Enquanto meu rosto endurecia, Lexie sorria satisfeita. Suas mãos estavam agarradas às laterais metálicas e suas coxas afastadas em um convite. Eram seus olhos, porém, que me chamavam atenção — brilhavam triunfantes como um eu te disse silencioso.

Lexie não era criativa a ponto de inventar coisas assim, do nada. Não, ela estava feliz demais em entregar aquelas notícias, portanto, havia um fundo de verdade naquela história. Aquilo me matava. Enquanto eu não descobrisse tudo, ela estava livre para brincar com minha imaginação da maneira que quisesse.

— Você está pirando se pensa que April me deve alguma explicação — disse áspero, segurando seu pulso — O que acha que vai conseguir perseguindo essa garota?

Ela escondeu o sorriso. Seus cabelos escuros e escorridos refletiam a luz vermelha como uma aura diabólica. Dei mais um passo em sua direção:

— Já saquei — uma risada curta escapou por meus lábios — Você quer chamar a minha atenção. É disso que se trata, essa merda toda — os olhos dela vacilaram apesar de sua expressão confiante — Não sei que tipo de merda aconteceu com você que te fez confundir o desprezo com tesão, mas eu estou cansado. Não vou te comer outra vez. Vá procurar outra pessoa para perturbar.

Aí estava. O momento que eu queria evitar a todo custo, se desdobrando bem em frente aos meus olhos. Nós sempre acabávamos assim, disputando quem jogava mais baixo. Parecia inevitável ferí-la e ser ferido por ela. Não me orgulhava em agir feito um canalha, mas alguém precisava parar Lexie. E daí se eu havia tratado a Lexie feito lixo no passado? Isso não dava à ela o direito de me punir para sempre.

— Bobinho — seu pé roçou sobre o meu jeans, subindo por minha perna, e eu agarrei seu tornozelo antes que ela pudesse fazer algo estúpido — Sua atenção eu já tenho.

Cerrei os dentes.

Ela não ouviu uma palavra do que eu disse?

— É fácil demais entrar na sua cabeça, Hunter. Você deveria se proteger melhor — seus olhos se arregalaram de leve enquanto sussurrava a confissão: — Eu fico tentada.

Não consegui responder.

Ela tinha razão. Nos últimos dias, eu havia colocado tudo a perder por April: minhas amizades, a confiança da minha família e, potencialmente, meu acordo com a direção do colégio. Eu não podia sair provocando brigas só porque uma garota não correspondia meus sentimentos. Não deveria ser tão fácil perder o controle, independente do motivo. Talvez todos estivessem certos sobre mim e eu precisasse mesmo levar a terapia a sério.

Lexie abriu um sorriso lento, alheia aos meus pensamentos. Ela encarava algo acima do meu ombro e ria como se não acreditasse na própria sorte. Suas íris esverdeadas se voltaram para mim, como se me convidasse a espiar também, e me virei de má vontade.

Caralho.

Nada no mundo poderia ter me preparado para aquela visão. Meu fôlego escapou dos meus pulmões em um suspiro. Foi como um soco repentino: me tirou o equilíbrio e me desnorteou.

April Wright atravessava a porta, usando a minha jaqueta de couro sobre os ombros. Ela tinha as maçãs do rosto coradas e os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo.

Assim que nossos olhares se encontraram, eu desaprendi a falar. Meu corpo inteiro congelou em espanto enquanto meu coração disparava em meu peito, batendo furiosamente. Vê-la usando meu casaco parecia tão certo.

Tentei alcançá-la, mas Lexie não me deixou ir longe. Agarrou meu casaco pela gola e sorriu maliciosa:

— Tem medo que eu conte a ela sobre nossas atividades extracurriculares debaixo da arquibancada?





A P R I L


Hunter se afastou da garota como se ela estivesse em chamas. Tinha seus olhos azuis cravados em mim enquanto desatrelava seu corpo daquele belo par de pernas. Em sua expressão apavorada, enxerguei pelo menos meia dúzia de desculpas esfarrapadas tomando forma ao mesmo tempo. Nenhuma me agradou.

Puta que pariu. Como eu era burra.

Dei as costas para eles e desatei a andar. Eram passos cegos, mas decididos — não fazia ideia de para onde me levariam, só queria me afastar daquela cena. Meu rosto esquentava de raiva e calor se espalhava pelo meu pescoço. Eu deveria estar da cor de um tomate.

Sequer precisei me virar para saber que Hunter me seguia. Ele havia me alcançado com facilidade e me acompanhava à distância, como uma sombra.

— Debaixo da arquibancada? — meu peito arfava por ar — Quanta classe.

— Ela não está falando sério — Hunter me interrompeu — Aquilo foi antes de você, April.

Eu ri, alucinada.

Que conveniente.

Não queria nem imaginar o que teria acontecido se eu não tivesse os interrompido. Talvez transassem em cima daquela máquina de fliperama imunda, para todo mundo ver, ou a próxima parada fosse um beco escuro ou um motel barato. Todas as opções que surgiam em minha mente eram tão repulsivas quanto eram prováveis.

Hunter tentou segurar minha mão, mas eu escorreguei meus dedos para longe de seu toque, como se espantasse uma mosca. Se ele queria foder outras garotas, então que fodesse. Não era da minha conta o que Hunter fazia ou deixava de fazer. Aquilo estava previsto dentro do nosso acordo, não é? Sexo sem compromisso.

Parabéns pela iniciativa, Campbell.

Você não perde tempo.

Merda.

Uma risada escapou de meus lábios, misturada a respiração.

Era uma sensação agridoce, estar certa. Não deveria ter ficado tão surpresa com aquela cena. Eu conhecia Hunter, sabia bem o que ele era capaz de fazer. As regras, todas as merdas que inventei para me proteger, não me serviram para nada. Hunter era um ótimo jogador. Ele inventou sua historinha e me fez baixar a guarda. Eu fui descuidada, me tornei gananciosa. Um erro de principiante.

Você queria um encontro, Hunter?

Agora que todas as cartas estavam na mesa, eu não cometeria mais o erro de cair em seus encantos.

Nós alcançamos as mesas de sinuca, onde uma partida nada amigável de sinuca acontecia entre dois sujeitos mal encarados. Parei ali. Deslizei o casaco de couro pelos meus ombros e me desvencilhei de suas mangas pesadas:

— Não precisava ter parado por minha causa — lhe estendi a peça dobrada, enfiando em seu estômago — Só queria te devolver essa jaqueta.

