Capítulo XVI [PARTE DOIS]




ATENÇÃO: Se o capítulo estiver com bugs, palavras/parágrafos incompletos, recomendo que retirem o livro da biblioteca e adicionem novamente! Caso o problema persista, desloguem aqui do wattpad e loguem de novo. Só assim pra consertar :/



A P R I L


DEPOIS DOS ÚLTIMOS SUSPIROS de ruído estático, a antena do rádio finalmente deixou de captar qualquer som e nos entregou ao silêncio da estrada. Em algum momento da viagem meus olhos deviam ter se fechado, pesados devido ao cansaço acumulado no dia anterior, e eu só me dei conta de que havia adormecido quando minha cabeça despencou para o lado, assustando toda sonolência para longe.

A paisagem ao meu redor não havia mudado: mais asfalto molhado e névoa. Descansei a testa no vidro frio enquanto o sono não voltava, observando uma manchinha embaçada surgir na janela, aumentando com a cadência da minha respiração. Só de vislumbrar o borrão verde das árvores à beira da rodovia, um princípio de mal estar começava a se manifestar no meu estômago.

Aparentemente, nem todas as leis do código de trânsito foram feitas para serem ignoradas – eu estava quase dormindo de novo quando o veículo na nossa frente ligou a seta, sinalizando que pegaria a próxima entrada à esquerda. Nosso carro deu um gentil solavanco para a mesma direção, seguindo o exemplo do primeiro, serpenteando para dentro de mais uma das inúmeras curvas daquela estrada. Aos poucos nós nos aproximávamos do acostamento, a velocidade que nos movíamos se quebrando pela metade.

– Por que estamos parando? – eu murmurei.

Hunter me checou rapidamente antes de voltar os olhos para o asfalto. Ele parecia surpreso por me ver acordada.

– Não estamos parando – acompanhei os braços dele tencionarem contra o volante, guiando o carro por mais uma curva – Tem um restaurante com panquecas incríveis por aqui. Vamos pegar uma entrada no quilômetro quarenta e um.

Eu assenti e, talvez por causa da fome ou do enjôo, comecei a sentir minha cabeça leve. Seria bom um pouco de ar fresco.

No banco do motorista, apenas silêncio. Seja lá quais fossem os pensamentos que o deixavam disperso naquela manhã, Hunter não fazia questão de compartilhar. Eu o observei correr uma mão nos cabelos escuros, desarrumando-os em toda sua glória matinal, enquanto a outra segurava o volante. Sem nenhum aviso prévio o cantinho da boca dele se repuxou para cima e eu simplesmente soube que nenhuma panqueca no mundo poderia trazer aquele ar debochado ao rosto do baixista.

– O que é?

A expressão dele se suavizou quando ele me olhou de relance. Pouco sonso.

– Nada – quando achei que cairíamos no silêncio, Hunter respirou fundo e completou: – Você só para de discutir quando está dormindo.

Não era bem uma mentira, mas eram necessárias duas pessoas para haver uma discussão.

– Sabe que eu também tive essa impressão? – eu retribuí o sorriso – De olhos fechados você é bem menos irritante, Campbell.

O silêncio dentro do carro foi pontuado por uma risada maldosa. Era o tipo de risada que me fazia analisar duas vezes o que eu havia dito em busca de alguma burrice.

– Olhos fechados, mãos subindo pelas suas coxas – a voz dele era baixa, provocativa na medida certa. – Por favor, continue. O que mais você sonhou, princesa?

Minhas mãos foram para longe do corpo imediatamente, como se tivessem levado um choque – aquela poderia muito bem ser uma descrição do que acontecera noite passada. Meu corpo, desperto e traidor, estava bem ciente disso e vibrava com a memória. Sorte minha que eu não pensava com a vagina. Com as narinas infladas eu voltei a olhar para frente, tendo a certeza de que bateria no braço do Campbell se ele não estivesse dirigindo.

– Está excitada? – um sorriso despudorado crescia em seu rosto.

– Você é tão presunçoso.

