Capítulo XII [PARTE UM]




H U N T E R


MEU CORPO INTEIRO DOEU quando ela partiu. Minha pele ardia febril e meu sangue corria quente por minhas veias. Eu queimava por ela. Estava prestes a enlouquecer, mas a deixei ir. Eu queria desesperadamente ignorar a razão e ceder a cada um de seus pedidos sussurrados, mas não o fiz.

Havia um bom motivo para tal. Durante nossa pequena aventura no banheiro, eu me dei conta de que poderia facilmente me viciar na sensação do corpo dela pressionado contra o meu. Eu queria satisfazer April, mas fazer isso significaria perder o pouco de controle que tinha sobre ela. Entre tê-la uma vez para nunca mais e prová-la em pequenas e proveitosas doses, a escolha era óbvia. Eu não abriria mão de aproveitar cada segundo que me restava de sua atenção e seria assim até que o desejo se esgotasse de ambos os lados. Era um pensamento egoísta e desesperado, mas era real. Eu a queria. Devagar, por inteiro. De todas as maneiras possíveis. Eu precisava saber que April desejava aquilo tanto quanto eu.

Puta merda.

Mal saí da cama e já estou pensando em putaria.

"Parabéns, Hunter" eu pensei comigo mesmo "Faça exatamente o que todos esperam de você".

Debaixo do chuveiro, eu fechei os olhos com força. Como se não bastasse acordar antes do despertador, a água quente havia acabado. Gelo descia por meu corpo, castigando minhas articulações. Pelo menos, o choque de temperatura serviu para me ajudar a recobrar os sentidos. Saí do banho e vesti minhas roupas no automático, distraído por meus pensamentos.

Eu e April estávamos presos naquele joguinho há quantos dias? Duas semanas? Talvez três?

Isso não significava muito.

No fundo, eu estava fazendo uma escolha inteligente. Seria complicado lidar com um frenesi por uma garota diferente a cada quinzena. Exaustivo até. Aproveitar a fase rebelde de April Wright poderia ser vantajoso em mais de uma maneira para mim — se a menina rica estava curiosa, eu ficaria feliz em apresentar à ela o bom e velho sexo sujo.

Desci os degraus um por um, ouvindo a velha escadaria ranger sob meus pés. Era um som familiar, assim como o ruído estático do rádio da cozinha, sempre ligado na estação de notícias local.

Eu passei minha infância naquela casa. Morava ali há tempo o suficiente para saber qual tábua protestaria se eu pisasse com um pouco mais força. Era uma construção idêntica a todas as outras do quarteirão, espremida entre tijolos e concreto. O bairro residencial crescia verticalmente até no máximo três andares, com direito a jardins estreitos e arborizados. A pequena casa tinha espaço o suficiente para caber todos os quatro membros da família: eu, minha irmã, mãe e avó.

Cheguei na base da escada e inspirei fundo, suspirando logo em seguida. Era dia de bacon com ovos. O cheiro de café se espalhava pela casa inteira, invadindo minhas narinas e me chamando para uma boa refeição.

— Olha só quem acordou — a voz pertencia a Seth Montgomery, meu melhor amigo. De vez em quando eu era obrigado a aturá-lo desde cedo, invadindo a minha casa em busca de comida.

Eu entrei na cozinha fazendo algum esforço para não parecer muito derrotado. Fui cuspido para fora da cama às seis e quarenta da manhã e meu corpo ainda manifestava sinais clássicos de cansaço: passos arrastados, rosto amassado e voz rouca.

— Bom dia — resmunguei seco.

O cômodo estava preenchido por raios de sol, cheiro de bacon e pelo estalar de óleo no fogo.  As paredes brancas eram revestidas de ladrilhos retangulares como tijolos, contrastando com as janelas e os móveis feitos de madeira escura. Havia uma mesa de seis lugares posicionada no centro da cozinha, composta por um conjunto de cadeiras que não combinavam entre si e um tampo coberto por pratos e potes. Sentados ali estavam meu melhor amigo e Julie, a pestinha. Julie tinha quatro anos, cabelos pretos e fazia balé. Ela comia torrada com geléia, se sujando toda. No fogão, minha avó preparava a comida como em todas as manhãs. Minha mãe provavelmente ainda estava no andar de cima, se aprontando para o trabalho — ela trabalhava como enfermeira no hospital do centro da cidade.