Hunter segurou minha mão sobre seu peito e me encarou em silêncio. Não sabia por quê, mas era muito mais difícil discutir quando via seu rosto tão de perto. Ele tinha as sobrancelhas franzidas e deslizava seus dedos sobre os meus:

— April, seja lá o que você acha que viu...

— Eu não vi nada — rosnei.

Finalmente, avistei minhas amigas em uma mesa no fundo do salão. Não podia chegar lá com Hunter ao meu encalço, então fiz o caminho inverso. Eu me senti rodar em círculos, esbarrando em bêbados e desviando de bancos. Mal conseguia pensar com Hunter tão próximo, me cercando para onde quer que eu fosse. Ele me sufocava, enquanto eu precisava espaço. Era demais para processar.

— Lexie faz isso — ele tentou, mais uma vez — Ela gosta de me provocar.

Pensei na cena, em seus corpos tão próximos, e minha expressão se contorceu em repulsa.

— Isso é nojento — censurei — Vai se foder.

Eu tinha visto o suficiente, não precisava que Hunter descrevesse em detalhes como eram suas preliminares com a Lexie. Que inferno. Se ele trepava com Lexie debaixo da arquibancada e me levava para lá também, não queria descobrir o que mais eu e aquela garota tínhamos em comum — além de um gosto por canalhas mulherengos, claro.

Uma mão se fechou ao redor do meu pulso e me puxou para trás. Furioso, Hunter encurtou a distância entre nós.

— Vai se foder você, garota — a dureza em seus olhos me fez hesitar — Você não tem o direito de falar uma palavra sobre mim.

Nunca tinha visto Hunter tão bravo. Nós precisávamos parar. Eu havia passado dos limites e ele começava a se exceder também.

— Tudo bem — puxei meu braço de volta, me afastando — Você tem razão. Eu preciso ir.

Ele continuou a falar como se eu não tivesse p interrompido-o:

Não quando você e Josh Halden andam juntos por aí, fazendo seja lá o que for.

Girei sobre meus calcanhares, me voltando para ele. Hunter tinha o rosto vermelho e os olhos estreitos em desafio. Eu poderia apostar que ele estava apenas esperando pelo momento certo para trazer aquele assunto à tona.

Josh Halden — eu o interrompi — Que porra Josh Halden tem a ver com você enfiado no meio das pernas da Lexie? — ele finalmente se calou, sem respostas — Quer saber? Você está certo: não devemos explicações um ao outro, Hunter. Você não é meu namorado. Nós queríamos assim, concordamos com isso.

Antes que eu pudesse partir, Hunter me segurou pelos braços uma última vez.

— Não — arfou — Você quis assim — sua voz me fez estremecer — Você, April.

Seu olhar me engolia. Era intenso demais, me deixava zonza. Em questão de segundos, fui arrancada de minha órbita e arrastada para Hunter, atraída por sua gravidade. Enquanto eu lutava para encontrar palavras, ele transbordava intenção.

O quê?

Ele me soltou e quase tropecei nos meus próprios pés ao me distanciar. Teria corrido se pudesse. Ao invés disso, avancei até o balcão de madeira e me sentei sobre uma das banquetas altas de assento vermelho. Precisava de tempo para me recompor antes de voltar para a mesa dos nossos amigos.

Por acaso Hunter entendia o que estava dizendo?

Meu estômago se retorcia em um nó. Eu me sentia enjoada. A confissão de Hunter fora poderosa o suficiente para abalar minhas convicções. Dentro de mim, não restara um terço sequer daquela determinação feroz que me dizia para odiá-lo. Eu havia jurado para mim mesma que jamais seria uma das pobre coitadas que Campbell iludia, no entanto, ali estava: procurando motivos para acreditar nele.

Ao meu redor, o ruído de guitarras misturado as risadas alteradas não havia parado. O movimento no interior do pub continuava a seguir normalmente, independente do drama alheio. Era bom saber que minha discussão com Hunter não havia chamado atenção para nós. Os acordes de uma música conhecida atravessavam os alto falantes e um grupo de homens cantava junto ao vocalista da The Doors.

Eu ainda pensava nas palavras de Hunter quando um copo preenchido por uma bebida âmbar entrou em meu campo de visão. Levantei os olhos do balcão de madeira para encontrar a mesma bartender que me havia me atendido da última vez que eu estive ali. Seu delineado de gatinho continuava impecável.

— Desculpe, eu não pedi isso.

A mulher arqueou uma sobrancelha e apontou com o queixo para alguém a minha direita:

— Agradeça ao bonitinho logo ali.

Havia um cliente sentado a dois bancos de distância, bebendo uma dose de uísque. Ele ergueu seu copo para mim em um convite discreto. Já era um homem feito, na faixa dos trinta. Nada parecido com Hunter. Tinha a barba por fazer e carregava um sorriso despreocupado em seus lábios, o que lhe conferia um charme a mais. Parecia velho o suficiente para ser o marido de alguém — ou, no pior dos casos, um pai.

— Noite difícil? — ele ergueu uma das sobrancelhas, divertido.

Um silêncio se estendeu entre nós: da minha parte surpresa e da dele, curiosidade. Limpei a garganta e pisquei algumas vezes, me recompondo.

— Algo assim.

Minha resposta pareceu agradá-lo. Solteiro, definitivamente.

— Eu sou...

O estranho nunca conseguiu terminar sua frase.

Fomos interrompidos por um intruso inconveniente, que se colocou entre nós, apoiando uma de suas mãos sobre o bar:

— Desculpa, amigo — mesmo com as costas voltadas para mim, eu sabia que Hunter sorria com uma raiva controlada — Ela tem dezessete.

Atrás do balcão de madeira, a bartender me lançou um olhar apologético e recolheu minha bebida até então intocada. Quanto ao estranho, esse se levantou e foi beber longe dali. Ele pareceu achar graça da postura de Hunter, que se comportava como a patrulha da moralidade.

Hunter Campbell, que bebia desde os quatorze anos de idade, queria me convencer que, de repente, se importava com a moral e os bons costumes.

Tá legal.

Meus olhos estavam grudados no balcão enquanto meu rosto queimava de vergonha. Hunter se aproximou e o calor de seu corpo me envolveu, mas não lhe dei a chance de dizer uma palavra sequer.

— Babaca — foi o que resmunguei antes de me levantar e ir embora.