– Isso não foi um não – o garoto cantarolou – Chegamos.

Hunter manobrou o carro para dentro de uma vaga e eu analisei o restaurante. O estabelecimento parecia uma cabine florestal antiga, com paredes feitas de toras de madeira encaixadas umas nas outras como peças de lego – um lugar modesto, mas definitivamente aconchegante. Como todo bom restaurante de beira de estrada, havia uma placa enorme indicando que funcionava vinte e quatro horas. De acordo com as letras garrafais, a especialidade da casa era café da manhã.

Do lado de fora, meus amigos do primeiro carro corriam para o toldo listrado, se abrigando do chuvisco. Só percebi que estava sozinha quando a última porta bateu, agitando as gotas acumuladas no vidro.

Eu segurei a maçaneta ao mesmo tempo em que alguém abria a porta para mim. Sem nem levantar a cabeça para agradecer, eu despenquei para fora do carro como se não visse terra firme há semanas. Tive que me segurar à porta por alguns segundos até sentir o mundo parar de girar.

– Enjôo de carro? – um par de all stars brancos entrou no meu campo de visão. Eles pertenciam a uma voz feminina: musical, quase brincalhona – Por favor, não vomite no meu tênis.

– Bom, já que você pediu com tanta educação – minha resposta foi praticamente um grunhido.

Era de se esperar que eu encontrasse alguma dificuldade em arrumar a postura – eu havia passado a última hora moldando a minha bunda ao assento do carro, com o pescoço torto contra a janela. Quando finalmente olhei para cima e encontrei dois olhos azuis sorrindo para mim. Indy Flemming.

– Você sempre teve um estômago fraco, April.

Não consegui conter a exclamação que veio misturada a uma risada. Eu a abracei e ela me envolveu de volta com cuidado, como se tivesse medo de provocar meu vômito. O cheiro do cabelo dela trazia uma vaga lembrança a algodão doce.

– O que você está fazendo aqui? – tive que me controlar para não guinchar como uma colegial. Indy vestia uma jaqueta alguns números maiores que ela e um par de jeans de lavagem clara (roupas bem diferentes do uniforme monocromático da nossa escola).

– Seu irmão me pediu para vir te olhar – a loira se afastou para analisar meu rosto – Ele estava certo, você parece meio verde.

– Não aqui, Indy – eu quase a sacudi antes de soltá-la – Eu quis dizer aqui, com a gente! Eu nem te vi no outro carro.

Para meu próprio bem, decidi parar de gesticular tão animadamente. O ar fresco era revigorante, mas eu ainda me sentia enjoada. Um chuvisco tímido salpicava gotas de água por nossos rostos, tão fraco que não chegava a incomodar. Atrás de nós, o zunido de carros na rodovia cortava o ar de tempos em tempos.

– Ah, isso – ela colocou uma mecha dourada atrás da orelha.

– Cadê seu namorado? Ele veio também?

Procurei o garoto entre nossos amigos, que agora entravam pela porta de tela lanchonete. Nenhum deles parecia com o alto e forte Eric Prescott – antigo rival da Thomas e atual capitão do time de basquete da Champoudry. Eric podia ser um atleta incrível com uma lista interminável de conquistas acadêmicas, mas ainda assim nós não íamos muito com a cara dele. E isso não era bem um segredo: Jackie nunca o poupava de críticas, sempre enchendo os ouvidos de Indy sobre o garoto.

– Não, na verdade não – ela brincava com a manga do casaco como se falássemos sobre amenidades – Na verdade... Eu deveria ter falado antes. Eu e Eric demos um tempo.

– Um tempo?

Os orbes azuis se fixaram em mim, pela primeira vez sérios.

– Um namorado que me afasta dos meus amigos não pode ser um bom namorado.

Nós nos encaramos em silêncio, ignorando o chuvisco chato que nos molhava, e eu senti aquelas palavras pesarem entre nós. Não achei as palavras certas para dizer, ao invés disso só disse a primeira coisa que passou pela minha cabeça:

– Bem... Eu deveria ter reparado nisso antes de sair falando que nem uma idiota.