Seth entretinha minha irmã como podia. Julie puxava a manga do casaco dele a todo momento, insistindo para que o ruivo mostrasse seu nariz capturado.

— Não perturbe a Jules.

— Nunca — Seth fingiu devolver o narizinho da pequena, que tateou o próprio rosto com os olhos azuis preenchidos com surpresa — Viu só? Ela me adora.

— Usurpador de irmãzinhas — praguejei.

Eu e Seth éramos amigos de infância. Talvez porque morássemos próximos e frequentássemos a mesma escola, nós nos tornamos inseparáveis. Ambos crianças magrelas e arteiras, explodindo bombinhas nos quintais alheios. Certamente, não foi por acaso que recebemos o título de terror da vizinhança.

Ao contrário do que muitos imaginavam, a mente criminosa por trás das nossas travessuras era Seth. Eu não era atentado o suficiente para inventar nem metade das merdas em que nos metíamos, só que nem por isso eu era esperto o suficiente para ir contra os planos dele. Quando Seth se envolvia em alguma confusão, eu me envolvia também, e vice-versa. Aquela era a única regra que obedecíamos: nós estávamos sempre juntos, para o melhor ou para o pior.

Para o meu completo horror, minha mãe adorava aquele ruivo. Não importava quantas vezes eu a alertasse sobre a má influência do meu amigo, a mulher que me deu vida jamais acreditava em mim. Em qualquer situação que aparecesse, ela inevitavelmente via minha parcela de culpa e isentava Seth de qualquer julgamento. Era injusto. Na época em que passou as chaves do carro da família para mim, ela até colocou uma condição no uso: oferecer carona aos amigos. Eu não sabia onde isso era uma boa idéia, mas preferi não discutir.

Eu suspeitava que essa predileção por Seth havia surgido depois que nós fomos pegos explodindo os anões de jardim da vizinha da frente. Aquela mulher era a famosa fofoqueira do bairro. Elizabeth Campbell nos repreendeu, é claro, mas aquele fora o castigo mais brando que recebi em toda minha vida.

— Da próxima vez, pode deixar ele do lado de fora — eu murmurei me aproximando da minha avó no fogão.

— Pode apostar que eu deixaria — ela tinha os olhos acinzentados baixos, totalmente concentrados em deixar as fatias de bacon sequinhas e crocantes.

— Eu ouvi isso — Seth resmungou enquanto levava uma torrada com geléia de framboesa à boca. Ao lado dele, uma Julie bastante enfezada puxava seu braço a todo o momento, demandando atenção.

— Quieto, demônio ruivo.

Seth pausou a mastigação para rir, cobrindo a boca com um guardanapo. Ele estava acostumado com a sinceridade da minha avó.

— Agora, isso aqui... — eu comentei, esticando a mão para alcançar um pedaço suculento de bacon — Parece bom....

Havia uma pilha em um prato forrado com papel toalha para absorver gordura e uma fatia a menos não faria diferença. Segundos depois, eu descobri que estava enganado. Sem sequer pestanejar, minha avó acertou minha mão com uma colher de madeira:

— Hunter Campbell — ela ralhou — Sente-se à mesa para comer.

Eu a fitei com um semblante impressionado, do mesmo jeito que fazia quando não tinha metade da altura de hoje. Assim como antigamente, a decisão mais sábia continuava a ser obedecê-la sem questionar. Massageei os nós dos dedos atingidos com cautela e arrastei uma cadeira para mim, me sentando à mesa.

Nana, como gostávamos de dizer, era da pesada.