Eu era perfeitamente capaz de lidar com caras mais velhos que me abordavam no bar e não precisava de ninguém para me proteger. Hunter se havia se aproveitado da situação para marcar território. Nada tirava da minha cabeça que o mesmo Hunter que se enfiava no meio das pernas de Lexie queria bancar o namorado ciumento para cima de mim. Me poupe.

Apesar do ocorrido, cheguei na mesa dos nossos amigos sorrindo. Não queria estragar a noite deles só porque meus planos não haviam saído como planejado. Eles me ofereceram distrações e eu as agarrei com garras e dentes, sempre risonha.

Para meu azar, Hunter se sentou bem na minha frente com Lexie ao seu lado. Na minha ausência, ela parecia ter grudado nele.

Uma luminária retrô pendia do teto, cobrindo a mesa com uma luz amarelada e quente. Sentados de frente para mim, os dois me encaravam: enquanto Lexie escondia um sorrisinho de satisfação em seus lábios cobertos de gloss, Hunter tinha uma expressão carregada em seu rosto. Ela tentou deslizar uma mão sobre o braço dele para relaxá-lo, mas Campbell não deixou.

— Preciso de um cigarro — Hunter avisou a ninguém em especial e se colocou de pé.

Eu o observei sumir entre as mesas, seus ombros tensos debaixo do casaco. Meus amigos sequer deram falta de sua presença, continuaram a rir sem parar e a contar suas histórias. O entusiasmo era tanto que me estávamos caindo para fora do banco.

— Anda, Finch — Indy falou mais alto que o barulho. — Vamos trocar de lugar. Você senta do lado da Jackie.

— O quê? — parecia confuso entre uma risada e outra, mas se levantou também — Por quê?

— Vocês ficam falando assim, perto do meu pescoço... — ela balançou a cabeça, claramente bêbada, ao mesmo tempo que avançava para a ponta — Se vão discutir, então que falem cara a cara.

De novo, todos caíram na gargalhada. Finch se sentou entre Jackie e Indy, enquanto eu continuava na extremidade do banco em formato de "U". A mesa transbordava de tão cheia, mas pelo menos meus amigos se divertiam.

Ou fingiam se divertir.

Indy bebia e ria alto demais. Não era do feitio dela. Reparei que, enquanto jogava seus cabelos dourados sobre o ombro, sua atenção não estava na mesa. Vez ou outra, seus olhos vagavam pelo pub, em uma direção muito específica. Ela tinha uma expressão gananciosa no rosto e um brilho que muito se aproximava da impaciência.

Meu irmão, coincidentemente, estava parado do outro lado do bar como uma estátua.

Não que isso fosse da minha conta. Não era.

Depois que Hunter sumiu, eu não consegui me concentrar em mais nada. Marquei no celular um alarme que soaria daqui a meia hora. Dez da noite seria um bom horário para chegar em casa.





H U N T E R


Cada pensamento era como uma nova martelada contra meu crânio. Cerrei meus dentes, concentrado em seguir para a saída enquanto minha cabeça latejava de dor. Estava decidido, combateria um vício alimentando outro: a nicotina entraria no meu organismo e me traria de volta a paz que me fora tirada.

Mesmo que me esforçasse para me acalmar e encontrar uma distração, não conseguia.

Meu raciocínio falho sempre me trazia de volta para April. Eu estava possuído por um desejo feroz de fazê-la minha novamente. Queria ter seus sorrisos, seus olhares e suas mãos sobre mim. Torrei meus neurônios sob aquelas malditas luminárias retrô, tentando encontrar maneiras de fazê-la entender que tudo aquilo com Lexie não passara de um mal entendido.

Mais cedo, quando a vi usando minha jaqueta, finalmente entendi em que ponto estávamos naquela relação. Caralho. Eu havia chegado tão perto de tê-la! Tive sua atenção e, mesmo que por um breve momento, seus olhos estavam em mim. April estava me ouvindo de verdade, sem jogos. Nós fomos uma possibilidade, um desejo que passou por sua mente. Naquela noite, April fez um avanço tímido na direção que eu estava louco para tomar e então... Tudo veio abaixo.

Depois daquele show, April deixou claro não queria me ver nem pintado em ouro. Ela me ignorava sem esforço e eu escorregava novamente sobre a linha tênue entre o desespero e a autodestruição. Eu me levantei daquela mesa porque não queria estragar ainda mais o que já estava estragado.

Caralho.

Que se fodam Josh Halden e Lexie.

Não queria nem pensar no quão idiota de bêbado eu ficaria até o fim da noite se continuasse a ouvir boatos sobre April e Josh. Lexie sabia o que estava fazendo quando plantou aquelas imagens na minha cabeça.

Empurrei a porta de saída do pub, apertando o casaco rente ao corpo. Estava um frio do capeta do lado de fora, mas pelo menos assim concentraria minhas energias em ficar quente, e não em torrar meu cérebro com a possibilidade de April estar agarrando outro cara pelas minhas costas.

Eu ri comigo mesmo.

A situação toda era meio irônica.

Como eu diabos poderia adivinhar que aquela garota finalmente me daria uma chance?

Tudo que April havia feito desde o início fora me rejeitar e deixar claro que só estava comigo para me foder. Eu tinha toda razão para ficar louco de ciúmes.

Ou não.

Bom, foda-se. Pensar naquilo só me deixaria pior.

Um pouco de ar fresco me faria bem. Acima da minha cabeça, o céu noturno e sem estrelas parecia mais distante do que nunca. Tudo que eu precisava para espairecer estava ao meu alcance: o silêncio sepulcral das ruas e uma longa tragada em um cigarro.

Esperei ouvir o som da porta do pub batendo atrás de mim, mas isso nunca aconteceu. Não me dei ao trabalho de me virar. Apenas inclinei a cabeça para trás, esperando encontrar Lexie — algo na maneira em que nos despedimos me disse que nossa discussão não havia acabado. As palavras já estavam na ponta da minha língua, fazendo o caminho para fora de minha boca, quando percebi que teria que engoli-las: não fora Lexie a me seguir até o lado de fora.

Cole Wright, talvez a última pessoa que eu esperava ver naquele momento, surgiu do interior do pub. Ele empurrava a porta pesada com o corpo e carregava uma expressão cautelosa em seu rosto. Seus cabelos platinados estavam uma bagunça e seus olhos fundos eram o reflexo de noites mal dormidas.

Franzi as sobrancelhas.

Tudo bem, aquele era um comportamento atípico.