– É recente – a loira deu de ombros como se fizesse pouco caso, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta – Jackie estava certa sobre ele.

Só de olhar para a menina eu sabia que havia mais – coisas que ela não desejava compartilhar, não agora e talvez não comigo.

– Isso é besteira – ela murmurou depois da minha falta de resposta.

– Não diga isso – ralhei, encaixando meu braço no dela – Esse passeio ao lago veio em um bom momento. Eu ouvi falar que esse lugar tem as melhores panquecas da região.





O interior do restaurante lembrava uma cabana rústica, com direito a vigas de madeira no teto, prêmios de caça enfeitando a parede e adesivos de clubes de motoqueiros colados por todas as superfícies. Cheirava a café, bacon frito na manteiga e tudo que fazia meu estômago roncar.

Encontrar nossos amigos no meio de uma multidão sempre foi um trabalho fácil: tudo que precisamos fazer é seguir o som de risadas altas e perturbação da paz alheia. Dito e feito, no fundo da lanchonete o grupo de adolescentes tinha se divido em três mesas próximas à janela. Pela disposição dos cardápios, todos já haviam feito seus pedidos, exceto eu e Indy.

– Que fome – Finch grunhiu ao meu lado, abaixando o menu na minha mão para que nós dois pudéssemos vê-lo.

Além dele, Indy, Zoe e Zack também ocupavam a mesa, espalhados pelo banco vermelho. Os três brigavam para usar uma câmera que a morena trouxe para o passeio. Eu imaginei que em dias de verão, infinitamente mais quentes e úmidos que esse, os assentos de vinil craquelado grudariam na pele dos turistas, deixando impressões de suor para trás.

Um barulho parecido com uma fungada me distraiu. Era Finch.

– Você está resfriado?

– Sim, 'tô mal – o menino ensaiou um olhar de dar pena – Estou precisando de alguém pra cuidar de mim, sabe?

Uma risada escapou pelos meus lábios antes que eu pudesse repreendê-lo. Finch era uma criatura cientificamente impossibilitada de parar de flertar: o garoto queria que todas se apaixonassem por ele sem nenhuma intenção de se apaixonar de volta. Eu senti falta da parceira de crime dele. Jackie estava nos evitando desde hoje cedo, quando nos separamos em carros diferentes, e sequer cogitou a possibilidade de se sentar conosco.

A porta dupla se abriu atrás da bancada, trazendo mais sons da cozinha para o salão. Levantei meus olhos bem a tempo de flagrar um par de íris azuis me encarando. Hunter estava na outra mesa, sentado de frente para mim. Eu podia vê-lo por cima do ombro de Zoe, levando uma caneca de café aos lábios, ignorando a conversa agitada que se desenrolava ao seu redor, bebendo um longo gole do líquido fumegante antes de retorná-lo ao tampo da mesa. Tinha os olhos atentos a mim, me atraindo como dois imãs.

Dei uma olhada pelo cardápio, meu dedo descendo pela lista do menu à medida que um sorriso discreto crescia no meu rosto. ​O jukebox antigo no canto do restaurante tocava Baby it's you dos Beatles. Quando olhei para cima novamente as safiras haviam descido do meu rosto para pousarem no braço de Finch, que repousava acima dos meus ombros. Mesmo a distância as orbes pareciam inexpressivas, como se eu tivesse perdido Hunter para seus pensamentos.

– E, então – uma garçonete se aproximou da nossa mesa, retirando um bloquinho de pedidos do bolso do avental – O que vai ser, mocinhas?

Ela tinha as maçãs do rosto altas, como se sorrisse sem nem se dar conta. No pequeno crachá pendurado em seu bolso se lia: "Olá, meu nome é Debby".

– Eu vou querer as panquecas, por favor – Indy se prontificou a responder, recolhendo os cardápios da mesa para ajudá-la – Com chantilly e morangos.

– O mesmo para mim. E um café.

Arrisquei um olhar para a outra mesa, mas Hunter havia sumido.