Depois do divórcio dos meus pais, minha mãe precisou assumir cargas horárias cada vez maiores no hospital. Ela raramente tirava folgas e quando o fazia, estava exausta demais para aproveitá-las. O dinheiro que meu pai nos mandava era bom, mas não o suficiente — principalmente com minha mãe sozinha para cuidar de Julie. Na época, eu ajudava como podia, mas não fazia diferença. Foi assim que Nana trocou a rotina monótona de jogar cartas e as sessões yoga matinal para cuidar da neta e ir ao bingo religiosamente todas as quartas. Por mais durona que fosse, ela não hesitou em vir ao nosso socorro. Nós devíamos muito à ela.

— Bom dia — minha mãe entrou na cozinha, vestida para o trabalho — Vejam só quem está acordado! Oh my, James Dean!

Eu me ajeitei na cadeira enquanto Seth ria livremente. Sempre que tinha oportunidade, minha mãe implicava com minha jaqueta de couro. Era vergonhoso.

— Mãe — eu a adverti quando ela depositou um beijo em minha testa.

— Está lindo, filhote — ela limpou a marca de batom com os dedos e partiu para a próxima vítima — Seth! Que bom vê-lo.

— Tia Lizzie, já vai trabalhar? — Seth sorriu angelical — Salvar vidas?

Eu revirei os olhos.

— Puxa saco.

— Claro — respondeu a brincadeira com uma risada, me ignorando. Ela pegou Julie no colo e fez uma caretinha teatral para o peso em seus braços — Mas preciso tomar o café da manhã com meus filhotes antes.

Nana se aproximou da mesa com uma travessa transbordando bacon e ovos. Eu não poupei elogios. Minha avó estava sempre disposta a fazer comida o suficiente para alimentar um batalhão — isso sem falar que tinha pulso de sobra para coordenar um.

James Dean... — Nana resmungou quando passou por mim — Quem sabe se você não me deixasse pentear esse seu cabelo, você talvez não arranjasse uma namorada.

— Não é só por isso que Hunter não tem uma namorada — minha mãe completou, fazendo sinal com as mãos para que eu parasse de atacar as fatias de bacon — Que garota sairia com um bruto desses? Tenha modos — ela me jogou um guardanapo para que eu pudesse limpar os dedos.

Seth tossiu para conter a gargalhada. Estava tão vermelho que parecia estar prestes a ter uma reação alérgica.

— Vocês decidiram formar um complô contra mim hoje? — eu perguntei, entornando uma porção de ovos mexidos no prato.

Ultimamente, Nana vivia para reclamar do meu cabelo. Hora dizia que eu não sabia penteá-lo direito, outra que estava muito longo e precisava de um corte. Seus comentários, porém, não se dirigiam somente a mim. Nana gostava de implicar com meus amigos também. Chegou a achar que eles eram hippies.

Na primeira vez em que viu Cole Wright, o baterista da banda, minha avó o chamou de andrógino. Cole chegou a gargalhar até ficar roxo, mas eu sabia que Nana não brincava — ela estava prestes a enxotá-lo para fora a vassouradas.

Wright. Esse nome continuava a aparecer. April estava me esperando em cada esquina de pensamento. Será que nem a primeira refeição do dia eu estava seguro dessa menina?

Finquei o garfo nos ovos mexidos, levando-os a boca para mastigar enquanto refletia.

Definitivamente não.





A P R I L




Assim que apertei o botão de enviar, eu senti o arrependimento tomar conta de mim. Por mais verdadeira que fosse, aquela confissão poderia me custar caro. Eu não queria explicar às minhas amigas a história detalhada de como eu havia me tornado uma escrava da carne. Contar para alguém significaria revelar o papel de Hunter naquilo tudo e eu não me sentia pronta para tal.

O que estava acontecendo entre eu e Hunter era recente, mas escandaloso o suficiente para deixar qualquer outra experiência sexual que tive no chinelo. Toda vez que ele entrava no mesmo cômodo que eu, minha calcinha ia para o espaço, juntamente com meu bom senso. Eu não estava exagerando: voltar para casa de saia e sem roupa íntima depois de receber um oral em um banheiro abandonado, sem dúvidas, fora uma experiência inesquecível para mim. Cada vento que soprava mais forte era seguido por uma sucessão de xingamentos.