Enquanto Cole se aproximava de mim, um cara, que até então fumava em silêncio, se desencostou da parede suja e jogou seu cigarro no asfalto. Ele seguiu meu amigo, sorrateiro como uma ratazana. Cole não percebeu o movimento. Continuou a quebrar a distância entre nós, seus olhos grudados em algo atrás de mim.

Tarde demais, um alarme disparou no meu cérebro. Alguma coisa estava errada.

No próximo segundo, uma mão pesada se firmou em meu peito e me empurrou. Dei para trás e por pouco não caí de costas para o chão. Meus pés recuperaram o equilíbrio e me voltei para frente, sem entender o que acontecia.

O homem que havia me empurrado andava na minha direção. Ele era pelo menos duas vezes maior do que eu e usava um colete jeans coberto de insígnias sobre a camisa — em outras palavras: um fracassado possivelmente armado —, deveria fazer parte de algum clube de motoqueiros que freqüentava o pub e nos detestava.

— Ei, garoto — ele apontou para Cole, que deveria estar em algum lugar atrás de mim — Você mesmo, o de cabelo engraçado.

Bom, nós estávamos fodidos.

Poderíamos ser esfaqueados bem ali, naquela calçada estreita, e sangrar até nossas tripas que, mesmo assim, ninguém se daria o trabalho de olhar duas vezes antes de apertar o passo e lamentar nosso azar. Esse tipo de coisa era comum naquele bairro, disputa entre gangues e assaltos que dão errado.

Ao meu lado, Cole sequer piscava. Tinha os ombros tensos e punhos cerrados. Apreensivo, o baterista se preparava para o pior.

— Sick Rabbit tem uma mensagem para você — dessa vez, o cara que o seguia falou.

Ele nos contornou e parou em frente ao meu amigo. Estávamos os quatro reunidos sob o único poste de luz que funcionava naquele trecho da rua e a pouca luminosidade foi bastante confirmar o que já sabia: aqueles eram dois filhos da mãe feios do caralho.

Encarei o homem que havia me empurrado, me perguntando se daria conta de enfrentá-lo no corpo a corpo. Bom. A não ser que eu tivesse ganhado super poderes graças ao veneno de uma aranha radioativa, a resposta era não. Eu não era tão alto quanto ele e pesava pelo menos trinta quilos a menos. Uma barba grisalha cobria metade de seu rosto e um rubor bêbado se alastrava de suas bochechas até as orelhas: foi impossível não compará-lo com uma versão alcóolatra do papai noel — claro, isso apenas se um dia o bom velhinho passasse a seguir uma dieta rigorosa, composta apenas de asinhas de frango fritas e cerveja, e se envolvesse em pelo menos duas briga de bar por semana.

O segundo cara era mais comum: tinha um nariz quebrado, tatuagem indistinta na garganta e cabelo escuro, penteado para trás com gel. Seu corpo magro se mantinha de pé sem postura. Nada intimidante.

"Dick Rabbit" — repeti, como quem diz "que porra de nome é esse?" — Vocês estão formando uma banda?

Só para deixar claro: por dentro, eu estava pronto para correr.

Barba Branca cruzou os braços sobre o peito e um remendo costurado sobre o colete me chamou atenção. O desenho mais parecia um cartoon dos anos noventa em uma viagem de ácido: era um coelho sorrindo, segurando um cigarrinho com uma mão enluvada. Logo abaixo, em um arco, estava escrito "Sick Rabbit".

Ah, sim. Esse Sick Rabbit. A gangue de motoqueiros que tinha um dedo em todos os negócios daquela região, talvez uma das organizações mais patéticas que aquela cidade já conheceu. Eles controlavam o tráfico de drogas nos bairros pobres e parasitavam lojas pequenas em troca de proteção.

Bom, patéticos ou não, eu não queria levar uma facada.

Cole, por outro lado, não parecia preocupado em preservar sua integridade física. Ergueu uma sobrancelha e perguntou:

— O que o Dick Rabbit têm a dizer?

Propositalmente ou não, ele insistiu em errar o nome e isso não agradou.

— Se manda daqui, garoto — Barba Branca cerrou os dentes — Esse pub é nosso. Se a gente suspeitar que você e o resto da sua turma anda distribuindo por aqui...

O sangue sumiu do meu rosto. Eu estava pálido e suando. Cheguei a duvidar da minha própria audição, mas infelizmente ouvi certo: o irmão da April traficava nas horas vagas e eu levaria uma facada por isso.

Puta que pariu. Teria aceitado a situação mais facilmente se Cole tivesse admitido ser cúmplice em um assassinato — pelo menos, assim, não sobraria para mim. Porra. Ninguém dava uma de esperto para cima daquela gangue — não sem acabar em um caixão ou no noticiário das seis, aquele que minha avó acompanhava religiosamente.

Meu amigo deu um passo à frente e eu desejei que ele mantivesse a boca fechada. Nossa realidade estava prestes a ficar sanguinolenta. Tudo dependia dos próximos segundos.

— O que você vão fazer se eu continuar?

Primeiro, o da barba branca riu. Sua risada era único som que se ouvia na rua inteira. Eu engoli em seco, sentindo um filete de suor escorrer por minhas costas. Cole não se movia, atento a cena.

Puta merda.

— Escuta, cara... — dei um passo em sua direção — Nós não queremos problemas.

No próximo segundo, seu punho encontrou meu rosto em um soco e uma explosão de dor tomou minha face direita. Mal tive tempo de entender o que havia acontecido quando ele acertou o próximo, dessa vez no meu abdômen. Eu perdi o fôlego. No terceiro, meus joelhos atingiram o chão. Protegi meu estômago, tossindo enquanto uma mancha escura tomava minha visão.

— Que tal essa resposta? — Barba Branca vociferou — Era isso que você queria?

Eu não conseguia respirar. O ar escapava de meus pulmões e tudo doía. Apoiei meu corpo sobre o cotovelo, ainda na calçada. 

Um silêncio tenso tomou a rua. Pisquei algumas vezes e o inconfundível brilho metálico de uma lâmina chamou minha atenção. O homem mais magro, aquele que não falara uma palavra até o momento, segurava uma faca contra a garganta de Cole.

Puta que pariu.

Fiquei imóvel no meu lugar.

De repente, não estava mais desorientado. Meu corpo inteiro estava bem desperto, pronto para correr.

— E isso aqui? É real o suficiente para você, rapaz? — o Magro afundou a ponta da faca na pele dele, devagar. Não era forte o suficiente para sangrar, mas, a julgar pela expressão feroz no rosto de Cole, certamente doía.