– Certo. Obrigada, meninas – ela anotou rapidamente na comanda e levantou os olhos para encarar Zack com ares bem humorados – Quanto a você, rapazinho. Seu pedido foi responsável por um pequeno congestionamento na cozinha.

– Pode mandar trazer tudo, Debby – ele esfregou as mãos uma na outra com um sorriso maquiavélico no rosto.

Mais tarde, quando os pratos começaram a chegar, eu entendi o porquê do comentário da garçonete. Uma porção grande de batatas fritas com cheddar, milkshake de morango com chantilly e um hambúrguer com o tamanho do meu punho com extra tudo: esse era apenas o pedido do Zack. Parecia apetitoso, mas o cheiro de óleo deixava meu estômago embrulhado.

– O quê? – o vocalista questionou, congelando antes de levar hambúrguer à boca. Todos nós o encarávamos sem esconder o espanto – São quase onze horas. Estou com fome.

– Na verdade, são dez e quinze – Finch brincava com o canudo imerso na vitamina de banana – Mas eu não posso falar do seu estômago tendo um fígado como o meu.

O rosto do menino parecia assombrado pela lembrança de todas as bebidas de origem duvidosa que já virou na vida. E, pelo que eu sabia, não foram poucas.

– Saúde – bati minha caneca no copo dele em um pequeno brinde antes de beber.

O resto do café da manhã foi bem agitado. Finch tentou me ensinar a arrotar depois de soltar um de seus fedores clássicos na minha cara – "para você", ele disse. Eu aceitei algumas dicas relutantemente, mas fui um constrangimento para meus professores na maior parte do tempo. Nós só conseguimos resultados depois de uma lata de Dr Pepper – o ingrediente à prova de falhas do meu amigo – que causou uma explosão de risadas na mesa.

Zack também tinha entrado na brincadeira – ele estava bem falante ultimamente, brincalhão de um jeito que não era da natureza do vocalista. Eu suspeitava que o motivo tivesse algo a ver com a menina sentada ao lado dele, sorrindo como uma criança.





H U N T E R


Juntei minhas mãos como uma concha debaixo da torneira aberta e esperei. Quando a água corrente começou a transbordar dos meus palmos inclinei o rosto até pia, molhando da testa ao começo do pescoço. Eu estava contando com o choque de temperatura para me deixar mais desperto, mas o frio funcionou de forma tão eficiente quanto um copo de café – o que não significava muita coisa naquela altura do campeonato.

O lavabo era uma área comum entre os banheiros, separado do resto do restaurante apenas por uma porta de vai e vem. Não havia janelas – toda a iluminação do cômodo provinha das duas lâmpadas amareladas que ladeavam o espelho acima da pia. O desenho de pequenos coqueiros de praia e dançarinas havaianas faziam parte do papel de parede encardido. Debaixo dos meus tênis a sujeira de vários anos se acumulava em um carpete barulhento, que grudava na minha sola a cada passo. O lugar todo cheirava a mofo.

– Você parece tão tenso.

A voz vinha de algum lugar atrás de mim. Lenta e manhosa, cheia de veneno: eu conhecia todos seus truques como a palma da minha mão. Mesmo de costas, eu senti a menina se aproximar lentamente, envolvendo-me com seu perfume antes de sequer me tocar.

Eu deveria saber que Lexie me seguiria até um lugar vazio na menor sombra de oportunidade. A morena tinha o dom de farejar rapidinhas e eu já havia mantido-a afastada por tempo demais. Negligenciá-la nunca foi uma opção muito esperta.

– Eu estou bem, obrigado.

Continuei a secar minhas mãos, exatamente como faria se ela não estivesse ali. As toalhas de papel eram ásperas e grudavam na minha pele, mas fizeram o trabalho.

Pelo espelho, os olhos esverdeados cravaram nos meus com um brilho de travessura e seus dedos passearam para o sul do meu corpo. Eu a segurei pelos pulsos antes que fizesse algo estúpido.

– Você já mentiu melhor, Hunt... – um biquinho falso despontou em seus lábios carnudos – Inclusive para mim. Isso é quase um insulto à minha inteligência.