"Eu odeio Hunter Campbell" foram as exatas palavras que saíram da minha boca naquela tarde.

Eu me lembro de ter trincado os dentes enquanto andava para casa, sentindo-me ridícula e, francamente, um pouco excitada. Mesmo horas depois do episódio, eu não conseguia parar de pensar na boca dele na minha. De noite, sozinha na cama, foi pior ainda. Longe de mim julgar uma menina por querer prazer, mas aquilo precisava parar.

Na manhã seguinte, eu acordei determinada a dar um ponto final. Nós havíamos marcado de fazer o dever de biologia no tempo vago, na sala de estudos do terceiro andar. Ele chegou quinze minutos atrasado, sorrindo daquele jeito que parecia atrair o olhar de todas as garotas ao seu redor.

Eu senti meu sangue disparar em minhas veias assim que vislumbrei a curva pecaminosa em sua boca. Levantei uma sobrancelha por detrás do fichário e Hunter me examinou com as íris azuis. Ficamos assim durante vários minutos: eu fazendo anotações, ele tentando me perturbar. Hunter não tinha em mente completar o dever de biologia. Estava escrito em sua postura. Seu corpo voltado para mim, ombros relaxados e pernas espalhadas ao meu redor.

— Vai ficar fazendo isso?

— Isso o quê? — ele exibiu a fileira de dentes lentamente, feliz em me distrair. Hunter tinha o queixo repousado em uma das mãos e os olhos cravados em mim.

Isso.

— O quê? — a voz dele era baixa — Respirar? Te desconcentrar? Você terá que ser mais específica.

"Tudo", eu quis responder, mas isso significaria admitir o poder que Campbell tinha sobre mim.

De repente, eu estava incomodada até com o jeito que a respiração dele batia na minha pele. Os pelinhos do meu braço se arrepiaram e uma risada rouca escapou pelos lábios de Hunter. Antes que eu pudesse pedir para Campbell se afastar, meu celular começou a tocar como louco dentro da bolsa. Eu estiquei minha mão, tateando o interior para achar o aparelho e, quando o encontrei, vi o nome de minha mãe brilhar no visor.

Eu atendi sem dar atenção a Hunter. Ele me observava interessado como um leão à espreita de sua presa.

— O quê? — sibilei para o celular.

Quase instantaneamente, eu recebi um olhar acusador do inspetor na frente da sala. O homem apontou para a placa pendurada ao lado do quadro que lia: "NÃO É PERMITIDO O USO DE APARELHOS ELETRÔNICOS".

— Aham — eu murmurei rapidamente para minha mãe — Ok. Tchau.

Encerrei a ligação com cara de poucos amigos e Hunter gargalhou. Sem lançar uma segunda advertência, o inspetor saiu da sala. Eu continuei concentrada no fichário e o baixista suspirou, ainda de bom humor, contente com seja lá o que tivesse proporcionado a ele tanto divertimento.

— Não vai me perguntar por que eu estava rindo?

— Não.

Ele ergueu uma sobrancelha para minha falta de curiosidade.

— Você estava rindo de mim — eu murmurei — Não vou te dar essa satisfação.

— Eu já esperava por essa resposta — Hunter afastou a cadeira da mesa para virar o corpo para mim — Eu estou contente porque descobri uma coisa — eu continuei a fitá-lo desinteressada, e ele sorriu — Você é assim com todo mundo: indiferente, fria. Não é um tratamento especial reservado para mim.

Hunter parecia à vontade até demais. Ele havia deixado a jaqueta sobre a mesa, de modo que vestia apenas a camisa de botão branca. Seus joelhos roçavam contra os meus e um de seus braços envolvia meu assento.

Eu fechei o livro, sem saber por onde começar. Apesar do tom elogioso, estava quase certa de que havia me insultado. Hunter ergueu uma sobrancelha, esperando por uma réplica. Ele agia como se tivesse me desvendado.