Se o homem pressionasse a lâmina com mais força, o mataria.

— Recomendo que você e seus amigos encontrem outro lugar para tocar — Barba Branca continuou, se aproximando — De agora em diante, só bar mitzvahs e formaturas. Não é, Milo?

"Milo" deveria ser o nome do cara com a faca apontada para a garganta de Cole.

Bar mitzvahs e formaturas — Milo repetiu com um sorriso estranho.

Aparentemente, bastou aquela piada para que ele perdesse toda a seriedade. Milo empurrou Cole pelos ombros e uma risada histérica sacudiu seu corpo magro. Ainda com a faca na mão, ele trocou um olhar com o parceiro. Não sabia se era proposital ou não, mas seus movimentos exagerados pareciam ter saído de um desenho animado. Aquele cara não podia estar normal da cabeça.

Pelo canto do olho, vi que Cole ainda sustentava as mãos no ar com o rosto tenso.

Em um piscar de olhos, Milo estava de volta, avançando na direção do meu amigo com a faca. Ele se divertia com nosso terror. A lâmina cortou o ar em um X e Cole recuou para trás, se esquivando como podia.

— Já chega — Barba Branca o repreendeu — Deixe o garoto em paz. Ele vai se mijar todo.

Cole tinha os olhos presos à faca e as mãos espalmadas para cima em sinal de rendição.

— Essa é a melhor parte, Piggy.

— São só moleques — Piggy, aquele que eu chamava de "Barba Branca", rugiu impaciente — Olha pra ele. Não tem nem pelo no saco ainda.

— Você não sabe se divertir — Milo disse entre dentes — Se é para assustá-los, então vamos fazer isso direito.

Tudo aconteceu rápido demais. O estouro de uma risada. O brandir do metal. O raspar de solas contra o chão de concreto. Dessa vez, Milo se aproximava com movimentos diretos e precisos. Cole tentou bloquear os golpes, mas a lâmina o pegou. Chiando de dor, o baterista trouxe o braço para perto do peito enquanto sangue manchava sua camisa branca.

— Vamos embora — Piggy gritou, empurrando o amigo.

Eles se afastaram com passos apressados, desaparecendo na rua escura.

Quando vi, estávamos sozinho em frente ao pub.

Cole xingou baixo. Havia um corte feio na lateral de sua mão, de onde escorria o sangue que sujava suas roupas. Só de olhar, sabia que precisaria levar ponto. Além desse ferimento, não tinha qualquer outro sinal aparente de facada.

Expulsei o fôlego de meus pulmões, aliviado. Cole se deixou cair e se sentou do meu lado, pressionando o machucado com as mãos trêmulas.

E o que vocês vão fazer se eu continuar? — debochei — Você só pode ter merda na cabeça.

Para minha surpresa, ele riu baixo.

— Só pode ser isso — o filho da puta arfava com um sorriso no rosto — Está tudo bem?

A situação toda ainda estava fresca demais na minha cabeça. Eu não conseguia achar graça.

— Vai se foder. Ele esfaqueou você.

— Foi só um corte — observou o ferimento, ainda tremendo — O babaca só queria me assustar.

Cole franziu as sobrancelhas para o sangue, seus lábios franzidos enquanto sua respiração audível se tornava alta. Ele sentiria dor assim que a adrenalina fosse embora. Eu tateei a jaqueta jeans em busca de um cantil que mantinha escondido ali, reservado para emergências. Nunca pensei que realmente viria a calhar. Estendi-lhe o cantil prateado e ele aceitou.

Cole virou um gole, sem sequer me perguntar o que era. Em seguida, deixou o álcool lavar o ferimento. Desviei o olhar.

— Quando eu era moleque, nós chegamos a brigar com facas uma vez — sua voz tremia — Com os garotos da outra rua. Foi depois da escola.

O sangue gotejou de sua mão para o chão. Ele falava para se distrair da dor. Tomou mais um gole e jogou o cantil para mim.

Caralho. Não queria nem imaginar o que faria se me dessem uma faca aos onze anos. Acho que naquela época eu e Seth estávamos ocupados comendo meleca. Cole continuou a história, mas eu estava pouco me fodendo para o falatório bêbado. A mão dele estava uma merda. Nossa próxima parada seria o hospital, para costurar aquela porra.

— Briga de facas no fundamental? Isso é coisa de gênio — entornei o cantil em minha boca de uma vez só. O líquido desceu garganta abaixo como fogo e eu tossi, limpando o queixo com as costas da mão — E agora você vende droga? Que ideia brilhante, Cole. Quando pretendia nos contar?

— Não era para ninguém ficar sabendo.

Pela primeira vez, ele parecia irritado. Eu esperei em silêncio, escondendo o cantil no interior da jaqueta.

— Quando cheguei no pub hoje mais cedo, me avisaram que eles procurariam por mim — ele olhou para mim e o humor em seus olhos desapareceu — Não queria envolver vocês nisso, mas aconteceu.

— E agora?

— Não conte aos outros — quis protestar, mas Cole continuou: — Eles não podem saber, Campbell. Nós precisamos do dinheiro semana que vem.

O show. Eu tinha me esquecido disso. Todo dinheiro arrecadado seria convertido em fundos para Thomas, precisávamos da grana para arcar com os custos dos jogos internos.

— Eles nos ameaçaram.

Cole bufou, tirando um maço de cigarros do bolso da calça.

— Ninguém está em perigo, Campbell — colocou um entre os lábios — O problema deles é comigo. Eu vou resolver isso — a chama do isqueiro iluminou seu rosto — Eles só queriam me assustar.

Ele me ofereceu o maço e tomei um cigarro para mim. Nós fumamos em silêncio, cada um absorto em seus próprios pensamentos.

Cole carregava um semblante sério no rosto. Parecia tão seguro de si, certo de que nossos amigos estavam a salvo, que eu fiquei em dúvida entre ligar o foda-se de vez e insistir na idéia de que estávamos todos fodidos. Meneei a cabeça em frustração, pronto para xingá-lo de novo. O irmão de April era o tipo de cara que continuava imperturbado em situações extremas e aquela merda inspirava confiança — talvez por isso ele fosse visto como líder na escola —, mas eu conseguia ver através daquela máscara de calma.

Cole não tinha um plano. O plano dele era ficar calmo até o problema ir embora e isso não nos ajudaria em nada.