Ali estava. O maldito apelido. Eu o odiava e Lexie sabia disso, o que só tornava tudo mais divertido para ela.

– Vamos – ela sibilou – Eu te conheço tão bem.

– Se me conhece tão bem assim, então sabe que eu não minto.

Em um dia melhor, eu teria rido – nunca me esforcei para poupar os sentimentos de Lexie e não seria agora que eu começaria a fazer isso –, mas Lexie sempre sabia quando havia outra garota envolvida na jogada e não dava a mínima para isso, contanto que conseguisse o que queria. E ela queria sexo. Fácil e rápido.

Seja por carência ou por necessidade, sempre tínhamos um ao outro.

– Como você está chato hoje – o humor em seu rosto foi substituído por frieza e eu soltei os pulsos dela – Eu sei de uma coisa que pode te animar.

– Eu não estou no clima para isso hoje, Lexie.

Tentei desviar dela para alcançar a porta, mas foi inútil. A morena se pôs à minha frente, colando nossos corpos em uma carícia calculada. Suas mãos deslizaram por meus ombros e desceram, segurando os dois lados da minha jaqueta.

– Você não precisa fazer nada, Hunter – o rosto felino estava a centímetros do meu, seus olhos cada vez maiores – Aqui está como vai funcionar: eu falo e você fica caladinho.

Não consegui segurar uma risada ao ouvir o tom de ameaça disfarçado em sua voz.

– Você vai precisar se esforçar um pouco mais se quiser me irritar.

Era o meu jeito de dizer: entra na fila.

Preparei-me para me desvencilhar dos braços de Lexie e algo tão perigoso quanto um desafio aceito se acendeu em sua expressão.

Os lábios dela eram tão bonitos – ela sussurrou, saboreando cada sílaba – Eu queria beijá-los. De novo. E de novo.

Era difícil respirar. Meu rosto havia se transformado em pedra enquanto um líquido frio se espalhava por minhas veias, pinicando por debaixo da pele – até as batidas do meu coração pareciam mais lentas.

April. Ela estava falando sobre April. Aqueles versos, eu os reconhecia porque eu mesmo os havia escrito. Eu havia encontrado a origem de toda poesia no corpo dela.

– Você mexeu nas minhas coisas – foi uma constatação.

Lexie revirou os olhos antes de me dar as costas, passeando pelo pequeno cômodo em movimentos felinos, como um tigre encarcerado em uma jaula. Minhas mãos procuraram apoio na bancada de mármore da pia, apertando a segurança da superfície fria entre meus dedos.

– Eu sabia que você não poderia ter escrito aquilo pra mim, mas... April Wright? Sério? Esperava mais de você.

Demorei a sorrir novamente, dando meu melhor para tirar April da minha cabeça – falar sobre ela só me prejudicaria. Eu conhecia Lexie bem o suficiente para saber que ela estava blefando, jogando verde e se escondendo atrás de provocações para ver o que conseguiria arrancar de mim. Qualquer sinal de perda de controle seria a confirmação que a garota estava procurando, e eu não daria esse prazer a ela.

– Achou que eu não ia perceber? – a morena continuou – Eu vi o jeito que você estava olhando para ela. É patético.

Lexie não se deixou intimidar quando eu quebrei a distância entre nós dois e apenas se acomodou contra a parede, encarando meus lábios com cobiça. Ela só podia estar louca se estava pensando que eu a beijaria agora.

– Não mexa nas minhas coisas – eu mirei no fundo de seus olhos com toda frieza – Você só está conseguindo parecer mais desesperada.

Como já era previsto, a menina fez pouco caso do que eu disse – Lexie sabia exatamente o que tinha para me dizer e nada a interromperia até que desse o show por encerrado.

– Quer saber por que você é tão inseguro? – ela tinha o rosto muito próximo, sua voz era quase um sussurro da sua boca para a minha – Você sabe que não tem nada para oferecer a uma garota além de sexo. Você é um lixo. Todo mundo sabe disso – uma risada curta escapou de seus lábios – Aposto que até a April sabe disso.