— Que bom que você sabe que não é especial — meu pescoço estava quente, possivelmente corado assim como minhas bochechas.

Seus olhos azuis se demoraram pelo meu rosto, escondendo um sorriso.

— Eu não sou — ele me assegurou.

— Ótimo.

— Ótimo.

Nós continuamos em silêncio, encarando um ao outro. Eu simplesmente não encontrava forças para desviar os olhos. De repente, não se tratava de uma competição para descobrir quem sustentava o olhar por mais tempo. Não havia relógio marcando as horas, minutos ou segundos. Nem vencedor ou perdedor. Éramos apenas eu e ele. Hunter me absorvia até o abismo de suas pupilas escuras e me engolia. Eu estava tão envolvida que desejei que aquele momento não acabasse tão cedo.

Não sei qual de nós se aproximou primeiro. Antes que eu conseguisse raciocinar, os lábios dele estavam se movendo contra os meus, me provocando em um beijo quente e desesperado. Hunter desceu as mãos pelos meus joelhos, brincando com a pele arrepiada e nossos fôlegos se misturaram em um só. Ele me puxou delicadamente para si e eu posicionei uma de minhas pernas entre as dele.

— Nós temos meia hora antes do Francis voltar — Hunter murmurou rouco e pisquei confusa. Francis era o inspetor que havia nos deixado a sós na sala de estudo. O baixista umedeceu os lábios avermelhados, fitando os meus com fome — Se você se comportar...

Seus olhos me atiçavam. Ele sabia muito bem que eu odiava essas brincadeiras.

Eu sorri.

— Me mostre o que você tem para garotas más.

Ele copiou meu gesto antes de me puxar para um beijo, embrenhando as mãos nos meus cabelos.

Cacete. Eu sei que, para preservar o pouco de integridade que ainda me restava, eu deveria impedir os avanços de Hunter, mas aquilo estava saindo mais difícil do que o esperado. Qualquer pessoa sensata concordaria comigo: o cara era lindo de morrer, tinha um físico de encher os olhos e sabia como satisfazer uma garota, porém não havia beijo que fosse capaz de apagar seus defeitos. O ódio que eu sentia por ele um mês atrás estava fresco na minha memória e não iria embora tão cedo. Hunter Campbell ainda era um cretino mulherengo que tratava todos da maneira que desejava. Se eu deixasse aquilo continuar, me tornaria apenas mais um de seus brinquedos descartáveis. Eu tinha meu orgulho e uma reputação a zelar, por isso precisava ser cuidadosa com as liberdades que Hunter tomava comigo.

Havia uma ironia deliciosa naquela situação: eu, uma garota tão acostumada a dobrar os outros para conseguir o que queria, com medo de ser reduzida a um objeto. Como diria Jackie, o mundo não gira, ele capota.







Horas depois, eu me sentei no refeitório cercada por meus amigos. Eles conversavam alto, trocavam piadinhas e riam de tudo que se mexia. Normalmente, eu seria mais um rosto sorridente entre tantos outros, mas era complicado fingir que nada havia acontecido quando o motivo da minha inquietação estava apenas a algumas cadeiras de distância.

Por algum motivo, Hunter Campbell e Seth Montgomery se juntaram a nós naquele dia. Era normal que Finch, Zack ou até mesmo meu irmão se sentassem conosco, mas nunca esses dois. O baixista e o ruivo geralmente ocupavam a mesa mais barulhenta do refeitório, cercados por outros vândalos da Thomas. Eles ficavam lá, e nós aqui. Tínhamos amigos em comum, mas nunca nos misturávamos.

Eu fazia o possível para não olhar na direção dele. Não podia pensar em sua boca, nem em seus toques. Sua voz precisava ficar longe dos meus ouvidos e suas mãos longe do meu corpo. Eu tentava tirá-lo da cabeça, mas não conseguia. Se Hunter queria deixar nosso último encontro fresca em minha memória, ele estava conseguindo.