Eu não conseguia ignorar a gravidade daquela situação, então me restava surtar em silêncio.

— Você sabe quem roubou o dinheiro? — limpei a garganta — Da escola.

— Não fui eu, se é isso que está querendo dizer — ele deve ter enxergado minha descrença, porque me encarou por um momento e depois suspirou: — Campbell, estou juntando dinheiro para sair daqui. Eu sei os planos que meus pais têm para mim e não quero fazer parte deles. É só isso. Sei tanto sobre o dinheiro do grêmio quanto você.

Assenti.

Não sabia o que pensar. Apesar de nos vermos sempre, nós nem éramos tão amigos assim. Éramos próximos, claro, mas não amigos. Passamos a freqüentar os mesmos lugares depois que entrei para a banda e desde então temos isso em comum — talvez isso explicasse o porquê de eu não saber de sua vida secreta como traficante.

Será que todo Wright era assim?

— Eu não estou usando — quebrou o silêncio, incomodado — Só vendo em festas e nos jantares que meus pais freqüentam — então ele riu e levou o cigarro de volta a boca: — Estou pensando no meu futuro, eles deveriam ficar orgulhosos.

Pareceu quase satisfeito consigo mesmo durante um minuto inteiro, até que se virou para mim:

— Ninguém pode saber, Hunter.

— Sua irmã sabe?

— Minha irmã nunca vai ficar sabendo sobre isso, entendeu? — apontou para meu peito — Nunca.

— Tudo bem.

Cole desviou seus olhos para rua escura e se permitiu relaxar:

— Não sei por que April está aqui hoje. Se ela estava mesmo tão mal, deveria ter ficado em casa. Essa história de doença deve ser mais um capricho — ele sorriu e liberou um suspiro resignado, coçando os cabelos loiros — April faz isso desde criança: se não consegue o que quer, arrasta todos nós em seu drama.

Um sorriso surgiu em meus lábios. Eu conseguia imaginar April assim. Uma menina pequena, adorável e mimada com os olhos castanhos mais sérios que já foram vistos.

— Acho que ela faz isso até inconscientemente — liberou a fumaça — Eu a amo, mas não vejo a hora dela cair na real.

Algo no tom dele me incomodou.

Talvez Cole fosse um daqueles caras que bebiam e falavam demais. Nunca o vi tão falante, principalmente quando o assunto era família.

— O que vai dizer aos outros? — gesticulei para as mãos dele, ansioso para mudar de assunto.

Ele olhou para o ferimento como se só naquele momento tivesse percebido que estava ali.

— Um assalto — decidiu — Queriam a chave do meu carro e eu reagi.

Expeli uma coluna branca, assentindo.

Ninguém acreditaria se eu dissesse que fui um assaltado. Provavelmente, pensariam que eu mesmo fiz confusão e provoquei uma briga qualquer para me distrair. Ah! Excelente.

— Você pode dizer que te dei uma surra por dar em cima da minha irmã — Cole esbarrou seu cotovelo em mim.

Foi impossível não rir.

Teria me entregado completamente se não fosse pelo som de uma porta se abrindo atrás de nós. Uma leva de pessoas saiu do pub, falando alto e gargalhando. Foi aí percebi que estávamos sentados no meio fio há muito tempo. Seria bom se fossemos ao hospital logo, agora que estávamos calmos o suficiente para chamar um táxi ou dirigir.

Cole tossiu. Deu um peteleco na ponta do cigarro, que caiu no chão. Suas roupas ainda estavam sujas de sangue. Me perguntei se ele sabia, sobre o que eu tinha com a irmã dele. Ele deixou os olhos vagarem pelo asfalto a nossa frente, distantes, e eu percebi que não — tudo não passara de uma coincidência irônica.

— Vamos — levantou-se, esmagando o cigarro com a ponta de seu sapato — Eu conheço um lugar que podemos ir.





A P R I L



O banheiro era tão imundo quanto o resto do pub. Cada centímetro das paredes gastas estava coberto por arte em grafite, adesivos e mensagens assinadas em canetinha. Sob uma crosta de lodo, o chão era revestido por ladrilhos hexagonais que um dia foram brancos. Apesar de parecer um cenário de Trainspotting, o lugar preservava algum senso de dignidade. Veja bem: não se tratava do melhor toalete de pub desse lado do Reino Unido, mas, pelo menos, não fedia.

As meninas se amontoaram em frente ao espelho e eu cruzei os braços em frente ao corpo, esperando minha vez de usar a cabine.

— O que você fez para o Finch? — Indy aplicou mais uma camada de rímel sobre seus cílios e piscou para mim, embora falasse com Jackie — Parece que ele está com a calcinha enfiada na bunda.

Jackie bufou em resposta, espalhando gloss incolor sobre seus lábios fartos.

— Eu não fiz nada — uma adorável ruguinha surgiu em sua testa — Ele que é um bundão. Provavelmente ficou bravo porque bebemos aquele drink com canudinho de plástico. Você sabe, salve as tartarugas e tudo mais.

Faltavam dez minutos para meu horário limite. Eu precisava ir embora. Me sentia estranha. Não sabia se era a febre voltando ou se a bebida me fizera mal, mas uma dor de cabeça começava a dar sinais. Talvez estivesse colhendo um fruto da minha discussão com Campbell. Vai saber. Aparecer no pub fora uma péssima ideia. Eu tinha um treino importante do dia seguinte e não podia faltar.

— Tudo bem. Como você explica isso? — Indy brincou com a manga comprida da camisa xadrez — Você está usando a camisa dele.

— Esse trapo velho? — Jackie ajeitou a roupa, desinteressada — Encontrei entre as minhas coisas. Não é culpa minha se ele tem bom gosto para camisas.

— Ficou melhor em você — a voz de Zoe soava abafada pela porta da cabine.

O espelho sujo, coberto de manchas de oxidação, pendurado na parede mostrava meu reflexo. Parecia cansada. Encostada na parede, de braços cruzados. Até meu rabo de cavalo havia perdido sua glória e se desfazia aos poucos sobre o topo da minha cabeça.

Meu olhar se cruzou com o de Jackie:

— April, você sabe que não rolou nada — disparou indignada — Eu dormi com o Seth depois daquela festa e o Finch ficou boladinho porque não me comeu antes. Fim da história. Eu não devo explicações a eles.

— Tudo bem — dei de ombros.

Aquela fora a primeira vez que abrira minha boca desde que entramos no banheiro. Jackie deveria estar confundindo minha cara de exausta com algum tipo de desaprovação silenciosa.