Por um longo momento, nenhum de nós ousou quebrar o silêncio. O desprezo ainda escorria de sua boca em um sorriso, letal como o veneno de um animal peçonhento. As unhas de Lexie subiam pelo meu braço, arranhando minha pele lentamente enquanto ela me encarava como se me visse pela primeira vez.

– Quem diria... Hunter Campbell, um brinquedinho particular nas mãos de April Wright.

Lexie, Lexie, Lexie... – o nome soava uma repreensão. Eu capturei uma mexa do cabelo comprido e a coloquei atrás da orelha dela, não reconhecendo a calma em minha voz. A menina ficou tensa sob o meu toque, inclinando seu queixo para mim em desafio. Eu sorri satisfeito quando ela não me afastou, descendo meus lábios por sua pele macia, movendo-os contra o rosto dela de um jeito que a fez estremecer – Por que eu sequer olharia para ela quando eu tenho você?

Eu podia quase ouvir a confusão destruindo a mente da menina, neurônio por neurônio, enquanto ela pensava se deveria confiar em mim ou não. Uma de suas mãos agarrou firme na minha jaqueta quando fiz menção de me afastar – eu plantei um beijo em seu pescoço para recompensá-la e Lexie respirou fundo para conter um suspiro, prensando nossos corpos. Aquilo soava como uma decisão para mim.

– Fácil assim? – eu ri, me distanciando antes que a menina conseguisse se humilhar ainda mais. A confusão que estampava seu rosto deu lugar para o desprezo e segurei seu queixo entre a ponta de meus dedos – Parece que velhas armadilhas ainda fazem o truque, afinal.

Ela se desvencilhou do meu toque, vermelha de raiva. Todo brilho tinha deixado seus olhos em um sopro – eu desejei nunca estar na pele dela. Era simplesmente cruel.

– Você é um canalha. Só espero que ela se dê conta disso mais rápido do que eu – os orbes verdes me atravessavam como dois punhais, cravando cada vez mais fundo – E quando April se cansar de você, eu estarei aqui... Exatamente onde você me deixou.

Ela não estava contando mentiras. Aquela era a verdade nua e crua: nós sempre voltávamos um para o outro, por mais doentio que fosse.

– Boa sorte provando do seu próprio veneno, Hunter.

Antes que a menina pudesse arrancar mais alguma coisa de mim, o baque repentino da porta se abrindo nos interrompeu. Não me dei ao trabalho de dar boas vindas.

Havia silêncio novamente, mas as palavras dela não saiam da minha cabeça. O que tornava minha relação com a April tão diferente da que eu tinha com a Lexie? O máximo que eu conseguiria de April era me tornar seu segredinho sujo. Por que eu desejaria ser algo diferente?

Foda-se. Eu precisava de um cigarro.

Observei o coturno de Lexie se distanciar até sumir entre as portas, me deixando sozinho com a nova figura.

– Nós precisamos parar de nos encontrar assim – a voz dela era serena. Eu olhei para cima para encontrar um rosto impassível, que me media sem expressar julgamentos.

Zoe Summers, a amiga novata da April. Diferente da primeira vez que nos encontramos nessa situação, a menina não ficou vermelha e nem disparou desculpas. Por algum motivo, eu esperei que ela cruzasse os braços em silêncio, como minha mãe fazia antes de começar um sermão, mas Zoe só passou por mim e entrou no banheiro feminino.

Eu esperei. Respirei fundo uma, duas vezes. Levei minhas mãos trêmulas até o cabelo, desejando poder socar algo. Pela segunda vez naquele dia eu estava lutando para me recompor e estava perdendo.





A P R I L


– Eu acho... – Finch murmurou, encolhendo-se contra o banco do carro – Que nós estamos sobrando nessa viagem, April.

– Não me diga.

Depois de terminarmos o café, nós nos dirigimos ao estacionamento quase tão lentamente quanto uma excursão da terceira idade – a diferença era que a terceira idade tinha um controle sobre a bexiga melhor do que os meninos.