Apesar dos esforços do baixista para tirar minha paz, o almoço não estava sendo um completo desastre. Jackie me atualizava em suas últimas aventuras e Finch nos distraía com alguma de suas brincadeiras. Sentados ao meu lado, Zack e Zoe trocavam olhares tímidos como um casal da quinta série. Jackie revirava os olhos tão forte para a cena que eu pensei em perguntar se ela conseguia ver o próprio cérebro.

— Como foi hoje em trigonometria? — perguntei à Jackie. Eu sabia que ela e os meninos tinham essa aula em comum.

— Eu fui bem no teste — Finch disse, parecendo muito satisfeito consigo mesmo — Gabaritei.

— Você por acaso sabia alguma coisa da matéria? — minha amiga exalava mau humor. Aparentemente, a avaliação fora cruel para a maioria dos alunos.

Finch puxou o ar para responder, mas sua boca se fechou logo em seguida.

— Foi o que eu imaginei — Jackie sorriu irônica — Eu sempre fui melhor do que você em matemática.

— Não é o que os números dizem — ele resmungou.

Nossas notas não definem quem nós somos — eu disse com um sorriso irônico estampado no rosto. Aquela era uma das inúmeras frases motivacionais que preenchiam os cartazes espalhados pelos corredores de St Clair. Fazia parte de uma iniciativa da nova coordenadora ou algo assim.

Finch riu para a lembrança e Jackie quase me acertou com uma tirinha de cenoura.

— Então... — Seth Montgomery aproveitou o momento para se debruçar sobre a mesa. Ele estava sentado de frente para Finch, esperando por uma deixa para falar.

— Então — Finch repetiu. Seus braços estavam cruzados, como se já soubesse do que se tratava.

Festa... — o ruivo entoou lentamente com um punho no ar, esperando que nós nos juntássemos a ele em um coro — Festa. Festa.

A festa da Thomas era o assunto do momento em St. Clair. Nos corredores e salas de aula não se falava em outra coisa a não ser na tal festa e em todos seus preparativos. Depois de muita insistência de seus colegas de fraternidade, Finch havia concordado em sediar o evento em sua casa e aparentemente não teria paz até aquilo acabar. Quando nós não estávamos conversando sobre isso, o menino arranjava um jeito de voltar a reclamar da tal festa. Ele reclamava tanto que, se a vida fosse um jogo, Finch teria alcançado a reputação de reclamador número vinte e cinco.

— Eu já entendi, porra... — meu amigo ralhou.

— Ah ê! — Seth festejou sem deixar que o amigo terminasse a frase. Pelo que eu entendi, a brincadeira era animar Finch da maneira mais irritante possível.

Enquanto os outros conversavam entre si, eu remexia o purê de batata grudado no prato, juntando coragem para comer. O alimento viera acompanhado de uma porção de brócolis que eu devorei sem dificuldades e um pedaço frango empanado do tamanho da minha mão. Eu não estava pronta para largar o garfo ainda, mas nada que restara em meu prato parecia apetitoso. Era como se faltasse alguma coisa.

Foi apenas então que eu vi.

O que faltava para completar meu almoço estava na bandeja vizinha, esperando por mim ao alcance da minha mão: um pudim de copinho. A sobremesa havia se esgotado quando chegou a minha vez de me servir, mas meu irmão teve sorte. Todos lá em casa sabiam como eu ficava louca para comer algo doce depois do almoço. Cole entenderia se eu pegasse o pudim para mim. Talvez nem desse falta.

Eu estiquei minha mão para alcançar o copo com a sobremesa e no mesmo instante fui flagrada por um par de íris azuis. Hunter conversava com meu irmão sobre a banda quando me viu. Ele praticamente me delatou com os olhos. O sorrisinho que surgiu em seu rosto foi suficiente para chamar atenção de Cole para minha atividade clandestina.

— Tira a patinha, sim? — meu irmão tomou o pudim das minhas mãos e eu bufei.

— O que aconteceu com o que é meu é seu?

— Ficou para trás quando nós deixamos de usar fraldas — ele disse e eu continuei a sustentar uma expressão de dar pena.