— Pare de me julgar — insistiu toda brava, o que me arrancou uma risada. Jackie se virou para Indy em busca de ajuda: — Viu só? April está me julgando!

No mesmo instante, Zoe abriu a porta da cabine e eu saí de seu caminho para que ela pudesse passar. O banheiro era apertado e, para piorar, éramos quatro confinadas ali dentro.

— Eu nem falei nada!

— Não precisou — um beicinho resignado despontou em seus lábios.

— Você está projetando — avisei, fechando a porta da cabine atrás de mim.

Uma vez lá dentro, abaixei a saia e me concentrei em fazer xixi.

— Pare de tentar usar seus truque mentais em mim, mulher — Jackie resmungou — Não vai funcionar.

Ouvi o som da água da pia correndo enquanto Zoe lavava as mãos. Depois de gastar todas as suas energias em risadas, ela atingira um estado letárgico. Esforçava-se para fazer parte das conversas, mas parecia gradativamente desinteressada conforme a sobriedade se aproximava.

— Peraí — Zoe nos interrompeu genuinamente confusa — Jackie, você não falou pra mim que você e Finch tinham ficado?

Eu e Indy fomos pegas de surpresa pela revelação. Gritinhos agudos escaparam de nossas gargantas ao mesmo tempo.

— Zoe! — Jackie ralhou — Caramba.

— Droga — imaginei que Zoe massageava as próprias têmporas, nos odiando por fazer tanto barulho — Desculpa. Estou quase dormindo em pé.

— Está bem! — Jackie continuou, apesar das nossas exclamações — Eu o beijei, ele me rejeitou. Finch não queria estragar a amizade. Sem ressentimentos.

A confissão nos atingiu como um balde de água fria.

Dei a descarga e segui direto para a pia lavar as mãos.

— E como diabos você saiu dessa para a cama do Seth? — Indy quis saber — De todos os caras do mundo, eu achei que o Seth seria o último que você gostaria de... Caramba, Jackie. Ele é o esboço de tudo que você detesta.

A situação toda era caótica. Se Finch havia mesmo deixado passar a chance de ficar com Jackie, ele deveria estar arrependido para cacete. Pelo amor de Deus, minha melhor amiga era deslumbrante, inteligente e engraçada pra cacete. Finch sabia disso. Era o primeiro a orbitar ao redor dela, atraído para sua presença como uma abelhinha voando atrás de flores. Os dois passavam tanto tempo juntos que constantemente eram confundidos com um casal. Na escola, quem não os conhecia, dizia: se esses dois ainda não ficaram, vão ficar.

Até eu concordava com isso.

— Seth não é tão ruim assim — Jackie sorriu para o espelho — Eu até gosto. Quer dizer... Pelo menos, ele não me vê como uma irmã.

Concordei em silêncio, desfazendo meu rabo de cavalo. Estive tão distraída com meus próprios problemas que nem reparei no triângulo amoroso digno de série adolescente que se formava bem debaixo do meu nariz. Talvez, se colocasse Finch contra a parede, eu poderia encontrar as peças que faltavam para completar esse quebra-cabeça.

Alheia às minhas maquinações, Jackie continuava a se encarar no espelho. Ela estreitou os olhos para seu próprio reflexo e ajeitou o vestido justo sobre seu corpo.

— Finch é muito burro — Indy lhe estendeu um batom — Você claramente está mais para uma prima gostosa.

— Eu sei — um sorriso malicioso surgiu em seu rosto — Ou talvez uma madrasta convenientemente jovem e atraente.

A situação hipotética ganhou detalhes bastante específicos e Jackie só não continuou o devaneio porque a empurramos em direção a porta. Ríamos sem parar enquanto ela fazia suas melhores imitações de Meredith Blake, a personagem de Operação Cupido.

De volta a mesa, aproveitei o embalo para me despedir de todos. As meninas insistiram em me acompanhar até a saída, onde eu esperaria o carro. Nenhuma delas estava pronta para encerrar a noite, então eu voltaria para casa sozinha. Sequer cogitei a possibilidade de voltar para casa com meu irmão, sabia que ele tinha a própria vida para cuidar. Paguei minha parte das bebidas e seguimos para a rua.

— Falta muito? — Indy perguntou a certa altura.

— Não sei — me encolhi, sentindo falta de um agasalho para me proteger do frio — Disseram que o motorista demoraria uns cinco minutos para chegar aqui.

Zoe, que estava de pé, cutucou a bunda de Jackie, que pulou:

— Dê seu casaco à ela, Jackie.

— Eu? — resmungou — Por quê?

— Você tem dois.

Havia alguns fumantes solitários espalhados pela calçada e um pequeno grupo de estudantes se despedia ruidosamente em frente ao pub. Hunter não estava entre eles. O baixista saíra para um cigarro meia hora atrás e desaparecera como fumaça. Não que eu me importasse, claro. Era um alívio não tê-lo por perto.

As meninas estavam no meio de uma discussão animada envolvendo nossos planos para o fim de semana, quando um carro prateado entrou na rua pela contramão, cantando pneus. O Audi avançava na nossa direção a toda velocidade, faróis ofuscantes e ronco de motor. Cheguei a fechar meus olhos, esperando o momento em que o parachoque esmagaria meu crânio. No último segundo, o motorista pareceu mudar de ideia sobre o atropelamento eminente e pisou no freio, levantando uma nuvem de poeira no ar.

Malditos bêbados.

— Que babaca — tossi.

As meninas não me deram atenção. Elas observavam de queixo caído enquanto o motorista desvairado desembarcava do Audi prateado aos tropeços. Tarde demais, percebi que conhecia tanto aquele carro quanto o babaca que o conduzia: Eric Prescott, o ex-namorado de Indy, bateu a porta atrás de si e caminhou até nós visivelmente alterado. Ele tomou Indy pelo braço e a puxou para cima sem fazer esforço.

— Você deve achar que eu sou muito estúpido — Eric a sacudiu — Eu pareço otário, lindinha?

Indy não respondeu às perguntas. Sequer parecia entendê-las. Ela o encarava assustada, seus cabelos loiros espalhados por todo rosto.

— Eric — pedia baixo — Me solta.

— Por quê? — ele a segurou pelo queixo e empurrou seu rosto para trás sem delicadeza — Eu estou atrapalhando sua noite?

Indy tentou se afastar, mas Eric não permitiu que fosse muito longe. Nas mãos dele, minha amiga parecia frágil como uma boneca de pano.