Com toda certeza os idosos cuidavam melhor do pulmão também. Hunter havia ficado para trás em algum momento entre o caixa e a porta de saída, alegando que precisava de uma pausa para fumar. Bom, aquele devia ser um cigarro e tanto. Quando o Campbell reapareceu tinha Lexie na sua cola e ambos pareciam irradiar mau humor com a intensidade de dois sóis. A menina se sentou no banco do carona e fechou a porta com força, mas não sem antes me lançar um olhar venenoso por cima do ombro.

Zoe arqueou as sobrancelhas para a pequena cena e entrou no carro sem comentar nada. Zack foi mais esperto – aproximou-se de mim e disse: "Vê se não arranja problemas, April". Meu sorriso debochado não tinha nada a ver com isso, mas o vocalista se achou no direito de desarrumar meu cabelo.

Finalmente, com todos dentro do carro, eu e Finch não tivemos escolha: nós nos sentamos no último banco, dividindo o espaço com algumas mochilas e cobertores. Não chegava a ser desconfortável, mas era constrangedor viajar com casais formados tão nitidamente.

Hunter lançava olhares pelo espelho retrovisor de tempos em tempos e eu dei meu melhor para fingir que não era comigo. Cada vez que eu encontrava os olhos azuis eu sentia o nervosismo crescer dentro de mim, como prelúdio para algo ruim. Lexie tentava conseguir a atenção dele, mas por algum motivo Campbell havia se tornado um ser mal-humorado e monossilábico.

Lutei contra as mangas do casaco, ficando apenas com uma blusa de mangas compridas. A meteorologia acertara – a temperatura estava se elevando bem rápido no decorrer do dia. Se continuasse assim, teríamos uma tarde de verão decente em algumas horas.

– Ah, eu gosto dessa música – Finch suspirou. Ele havia aconchegado o tronco entre as mochilas, ajeitando-as como um sofá.

John Mayer foi completamente ofuscado pela voz do meu amigo. No Such Thing tocava no rádio do carro, uma tentativa falha de abafar a pequena discussão nos bancos lá na frente.

– Ok, quantas meninas você já pegou usando essa? Não ria, Finch! – eu o adverti – Você estava cantando John Mayer.

– Não é só pra pegar meninas. O cara é bom mesmo – como se precisasse provar seu ponto, o garoto continuou a cantar. Sem fazer esforço algum para fazer a voz soar musical, ele ronronou as últimas estrofes e um sorrisinho surgiu por trás dos óculos escuros. Finch sabia que me impressionava, não errou sequer uma letra.

– Isso foi excelente...

Você quer me fazer bater o carro?! – uma voz masculina explodiu no banco dianteiro.

Era Hunter. Ele afastou as mãos de Lexie de seu colo enquanto segurava firme ao volante, seu rosto tomado por uma raiva que nunca vi antes. Um silêncio tenso reinou pelo carro e a menina gargalhou, deixando a cabeça cair para trás. Era um som maldoso, alto demais para soar natural.

Virei para Finch carregando uma pergunta muda nos olhos, mas ele apenas meneou a cabeça, preferindo batucar os dedos no joelho ao ritmo da próxima música. Zoe Zack fizeram o mesmo voto de silêncio.

Não olhei para frente pelo resto da viagem.





– Deve faltar pouco agora – eu murmurei para Finch, me dando conta que paisagem finalmente havia mudado.

Minha voz não era mais que um sussurro, misturando-se ao ruído grave da música. Mesmo passados vinte minutos do incidente ninguém ousou iniciar uma conversa, tampouco puxar canções de acampamento.

– Acho que eu estou reconhecendo o caminho – ele concordou, se endireitando no banco – Estamos bem perto.

A estrada era ladeada por árvores de troncos grossos que se encontravam na altura das copas, formando um túnel verde acima do carro. A vista no horizonte era repleta de montes cobertos por vegetação, indicando que estávamos próximos do vale, e havia uma passagem estreita que nos levaria aos pés da formação rochosa, onde um grande lago se formara milhares de anos atrás.