Meu irmão recolheu uma colherada generosa de pudim para si e me entregou o copinho praticamente cheio.

— Você é o melhor! — eu tentei beijar sua bochecha, mas Cole se desvencilhou com uma caretinha.

Como irmã mais nova, era meu dever perturbá-lo pela tentativa de me ignorar. Eu quase segui adiante com a ideia de importuná-lo, mas a lembrança do olhar de Hunter sobre mim me fez desistir. Campbell estava sentado à cadeiras de distância e mesmo assim seu sorriso discreto arrancava pequenos pedaços da minha concentração. Eu me perguntei se ele fazia isso de propósito.

— Zoe — do outro lado da mesa, Seth chamou minha amiga. Até o momento, eu nem sabia que eles se conheciam — Vai na festa? Você tem cara de quem curte uma cerveja.

Zoe apenas riu. Seus cabelos longos e escuros eram puro movimento, caindo por seus ombros como uma cascata. Zack tinha um braço descansando casualmente atrás do assento dela e acompanhava a conversa com um pequeno sorriso nos lábios. Eles ficavam bem juntos.

— Não é minha bebida favorita, mas eu vou — ela respondeu.

Uma risada iluminou o rosto de Seth. Ele era o verdadeiro garoto propaganda dessa festa. Seus olhos brilhavam apenas em mencioná-la.

— Cerveja é só o começo! Teremos tequila — Seth emendou a palavra um grito mexicano e nós rimos. Ele se voltou ao amigo ainda preenchido com o mesmo entusiasmo: — E você, Zack?

— Que isso — ele sorriu bem humorado — Só bebo coca.

Campbell observava tudo com uma sobrancelha levantadinha. Ele não participava do diálogo, mas ria vez ou outra.

Até que me pegou olhando para ele.

Nós nos encaramos do mesmo jeito que fizemos mais cedo. Seus olhos pousaram em mim, carregados de desejo, e meu corpo inteiro se aqueceu em resposta. Aquele olhar trazia a tona todo tipo de memória pecaminosa que já havíamos compartilhado.

Nosso momento foi interrompido por Seth, que contava alguma história que envolvia os dois. Hunter se virou para dar atenção ao amigo, mas, mesmo de longe, consegui ver as maçãs de seu rosto subindo em um sorriso secreto.






N/A: Não existe jeito melhor para abrir a nota da autora do que com gifs safados.

Eu vi esse gif e pensei "isso é wribell todinho???? combina muito com as cenas".

Só não coloquei nas mídias porque achei mais interessante escolher algo que lembrasse o início do capítulo. A foto escolhida em questão mostra mais ou menos como seria a casa do Hunter por fora. Talvez um pouco menor, como a casa dos Stonem em Skins. A dinâmica lá dentro seria como em Derry Girls (está na netflix e é muito engraçado); quer dizer, não a comédia, mas o arranjo (?) da família.

Eu tenho muita coisa para dizer, mas estou meio cansada/triste. Senti saudades. Vocês são muito preciosos para mim.

Tem uns comentários muito bons (kljdlgj) que eu mostrarei como menção de honra nos stories do instagram (@ barbaratempest) kkkkkkkkkk Se eu não desisti disso aqui é porque existem pessoas especiais e divertidíssimas que fazem tudo valer a pena. Você são maravilhosas.

Acho que ninguém se lembra do que acontece no próximo capítulo kkkkkkk Melhor assim, porque aí vocês ficam surpresos. Porém (!!), o próximo capítulo não é a festa do Finch. No caso outras coisas acontecem, etc. Só lendo para descobrir.

MUITOS BUGS NO DECORRER DA HISTÓRIA? Eu posso tentar retirar e publicar novamente para ver se conserta o bug, mas antes vejam se deslogando/logando das contas e/ou se retirando da biblioteca e adicionando novamente, o wattpad não resolve o problema.

Qualquer erro no capítulo, fale comigo. Estou aqui pra ouvir!

Beijos,

Barbara

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top