— Acha mesmo que eu devo ficar sentado em casa enquanto você sai por aí, se comportando como uma vadia?

— Você está bêbado, Eric — Indy travou seus pés no chão e resistiu, deixando um rastro de pedrinhas reviradas para trás.

Eu e as meninas nos levantamos em um pulo. Não podíamos ficar paradas, apenas observando enquanto Indy era puxada em direção a um carro. Eric a arrastava até seu Audi prateado, onde três de seus amigos o esperavam, sentados no escuro. Eles testemunhavam tudo das janelas abertas, sem mover um músculo para apartar a briga.

Um arrepio atravessou minha espinha. Não queria ver a minha amiga dentro daquele carro.

— Solta — Zoe agarrou o braço dele em uma tentativa de libertar Indy — Deixa ela ir.

— Eu vou levá-la para casa — insistiu.

Meu coração batia na minha garganta. Eu precisava fazer alguma coisa, só não sabia o quê. Eric discutia com as meninas, esbravejando sem paciência. Com uma de suas mãos, puxava Indy pelo pulso, e com a outra segurava as chaves do carro. Eu me aproximei por trás e tomei o chaveiro de seus dedos.

Eric demorou alguns segundos para entender o que havia acontecido. Assim que pousou seus olhos em mim, riu exasperado:

— Isso está ficando ridículo — disse — Me devolve as chaves, garota.

Meu olhar vagou de Eric para as minhas amigas. Elas haviam se soltado e agora me observavam, recuperando o fôlego.

Não pensei duas vezes antes de arremessar as chaves bem longe.

Mais precisamente, em um monte de sacos de lixo reunidos debaixo de um poste.

— Sua filha da puta — Eric deu um passo em minha direção — Agora você vai buscar.

Fiz exatamente como o diabo sobre o meu ombro ordenou: eu não me mexi. Sequer pisquei. Permaneci imóvel enquanto sua postura mudava, mal contendo a violência que vibrava sob sua pele.

— Faça isso — Jackie gritou, apontando o flash de seu celular para a cara dele — Bate nela e eu espalho esse vídeo por todo canto.

Ele afastou seu rosto, protegendo seus olhos da claridade repentina.

— Eu te prometo que você não vai entrar em uma faculdade, seu babaca.

— Chega, Eric — um de seus amigos finalmente apareceu, segurando-o pelo ombro. Pelo canto do olho, vi outro procurando o chaveiro do lixo — Vamos sair desse lugar.

Eric fez questão de esbarrar em meu ombro em seu caminho até o carro. Murmurou em meu ouvido, baixo o bastante para que apenas eu pudesse ouvir:

— Vagabunda.

Eu franzi meu nariz para o fedor da bebida e me afastei.

Assim que os garotos encontraram as chaves, um dos mais sóbrios insistiu em assumir o volante. Não dirigiram um segundo olhar em nossa direção. Apenas entraram no Audi e foram embora.

— Merda — Jackie murmurou, guardando o celular no bolso — Eu estou tremendo. Achei que você fosse levar uma surra.

— Eu também — confessei.

Nós nos entreolhamos em silêncio, ainda sem acreditar no que havia acabado de acontecer. A pequena plateia que acompanhava a confusão aos poucos se dispersara pela calçada, deixando-nos praticamente sozinhas sob a luz amarelada dos postes. Indy continuava a segurar os próprios cabelos,  encarando o fim da rua como se ainda pudesse ver o carro sumir a distância.

Meu coração se apertou dentro do meu peito.

— Eu não estava brincando — Jackie se remexeu inquieta, sem conseguir conter a adrenalina — Se Eric te batesse mesmo, eu teria que jogar o celular na cara dele.

— Eu sei que sim — segurei seus ombros, tentando acalmá-la.

Não conseguia tirar os olhos de Indy.

Zoe se aproximou da menina e a abraçou sem dizer uma palavra, seus olhos escuros brilhando de preocupação.

— Me desculpe — Indy não nos encarava — Não sabia que ele apareceria assim.

— Não foi sua culpa — Zoe a interrompeu.

Elas se afastaram e Indy cruzou os braços na frente do corpo.

— Eu vou para casa — avisou, fungando.

— Não — Jackie protestou — Você merece uma bebida.

— Sério — ela insistiu, definitiva — Está tarde. Eu só quero dormir um pouco.

Foi inútil tentar persuadi-la. Por fim, Indy e Jackie seguiram para o Thunderbird, estacionado a algumas quadras dali, e Zoe voltou para o interior pub, onde Zack, sua carona, a aguardava. Meu táxi chegou pouco depois. Apenas quando cheguei em casa percebi que ainda vestia o casaco que Jackie me emprestara. Mandei uma mensagem curta para nosso grupo assim que me deitei na cama.

Ao fechar os olhos, estava longe de me preocupar com Hunter. Minha cabeça pesava contra o travesseiro, repassando sem parar os acontecimentos da última hora. Eu deslizei para inconsciência atormentada por pensamentos turbulentos, me revirando inquieta sobre o colchão, pulando em sobressalto a cada barulho. Quando finalmente dormi, sonhei com Hunter.








N/A: Boa noite, corujinhas da madrugada.

Não vou me alongar muito falando sobre o que eu achei do capítulo, porque quero ouvir de vocês!

E aí? Vcs acham q a April vai FINALMENTE confiar no Hunter?

Aliás, vocês acham que ela deveria? Digo, com tudo que ela sabe e viu? Vocês ficariam desconfiadas?

Esse capítulo tocou em vários parênteses que abri no decorrer da história e espero fechá-los antes do fim do livro (lê-se: quero e vou fechá-los, só espero não ficar uma merda HAUAHU). Sério, tem uma caralhada de problemas que plantei pros personagens e nunca mais mencionei porque sou muito LERDA desenvolvendo as coisas. Metade das coisas vcs já devem ter até esquecido, n culpo vcs.

Ah! Falando nisso. Gostaram daquela retrospectiva? Agora que terminei, to rindo. Só fiz isso uma vez antes e foi qnd postei o capitulo nove, algo assim.

Cara, BS completou cinco aninhos em agosto. Alguma veterana de guerra por aqui pra contar seu depoimento? PRECISO agradecer a vocês pelo carinho e pela paciência.

Por último: qualquer erro que vocês acharem, por favor, falem. Se tiverem críticas construtivas, tamo aí. Isso é importante pra mim.

Beijinhos,

Babi

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