Estava cada vez mais ensolarado lá fora, como se os raios de sol da manhã tivessem dissipado qualquer sinal de frio. Pelas folhas secas acumuladas no chão, eu duvidava que sequer houvesse chovido por ali nos dias anteriores.

– Está meio... Abafado – Finch comentou, puxando a gola da jaqueta para ventilar um pouco o peito. Eu concordei com um aceno, me afastando das mantas que cobriam o banco.

Nós finalmente entramos na passagem e eu me preparei para que a visão perfeita do lago surgisse a qualquer momento. Não foi uma cena digna de filme – assim que deixamos as paredes rochosas para trás, o sol do meio dia passou a atingir diretamente a lataria e a sensação térmica no interior do carro aumentou de um jeito quase insuportável. Os casacos que vestíamos pareciam absorver todo calor, aquecendo nossa pele como dentro de um forno. Finch tirou da jaqueta com pressa, me pedindo uma ajuda histérica para se livrar da vestimenta. Risadas à parte, Zoe e Zack também passaram pelo mesmo drama.

No banco da frente, Lexie abriu a janela e uma brisa quente invadiu o interior do carro, bagunçando nossos cabelos com uma rajada. Finch seguiu o exemplo da menina e abaixou o vidro, uivando contra o vento.

– Senhoras e senhores passageiros – ele anunciou – Bem vindos à Bridgeford Lake. O tempo está agradável para um senhor caralho – todos nós riamos novamente, anestesiados pela expectativa – Obrigado por voar conosco. Mantenham os encostos da poltrona na posição vertical e aproveitem o passeio.

O lago era uma visão revigorante depois de tanta chuva e neblina – o espelho de água refletia o céu, azul sem nenhuma nuvem, cercado por árvores e rochas perfeitas para banhistas se sentarem. Nós seguimos pela estrada de terra ao som de Electric Love do Børns, nos aproximando cada vez mais do lugar onde o outro carro nos esperava, já estava estacionado.

Um rebuliço eufórico havia se instalado entre meus amigos, cada um tentando falar mais alto que o outro enquanto decidiam quem iria desembarcar o que do porta-malas. Eu desafivelei o cinto e fitei Campbell pelo retrovisor – ele não me encarava, estava mais concentrado em manobrar o carro na vaga improvisada embaixo de uma sombra. Sob o sol de verão, os olhos dele pareciam refletir a luz como dois diamantes.

Eu estava prestes a descer do carro quando flagrei as unhas de Lexie subindo pelo pescoço do baixista, o trazendo para perto, tão perto que seus narizes se tocaram. Os próximos movimentos foram muito lentos – ela puxou o lábio inferior de Hunter entre os dentes em uma provocação e o beijou.

Meu rosto se aqueceu como fogo, queimando minha pele, e não gostei nada daquilo. As mãos dela se embrenharam no cabelo enegrecido, como eu já fizera tantas vezes, e ele não reagiu. Eu ainda podia sentir a textura daqueles fios entre meus dedos.

– Vamos, April – Finch me chamou do lado de fora, batendo no teto para me tirar do transe – Temos que tirar o isopor do carro.

Graças à sutileza do meu amigo eu ganhei a atenção do casal, que parara de se atracar para olhar para trás. Não fiquei ali para ver a reação deles – apenas bati a porta atrás de mim, tratando de sair dali o mais rápido possível.


N/A: Silêncio, April está provando do próprio veneno...

Meldels. Alguém estava preparado para isso? Admito que nem eu mesma estava. Não sei bem o que o Hunter tem na cabeça...

Aliás, o próximo capítulo de BULLSHIT teremos só dedo no cu e gritaria, já vou avisando. Melhor prepararem o coração, rsrs.

Esse é um momento perfeito para uma aposta. Quem vocês acham que vai surtar primeiro: April ou Hunter?

Críticas e erros no decorrer do capítulo: falem agora ou calem-se para sempre. O feedback de vocês é muito importante para mim!! Amo falar com vocês.

Beijinhos,

Babi

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